Capítulo VIII - Nosso (não tão) pequeno segredo sujo
Havia chegado em casa. Não me lembro exatamente como, mas lá estava eu, encarando minha sala de estar, a porta ainda aberta atrás de mim.
Acho que tive sorte por não ter batido o carro durante o percurso, pois minha mente conseguia se focar em apenas uma coisa, e, com certeza, não era no trânsito.
Eu beijara Bella... E ela correspondera.
Um palpitante pensamento percorria a periferia do meu cérebro, implorando por uma atenção que não lhe seria dada.
Um ínfimo instante e percebi estar em meu quarto, descalçando meus sapatos e retirando meu paletó. Era como se eu estivesse em piloto automático.
Minha gravata logo foi parar no chão, junto com as outras peças já descartadas.
Posicionado ao lado da cama, as partes de trás dos meus joelhos tocando a madeira, deixei meu corpo límpido cair sobre o colchão. Minha camisa, entretanto, parecia estar me sufocando, então levei meus dedos até os botões e comecei a desfazê-los. Quando terminei e ligeiramente me levantei para retirar por completo o pedaço de tecido, fui assaltado por uma onda de um odor já conhecido: flor de baunilha.
Em meio ao calor do momento, nossos corpos quase se tornando um só, seu perfume irresistível havia penetrado os poros do pano e agora voltava para me assombrar. Dizem que o olfato é um dos mais poderosos sentidos, especialmente quando se trata de memórias, e naquele momento eu não poderia estar mais de acordo.
Suas mãos ávidas teriam feito um rápido trabalho abrindo minhas calças, libertando meu membro dos confins de tecido e, em seguida, prendendo-o no calor de sua pequena mão.
Enquanto isso, na realidade, a minha palma masculinamente indelicada tentava simular como seria a de Bella envolvendo meu duro comprimento, guiando-o até a fonte de seu úmido calor.
Surpreender-me-ia ao não encontrar a já esperada barreira de tecido de suas roupas íntimas – isso era uma fantasia, afinal, e um homem pode sonhar -, e em instantes estaríamos unidos no mais primário dos jeitos.
Já era torturante apenas imaginar como seria senti-la por dentro, úmida, macia, quente; era difícil pensar em qual seria a minha reação se eu pudesse realmente experimentar tais sensações.
Meus quadris começariam a ter vontade própria e mover-se-iam frenética e vigorosamente, adentrando e se retraindo da apertada ardência do sexo de Bella.
Sua expressão seria de êxtase: olhos cerrados e lábios abertos, deixando seus deliciosos gemidos fluírem livremente.
Meu clímax chegou quando intensifiquei a pressão com que me estimulava, pensando que seria Bella usando meus ombros como apoio para encontrar minhas investidas.
Um grunhido animalesco e diversas estremecidas depois, meu corpo descansava quase sem vida sobre os meus lençóis cobertos pelo meu suor e pela evidência do meu prazer proibido.
Na semana seguinte, eu passei meu tempo em um tipo de rotina. Toda manhã eu já acordava encarando o telefone, esperando que ele milagrosamente começasse a tocar. Quando isso realmente acontecia, eu atendia o mais ávida e rapidamente possível, apenas para descobrir que não era Bella do outro lado da linha.
Até que, mais ou menos na metade do terceiro dia, eu decidi virar homem e ligar para ela eu mesmo.
Tentei inúmeras vezes pelos próximos dois dias, apenas para me decepcionar cada vez mais, pois ela nunca atendeu.
Eu não era tão bobo a ponto de ter a ilusão de que ela não estava me evitando; eu sabia que esta era a verdade nua e crua. E eu também sabia que estar obcecado com isso era extremamente errado.
Rosalie, com quem eu realmente deveria estar preocupado, também estava me ignorando. Para ela, porém, eu não tentei ligar, pois, se ela ainda não havia percebido o quanto exagerara em sua explosão, isso significava que sua TPM ainda não havia passado.
Eu sei que não devia ter perguntado se ela realmente estava neste estado – eu a conhecia bem o bastante para saber exatamente quando eram esses períodos -, e este fora o meu erro. E, apesar de eu lhe dever um pedido de desculpas, ela também se encontrava no mesmo débito comigo.
Mas essa não era a minha maior preocupação no momento. Eu estava meio distraído desde o dia da festa, sempre com os pensamentos em conflito pelo que eu havia feito. Era uma batalha entre culpa e triunfo, vergonha e satisfação, arrependimento e anseio.
- ...ward! EDWARD! – Ouvi Jasper esbravejando ao mesmo tempo em que senti um tapa em minha nuca.
- Que porra é essa, Jasper? – Perguntei, irritado.
- Faz cinco minutos que eu to tentando falar com você, ligando no seu celular, no telefone do escritório; até levantei minha bunda da cadeira e vim até aqui, mas você parece estar dormindo de olhos abertos!
- Ah... Desculpa aí, ando um pouco distraído mesmo...
- Um pouco? Deu pra usar eufemismo¹ agora?
- Tá, tá, ando muito distraído. Satisfeito?
- Você não devia estar preocupado com a minha satisfação, e sim com a do chefe. Ele já veio me perguntar o que raios tá acontecendo contigo, porque seu rendimento tá "deixando a desejar", nas palavras dele.
- Merda! Era só o que me faltava, problemas no trabalho também... – Resmunguei.
- Olha, cara, seja lá o que for que tá te deixando desse jeito, eu sugiro que você resolva, e que faça isso rápido, antes que te atrapalhe ainda mais.
Ao ouvir isso, minha ficha caiu, e eu já sabia qual seria meu próximo passo. Bella não me ligava, nem me atendia, mas eu queria ver como ela conseguiria escapar de uma pequena visita.
Dessa vez eu não hesitei. Fui direto à sua porta, toquei a campainha umas três vezes seguidas e esperei cerca de cinco segundos antes de repetir o processo.
Depois de um tempo, consegui ouvir a voz de Bella murmurando alguns xingamentos dirigidos à minha insistência certamente irritante, mas que eu não conseguia evitar.
A porta se abriu bruscamente e atrás dela havia uma Bella nada feliz com sua visita. Ver que era eu seu visitante não melhorou seu humor, muito para o meu pesar.
- Edward... – Constatou em um tom receoso.
- Nós precisamos conversar – Falei com firmeza.
- Eu realmente preferiria se deixássemos isso pra lá. Esquecer que aconteceu, sabe? – Falou com um traço de súplica.
- Esquecer? Me desculpe, Bella, mas isso eu não posso fazer. E também não posso ficar remoendo os acontecimentos sem saber o que eles realmente significam, e é por isso que estou aqui. Nós realmente precisamos conversar.
Com um suspiro de derrota, ela abriu a porta por completo e me deixou entrar.
Estava agora sentado na sala de estar da casa de Bella. Ela, no entanto, permaneceu em pé.
- Aceita alguma coisa pra beber? Café? Água? Suco? Chá? Acho que tenho de hortelã, cidreira, erva-doce, camomila, preto, verde... – Bella disparou a falar, obviamente nervosa e inquieta.
Em meio aos seus devaneios, levantei-me e fui até ela.
- Bella – Interrompi-a e coloquei uma mão em seu antebraço – Obrigado, mas só o que eu quero é ter uma conversa sincera.
- Tudo bem, então fale – Disse seriamente enquanto passava a mão pelos cabelos.
Decidi que sentar-me era redundante, então permaneci onde estava, e Bella também não mostrou sinais de que iria se acomodar.
- O que aconteceu naquela noite... – Comecei – Eu poderia até me desculpar por ter me aproveitado de seu estado meio alcoolizado, mas fui educado para pedir desculpas apenas quando verdadeiramente arrependido - Admiti.
- Edward, você não se aproveitou de mim. Por favor, me dê mais crédito, ok? Não, eu não teria deixado aquilo acontecer se estivesse completamente sóbria, mas também não estava tão bêbada a ponto de estar suscetível a qualquer tipo de abuso.
- Bom... Isso é bom... É exatamente isso que vem me deixando acordado à noite; não saber se você realmente queria aquilo ou se estava morrendo de remorso e de raiva de mim.
- Ah, não me entenda mal, eu realmente estive e ainda estou morrendo de remorso, mas não posso me fazer de vítima. Eu me deixei levar e não deveria; foi errado e vai ser algo de que eu me arrependerei pro resto da vida.
Ok, então, se arrependimento matasse, ela já teria batido as botas, mas o que foi aquilo sobre se deixar levar mesmo? Quer dizer que ela se deixou levar pelos próprios desejos? Quer dizer que moralmente ela não queria ter feito, mas que, por outro lado, era algo que ela também desejava?
Pare de se fazer perguntas para as quais a sua cabecinha oca não tem respostas, idiota! Você veio conversar com ela por esse exato motivo!
- Era só isso? – Perguntou-me – Veio se desculpar?
Não, vim dizer que não paro de pensar em você, que você é linda e que nosso beijo tem sido fonte de todas as minhas fantasias e sonhos.
É, melhor não.
Mas então, o que raios eu deveria dizer? O que, realmente, eu fora ali para falar? Eu queria uma explicação para tudo que estivera sentindo, mas se eu, portador de tais sentimentos, não sabia expressá-los em palavras, como poderia Bella explicá-los para mim?
- Não... Não exatamente... Bella, eu... É que... - Olhou-me com uma sobrancelha arqueada, como se questionasse a razão de minha hesitação. A ideia da conversa fora minha, afinal de contas - Eu... Sinceramente... Não sei o que está acontecendo...
Ela, que até então me observava atentamente, expirou pesadamente após postar o olhar no chão entre nós; sua mão direita enroscada na raiz de um chumaço de cabelo, o lábio inferior entre os dentes.
- Eu também não, Edward; só sei que, o que quer que seja, é errado e tem que parar imediatamente. Não devia nem ter começado...
Eu pensei que estava preparado para ouvir aquelas palavras - as quais eu já imaginava que seriam proferidas por ela -, mas me enganei. Algo dentro de mim simplesmente gritava: "Não! Isso é inaceitável! Não se conforme!".
E eu, levado por um ímpeto incompreensível e misterioso, decidi que não me conformaria.
Por impulso, como que temendo que Bella fosse fugir ou desaparecer, segurei seu antebraço com vigor.
- Não! Apenas... Não...
- Não o quê, Edward? - Perguntou-me sem entender meu jeito evasivo.
- Eu não sei... Só sei que não consigo aceitar isso que você disse - Respondi igualmente confuso.
- Quê?
Com o aperto ainda firme em seu braço, dei um passo à frente, aproximando-nos para ressaltar o que eu estava prestes a dizer - seja lá o que fosse.
- Você não pode - Comecei, falando cada palavra pausada e enfaticamente - me dizer que está tão indiferente a isso tudo quanto aparenta estar. Eu não acredito.
- Não foi isso que eu disse - Falou, olhando-me no fundo dos olhos.
Eu não sabia o que deduzir a partir daquela vaga declaração. Aguardei para ver se ela complementaria, mas o silêncio e os olhares permaneceram.
Mais alguns instantes se passaram assim: eu tentando decifrá-la, e ela esperando que eu o fizesse.
Eu não saberia descrever qual foi ou como ocorreu minha linha de pensamento nos momentos seguintes; eu nem sei se alguma coisa, de fato, passou pela minha cabeça. Só o que eu consegui processar foi puro instinto.
Foi tudo tão rápido que, caso existisse um espectador, se este piscasse ou se distraísse, perderia o processo do que aconteceu. Em um segundo estávamos parecendo uma imagem cinematográfica em pausa, o único movimento dentro de nossas mentes, e, no próximo, minha mão esquerda estava emaranhada nos fios sedosos da parte traseira da cabeça de Bella, puxando-os em minha direção, trazendo sua face de encontro à minha e esmagando seus lábios contra os meus.
A surpresa não foi apenas da parte dela; nem eu havia previsto minhas próprias ações.
Pega totalmente despreparada, Bella puxou fortemente o ar pelas narinas, estupefata. E, de começo, sua boca ficou indiferente à minha; nem a recusando, nem a aceitando. Em reação a isso, meu aperto em seus cabelos intensificou-se e minha outra mão soltou seu braço para segurar a lateral de seu rosto.
Continuei tentando persuadi-la a me corresponder, colocando tudo de mim naquele beijo.
Senti sua mão fechada em punho sobre meu peito, tentando me empurrar, e, devo admitir, ela era bem forte para alguém tão pequenina e delicada. Então resolvi arriscar e mordisquei seu lábio inferior, mantendo-o entre meus dentes por alguns segundos e aplicando um pouco mais de pressão do que algumas pessoas se sentiriam confortáveis recebendo. Era uma faca de dois gumes; um tapa na cara ou uma barreira rompida. Deus, como eu torci para que fosse a segunda opção.
Bella deixou escapar um gemido baixo e grave e sua mão que me empurrava reverteu seus movimentos e passou a me puxar pelo tecido da camisa. Um suspiro de contentamento escapou-me ao sentir sua boca finalmente aceitar a minha.
Deslizei minha palma pela lateral do seu corpo até alcançar a barra de sua blusa, e então prossegui no caminho contrário, levantando o pano e sentindo o contato direto de minha mão com a pele macia e quente de sua barriga. Um arrepio percorreu seu corpo em resposta ao meu toque suave, porém firme.
Mas eu queria mais, então passei a ponta da minha língua pelos seus lábios, pedindo passagem, a qual, felizmente, me foi concedida. A sensação e o gosto do novo contato foram como combustível para o meu fogo já crepitante, e imediatamente os dedos de ambas as minhas mãos apertaram com força - uma os seus cabelos, consequentemente puxando-os, e a outra a carne de sua cintura.
As coisas estavam ficando intensas, e o ar entrando em nossos pulmões não parecia ser suficiente, a julgar pelas nossas respirações ofegantes. Estávamos quase hiperventilando, mas eu, e pelo jeito Bella também, não poderia me importar menos.
Eu nunca fora uma pessoa de múltiplo raciocínio, de focar-me em mais de uma coisa ao mesmo tempo, então já era de se imaginar que não havia nada em minha mente além de Bella e aquele beijo. Ela, no entanto, parecia possuir tal característica, e eu explicarei agora como cheguei a tal conclusão. Como já mencionei, a intensidade do nosso beijo só fazia aumentar, e a combinação do calor do corpo dela, sua língua quente em uma dança sensual com a minha e seu cheiro e gosto intoxicantes me fez soltar um gemido, que mais pareceu um rosnado, devido à excitação. E foi assim que aqueles minutos no paraíso chegaram ao fim; quando Bella interrompeu todo prévio contato entre nós, exceto por sua mão, agora espalmada em meu peito, mantendo-nos afastados.
- Não, Edward, não! – Exclamou com a respiração ainda arquejante – Chega, isso não pode mais acontecer! Você tem uma noiva!
E foi aí que eu percebi que Bella, ao contrário de mim, possuía a capacidade de acessar seu cérebro mesmo em momentos tensos como aquele. E assim suas palavras ressuscitaram a minha própria consciência, trazendo-a de volta para mim como um tapa na cara e um soco na boca do estômago.
Deus do céu, o que eu estava fazendo?
Traindo sua noiva, seu idiota.
Meu Deus, Rosalie!
Finalmente lembrou-se da existência dela, gênio?
Ah, cala a boca.
Eu não sabia o que fazer... Pedir perdão? Acho que não à Bella, pelo menos... Concordar? Bem, eu devia, mesmo que, bem lá no fundo, existisse algo querendo discordar.
- Eu... – Abri e fechei a boca uma meia dúzia de vezes, ensaiando dizer palavras inexistentes.
- Olha, Edward, não precisa dizer nada. Apenas... Não me procure mais, ok?
- Quê? – Sua sugestão um tanto quanto radical me pegou de surpresa – Nem amigos podemos ser?
- Não acho que seja uma boa ideia.
- Mas... – Tentei argumentar.
- Mas nada, Edward. Nas últimas vezes que nos encontramos você foi fraco e me beijou, apesar de todas as circunstâncias; e eu, por algum motivo que eu desconheço, mesmo sóbria, sou mais fraca ainda por não conseguir resistir às suas investidas. Portanto é melhor que nós cortemos todo tipo de contato, de forma que não haja tentações. Apenas vá embora e tente me esquecer, ok? De agora em diante, toda interação necessária em relação ao meu trabalho na cerimônia do seu casamento será feita diretamente com Rosalie. Isso se eu conseguir olhar nos olhos dela novamente... Ai meu Deus! O que foi que eu fiz... – Lamentou em tom cheio de culpa.
Permaneci calado; as palavras me faltavam.
- Por favor, apenas vá – Pediu-me.
Atônito, virei-me e, ainda mudo, dirigi-me sozinho à porta da rua, saindo, pelo que provavelmente seria a última vez, da casa e da vida de Bella.
