Atos de Vingança III
Capítulo VIII
Décima Terceira Casa
-Atena já está em nossos portões!- gritava Tisífone.
- Isso é inadmissível! Teus servos deveriam guardar a trilha das doze casas! – completava Alecto.
- NO ENTANTO, APENAS QUATRO DOS DOZE NÊMESIS SE DISPUSERAM A TENTAR IMPEDIR O AVANÇO DE NOSSOS ADVERSÁRIOS...- sentenciou Megera, um pouco mais controlada que as irmãs, mas não menos furiosa.
- E nesse terço não se inclui a aberração libertada por Tisífone-replicou Nêmesis Adratéia- Estou certa?
A pergunta, feita em tom de deboche, desconcertou as Erínias que durante um longo tempo se limitaram a resmungar incoerências antes de responder.
- Tergiversas! A verdade é que não estás dando a devida impor ...
-Ao contrário!-cortou Nêmesis- Sabendo que vos ocuparíeis disso preferi meditar ao invés de acompanhar os acontecimentos. Pelas vossas reações já deduzo a resposta à pergunta por mim feita. Resposta essa, aliás, óbvia para todos os que conhecem o histórico daquele homem. Permitir-lhe liberdade beirou a estupidez.
- QUE DIZES? – gritou Tisífone furiosa.
- Digo que minha sentença e a chegada de Atena deveriam ser as menores de vossas preocupações. -respondeu Nêmesis, sem se alterar. - Em verdade, temo que acabemos por lamentar a intromissão de Tisífone em meus assuntos...
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Vila de Rodorio
Outrora um lugarejo agitado e cheio de vida Rodorio era um lugarejo agitado e cheio de vida jazia em ruínas. Os moradores que sobreviveram à chacina promovida pelos cavaleiros negros aguardavam ansiosos pela notícia de que seu exílio estava encerrado e que poderiam retomar suas vidas. Enquanto oravam por isso, protegidos no fundo do oceano pela cidadela de Poseidon, mal faziam idéia de que seu amado lar era palco de sangrentas batalhas. Gritos de dor e guerra eram ouvidos por todo o lugar, sangue novamente manchava as construções, agora destroçadas. A diferença estava no fato de não ser o sangue dos defensores de Atena a correr livremente pelas ruelas.
Com vigor renovado a cada aliado ferido, a cada recuou ou queda inimiga os cavaleiros de prata e soldados avançavam. A intensidade da ofensiva era tal que puderam se dar ao luxo de improvisar um hospital de campanha para abrigar os feridos. Sirius e Argol, encarregados de proteger aqueles que não podiam voltar ao combate passavam o tempo se revezando nos esforços de manter o moral alto entre os feridos.
- Eu ainda posso lutar, cavaleiro!- reclamava um soldado – Foi só uma fratura!
- Exposta! – ralhou Argol obrigando o rapaz a deitar-se novamente- Não se esforce mais. Você conseguiu ferir um cavaleiro negro. Seu nome e bravura já estão mais do que certos nos anais dessa guerra.
- Não precisamos ser protegidos – gemia outro- Vocês perdem tempo conosco enquanto poderiam estar lutando!
- Só estamos atrapalhando. - concordou um terceiro – Deveriam ter nos deixado morrer em combate!
- Não falem besteiras! – bradou Dante, que acabava de entrar escoltando outro grupo de feridos. – Acham mesmo que Atena gostará de saber que perdemos mais gente nessa batalha? Será que esqueceram quantas vezes ela arriscou a vida para que seus cavaleiros não sofressem?
Encabulados, os soldados silenciaram, limitando-se a murmúrios esporádicos, conforme os sons do conflito se aproximavam.
- Quais as novidades, Cérbero?
- Não sei se gostarão do que direi.- respondeu Dante – Já tem algum tempo que perdemos contato com as amazonas. Mas isso não é importante, com certeza elas estão bem. O problema mesmo é a briga entre os Centauros, que está ficando fora de controle. Não vai demorar muito para a vila inteira ser incendiada.
- Então, é melhor sairmos daqui antes que sejamos alcançados pelas chamas!- assustou-se um soldado que acompanhava a conversa.
- Nem todos podem andar. Só nós três não conseguiremos evacuar todos. – preocupou-se Argol.- Quem mais virá, Dante?
- Ninguém. Estão todos ocupados. Os de bronze estão às voltas com os tais dos Ventos. Capela e Jamian prometeram vir, mas já faz um bom tempo que não consigo sentir os cosmos deles... Estamos sozinhos nessa.
Sirius, que apenas ouvia o que era dito enquanto observava os arredores interveio.
- Isso terá de esperar. Fomos descobertos. Sinto pelo menos meia dúzia de cosmos se aproximando rapidamente.
- Droga! Como não percebi esses caras atrás de mim?
- Não se recrimine, Cérbero, com a confusão que está lá fora é quase impossível definir cosmos individuais.- disse Argol, virando-se em seguida para os soldados – Ainda querem morrer lutando, rapazes? Então, a hora é essa! Peguem suas armas, aqueles que puderem, e defendam-se!
Casa de Câncer.
Ao contrário de Saga, Máscara da Morte não hesitou ao entrar na quarta casa. Não fossem os comentários do resto do grupo para que tomasse cuidado e pensasse bem antes de tomar decisões precipitadas nem teria olhado para trás. Quando, enfim, deparou-se com Andreas, seu filho e nêmesis, Máscara da Morte acabou, talvez de maneira inconsciente, a parar e refletir. Não foi sem surpresa que percebeu que em todos os embates que tivera com o homem à sua frente nunca prestara atenção real às suas feições ou motivações. Ele não era importante, não passava de mais um adversário a ser eliminado. Sem nome, sem voz, sem história, apenas outra vírgula na sucessão de mortes que compunham seu currículo.
Sensação parecida acometera Andreas. Há anos não pensava na existência da figura paterna. Foi com choque que recebeu a notícia de que o pai a quem nunca conhecera e o homem cuja morte há muito desejava eram a mesma pessoa. Se por um lado seria hipocrisia negar o impacto que tal descoberta teve em seu coração, por outro seria ingenuidade supor que isso bastaria para fazê-lo voltar atrás.
E assim o combate começou: sem palavras, sem perguntas, sem nenhum pedido de explicações. Apesar de ambos terem a capacidade de encerrar o duelo com apenas um golpe nenhum tentou. Como que por um acordo tácito avançaram um contra o outro, punhos cerrados e silenciosos, cada golpe carregado de cosmo e nada mais, exceto, talvez uma curiosidade mútua escondida em cada movimento, um infinitesimal orgulho e frustração por parte de ambos, a cada vez que um ataque centenas de vezes testado e bem sucedido era evitado.
Encostado em uma pilastra fazendo um torniquete no braço com trapos arrancados da capa do adversário, que jazia desnorteado a alguns metros de distância Máscara da Morte foi o primeiro a quebrar o silêncio:
- Qual o seu nome mesmo, garoto?
- Andreas...
- Andreas... – murmurou Máscara da Morte em eco – Pois bem, Andreas, você é habilidoso, admito. Habilidoso e nada mais. Não há força o suficiente em seu cosmo para me derrubar. Não sei que diabos são os outros onze, mas você não passa de um mero humano. Toda a sua glória não passa de graça concedida por Nêmesis. Uma vez que Atena e Poseidon se livrem dela você volta a ser o que sempre foi: o bastardo indesejado de dois aprendizes inconseqüentes.
-ACUBENS!
Com um salto repentino Andreas lançou-se contra o adversário, que, apesar de surpreso, não hesitou em deixar o corpo escorregar para o chão rolando para longe em seguida, escapando por milésimos de ter o corpo partido ao meio. Tão rápido quanto a esquiva foi o contra-ataque do cavaleiro de Câncer, girando o corpo enquanto ainda deslizava sobre o piso apontou o braço na direção do adversário, seu cosmo brilhando com luz mortal.
- ONDAS DO INFERNO!
Após um longo instante a luz do ataque diminuiu, mas não cosmo do atacante. Erguendo-se com cuidado, ambos os indicadores faiscando em antecipação ao próximo movimento do inimigo. Devagar, usando o máximo de seus sentidos e poderes para procurar o cosmo de Andreas, Máscara da Morte circundou os destroços da pilastra atingida em seu lugar. Tudo o que encontrou foram ruínas.
- Talvez minha glória seja uma dádiva divina... – disse a voz de Andreas, vinda de uma posição à esquerda do dourado, prontamente banhada pela pelas ondas do inferno.
- Talvez eu não passe de um bastardo indesejado de dois aprendizes... - nova posição, novo disparo.
- Teletransporte...?
- Talvez eu seja tudo isso! – outro local, mesmo insucesso. - Mas nada disso me diminui, antes, me eleva...
- Peste!
- Pois me torna um bastardo de dois aprendizes a cavaleiro de ouro, abençoado por uma deusa temida por deuses e titãs!
- Pare de se esconder! – bradou Máscara da Morte atacando novamente a provável fonte da voz.
- Não estava me escondendo. – disse o jovem materializando-se ao lado do dourado com um soco já preparado – Estava esperando o momento certo.
- Hah!Momento certo de que? - riu o cavaleiro de Câncer bloqueando o ataque com braço esquerdo e preparando-se para um disparo à queima-roupa com o direito. – De colocar-se à minha mercê?
- Não. – disse Andreas abrindo um sorriso tão diabólico quanto o de seu genitor.
A dor que Máscara da Morte sentiu em seguida foi tamanha e tão repentina que gritar não foi possível. O braço usado para bloquear o soco inimigo sangrava profusamente, duas enormes garras douradas saltaram da armadura de Andreas e cravaram-se com firmeza na carne do dourado, atravessando a armadura de Câncer como papel.
Com calma ímpar, Andreas forçou o braço de Máscara da Morte para o lado. Obrigado pela dor a escolher entre aceitar o movimento e ter o braço dilacerado, o dourado cedeu abrindo a guarda para novo golpe que, desimpedido, lhe arrancou sangue. Por instinto, o cavaleiro ergueu a mão livre antes do ataque seguinte, aparando-o e evitando que um novo par de garras fosse fincado em seu rosto.
- Vai... Precisar fazer mais que isso...
Em resposta as quatro garras relaxaram a pressão por tempo o suficiente para que o dourado voltasse a respirar normalmente, retomando com força redobrada em seguida. Incapaz de reprimir a dor, o cavaleiro gritou a plenos pulmões conforme a dor em seu antebraço e dedos o obrigava a se ajoelhar. Estilhaços de armadura banhados em sangue brilhavam no chão.
- E agora, pai? Seus braços estão inutilizados, seu único golpe inaplicável...
Com a voz se perdendo em um sussurro estrangulado Andreas observou com um espanto que beirando o pânico o olhar furioso de Máscara da Morte. O sorriso que antes estampava seu rosto deformado em um esgar de dor.
- Se realmente achou que eu ficaria indefeso com os braços imobilizados, então, você não fez seu dever de casa. – disse o cavaleiro de Câncer encarando fixamente os olhos de seu filho – O fato de eu ter preferência pela força bruta não significa que não tenha fortalecido minha mente.
Apesar da voz confiante, Máscara da Morte sabia que não tinha conseguido mais do que um impasse. Além de lhe faltar concentração, graças às lâminas em seu antebraço e mão, para quebrar o pescoço inimigo, tinha a impressão de que a armadura de Andreas de alguma forma dispersava suas investidas telecinéticas. Seus esforços para afrouxar as garras haviam sido em vão. Também não podia aguardar que Andreas desfalecesse. Bastariam alguns milésimos para que o jovem contra-atacasse. Se a tal tesoura utilizada antes fosse tentada outra vez não haveria como evitar.
- Vamos ver agora o quanto o filho herdou do pai! - Com essa frase o dourado girou o corpo, usando uma das pernas para derrubar o adversário no chão e a outra para pressionar sua garganta contra o solo, imobilizando-o.
Quando seus corpos caíram, ambos gritaram. Andreas com um brado sufocado pelo extinguir do pouco ar que restava em seus pulmões, e Máscara da Morte com a maior blasfêmia que conseguiu lembrar ao sentir a carne de seu antebraço ser revirada pelas garras nela cravadas.
- Mens sana in corpore sano...- falou num fio de voz - ...Tremenda babaquice, em minha opinião...
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Do lado de fora da entrada da décima - terceira casa, Saori se permitia um último olhar para o Santuário. Graças às deusas da vingança não conseguia sentir o cosmo dos dourados, os dos outros cavaleiros, no entanto, ardiam por todo o terreno. Mesmo ali, tão longe do campo de batalha era possível ouvir as explosões.
- Obrigada por tudo, meus cavaleiros. - disse Atena, em uma última mensagem aos guerreiros antes de entrar-Não desanimem, venceremos esse combate juntos!
Quando finalmente os deuses se aproximaram da gigantesca porta que separava o Salão do Grande Mestre do resto do templo Poseidon tomou a dianteira. O local estava completamente vazio, nenhum guarda, nenhum som, na verdade não parecia haver nada vivo nas proximidades. Desconfiado, usou seu tridente para arremessar algumas colunas de encontro à porta, a qual vaporizou tudo que a atingiu. Sem uma palavra, báculo e tridente foram apontados contra a porta, a qual se abriu com estrondo, voando para dentro do salão em milhares de pedaços.
- Pois bem, Filhas da Noite – disse Atena avançando impávida. - Aqui estou.
- Palas Atena, Poseidon.-disse Nêmesis Adratéia inclinando a cabeça em cumprimento.- Uma vez que as condições para o julgamento foram atendidas, e não havendo objeções mais a serem feitas...-diante desse comentário, as Erínias, cujos olhos estavam travados em duelo com os de Poseidon, aumentaram seu rosnado em alguns decibéis.-... que ele comece. Irmãs, Erínias, tendes a palavra.
Antes que as Erínias pudessem tornar seu rosnar algo inteligível Poseidon adiantou-se:
- Um momento!- disse, na voz tranqüila de Sorento.- Antes de começarmos gostaria de esclarecer alguns fatos.- diante da expressão de curiosidade de Nêmesis e estranheza das Erínias, continuou -Primeiro: quero saber se aquele homem a que se interpôs em nosso caminho diante das escadarias da primeira casa tinha sua benção, Nêmesis, para propor o que propôs.
- Ninguém, além de mim mesma, fala por mim. Meus servos são os Nêmesis, os quatro Ventos, e a jovem Selene.- respondeu a deusa, séria – Nenhum mortal jamais carregará a minha voz, ou interferirá naquilo a que me obriguei e empenhei minha palavra. Não posso responder pelas minhas irmãs, mas creio que o mesmo se aplica a elas.
Três pares de olhos se fixaram nas Erínias.
- Decerto... - resmungou Alecto
-...O mortal extrapolou a ordem dada... – completou Tisífone
- ...E POR TAL SERÁ PUNIDO.-finalizou Megera, a única a sustentar os olhares de reprovação.- NINGUÉM, NINGUÉM, ESTÁ ACIMA DA LEI!NINGUÉM!
- Ótimo. – disse Poseidon, sorrindo – Devo supor, então, que o responsável, ou responsáveis pela armadilha na entrada também serão punidos?
- A que se refere?- perguntou Nêmesis.
-À barreira que teria destruído nossos corpos mortais, caso a tivessem cruzado. – falou Atena.
Um longo silêncio se seguiu pelo que pareceu uma eternidade. As mãos alvas de Nêmesis apertaram os braços do trono enquanto seu olhar mantinha-se fixo nos deuses olímpicos à sua frente. As garras de Megera e Alecto apertaram com firmeza suas armas, o corpo de Sorento inclinou-se quase imperceptivelmente na direção das duas, o tridente refletindo o brilho dos seis cosmos divinos reunidos.
- Com toda a força de meu cosmo. – respondeu finalmente Nêmesis Adratéia.
À pronúncia de tais palavras, corações mortais e imortais em todo o Santuário se apertaram com uma certeza: o fim, qualquer que fosse ele, estava próximo.
