todas as molduras de Peter Pettigrew

Estava assim já havia alguns bons minutos, parado no meio da sala olhando a estante, e nela as fotos nos porta-retratos. Achava engraçado que, diferente do que se esperaria dele, da pessoa que ele fora um dia - um Maroto -, não haviam fotos dos quatro jovens animagos e bruxos promissores da época de Hogwarts. Era engraçado de um jeito meio triste, ele pensou, em algum momento que não deve ter durado nem um segundo, porque então sua mãe atravessou a porta e perguntou o que fazia ali.

Peter suspirou. Diferente do que se esperaria dele, eram tantas coisas passando por sua cabeça, era James, era Sirius, era a marca ardendo em seu braço, e agora era a mãe, parada no batente da porta, aqueles olhos amarelos arregalados e curiosos. E eram olhos assim, só, arregalados e curiosos, mas pra Peter sempre pareceria um desafio.

"Tô aqui olhando as fotos, mãe". Fotos de infância. Peter sempre o menino gordinho. Os cabelos loiros e cacheados, e aqueles olhos castanhos e tristes. Seus olhos eram sempre tão tristes assim? Seriam tristes agora? Peter sorria tanto quando criança. Que sensação boba de nostalgia, pensou sem sorrir agora.

"Você nunca nem deu atenção pra elas", a mãe disse, sem esperar resposta ou qualquer comentário a respeito. Soltou a frase assim e voltou pra cozinha. Peter achava que pra fazer o jantar, e quis avisar que não ficaria esta noite, então ela não precisaria fazer muita comida. Seria só pra ela, afinal. O pai estava morto desde seu quarto ano em Hogwarts, e ele ia sair aquela noite. Seria só pra ela.

"Eu tô saindo, mãe. Devo chegar tarde, não precisa colocar a mesa pra mim". Esperou ela responder, e a ouviu resmungar algo como "e quando é que você não chega tarde?". Peter suspirou de novo. Gostava de pensar que a mãe estava só ficando velha, e por isso ranzinza. Ainda mais depois de papai... Tantas coisas em sua cabeça.

Procurou de novo a estante, e o pai tinha os mesmos olhos tristes que ele, e a mãe era muito mais bonita quando mais nova, e ele próprio era uma criança realmente alegre, podia ver, e os três sorriam felizes para o Peter adulto, acenando de um passado do qual ele mal conseguia lembrar. Eram todas fotos assim, mas nenhuma dos Marotos. Suspirou de novo. Estava suspirando muito naquela noite, e o braço voltava a arder, ardia enlouquecidamente, e queimava, e Peter estava morrendo de medo daquilo, e era tanto tanto tanto medo que foi por isso que resolveu olhar para as fotos antigas. Pra ver se lembrava a si mesmo quem era.

Ouviu um barulho alto na cozinha. Sentiu falta de Hogwarts e o braço arder mais uma vez. Decidiu que não conseguiu lembrar direito quem era e, como se fugisse do som alto de coisas se quebrando, e da mãe praguejando todas as gerações de Pettigrew, aparatou.

Talvez se Peter soubesse que, poucos anos depois, a mãe morreria em uma poltrona velha abraçada àquela foto dos três juntos, com aquele dedo que ele próprio cortou e uma placa de ouro em sua homenagem, Peter tivesse se demorado um pouco mais na sala, naquela noite, e talvez tivesse se despedido e dito que a amava, e talvez ela dissesse o mesmo e então ele ficasse lá, ao invés de ir até o Lorde das Trevas entregar aqueles foram seus amigos durante tanto tempo, e talvez as coisas todas tivessem sido diferentes e nenhum dos dois, nem ela nem ele, precisaria terminar tão só. Ele sabia desde o início quem ele era. E, diferente do que se esperaria dele, sabia agora que estava morrendo pelas próprias mãos.

Pensou que talvez pudesse voltar pra casa, no fim.