Yellow.

By: Jubs.


One Week, One Dinner.

Era uma tarde quente de primavera, era uma tarde belíssima e com cores tão diferentes. Era uma tarde em que o mundo parecia sorrir, era a primeira tarde da primavera que a fazia sorrir. Era a primeira tarde que ficaria com ele, era a primeira tarde que não usava preto em muitos anos. Era a primeira tarde em que se sentia bem, pura. Era uma tarde de segunda feira. A felicidade era real naquela tarde.

Seu vestido branco, fino, parecia brilhar, assim como seus olhos. Estava com os negros cabelos soltos e o claro contraste deles com sua tez pálida a deixava ainda mais graciosa. Os olhos castanhos, que se tornariam apáticos em um futuro não tão distante, enquadraram uma figura masculina, um moreno. Lindo. Mas sua visão se desviou para a figura feminina ao lado dele. Enquadraram os grandes olhos vermelhos, enquadraram o travesso sorriso nos lábios pintados.

Levemente, se levantou. Era uma boneca de porcelana, era frágil naquela tarde. O sorriso havia morrido, dando lugar a uma expressão confusa. O casal se aproximou e novamente a força voltou as pernas da moça. Pelo delicado tecido do vestido as pernas dela eram percebidas ao se movimentar, logo o corpo se juntou ao movimento e a jovem desceu as escadinhas da antiga igreja do parte. Poético o bastante? Provavelmente. E essa é a questão. Naquela tarde quente de primavera, tudo era perfeito demais, frágil demais, então pensamentos negativos nem mesmo cruzavam a mente da jovem boneca viva.

- Me desculpe à demora, Rin. – Ele falou sorrindo.

- Tudo bem. – Forçou um sorriso encantador.

- A culpa foi minha. – Os olhos vermelhos faiscavam. – O encontrei na saída do tribunal e o roubei para o almoço. Fazia tempo que não conversávamos e não sabia que ele tinha compromissos, ele não falou.

- Se o roubou para o almoço, poderia devolvê-lo para a cada dele? – A insegurança tomou conta de seu sorriso.

- Rin... – O fraco sussurro dele nem mesmo foi percebido.

As pernas da morena se colocaram em um novo movimento, andava altivamente. Mesmo com o orgulho ferido, sua imagem era de completa perfeição e serenidade. Aquela era a primeira, de muitas, rachadura em sua tranqüila felicidade, ainda não sentia o mundo se desfazendo, se despedaçando, se destruindo. Não estava sendo empurrada para o precipício. Sim, estava tendo maus momentos em casa, com amizades estranhas e questionáveis, estava sim se empurrando para o precipício, porém dentro da fumaça da indiferença e da duvida, ela não podia ver. Rin apenas esperava que ele pudesse ajudá-la a enxergar através de tanta fumaça... mas estava sempre enganada, certo? Talvez não, pois ele segurou seu braço.

- Não precisa. – Abriu um feroz sorriso. – Somos bons amigos, Bankotsu. Estou apenas atrasada para o trabalho.

Se desvencilhou dos braços dele e voltou a caminhar. Mesmo sem olhar para trás conseguia sentir o olhar os brilhantes e vermelhos olhos da mulher a queimar, a segui-la. Estava andando em um caminho perigoso, cheio de pedras e poços, e apenas conseguia perceber o olhar raivoso da 'amiga' de Bankotsu. Era como se apenas existissem os três no mundo e ela finalmente percebesse que iria morrer sozinha.

Era apenas uma tarde.


Os faiscantes olhos continuavam a fita-la, pareciam rir internamente enquanto a moça terminava de descer as escadas. As faces de Kagome e Sangô estavam lívidas, sem nem uma gota de sangue, elas sabiam mais do que qualquer um o que a mulher exótica ao lado de Sesshoumaru representava, quem ela era e o que havia feito. Seu sorriso não falhava mais, e o brilho orgulhoso apareceu nas orbes castanhas de Rin. Kagura não havia feito nada demais, porém a rivalidade entre as duas era algo tão natural e tão palpável que não precisava de motivos para se tornar presente ou real.

- Rin, conhe...

- Kagura. – O sorriso pareceu mudar para algo delicado, falso. – Há quanto tempo.

- Tempo demais, temo em dizer. – Um sorriso se abriu, mostrando os perfeitos dentes brancos.

- Ahm... – Taishou pareceu ficar sem graça, então abraçando Rin pelos ombros, guiou a família para a sala de jantar. – Kagura trabalha como advogada na empresa. Como ela e Sesshoumaru tinham que finalizar alguns relatórios e projetos para apresentar na prefeitura, eles passaram o dia inteiro trabalhando. Achei sensato convidá-la para o jantar.

Desconfortável.


Terça feira havia passado sem novidades, sem emoções, sem nem uma ligação. De noite, não agüentando de irritação, colocou uma roupa qualquer – preta – e pegou as chaves do carro. Taishou permanecia sentado na sala, lendo um livro, então levantou o olhar para a jovem. Dês da morte de Izayoi, Rin havia perdido muito peso, o antigo brilho, mas na manhã de segunda feira ela estava radiante, mudada. Na segunda feira a noite ela voltou a ser a mesma mulher morta, sombria, de sempre. A roupa preta mostrava que todo o luto, que a depressão continuava lá, não iria embora tão cedo.

- Vai sair com Kagome e Sangô? – Perguntou calmamente.

- Não.

- Vai voltar cedo?

- Não.

Rin deu as costas a ele e bateu a porta da sala depois de sair. Se Sesshoumaru morasse com eles naquela época, teria se identificado com Rin. Calada, fria, dissimulada, racional, poucas palavras. Sesshoumaru não morava lá há anos, então de que se importar? Afinal, se ele se importasse com a família, ao menos teria comparecido ao enterro, mas não, ele era muito ocupado para aquilo ou então era apenas um artifício para machucar os já feridos membros da família. "E eu estou fazendo a mesma coisa... "

Era diferente, certo? Seus motivos eram diferentes dos ideais mesquinhos do youkai que nem mesmo cruzava sua mente, certo? Bateu a porta do carro e o ligou com raiva, precisava fugir, precisava respirar, tudo se fechava ao redor dela e nem mesmo as inexistentes lagrimas aplacariam a angustia que sentia. Queria alguém do seu lado, queria Bankotsu ao seu lado, mas nem mesmo um telefonema ele se dispôs a dar... não valia a pena. Rodou pela cidade por horas, até se cansar e parar no parque que havia visitado no dia anterior. O carro havia morrido inúmeras vezes e Rin admitia sem problemas que não gostava de dirigir, não sabia, mas era o único modo de fugir. E rápido.

Saiu do carro e o trancou. Andou calmamente pelo caminho de pedras, além dela, nem uma viva alma por entre as escuras e frondosas arvores. Então se permitiu sentar no gramado, se escorar em uma árvore e sentir os diferentes aromar do parque, as lágrimas apareceram e não aliviaram. Nunca aliviaram.

Em meio à torrente de lagrimas e caos tinha plena consciência da escuridão, do cheiro da grama e das árvores, do fraco brilho da lua e das estrelas, do som dos pássaros nos ninhos e os insetos ao seu redor. Tinha consciência da fria clareira em que estava. O pálido corpo da jovem se tornou tremulo. Toda a persistente consciência foi varrida pelo som de passos e risadas, pelo cheiro das drogas, pelo inconstante brilho fluorescente dos celulares.

O grupo de seis homens se formaram na visão de Rin. No primeiro momento não os reconheceu, apenas quando uma forçada voz feminina se fez presente à compreensão caiu em sua mente. Colégio, anos atrás, o famoso Exército dos Sete, liderados por Naraku. As lágrimas secavam, endureciam suas feições, mas abriu um sorriso. Sabia que Bankotsu provavelmente teria se dado bem com aquele grupo, ao menos era o que parecia quando o conheceu. Talvez ele não fosse se dar bem com Naraku – ambos eram lideres natos –, mas com os outros seis provavelmente sim. Sem pestanejar, Rin admitiria que Renkotsu, Jakotsu, Suikotsu, Kyokotsu, Ginkotsu e Mukotsu eram bons, mas não depois de conhecerem Naraku.

Se levantou, sorria morbidamente. A vontade de voltar a se envolver com eles, a freqüentar tumultuadas festas, ficar tão ou mais drogada que eles. Já havia feito parte do grupo, ido às festas, enchido a cara, mas nunca havia se drogado. Covarde. Após a morte de Izayoi havia feito coisas que nunca teria se imaginado fazendo, mas logo algo a deteve. Taishou? Inuyasha? Ou teria sido o próprio Bankotsu? E agora esses mesmos personagens a empurravam para aquele caminho... aquele caminho que despertava lembranças e desejos adormecidos. A tornavam suja. O sorriso permaneceu intacto, invicto, insano.

- Boa noite rapazes. – O sorriso em seus lábios eram realmente sedutores, mas seus olhos tinham aquele brilho amargurado, febril.

- Rin... – Todos sussurraram, parando com o riso, com os passos.

- Naraku não está os liderando esta noite?

- Não... ele foi buscar algumas coisas. – Suikotsu falou calmamente

- Achei que você era o distribuidor...

- Não, Naraku tomou essa posição de uns tempos pra cá. – Kyokotsu tomou a fala desinteressado.

- Mas o que a traz pra esse lugar há essa hora, querida Rin? – A voz fina de Jakotsu fez com que a jovem fechasse a boca para tornar a dar aquele sorriso.

- Problemas, como sempre. Mas isso não é importante.

-Ginkotsu... – Renkotsu sussurrou, e ao receber um aceno do outro integrante, balançou a cabeça afirmativamente. –Rin, estamos indo para uma festa e não podemos nos atrasar.

- Entendo...

- Mas sinta-se livre para nos acompanhar. – Mukotsu emendou.

- Então vamos? – Sorriu.


- Então Rin, ficou sabendo da captura e prisão de Naraku? – Os olhos de Kagura se tornaram mais brilhantes durante a pergunta, era realmente divertido, não era?

- Li nos jornais, mas nada de interessante. – Respondeu pausadamente.

- Acreditei que seria do interesse de toda a população saber que um traficante fora preso.

- Mas o mais interessante agora, para Rin, tem sido nosso casamento. – Miroku roubou a atenção de Kagura. Os olhos azuis acompanhavam o sorriso nos lábios, mas era apenas um disfarce para preocupação.

- Então Miroku e Sangô realmente vão se casar? – A exótica mulher pareceu animada. – Li nos jornais sobre isso, mas não achei que fossem seguir realmente em frente.

- E por que não? – Sangô pareceu irritada.

- Todos os tipos de comentários são ouvidos na empresa. – Kagura se limitou a dizer.

- Bom, nós realmente vamos nos casar. As pessoas mudam, os sentimentos mudam. – Miroku se virou para a morena a seu lado e a beijou. – Tudo muda, menos o meu sentimento por ela.

Não tão desconfortável.


Sua última lembrança antes de apagar foram os olhos vermelhos, brilhantes, felizes, e da seringa espetada em seu braço. A música continuava muito alta, mas conseguia o ouvir perfeitamente o som de uma voz ao fundo, gritando seu nome, ansiando por uma resposta, por qualquer resposta. Logo já era quarta feira, 17h48min, seus olhos castanhos, sem vida, foram descobertos por toda aquela escuridão. Nenhum véu cobria sua face. Porém o contraste de toda a escuridão com aquele novo brilho inteiramente branco a chocou, a fez fechar novamente os olhos.

Agora conseguia escutar o som de maquinas próximas, das respirações das pessoas, de seringas espetadas em sua pele. Quando tornou a abrir os olhos castanhos, encontrou as faces de Taishou, Inuyasha e Bankotsu. Não esperava ver o ultimo assim, tão cedo, mas dizem que quando morremos vemos as pessoas que mais nos amam, foi ai que entraram Kagome, Sangô e Miroku. Agora poderia morrer em paz. Porém um ultimo personagem entrou em cena, ninguém conhecido, ninguém que ela amava, então despertou daquele profundo sonho.

Antes mesmo de conseguir ouvir as palavras do médico, foi como ter seu sopro sendo roubado. Caiu novamente sobre os travesseiros e o mundo se tornou negro. E em toda aquela escuridão, ela estava consciente de si, porém apenas de si. Fora um dos piores momentos em sua vida, pois havia se deparado consigo mesma em toda a escuridão que a rondava. Era patética, mal agradecida, orgulhosa, um trapo. Não a admirava que ninguém quisesse se meter na confusão que ela era... chorou em seu mundo interno, para as pessoas no quarto ela parecia dormir profundamente. Estava sendo dilacerada por si mesma... então fora ali que tudo começou? Todas aquelas cicatrizes?

Não.


Rin ignorava o olhar de Kagura, se aproximou de Kagome e se pôs a conversar com ela sobre futilidades, afinal, futilidades eram melhores do que as pequenas apunhaladas da bela mulher a sua frente. Entretanto, não tinha como fugir do receoso sentimento de estar perdendo Sesshoumaru, de estar arriscando todo o seu relacionamento naquele simples pesar, naquele impertinente pensamento. Então apenas riu do comentário de sua nova cunhada, sim era bom pensar naquilo.

Era bom viver em um mundo em que Inuyasha e Kagome estavam bem, juntos, felizes, pois eles eram sua família. Talvez estivesse tudo bem se Inuyasha ficasse com Kikyou e Kagome com Kouga, se eles estivessem felizes, pois era apenas aquilo que importava. Felicidade. Sempre caia naqueles pensamentos, riu de si mesma. Ao levantar o olhar, encontrou o brilho das orbes âmbares dele. O sorriso permaneceu, pois naquele simples segundo, estava feliz.

Realmente feliz.


Quinta feira chegou calmamente. As cortinas do quarto branco não impediam os raios de sol invadirem o quarto, a despertar a morena na cama, ou então era apenas o efeito dos sedativos que haviam passado, talvez fossem os dois. Os olhos castanhos encontraram a pálida figura de Taishou adormecido na poltrona ao lado da cama, não era uma imagem agradável. Nenhuma lágrima cortou sua face, nenhum brilho passou por seus olhos, não havia morrido. Não merecia a paz de descansar para sempre, não... ela apenas merecia a eterna culpa da morte da própria mãe.

Tentou esconder o rosto por entre as mãos, porém as agulhar machucavam sua pele. Parecia lógico que sua tortura mental fosse algo que não se pudesse esconder, que não pudesse amenizar, que devesse ser assistida por todos os corações que Rin havia partido. E nem com tais pensamentos as lágrimas venceram seu orgulho. A jovem parecia uma estatua. Branca. Dura. Com a mais bela expressão de sofrimento.

- Rin? – A voz de Taishou fez com que a estatua voltasse a vida.

- Otou-san. – Respondeu em um sussurro.

- Você entrou em coma. – Frio. – Mas como já parece estar se recuperando, não vai demorar a receber alta.

- Otou-san... – O tremulo timbre do choro contido inundou a sala. – Eu... eu não...

- Chega Rin. – O olhar dele logo se encontrou com o dela. – Izayoi morreu. O amor da minha vida morreu. A minha filha morreu, mesmo estando na minha frente, ela esta morta. Eu, Inuyasha, todos já estamos sofrendo o bastante com a partida de Izayoi e você apenas piora as coisas. Fica se culpando sem necessidade, fica machucando a minha família. Taishou ama Rin como se fosse sua própria filha, mas a Rin que está deitada nessa cama de hospital não é Rin, não é filha de Izayoi.

O silêncio inundou a sala. Antes do youkai conseguir partir, se livrar de sua própria angustia e culpa, ela segurou seu pulso. Quebrou tudo com suas lágrimas de criança, lágrimas de garota abandonada, lágrimas de mulher incompleta. O puxou para a cama e fez com que ele deitasse, com que os braços dele a envolvessem. Precisava dele. Precisava de seu pai. Precisava de si mesma. Taishou sabia que a culpa não era dela, todos sabiam, ele também sabia que a amaria para sempre, que ela sempre seria a sua menina. Não usou aquelas palavras em vão, tudo o que queria era fazê-la acordar, fazê-la sair daquele ciclo vicioso de alto-punição.

Ficaram lá por horas. Pai e filha, abraçados em um leito de hospital, após a terrível morte de Izayoi e do breve coma de Rin. Aquelas lágrimas não afastariam a culpa, mas ao menos diminuiria o peso da carga, o peso de seus próprios pensamentos e pesares. Era a única forma de quebrar a monstruosa máscara de felicidade da jovem, a única maneira de se mostrar real, mortal, humana. A única tarde para ser Rin.

Para ser perdoada.


O clima pesado que foi se criando na mesa a sufocava. Mesmo a conversa com Kagome parecia estranha, irreal, parecia uma estranha ligação que a qualquer momento poderia ser quebrada, que poderia morrer. Na primeira brecha, deu uma desculpa qualquer para se esquivar dos olhos vermelhos de Kagura, de sair do campo de visão de todos ali, principalmente Sesshoumaru. Foi para o jardim, para o frio, para a noite sem lua que começou a acalmá-la.

Tinha Bankotsu consigo, tinha o amor dele. Estava estável, feliz. Então por que tudo parecia tão errado? Não era apenas a presença de Kagura ali, não podia ser. Também não podia ser a presença de Sesshoumaru. Não, não, não, NÃO! Não podia voltar a questionar tudo e todos, a afastar qualquer coisa que levantasse a sombra de um sentimento, seja ele qual fosse. Não podia voltar a ser aquela Rin, não podia mostrar sua verdadeira forma, não podia magoar mais ninguém.

Inconscientemente foi para o balanço, onde deixou seu corpo descansar de todo o stress mental. Era muito. Tudo aquilo era muito para o pequeno fio que segurava sua sanidade. Para o único brilho de realidade que seus olhos captavam. Se culpava pela ruptura precoce da família, pela morte da mãe, por aquela 'overdose' que a levou ao coma, pela infelicidade do pai e do irmão, mas diabos! Não estava fazendo absolutamente tudo que estava em seu alcance para amenizar toda essa culpa? Todo o sofrimento? Por que aquilo simplesmente não bastava? Por que ter Bankotsu ao seu lado, sua família reunida, não bastava? E por que ver aqueles olhos vermelhos a perturbavam tanto? Não era por ela ter quase vencido a disputa por Bankotsu, ou por ela ter sido uma das causadoras de sua overdose... era por ela estar com ele.

- Sesshoumaru.

- Sim?


A visita dos policias fora na sexta feira. Saber de onde vieram as drogas, saber a história e tudo o mais. Porém com sua memória ainda confusa, Rin não fora de muita ajuda. Após os policiais partirem, seus amigos, irmãos, chegaram. Kagome, Sangô, Miroku e Inuyasha e, infelizmente, a namorada dele. Levaram cartas, tabuleiros, tudo para passar uma tarde na jogatina, enquanto esperavam a pequena mulher receber a alta e, assim, ir para casa.

Jogaram Uno, Can-Can ou Mau-Mau, como preferir. Miroku usava sua técnica de passar a mão nas meninas para poder ver suas cartas o que levantava a ira de Inuyasha e a confusão no jogo. Kagome quase sempre ganhava. Dissimulada, ela esquematizava todo o jogo, assim como Kikyou, mas a sorte estava ao seu lado. Irônico aquilo também. Rin não entendia como Kagome tinha sorte no 'trabalho' (mesmo trabalhando juntas, Kagome era uma das mais ágeis e de raciocínio mais rápido), nos jogos, menos no 'amor'. As seis pessoas ali sabiam do sentimento da jovem de olhos azuis, mas tudo era mantido em segredo, assim como mantinham o conhecimento do sofrimento de Sangô e da culpa de Rin. Elas eram as mulheres difíceis, problemáticas e apaixonantes do grupo. Sempre foram e sempre seriam.

As 18h, Rin recebeu a tão esperada alta do hospital e partiu para casa com sua família. Lá encontraram o patriarca e um gigantesco lanche regado a doces, refrigerante, filmes e cobertores, Taishou temia a depressão de Rin, principalmente nas frias noites solitárias, afinal, quem vigiava as facas da casa? Foi uma daquelas noites tão naturais, uma das poucas que viveria eternamente na memória de todos ali. Kikyou havia ido embora e os amigos de longa data aproveitaram o tempo unidos.

Era uma boa noite.


Levantou os marejados olhos para a figura masculina parada na porta. Sentia raiva dele naquele momento. Raiva de si mesma. Raiva daquele maldito balanço que fazia tenebrosos barulhos. Se levantou e andou nervosamente pelo jardim, não querendo vê-lo, não querendo ver a verdade à sua frente. Mas ele era rápido e silencioso, como aquele sentimento que se apoderou de Rin, logo estava segurando os ombros dela.

- É tudo sua culpa. – Levantou os olhos banhados em lágrimas. – Sempre foi. Se você não tivesse ido embora, se você tivesse me aceito como sua irmã – apunhalada – tudo estaria bem! Eu estaria bem! Já teria me acostumado com essa maldita situação! Não ficaria dilacerada ao vê-lo com ela, com Kagura acima de tudo!

O empurrou para longe, negando que o olhar dele era chocado, era perdido. Se afastou com duros passos, mas se virou para vê-lo novamente, rindo insanamente enquanto as lágrimas cortavam sua máscara novamente, cortavam seu coração já inexistente.

- A culpa não é minha afinal. – Riu, escondeu o rosto nas pálidas e tremulas mãos. – A culpa é sua. Você escolheu ir embora, você fez com que Izayoi... mamãe... você fez com que eu perdesse a minha cabeça. Satisfeito? Eu espero que sim, o poderoso Lord Sesshoumaru. Deve estar satisfeito ao ver que uma família não consegue se manter sem a sua digna presença.

A face de Sesshoumaru voltou para aquela expressão de indiferença, e os pés dele voltaram a se aproximar do irrequieto corpo da jovem. Ela se esquivava dele, não conseguiria mais se controlar próxima dele, ouvindo sua respiração, sentindo seu calor. Não senhor, já nem parecia sã perto dele, imagine com uma distancia menor?

- Poderia ser qualquer uma, menos Kagura. – Voltou a falar em um fino sussurro, já controlado. – Ela tentou roubar Bankotsu, fez com que eu entrasse em coma e agora quer roubar você. Eu, eu... eu – Os braços dele enlaçaram sua fina cintura.

- Rin...

- Eu não entendo...


No fim de semana, Rin se jogou em seu trabalho atrasado daquela semana. Contas a pagar, compras a fazer, faxina na doceria. Arranjou tantas coisas a fazer, para esquecer daquela péssima semana. Organizou sua agenda de compromissos, marcando uma nova consulta com sua psicóloga e com a psiquiatra, não tinha sido uma boa experiência ficar sem desabafar e ficar sem seus remédios, precisava voltar ao normal, precisava ser normal.

Apenas na segunda feira de manhã, o sentimento de normalidade voltou para a cômoda vida de Rin. Acordou cedo, disposta, animada. Era feriado, mas mesmo assim abriria a doceria por um curto período de tempo e apenas Rin e Kagome trabalhariam, seria um dia calmo, um dia tranqüilo, finalmente. Já passava do meio dia e Kagome limpava o balcão e conversava com Sangô, que esperava as duas amigas saírem do trabalho para um dia no parque. Rin terminava de assar uma fornada de bolinhos, uma mãe havia encomendado em cima da hora para um aniversário.

O tilintar dos sinos se fez presente, atraindo o olhar de Sangô e Kagome para a porta de entrada. Uma silhueta morena se fez presente, imponente. O sorriso no rosto de Kagome morreu no mesmo instante, atraindo um olhar curioso da morena a sua frente. Antes que o sol saísse das costas daquele homem, os olhos azuis já sabiam quem era. Era o rapaz que vinha, praticamente, todos os dias na doceria. Tomava um café Rosabaya, colombiano, e um pedaço de torta. Conversava com a cozinheira e depois ia embora. Era o mesmo rapaz que fez Rin trabalhar em seu pior estado na semana passada, era o rapaz que fez o maldito ciclo vicioso voltar à vida.

- Ela não esta, Bankotsu. – Um tom frio, atípico de Kagome.

- Kagome... – Ele se aproximou cauteloso. – A culpa não é minha.

- Se tornou sua quando você ficou uma semana sem se explicar, sem aparecer.

-Mas eu tentei. – Se inclinou no balcão.

- Não, não tentou. – Sangô falou calmamente, tomando o ultimo gole de seu café.

- Kagome, Sangô, podem ir agora. – Rin falou calmamente, limpando as mãos no avental branco.

- Mas Rin...

- Por favor.

Sorriu.


- Não entendo ela, não entendo o que vocês vêem nela e nem o porquê ela faz isso comigo.

- Você sabe que não é isso.

- Lógico que é! – Gritou. – Nada do que eu faço é bom o bastante para acabar com o sofrimento de Taishou e Inuyasha. Eu só pioro as coisas! E com você aqui, demônios, com você na minha vida eu só tomo escolhas erradas! Não consigo pensar direito quando você esta perto de mim, quando fala comigo! Você rouba todo o meu ar! Toda a minha energia! Eu odeio você! O odeio por ter partido! Odeio por não aparecer no funeral dela! O odeio por ter voltado como se nada tivesse acontecido!O odeio por ficar! O odeio por me deixar tão imensamente confusa que não consigo respirar!

Sesshoumaru se aproximou dela, tentava falar algo para acalmá-la ou ao menos cessar os gritos que despertariam a curiosidade de todos na sala de jantar. Ao estar próximo o bastante para sentir tudo o que Rin era, ouviu-se um estalo por todo o jardim. A cor vermelha invadiu a branca tez de Sesshoumaru, formato de dedos apareceram rapidamente. A cor vermelha também havia invadido a face de Rin.

- Eu não agüento mais isso. – Encostou a cabeça no peitoral dele.

Permitiu que ele a segurasse, que a amparasse, que a pegasse no colo e se sentasse no balanço. O peso dela era nulo naquele momento, Rin lembrava um bebê desamparado, os soluços desesperados do medo e da confusão fazia com que ela escondesse o rosto no corpo dele, o que impossibilitava Rin de ver o fino sorriso nos lábios dele.

- Algumas coisas não foram feitas para ser entendidas. – Sussurrou no ouvido dela.

- Mas...

- As melhores coisas na vida são complicadas. – Um novo sorriso se formou nos lábios dele. – São confusas.

- Sesshoumaru... – Afastou o rosto e encarou as brilhantes orbes douradas dele. – Coisas complicadas e confusas machucam.

- Eu sei. – Afagou os cabelos dela. – Mas a dor passa.

- Promete?

- Prometo.

As lágrimas cessaram e um sorriso se formou nos vermelhos lábios dela. Não se sentia culpada pelo tapa, fora uma coisa necessária e realmente esperava que ele entendesse. Ele não mais sorria, porém era uma expressão calma, gentil, mesmo com a assustadora estampa de mão no lado direito do rosto. Sesshoumaru não se importava com aquilo, até mesmo esperava uma reação daquelas no momento em que colocou os pés na doceria para buscá-la em uma noite chuvosa.

- Desculpa. – Rin sussurrou timidamente.

- Desculpada. – Continuou a afagar os negros cabelos dela.

Então ela se inclinou, tocando delicadamente o rosto dele, o acariciando. Ajeitou-se no colo dele, sentindo as quentes mãos de Sesshoumaru em sua cintura, com os braços a envolvendo cuidadosamente. Continuava frio, mas nenhum dos dois sentia, apenas conseguiam sentir aqueles trêmulos toques. Balançavam tão lentamente que parecia uma deliciosa hipnose e, se fosse, que continuasse. Estavam juntos naquele pequeno espaço, naquele congelado tempo. Levantariam logo, entrariam e nada daquilo havia acontecido, mas aquele sonho permaneceria por quanto tempo? Eternamente? A única coisa que sabiam, era que os lábios de Rin acariciavam a marca vermelha e, se aproximando dos ouvidos dele, sussurrou.

- Você precisa saber.

Então os lábios voltaram a acariciar a pele avermelhada dele. Sesshoumaru virou lentamente o rosto, precisava tê-la, precisava ter os lábios dela junto aos seus e saber que aquilo não era um sonho, que tudo aquilo era real. Então naquela conturbada noite, sem lua e estrelas, fria, ele finalmente acariciou os lábios dela com os seus novamente. E desta vez fora longamente, não aquele beijo rápido fruto da indecisão. Ela era sua e não importava a realidade, Rin sempre pertenceria a Sesshoumaru, mesmo que seus caminhos levassem a diferentes direções. Então Rin se afastou e contou sobre o ano em que perdeu a mãe, conseqüentemente contou sobre o ano que conheceu Bankotsu.

Contou tudo.


Serviu o café colombiano que ele tanto gostava. No meio tempo, entregou os bolinhos para a apressada mãe e finalmente parou. Mudou a placa de 'aberto' para 'fechado' e se sentou do outro lado do balcão. Suspirou profundamente enquanto servia café para si mesma, na verdade, esperava ele começar a falar alguma coisa. Afinal, era para falar que ele estava ali, certo? Tomou seu primeiro gole e quando ele continuou calado, acho que era melhor começar.

- Bankotsu. – Pousou a xícara no balcão e sorriu. – Minha mãe morreu em algum tempo do passado, eu aumentei meu nível de depressão, mas continuei trabalhando, saindo com meus amigos e conhecendo novas pessoas. Não vou mentir que te achei interessante e que estava morrendo de vontade de sair contigo, mas o caso é o seguinte: eu não te conheço, você não me conhece. Você não me deve explicações e se namora aquela mulher ou não, não me importa. Mas eu gostaria que parasse de vir aqui, pois eu não suporto alguém que minta, ou que me engane. Se tivesse dito que namorava, eu ficaria tão feliz em ser sua amiga, mas amizades não nascem de uma pequena e infeliz mentira, ao menos não pra mim.

- Rin... você entendeu tudo errado.

- Eu entendi? – Perguntou com a sobrancelha erguida.

- Kagura e eu namoramos antes, isso é verdade. Ela quebrou o meu coração e demorou muito tempo para eu me levantar de novo, sabe? – Ele sorriu. – Ela é advogada também, a conheci na faculdade, e não foi um choque grande encontrá-la no tribunal. O choque foi ela me perceber, isso por que ela fingia que eu nem sequer existia. Quando falei que estava atrasado para te encontrar, ela começou a puxar conversa...

- Para te atrasar, certo? – Rin se levantou do banquinho, tomando novamente um gole do café. – Muito conveniente, não é? – Sorriu amargamente.

- Kagura sempre foi assim, quando tem alguma coisa, não dá o valor apropriado e, quando perde, simplesmente ignora. Mas quando percebe que alguém mais quer aquela coisa, por birra ela tenta tomá-lo de volta.

- Bankotsu... não me importa. – Deixou a xícara sobre o pires e se adiantou para a porta, abrindo-a.

- Importa pra mim. – Se levantou também, se aproximando dela. – Eu venho aqui dia após dia por que você é algo mais. Eu só queria uma coisa.

- E o que é? – O belíssimo tom irritado/emburrado.

- Um encontro. – Ele sorriu.

- Um encontro de verdade? Só eu e você?

- Sim. – O sorriso dele aumentou ao vê-la sorrir também.

- Me pegue às 20h. – O empurrou gentilmente para fora. Novamente o suave sorriso e a normalidade haviam voltado.

Fechou a porta.


Já sabem minha opinião, né?

Se ficou bom, ou ruim, não me importa, eu amei escrever esse capitulo. Foi difícil, foi longo, foi trabalhoso, mas eu realmente amei o resultado. Foi natural escrever esse capitulo, como se ele já existisse mesmo, foi gostoso. xD

Em todo o caso, eu sei que estou escrevendo para alguém, para a adorada Debs-chan. Esse capitulo foi pra você querida, por que é nele que as coisas começam a realmente andar.

Capitulo seguinte acho que é o casamento, não sei.

Não revisei o capitulo, então joguem pedras pequenas, por favor.

Até o próximo capitulo!!!

Beijooooos !