Capitulo IX - De grão em grão a galinha enche o papo.

Missão "Curando o Doutor": Dia 5.

Resultados obtidos: 17

Latidos agudos e irritantes adentravam o meu sonho. Era como se aquele cachorro maldito estivesse dentro da minha cabeça. Tentei esnobar e me concentrar, mas era praticamente impossível.

Au au! Au au!

Ele devia fazer aquilo de propósito. Ou então não tinha a mínima noção do perigo que estava correndo.

- Calma, bebê. - Agora a voz de Bella também entrava em meus ouvidos como um radio que havia acabado de ser sincronizado. - A mamãe queria te levar, mas não dá.

Mais latidos e gemidinhos baixos viam do cachorro. A cada instante eu saia mais da inconsciência e começava a prestar mais atenção ao que acontecia ao meu redor. Os ruídos ficavam mais altos e menos irritantes.

- A Rose vai cuidar bem de você. Palavra de escoteira. - Bella tinha a sua voz de criança que usava apenas com o cachorro. Ela o tratava de uma forma muito carinhosa.

Agora o ganido era mais entristecido. Era quase como uma súplica.

- Eu preciso ir, Jake. - Ela falou no mesmo tom.

Eu abri os olhos nesse instante, observando os dois sentados na cama de Bella. Ela já estava trocada e com os cabelos negros presos em rabo de cavalo alto. O cachorrinho estava embrenhado entre as pernas dela.

- Desse jeito que você fala parece que está fugindo. - Falei com a voz rouca por conta do sono interrompido.

Isabella deu um pulo alto e Jake saiu correndo da cama. Quando seus olhos se encontraram com os meus eu observei a vergonha estampada em sua face rosada.

- Você me assustou. - Ela falou em um fio de voz. Levou a mão ao peito e tentou controlar a respiração.

- Desculpa. - Me espreguicei lentamente sob as cobertas. - Qual é o programa de hoje?

- Segredo. - Ela deu um sorriso largo. - Já está tudo pronto. Só estava te esperando acordar.

Eu olhei para os lados e reparei que o quarto estava mais arrumado e vazio do que o comum. Franzi o cenho e mordi o lábio.

- Que horas você acordou?

- Há um tempo. - Ela levantou-se da cama e foi em direção a Jake que estava em um canto encolhido. - Precisava preparar tudo.

- Por que não me acordou? Eu poderia ter lhe ajudado. - Sentei-me na cama e passei a mão pelos cabelos.

- Era segredo. - Ela revirou os olhos e me lançou um olhar intenso. - Levante esse traseiro gordo e vá se ajeitar.

- Quanta amabilidade e delicadeza. - Comentei com um ar zombeteiro.

Levantei-me lentamente e só por pura provocação eu tirei a minha camiseta do pijama, jogando na cara dela. Isabella mordeu o lábio inferior e discretamente analisou o meu trono nu.

Não parei para ver mais a reação dela. Apenas segui para o banheiro retirando as minhas peças de roupa pelo caminho.

Era engraçado notar as reações dela e perceber como o seu corpo demonstrava algo diferente de suas expressões e palavras. Era algo como se as ações dela fossem mais verdadeiras e espontâneas.

Como se não fossem planejadas.

Eu estava provando de meu próprio veneno. Só agora conseguia enxergar o quanto era ruim ter uma pessoa controlada e com uma mascara de indiferença ao meu lado. Só agora podia ver o quanto eu era ridículo.

Tomei um banho rápido e nem percebi muito o tempo passando e nem as gotículas de água quente batendo contra o meu corpo. Estava submerso em meus pensamentos e devaneios, tentando me lembrar de como era ser o antigo Edward.

Tentando buscar alguma parte de mim que ainda agia daquela forma tão mesquinha e arrogante.

Bella. Ela havia sido a minha salvação. Ela havia me mostrado o quanto eu estava sendo cego e burro. O ruim era que agora ela usava o meu antigo defeito contra mim. Parecia que ela estava me punindo.

Coloquei a primeira roupa que havia na minha frente. Antes de deixar o quarto para trás eu lancei uma olhadela para Jake que estava encolhido na cama de Bella. Ele me lançava um olhar de puro ódio, como se me culpasse por estar sendo abandonado naquele dia.

- Não fique com raiva de mim, campeão. - Falei com um sorriso malicioso nos lábios. - É só mais um dia de missão. Em breve estará livre de mim.

Essas palavras me causaram um choque maior do que o esperado, mas logo eu tentei esconder o sentimento de perda que me sufocava. Tentei perdê-lo dentro de mim e tentei seguir em frente, caminhando até a recepção da pensão.

Como todas às vezes Bella estava ao lado de Jean com um sorriso nos lábios, falando algo em sua animação rotineira. Só foi nesse momento que eu quase me afoguei em curiosidade porque me lembrei que não tinha a mínima idéia do que faríamos.

- Bom dia, Jean. - Eu falei educadamente.

- Bom dia, Edward! Dormiu bem? - Ela e seu jeito diferente. Eu sempre achara Jean uma pessoa especial, era como se ela conhecesse muito bem as pessoas. Sabia julgá-las com eficiência.

- Sim, sim. - Lancei-lhe um sorriso e me virei para Bella. - Vamos?

- Claro! - Ela deu um meio abraço em Jean e sussurrou-lhe algo no ouvido. Era nesses momentos que eu desejava ter um ouvido biônico.

Caminhamos lado a lado em direção ao meu carro. Coloquei a mão em meu bolso, mas não encontrei a chave ali. Ao olhar pro lado percebi o objeto prata que estava nas mãos de Bella e soltei um longo suspiro.

Sabia que não poderia discutir, então a deixei continuar com aquilo. Porém no fundo ainda tinha medo do que poderia acontecer com o meu carro.

Sentei no banco do passageiro e cruzei os braços no peito.

- Você vai ou não acabar com o mistério? - Passei a mão pelos cabelos, enquanto ouvia o meu motor rosnar furiosamente.

Isabella riu baixinho e deu a arrancada violentamente sem responder. Parecia uma maníaca doente.

- Use a sua cabeça, Doutor. - Ela tinha a voz maliciosa e maldosa. - Ela tem que servir para alguma coisa além de ocupar espaço.

Mordi a língua para não dar uma resposta azeda. Não queria causar nenhum tipo de discussão. Bella já estava suficientemente estranha.

Fechei os olhos e soltei um longo suspiro. Era muito difícil lidar com aquela mulher. Ela despertava algumas sensações estranhas em mim. Fazia com que eu me sentisse irritado com apenas algumas palavras. Fazia eu me sentir no paraíso com uma ação inesperada.

Era como viver em uma montanha russa.

O som foi ligado e aumentado em um volume quase insuportável. Isabella gritava umas letras desconhecidas. Ela estava com o vidro do carro aberto, com o vento batendo em seu rosto a despenteando, porém permanecia linda.

Aos poucos a cidade foi sendo deixada para trás e as árvores e florestas típicas que cercavam New Orleans foram aparecendo. Devíamos estar indo em um centro de ajuda mais distante dessa vez, podia até ser em outra cidade.

Pelo jeito que ela falara na noite passada o dia seria pesado, então provavelmente construiríamos mais casas ou algo do tipo.

Várias teorias começaram a ser formadas em minha mente. Eu comecei a imaginar como era o lugar maluco e exótico que ela estava me levando e me perdi em devaneios. Às vezes ficava parado olhando-a enquanto minha mente trabalhava a milhão.

Nós já devíamos estar a uns quarenta minutos no carro quando o tipo de vegetação começou a mudar. Imagens na minha cabeça começaram a passar rapidamente, porém não era do presente e sim do passado.

Eu me lembrava de estar naquela mesma impaciência, porém no carro do meu pai. Lembrava de encarar aquelas mesmas árvores com tédio e ansiedade, querendo chegar logo ao meu destino final.

O ar faltou em meus pulmões e eu voltei ao presente arfante e com a mão no peito. Encarei Isabella com os olhos arregalados e as palavras presas em minha boca.

Ela abriu um sorriso largo para mim e simplesmente assentiu.

- Não fique bravo. - Pediu com sinceridade.

- Não estou. - Falei em um fio de voz. - Apenas não esperava.

Ela se calou e ficou com um sorriso nos lábios. Mais uma vez uma série de lembranças começou a invadir a minha cabeça, deixando-me atordoado.

Ela havia lido a minha mente e o meu coração. É como se houvesse descoberto o quanto eu amava aquele lugar e o quanto eu sentia vontade de voltar lá.

- Vamos ficar quanto tempo? - Perguntei mais animado.

- O tempo que for necessário. - Ela respondeu sem me encarar. - As malas estão lá atrás. Rosalie passou com Emmett na pensão hoje de manhã para deixar dois sacos de dormir, uma barraca e mais umas coisas básicas.

- Ah! Então era isso que vocês estavam tramando ontem! - Falei abismado. Ela soltou uma gargalhada e assentiu.

- Exatamente. - Ela mordeu os lábios e pareceu um pouco hesitante.

- Que foi?

- Você tem uma memória boa? - Ela falou meio constrangida.

- Acho que sim. Por quê?

- Não tenho a mínima idéia de onde estamos. - Ela corou absurdamente e desviou o olhar. Eu gargalhei.

- Estamos no caminho certo. - Eu olhei ao meu redor e tentei reconhecer tudo. - Daqui a pouco vai ter uma clareira que vamos entrar e estacionar o carro um pouco mais pra frente e depois é tudo a pé.

- A pé? - Bella gritou. - Emmett não me falou isso.

Eu ri baixinho e revirei os olhos.

- Vamos ver se você é tão aventureira quanto diz ser. - A provoquei com um sorriso maroto e torto.

Ela revirou os olhos e me lançou um olhar superior.

- Você não agüenta a metade do que eu agüento.

Começamos a rir que nem dois idiotas. De repente eu visualizei a clareira e a mandei virar. Andamos uns cinco minutos para dentro da mata em uma estrada fechada e horrível. Sabia que quase ninguém ia para aquele lugar.

- Está bom aqui. - Falei. Ela brecou e estacionou o carro em um cantinho na estrada. O resto estava muito fechado e lotado com a mata seria quase impossível continuar.

- Não tem medo de deixar o carro aqui? - Ela perguntou meio hesitante ao tirar a chave da ignição.

- Não. - Eu sorri. - Ninguém vem aqui.

Saímos do carro e fomos em direção ao porta-malas descarregar. Ele estava lotado com as nossas mochilas gigantes e vários sacos de comida.

- Acho que tem alguém exagerada aqui. - Cantarolei brincando. Isabella riu baixinho e começou a colocar algumas coisas nas costas.

- Sou prevenida, isso sim. - Ela comentou rindo. - E na realidade a maioria das coisas quem me entregou foi o seu irmão.

Eu coloquei algumas malas nas costas e segurei o máximo de coisas que consegui. Logo o meu porta-malas estava vazio e eu segurava a maioria das coisas para poupar Bella do peso. Não sabia como conseguiria caminhar com tanto peso, mas deixei isso de lado.

Logo começamos o longo e extenso caminho que nós levaria até o lugar perfeito para o acampamento. Apesar do frio cortante eu sentia a minha camiseta colar-se ao corpo por conta do suor. Conseguia ouvir a respiração arfante de Bella.

- Como é estar de volta? - Ela falou em um fio de voz.

- É como voltar no tempo. - Abri um sorriso e puxei o ar com força. - Eu me sinto como aquele menino idiota e saltitante que vinha aqui quase todos os finais de semana.

- É bom. Isso o faz voltar a ser a criança pura de antes. Sem preconceitos e os ideais errôneos que você construiu ao longo de seus anos.

- Você acha que isso é importante pra Missão?

- Acho que é essencial. - Ela calou-se um pouco e eu escutei a sua respiração ficando mais ofegante. - É bom voltar às origens de vez em quando. Nos faz lembrar quem realmente somos.

- Hmm..

- Olha! - Ela gritou. - Aquilo não é um macaco?

Eu levei um susto com o seu berro histérico e derrubei algumas mochilas no chão. Ela riu um pouco de mim e aproximou-se um pouco vacilante por conta do peso de suas próprias bagagens.

- Veja, veja. - Falou toda animada apontando pra árvore.

- É só um macaquinho, Bella. - Eu falei ao avistar o Sagui bem pequeno que estava em um tronco alto.

- Só um macaquinho? - Ela falou abismada. - Ele é a coisa mais fofa! Você é um insensível, Cullen.

Ela me deu um soco no braço e soltou um bufo.

Em passos rápidos para a sua velocidade e seu equilíbrio rotineiro ela foi até uma sacola e a abriu retirando de lá algumas frutinhas.

- O que você vai fazer com isso? - Perguntei meio perdido.

A observei aproximar-se lentamente da árvore e esticar o seu braço o máximo que podia.

- Não, não! Nem pensar nisso, Isabella! - Ralhei com ela. - Você não vai dar minha comida para um macaco!

- Pensei que você fosse um amante da natureza, Doutor. - Ela zombou em um tom de voz baixo. Provavelmente não queria assustar o macaco.

- O amor próprio vem em primeiro lugar! O meu instinto de auto preservação! - Falei com a voz convincente. Odiava quando as pessoas não entendiam o meu lado.

- Pense nos outros antes de pensar em si mesmo. Deixe de viver nesse mundinho individualista que você criou em sua mente. Tenha compaixão. - Observei o macaquinho descer do tronco lentamente, aproximando-se de Bella.

Ele pegou a frutinha das mãos dela com agilidade e logo já estava no tronco lá em cima comendo desesperado. Isabella soltou um risinho satisfeito.

- Ele não parece ter compaixão. - Pensei alto ao observar aquela cena.

Isabella riu mais alto e aproximou-se de mim. Observei um sorriso brincalhão e maldoso em seus lábios. Ela agilmente veio correndo para cima de mim. Sabendo que ela iria aprontar eu simplesmente larguei as mochilas no chão e sai correndo.

Ela era louca.

- Não fuja, Edward-macaco. - Ela gritava correndo atrás de mim. Não chegamos a ir muito longe, pois logo ela me encurralou em uma árvore.

Ela ergueu as mãos sujas das frutinhas e as espalhou em meu rosto sujando-o inteiro. Ela ria como uma louca histérica enquanto me lambuzava.

- Que nojo! - Eu gritava. Sabia que podia repeli-la a qualquer momento, porém era bom sentir sua pele sob a minha. Era bom ter suas mãos acariciando o meu rosto.

- Você não queria as frutinhas? A Bellinha dá as frutinhas. - Ela falava debilmente.

- Eu não quero mais! - Eu falei como uma criança fazendo birra. - Não quero! Não quero!

Ela riu e se afastou.

- Quer sim que eu sei. - Ela esticou as mãos sujas em minha direção e eu fechei os olhos e me protegi com os braços.

- Você é maléfica. - Falei.

- Desculpe. - Ela passou o dedo na ponta do meu nariz. - Não consegui resistir.

- Estou todo sujo. -Estiquei os braços e fiz um bico.

- Realmente. Até o macaquinho está mais bonito que você. - Ela zombou se afastando em direção às mochilas.

Observei-a andar docemente, com os cabelos balançando e tudo absurdamente sem sincronia criando a perfeição. Bella me encantava dos pés a cabeça, fazia com que toda a minha sanidade esvaísse por meus poros.

Ela sentou-se no chão e abriu umas sacolas retirando algumas coisas, arrumando-as no chão.

- Podemos ao menos achar uma clareira para descansar? - Perguntei sentindo os meus conhecimentos de mata apitando.

- Por quê? - Ela perguntou inocentemente.

Eu estendi a minha mão para ela.

- Podemos achar de tudo aqui, Bella. Desde pequenos insetos até cobras. Nós estamos invadindo a casa deles.. não é nada mais do que natural eles a protegerem. O mais seguro não é ficar no meio do mato e sim procurar alguma clareira.

Ela sorriu e segurou a minha mão, apoiando-se para levantar. Parecia estar satisfeita com alguma coisa.

- Claro que sim, Capitão. - Ela zombou recolocando as bagagens e voltando a caminhar pela trilha desgastada com o tempo. A mata já cobria praticamente todo o caminho, seria difícil encontrar o local rapidamente.

A caminhada recomeçou em silêncio. Logo eu já podia ouvir novamente a respiração ofegante de Isabella assim como os seus passos ficando mais lentos. Apesar de conhecer aquele lugar como a palma da minha mão, o meu senso de direção já estava falho e eu não conseguia reconhecer exatamente a nossa posição.

Aos poucos eu fui me encontrando e depois de aproximadamente uma hora de caminhada nós finalmente conseguimos encontrar a tão desejada clareira.

Não paramos por muito tempo, só o necessário para descansar um pouco, comer algumas frutas e beber um pouco de água.

Percebi que Isabella estava cheia de machucados nas palmas das mãos, braços e nas pernas, e então me aproximei um pouco mais dela quando recomeçamos o nosso caminho em busca do acampamento.

Toda vez que sentia que ela poderia tropeçar eu a segurava e a firmava em meus braços impedindo-a de se machucar mais. Conforme o tempo ia passando eu ia pegando as mochilas dela e ia as passando para as minhas costas.

- Acho que esse é o exercício físico mais pesado do mundo. - Comentei um pouco de tempo depois. Cada músculo do meu corpo reclamava de dor e cansaço.

Meus pés imploravam por uma massagem, o meu corpo clamava por um banho quente.

- Eu preferia ter construído umas quinhentas casas. - Completei ao perceber que ela estava tão arfante que não tinha condições de falar. - Você está bem?

Ela assentiu e fez um movimento com a mão. Suas bochechas estavam coradas e o seu cabelo todo emaranhado lotado de folhinhas e gravetos. A imagem dela me lembrava de uma selvagem e me fazia ter pensamentos indecentes.

- Podemos descansar um pouquinho? - Ela pediu entre a respiração.

Eu joguei as mochilas no mesmo instante e me aproximei dela pronto para socorrê-la.

- Não vou desmaiar. - Falou com a voz um pouco irritada. - Eu estou bem.

- Não esta me parecendo nada bem, Isabella. - Comentei preocupado. - E eu achando que você agüentaria mais do que eu.

Ela revirou os olhos e me deu um soco fraco no braço.

- Não zombe. - Ralhou. - A culpa disso tudo é do nosso guia.

Eu abri a boca indignado. Eu já ia começar a reclamar, mas ela começou a rir.

- Sem brigas e ataques de orgulho ferido. - Ela falou. - Precisamos agir juntos se quisermos chegar logo no acampamento.

- Onde que você estava com a cabeça quando decidiu vir acampar sem um mapa ou um guia decente? - Falei fingindo não tê-la escutado.

- É. O guia que está aqui comigo é absurdamente inútil. - Ela zombou com uma careta engraçada.

- Vou deixá-la aqui no meio da mata se começar a reclamar muito. - Provoquei-a.

- E eu deixo você sem comida. - Ela devolveu com habilidade.

- E eu mando os leões te caçarem. - Encarei-a intensamente e depois nós dois caímos na risada.

Ela pegou a minha mão e começou a caminhar lentamente, de vez em quando ainda chacoalhava os ombros por conta da risada.

- Você é tão idiota às vezes, Doutor. - Ela comentou minutos depois.

Eu sorri e continuei o meu caminho. Já conseguia reconhecer o caminho por qual andávamos. Muitas vezes eu fechava os olhos e revivia as minhas lembranças ali tentando buscar alguma coisa que poderia nos ajudar.

Árvores familiares, trilhas conhecidas e sensações estranhas eram as únicas coisas que me guiavam.

De repente avistei de longe um brilho estranho. O Sol fraco parecia estar refletindo em alguma coisa. Ao mesmo tempo em que a ficha caia em minha cabeça nós avistávamos um grande lago.

- Chegamos! - Bella gritou no mesmo instante. - Finalmente!

Eu dei uma risada satisfeita e faltei praticamente sair correndo e pulando por todo aquele lugar. Era ainda exatamente igual a antigamente. A mesma sensação de magia, a mesma clareira confortável e espaçosa. As mesmas flores bonitas que encantavam Esme e Alice.

E ainda o lago a nossa frente cheio de patinhos e animais selvagens. Sem contar no velho e sujo pedalinho que ficava ali na borda esperando para ser utilizado para mais alguma das travessuras de Emmett.

O sorriso largo que surgiu em meus lábios não poderia sumir e sim simplesmente aumentar. Eu conseguia praticamente reviver todas as lembranças, ainda conseguia sentir o gosto das minhas lágrimas salgadas no dia em que Emmett me assustara. Ou então sentir a dor dos meus ralados por conta das brincadeiras de menino travesso.

Conseguia sentir a felicidade dentro de mim quando eu chegava àquele local com a minha família. Todos nós de mãos dadas e o corpo cansado por conta da caminhada. Assim como eu e Bella estávamos.

- Uau. - Falei em um fio de voz.

- É encantador. - Isabella acariciou a minha mão com a sua. - Agora entendo o porque de tanto amor pelo local.

Abri um sorriso para ela e assenti. Por mais que estivesse com o corpo cansado eu joguei as malas no chão e comecei a preparar a nossa barraca. Nunca havia tentado fazer algo do tipo sem ajuda, porém eu sabia que conseguiria.

Com muito esforço e dedicação eu fui obtendo algum resultado. Eu não descansaria até estar com tudo preparado para quando anoitecesse e os animais começassem a sair de suas tocas.

Precisava de um lugar quente e seguro para dormir. Precisava pensar em minha segurança e na de Isabella antes de pensar no meu descanso e nesses caprichos humanos.

Eu estava fazendo as mesmas coisas que meu pai fazia quando ele chegava aquele lugar. As mesmas coisas que eu costumava sentar e assisti-lo fazer.

As mesmas coisas que eu admirava.

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Acho que eu não via algo tão bonito assim há muito tempo. Já havia visitado muitas cidades bonitas e esplendidas em questão de vistas e atrativos turísticos. Porém aquela beleza que estava ali exposta era maior do que isso.

Não conseguiria ser retratada com palavras, imagens e nem nada. Era algo indescritível e absurdamente atraente.

O local era maravilhoso e fazia com que a pessoa se sentisse em casa. Porém não era isso que me maravilhava tanto e sim o homem que nela trabalhava. Ele estava arrumando todo o local para nós.

Agia agilmente como se estivesse habituado aquilo. Eu conseguia ver a sua expressão de concentração e a tensão de seus músculos graças ao esforço, mas nem ao menos cogitava a idéia de ir ajudá-lo.

O meu trabalho era apenas admirá-lo.

As gotículas de suor que corriam sob seu rosto me faziam salivar e ter vontade de me aproximar. Ele carregava agora um número alto de madeiras para próximo de nossa barraquinha.

Os músculos de seu braço estavam firmes e me deixavam com vontade de escorregar minhas mãos sob eles. Explorá-los.

Lentamente eu o observei soltar as lenhas no chão e então retirar a sua camiseta lentamente. Era como seu estivesse assistindo a um filme em câmera lenta. O observei flexionar os braços, os dirigir para o próprio corpo, agarrar a camiseta e depois a puxá-la para cima, revelando aquele corpo perfeito e musculoso.

O seu tronco estava suado. Logo eu imaginei como era estar sob aquele corpo, suada daquela forma, mas por outros motivos. Minha mente começou a viajar e eu me vi perdida em meus devaneios.

Parei de contar o tempo, enquanto viajava naquele corpo magnífico e no trabalho que ele fazia para nos manter seguros e protegidos a noite. Nem ao menos me dei conta quando o sol foi sumindo e chegou a hora do crepúsculo.

Só sabia que o sol havia ficado cor de rosa e que refletia de uma forma mais sensual e atraente naquela pele branca e macia.

Só despertei quando pude ouvir claramente o ronco que a barriga de Edward dava. Não poderia deixá-lo passar fome depois de tanta beleza com que ele me presenteara. Levantei-me automaticamente e estiquei a toalha no chão, arrumando todas as comidas que comeríamos no jantar daquela noite que ocorreria dali a pouco.

Ao mesmo tempo em que eu tentava me concentrar em meu trabalho medíocre - perto do dele - eu tentava não desviar a atenção de Edward e seu corpo perfeito.

- Você leu a minha mente. - Ele falou de repente, fazendo até com que eu desse um pulinho de susto.

Sua voz gutural me pegou desprevenida e de guarda baixa. Ele aproximou-se de mim segurando uma flor em seus dedos. Tinha um sorriso doce nos lábios, porém o seu rosto demonstrava o cansaço.

- Que bom. - Falei orgulhosa do meu trabalho. - Sente-se.

Ele sentou-se ao meu lado na grama e colocou a flor na minha orelha sob os meus cabelos negros. Ficou encarando a minha face pelo tempo suficiente para que eu corasse.

- Ótimo trabalho, Edward. - O elogiei para quebrar o clima.

- Você também. - Ele falou desviando o olhar e dirigindo sua atenção a toda comida que havia na sua frente. Serviu o seu prato com uma quantidade generosa de torta de palmito que Jean havia feito especialmente para nós.

Também me servi, porém em momento nenhum eu deixei de observar o homem que estava em minha frente. Edward tinha um poder magnético que atraia meu olhar, minhas mãos e minha mente.

- Não ficou muito boa a barraca, mas eu acho que dá pro gasto. - Ele comentou com a boca cheia.

Eu dei um risinho.

- Está perfeita a barraca, mas eu gostei da modéstia. - Comentei com sinceridade.

- Eu costumava observar meu pai fazer essas mesmas coisas. - Eu conseguia ver o brilho diferente em seus olhos. Acho que nunca havia o visto tão bem. - Isso me encantava tanto. Era como se ele fosse o nosso protetor.

Eu sabia exatamente do que ele falava. Senti uma imensa vontade de tocá-lo, mas me repreendi. Não podia deixar os meus desejos dominarem.

Era muito bom sentir o gosto da comida em meus lábios. Parecia que eu não comia há dias e não apenas há algumas horas. Edward parecia tão faminto quanto eu, pois devorava a comida sem dizer nenhuma palavra.

O sol já havia sumido por completo no horizonte deixando-nos no escuro da floresta, ouvindo apenas os barulhos naturais sem a intervenção humana causando o caos sonoro e visual. Era um momento de paz.

- Há quanto tempo você não tem um momento desses? - Perguntei de repente, sem conseguir me conter.

- O que quer dizer? - Ele me olhou com interesse.

- Um momento de paz. Um momento sem a confusão ao seu redor. Um momento para respirar. - Olhei ao meu redor desviando os olhos dos dele. Tudo estava em completa harmonia, até nós dois.

- Ah.. - Ele estava com a voz mais rouca do que o normal. - Há muito tempo. A confusão do Hospital acaba me deixando louco junto.

- Eu consegui sentir a sua confusão quando o vi pela primeira vez, Edward. - Voltei a encarar aqueles olhos verdes novamente. - Eu soube desde o primeiro instante que você precisava de mim.

Abri um sorriso largo.

- Onde está a humildade, Senhorita Swan? - Ele zombou com os olhos brilhando. Eu soltei uma gargalhada e dei um soco em seu braço musculoso.

- A professora tem direito de se gabar de vez em quando. - Falei fazendo uma pose. Ele revirou os olhos e depois riu marotamente. - Agora conte uma aventura que viveu aqui.

- Eu vivi tantas. - Ele passou a mão no cabelo e mordeu o lábio inferior, um gesto que eu segui atentamente. - Nunca me esqueço da vez que Emmett deu o seu primeiro beijo. Eu acho que ele deveria me agradecer pelo resto da vida por aquele dia.

- Como foi?

- A família dela era muito próxima da nossa e eles decidiram vir acampar conosco em um feriado. Acho que ninguém nunca havia reparado no lado tarado de Emmett, ou pelo menos todo mundo fingia não reparar. Ele tinha apenas onze anos, mas conseguia saber mais putaria do que um homem de vinte.

Ele parou um tempo, fechou os olhos e soltou uma gargalhada. Parecia estar mergulhando profundamente em sua história, como se a revivesse naquele exato momento.

Eu não conseguia tirar os olhos dele. As suas reações a cada palavra dita eram incríveis.

- Eu tive que esconder tudo. A menina era amiga de Alice e então eu tive que inventar uma brincadeira com que deixasse os dois sozinhos sem que nossa irmã percebesse. Eu era tão pequeno e inocente que não tinha a mínima noção do que o meu irmão queria fazer com a menina. Beijo era algo que ainda constava fora de meu vocabulário e de meu entendimento.

- Meu deus! O que ele fez com ela? - Falei brincando usando um tom assustado.

- Eu inventei um esconde-esconde diferente e trapaceei contando ao meu irmão onde é que a menina tinha ido se esconder na floresta. - Ele deu um sorrisinho torto. - Sempre fui o mais inteligente. Eu bolava os planos e Emmett os executava.

Eu dei uma gargalhada alta.

- Você não era macho o suficiente para fazê-los? - Zombei.

- Eu não tinha esse papel. Eu apenas os inventava. - Ele me lançou um olhar feio por tê-lo cortado e eu ri mais um pouco. - Tudo saiu com perfeição. Até hoje eu não sei falar se me arrependi ou não de ter seguido Emmett para espiá-lo. Eu lembro o choque no meu corpo ao vê-lo agarrar-se com a menina daquela forma. Eu não consegui respirar, falar e nem me mover. Assisti tudo àquilo em silêncio.

- Você fala como se tivesse sido uma tortura. - Fiz uma caretinha.

- Ah, eu não entendia. Só lembro de uma mão ter me puxado e me levado para um lugar mais calmo. Alice sempre foi mais perceptiva do que todos na família. Não sei como ela me achou ali e nem como descobrira de tudo, porém ela me levou para perto do lago ao perceber o meu choque.

Ele fechou os olhos e mais uma vez perdeu-se em memórias.

- "O que foi, Ed?", ela perguntava pra mim debilmente. Parecia realmente não entender o meu choque. "Você viu aquilo?", eu respondi colocando toda a minha indignação na fala. Comecei a ficar preocupado com a sanidade da minha irmã. Ela era mais nova do que eu, o que será que passava em sua cabeça? "Vi! O que tem? Eles estavam se beijando", ela me respondeu com simplicidade. - Ele abriu um largo sorriso. Parecia deliciar-se com a memória. - Depois daquele dia eu nunca duvidei quando falavam que as meninas eram mais maduras. Ela havia lidado com tanta frieza àquela situação, Bella. Acho que tem certas coisas que meninas já nascem sabendo.

Eu soltei uma gargalhada.

- Você era inocente demais, Edward. As meninas estão acostumadas com beijos. Nós sonhamos com eles desde que somos bem pequenininhas e que lêem para nós os Contos de Fadas. - Soltei um longo suspiro. Era tão bom ser criança.

- Eu achava que beijos e contatos com meninas eram coisas de adulto. Não conseguia me imaginar fazendo algo parecido. - Ele fez uma caretinha bem engraçada. Eu soltei uma gargalhada.

- Só falta agora você virar e falar que também é BV. - Falei com a voz travessa e brincalhona. Ele me lançou aquele olhar furioso, mas logo percebi que não passava de uma brincadeira.

- Não. Eu não demorei muito pra beijar depois daquilo. Emmett me deu tantos detalhes que acabei ficando curioso. - Ele corou ao falar aquilo. Não conseguia entender como uma pessoa em pleno século vinte um podia ser tão conservadora como ele.

- E como foi? - Eu me ajeitei e o olhei cheia de curiosidade. Ele riu com a minha atitude e corou mais ainda.

- Foi diferente de tudo. - Ele fez uma caretinha.

- O primeiro beijo sempre é estranho. - Concordei.

- O meu foi mais ainda, porque ela me bateu. - Ele falou de uma forma tão fofa e infantil que eu não segurei a gargalhada.

- Você beijou tão mal assim? - Não conseguia conter as zombarias.

- Não! Meu beijo foi muito bom, tá? - Ele falou com a voz engraçada. - Só que eu decidi seguir uns conselhos de Emmett e não me dei bem. Desconfiei desde o começo que era muito cedo pra pegar na bunda da menina.

- O que? - Eu gritei. - Você pegou na bunda dela?

Comecei a rir histericamente. Imaginei um mini Edward pegando na bunda da menina com a maior inocência do mundo enquanto Emmett ria da cara dele.

- Peguei! Eu confesso: Eu peguei mesmo! - Ele gritou em resposta, divertindo-se tanto quanto eu.

- Me conte! Me conte! - Implorei toda corada por conta das gargalhadas.

- Ela era irmã da menina que havia beijado Emmett. Seu nome era Tânia. Estávamos em um jantar em casa e a família dela havia ido dessa vez. O lugar estava cheio de gente e eu já estava louco para beijar alguém. - Ele deu uma risadinha nessa parte. - Não posso descrever a minha felicidade ao vê-la entrando na minha casa. Emmett apenas se aproximou e sussurrou "Acabou de chegar a vitima, que tal?".

Eu gargalhei.

- A cada momento que você me conta mais sobre Emmett mais medo eu tenho. - Comentei em meio aos risos. Ele era o mais cachorro de todos!

- Eu já comecei a bolar um plano. Em instantes já sabia exatamente o que fazer. Emmett estava tendo uma grande influencia em mim.. eu não estava pensando direito. Eu estava sendo desrespeitoso. - Ele deu um sorriso cafajeste que nunca pensei que veria naqueles lábios. Eu senti o ar faltar em meus pulmões e as minhas entranhas arderem em desejo. - Derrubei um pouco de suco na roupa dela e ela foi automaticamente para o banheiro. Sua irmã ia acompanhá-la, mas eu fiz com que Emmett a distraísse no meio do caminho. Eu sai correndo para o banheiro e bati na porta, ela a abriu pensando que era a irmã e deu de cara comigo.

- Uau! Isso que é golpe de mestre. - A inteligência dele me dava medo. Ele era apenas uma criança!

- Ela ficou me olhando e eu simplesmente a beijei. Foi uma coisa estranha. No começo agente não sabia muito o que fazer e depois eu comecei a gostar, sabe? Mas não deixava de ser estranho. E aí eu coloquei a mão na bunda dela. Ela parou tudo, me deu um tapa e saiu correndo. - Ele parou e se perdeu em devaneios mais uma vez. - Eu fiquei parado lá uns cinco minutos.

- Meninos são loucos e estranhos. - Eu disse revirando os olhos. - Onde está todo o sentimentalismo?

- Meninas que são frescas demais. - Ele zombou em cara de desafio.

- Eu não sou a virgem aqui, querido. - Resolvi o provocar de volta. Ele não podia mexer com a onça e sair ileso.

Ele riu meio constrangido e concordou com a cabeça.

- Eu não sou um menino muito normal. - Suas bochechas coraram um pouco.

- E eu não sou uma menina nada normal. - O encarei com intensidade e me aproximei um pouco. A comida já havia sido esquecida há muito tempo.

Ele aproximou-se também e me lançou um olhar estranho. Eu tentei me lembrar de quando ele havia o usado comigo.

- E você? Como foi o seu primeiro beijo perfeito? - Perguntou em um sussurro.

- Foi perfeito mesmo. Era o meu melhor amigo na época. E aconteceu espontaneamente, sabe? Eu era novinha e não tinha muita idéia de como continuar e então preferimos ficar amigos. - Dei um sorriso largo.

Ele não falou nada. Foi aproximando-se cada vez mais de meu rosto. Eu congelei e senti o meu coração começar a cavalgar em meu peito. Tudo ao meu redor sumia. Só havia eu e ele. O seu cheiro me atraia, assim como a textura de sua boca. Eu salivava por ele.

Quando ele estava próximo o suficiente para que a sua respiração batesse em meu rosto e me dopasse eu decidi que era a hora de parar. Se ele avançasse um pouco mais eu não responderia por meus atos.

- Tive uma idéia. - Falei em um fio de voz. Ele pareceu meio atordoado com a minha voz, porém não ficou sem graça.

- Qual? - Sussurrou.

- Venha. - Levantei-me e depois estiquei a mão na direção dele, que a pegou instantaneamente. Fui correndo em direção ao lago sem esperar com que ele me alcançasse.

O frio batia em meu corpo, mas não o fazia tremer e não me fazia ter vontade de me cobrir. Eu estava tão quente por culpa da proximidade com Edward que esnobava a temperatura do ambiente.

Retirei a blusa antes mesmo de chegar próxima a margem. Fui diminuindo a velocidade para que pudesse retirar a calça que eu vestia. Percebi que Edward havia parado a alguns passos atrás.

- O que você está fazendo? - Ele perguntou com a voz rouca.

Eu olhei para o meu corpo descoberto e depois para ele e dei uma risadinha. Edward estava corado e me encarava com o cenho franzido.

- Eu estou indo nadar. - Respondi dando os ombros.

- Ah. - Eu vi a expressão relaxar no rosto dele. Depois de alguns segundos digerindo a idéia eu vi a compreensão passando por seus olhos verdes. - O quê?

- Nadar, oras. - Dei outra risadinha. Observei que ele fitou o meu corpo por mais tempo do que o necessário.

- Você vai congelar! Está frio! - Ele ralhou, aproximando-se lentamente. Parecia estar um pouco hesitante.

- Deixe de pensar como o Edward racional agora. Seja aquele garotinho aventureiro, Doutor. - Falei com um sorriso maroto. Comecei a andar de costas em direção ao lago.

- Eu não vou cometer essa loucura! Você vai ficar doente! - Ele falou com a voz mais autoritária.

Eu dei uma risadinha e continuei o meu caminho. Havia sido construído ali um píer de madeira. Consegui sentir a textura deste em meus pés. Edward parou um pouco longe e me observou.

- Você não vai? - Fiz um biquinho e uma cara de pidona.

- Não. - Ele respondeu secamente.

Dei mais um passinho para trás e senti a pontinha do píer. Se ele não queria vir eu teria que forçá-lo. Comigo não tinha essa história de frescura. Ou fazia.. ou fazia.

- Tudo bem. Você não sabe o que vai.. - Eu não terminei a frase, pois fingi que tropeçava e caia na água. Fingi que não havia visto que já estava na ponta do píer.

- Bella! - Escutei o grito dele, enquanto deixava o meu corpo cair na água gelada. Ela queimava a minha pele e me fazia ter vontade de sair correndo.

Deixei meu corpo afundar-se mais no lago e tentei fazer o mínimo o possível de movimento. Ainda tinha o sorriso maroto nos lábios, enquanto o meu queixo batia de frio e o meu pulmão clamava por oxigênio.

Escutei mais gritos de Edward, cada vez mais desesperados e altos. Não voltei a superfície até o momento em que eu ouvi o seu corpo batendo na água. Suguei golfadas de ar com vontade e procurei Edward com os olhos. Ele ainda gritava o meu nome e tateava a água como um louco.

- Bella? Bella! Aonde você está?

- Aqui. - Respondi travessamente. Ele virou-se e me encarou com um olhar enraivecido.

- Por que você fez isso? - Perguntou todo irritado.

Eu nadei para perto dele tentando esnobar o frio e o quanto ele ficava irresistível irritado.

- Eu não fiz nada. - Deis os ombros e fiz uma cara inocente. - Só estava nadando.

- Nadando? - Ele aproximou-se e pegou no meu braço. - Você simplesmente sumiu e me deixou desesperado! Achei que tivesse se afogado!

- Você está com frio? - Falei com a voz doce e calma.

- O que? - Ele perguntou ainda gritando.

- Você está com frio? - Perguntei de novo.

- Eu estou bravo! Muito bravo! - Ele gritou mais puto ainda.

Eu abri um sorriso largo.

- Ah. Então não tem problema em nadar porque a água não está fria. Vai ter que nadar bravo, vê algum problema? - Eu estava sendo cínica e estava irritando-o ao máximo. Pude vê-lo contrair o maxilar e soltar um bufo irritadiço.

- Vai se fuder, Isabella. - Ele falou com a expressão mais calma.

Comecei a nadar para um pouco mais longe dele. A lua já brilhava no céu sendo assim nossa única fonte de claridade. Aquilo tornava apenas o clima mais romântico e fantasmagórico.

Era estranho pensar que éramos os únicos humanos por ali.

- Relaxe e curta o momento, Doutor. - Eu fechei os olhos e comecei a boiar.

Já havia me esquecido completamente do frio e de qualquer outra coisa. Só queria ficar curtindo o lago que para mim agora estava delicioso.

- Diga o que está passando na sua cabeça agora. - Falei em um fio de voz. Senti que ele se movimentava na água e isso fez com que um arrepio percorresse meu corpo.
Abri os olhos rapidamente e constatei que ele havia tirado as roupas antes de entrar. Estava apenas de cueca.

Arfei e senti que ia morrer. O desejo no ponto mais baixo do meu ventre começou a crescer e ficar insuportável.

- Em como você consegue tudo o que quer. - Ele respondeu um pouco depois. Ou tudo havia acontecido em questões de segundos? Eu estava perdida.

- Mentira! - Encarei o céu estrelado e a lua. - Eu apenas batalho por tudo que quero. Essa é a fórmula mágica.

- Eu também sou assim.

- Não, não. Você é viciado em trabalho, isso sim. - Falei com sinceridade. - É diferente. O que você queria antes? Quais metas você tinha?

- Eu queria ser feliz e não conseguia. - Ele desviou o olhar e passou a mão por cima da superfície da água. Parecia estar um pouco constrangido.

- Você só não sabia como conseguir isso. Agora já está aprendendo. - Sorri e me aproximei nadando.

- Obrigada por me trazer aqui, Bella. - Ele estava com um sorriso sincero nos lábios e nunca esteve tão bonito.

A água em seu peito apenas o tornava mais bonito e atraente para mim. Os seus cabelos molhados o deixavam com um ar mais selvagem. Eu estava me controlando para não agarrá-lo.

- Eu que agradeço por poder vir a um lugar tão bonito e encantador com uma companhia tão boa. - Respondi ao seu sorriso. Sabia que não podia nem chegar a metade da beleza do dele, mas não liguei.

- Companhia tão boa? - Ele deu um sorriso torto e se aproximou.

Senti o meu rosto esquentando e então desviei o olhar.

- Bom.. companhia tão boa graças a minha bela e ótima pessoa. - Joguei um pouco de água na cara dele.

Ele arqueou uma das sobrancelhas.

- Por que fez isso? - Falou fingindo-se de bravo.

- Para desinflar esse seu ego gigante. - Zombei jogando um pouco mais de água e depois beliscando a barriga dele.

Ele revirou os olhos e pegou a minha cabeça me dando um caldo. Eu quase perdi os sentidos e isso não se devia graças ao tanto de água engolida, e sim por conta das mãos fortes de Edward me segurando com intensidade.

Ele me puxou para a superfície novamente e eu cuspi um pouco de água. Havia até parado de me debater em seus braços. Ele me olhou com uma expressão um pouco divertida, porém também preocupada.

- Tudo bem?

- Eu.. - Eu estava meio gaga. - sabia que não conseguiria lutar com a sua força e apenas relaxei.

Ele fez um bico e beijou um dos muques fazendo com que eu risse que nem uma hiena. Onde estava o Edward sério e profissional?

- Você não fez isso! - Gritei histericamente. Dei um murro no braço dele e comecei a rir muito.

- Para de ser assim! Você vai acabar me tornando um cara com complexo de inferioridade! E assim eu vou morrer virgem e sozinho, vivendo à custa da minha boneca inflável! - Ele fez um biquinho e falou de uma forma tão fofa e engraçada que eu não me contive. Eu soltei uma gargalhada mais alta ainda e me aproximei, o abraçando.

- Coitadinho do Edzinho. - Zombei fazendo um cafuné bem maternal.

Só naquele momento me dei conta da situação: Éramos as únicas pessoas em um raio de quilômetros. Estávamos abraçados, semi-nus, provocando um ao outro. O assunto havia chegado no sexo, que era a conversa proibida.

Eu estava completamente ferrada.

Afastei-me automaticamente sentindo que corava. Edward riu da minha reação e passou a mão pelos cabelos em seu gesto vicioso.

Lançou-me um olhar cheio de malicia, foi se aproximando e fez novamente o biquinho.

- A Bella tem que dizer pro Edzinho que ele é bonito e sensual. Só assim ele vai melhorar. - A voz dele estava rouca e ele estava próximo demais.

- O quê? - Franzi o cenho. - Não! Eu não vou falar!

- Ah! Você quer que o seu paciente tenha um futuro infeliz? Hein?

E lá estava de novo o bico irresistível. Será que alguém poderia negar alguma coisa a ele?

- Só porque eu sou lotada de compaixão. - Falei fingindo-me de entediada.

- Vai, vai! - Ele bateu as palmas e pareceu animado. Até aproximou-se mais de mim.

- O Ed é bonito e sensual. - Falei baixinho com o rosto corado.

- O que? - Ele brincou. - Eu não escutei!

- O Ed é bonito e sensual. - Falei um pouco mais alto só que mais rápido.

- Repete. Eu não estou entendendo. -Ele estava com uma expressão demoníaca. De puro prazer.

- Você é bonito e sensual! - Eu gritei. - Escutou agora?

- Ah! Agora sim! - Ele abriu um sorriso gigante e piscou para mim. - Qualquer dia desses a gente marca alguma coisa, gata.

Eu revirei os olhos e soltei uma risadinha. Ele estava querendo acabar com todo o meu autocontrole, não era possível.

- Você é tão idiota. - Comentei antes de voltar a nadar, e dessa vez o mais distante o possível dele.

O tempo passava em uma velocidade incrível quando eu estava ao lado de Edward. Permanecemos mais um bom tempo no lago até quando a pele de nossos dedos enrugou e a água ficou tão fria que era impossível agüentar.

Todo momento era preenchido de brincadeiras e provocações mostrando lados ocultos de Edward. Ele não se parecia nada com o médico frio e indiferente que eu havia trombado no Hospital.

Eu conseguia ver a vida brilhando nas íris verdes dele.

E era por esse homem novo que eu ficava cada vez mais encantada. Cada gesto e palavra feitos por ele eram observados meticulosamente por mim. Os meus olhos haviam se grudado a pele perfeita dele. Eu não conseguia nem ao menos disfarçar.

Provavelmente ele já havia percebido a minha admiração e devia estar rindo por dentro. Eu sentia a todo o momento o meu rosto esquentar e o ar faltando em meus pulmões, mas isso não era o suficiente para eu recobrar a sanidade.

- Eu estou congelando. - Ele falou cortando toda a minha linha de raciocínio. Estávamos caminhando no gramado em direção a nossa barraca. Ambos molhados, trêmulos, enrugados e com os lábios roxos.

- Somos dois. - O meu queixo batia deixando a minha voz engraçada. - Acho que nadar não foi lá uma boa idéia.

- Você já teve umas melhores. - Ele riu baixinho.

Cheguei à mala e a tateei desesperadamente por uma toalha. Meus dedos frios tocavam as roupas causando um arrepio gostoso. Quando senti o tecido felpudo eu quase gritei de alegria. Peguei uma e joguei para Edward, pegando uma pra mim logo em seguida.

Enrolei-me nela como se a minha vida dependesse daquilo.

- Acho que nunca desejei tanto o aquecedor da minha casa. - Edward falou de repente, cortando o frio silêncio.

Nos secamos e eu entrei na barraca para me trocar, enquanto Edward ia ascender a fogueira para que pudéssemos nos esquentar. Eu agradeci a Deus por ser uma mulher nesse momento.

Minutos depois eu estava lá fora, enrolada em um cobertor, ao lado de Edward. A fogueira estava alta e nos aquecia por completo. Todo o frio sentido há instantes atrás já era uma mera má lembrança.

Peguei o saquinho de marshmallow e o balancei para Edward.

- Uh! Que ótima idéia! - Ele falou animado esticando os braços em direção ao doce. - Bem melhor do que nadar!

- Com certeza! - Murmurei enquanto o abria e o espetava em um grande graveto. Fiz uma fileirinha e depois o levei em direção ao fogo. A onda de calor era tão forte que me fazia fechar os olhos e ter vontade de cobrir o rosto.

- Você nunca fala nada de você! - Edward comentou, fazendo com que eu erguesse uma das sobrancelhas para ele.

- Falo sim. Estou a todo o momento falando, Edward. - Revirei os olhos e aproximei o graveto quente de meus lábios.

- Mas não sobre o seu passado. Só sei de coisas que aconteceram depois que você se tornou quem é hoje. - Ele roubou o graveto de minha mão e comeu um de meus doces.

- O meu passado não é nada interessante. Eu era uma cowgirl como qualquer outra. O que mais quer saber? - Peguei de volta o graveto e o levei aos meus lábios, enquanto o encarava.

- Não sei.. - Ele mordeu o lábio inferior e passou a mão pelos cabelos. - Você parece ser uma pessoa tão forte. Às vezes paro e me pergunto se alguma coisa pode lhe abater. Se você tem medos, inseguranças, fraquezas..

- Eu sou uma humana, Edward. - Dei uma risadinha. - É óbvio que tenho todas essas coisas.

- Não é verdade! Sempre está sorridente e alegre! É raro te ver triste ou emburrada.. só quando eu te encho muito o saco ou acontece algo com o sarnento. Você é a prova de balas.

Eu dei uma gargalhada.

- Não! Não! Não! Eu tenho tantos defeitos! São incontáveis! E várias coisas me atingem e abalam... - Você principalmente. Completei mentalmente.

- Certo. Dê um exemplo. - Ele aproximou-se de mim e começou a recolocar marshmallows no graveto.

- Eu tenho um medo absurdo de altura. É algo fora do comum. Portanto consequentemente eu tenho medo de parque de diversões. - Senti um arrepio em minha espinha e então fechei os olhos e fiz uma careta. - O que era para ser algo divertido é uma tortura para mim.

- Parque de diversões? - Ele franziu o cenho e soltou uma risadinha. - Nunca adivinharia.

- Só de pensar em Montanha Russa ou qualquer um daqueles brinquedos eu já sinto o meu estomago embrulhando. - Fiz uma cara de nojo que foi acompanhada de outra risadinha de Edward.

- Achei que você fosse a corajosa aventureira. - Ele zombou.

- Como você mesmo disse, Doutor: Todos temos fraquezas. - Dei um sorriso.

- Mas como você percebeu isso? Foi de repente?

Eu fechei os olhos e tentei mergulhar em lembranças. Tentei lembrar de uma época bem distante que raramente vinha em minha cabeça.

- Não foi exatamente um trauma. Quando fui ao Parque de Diversões pela primeira vez tudo fez sentido. Eu sempre odiara escalar árvores com os meus primos, preferia a terra firme. Mas foi quando eu fui naquela montanha russa demoníaca que a minha aversão ficou séria. Eu lembro de estar com o meu amigo com quem eu havia beijado a primeira vez. Ele estava todo fofinho comigo, segurando a minha mão. Parecia perceber que eu estava trêmula. Eu me arrependi de ter entrado no brinquedo quando o carrinho começou a subir os trilhos para a primeira queda. Comecei a espernear dizendo que queria descer, só que ninguém atendeu o meu chamado. Foi a pior sensação da minha vida. - Fiz uma careta e soltei um gemidinho. - Só lembro depois de estar vomitando na porta do brinquedo.

Edward riu que nem um condenado.

- Só faltava você ter vomitado no pobre do garoto.

- Foi por muito pouco que isso não aconteceu. - Abri os olhos e encarei as chamas. Dei um sorrisinho. - Aquela foi a primeira e a última vez que subi em uma montanha russa.

- Eu adorava Parques de Diversão quando era menor. Ia quatrocentas vezes ao mesmo brinquedo. - Ele deu o seu famoso sorrisinho torto.

- E você? Quais sãos seus medos? Excluindo o pedalinho, óbvio.

- Ah.. eu tenho vários medos. - Ele corou e desviou o olhar.

- Eu contei o meu, agora é sua vez. Essa aqui é a roda da verdade!

- Certo. - Ele puxou o ar com força e fez uma caretinha. - Desde que eu era garoto eu tinha medo de Bailes. Odiava toda aquela história de Baile da Escola. É meio estranho.. só que só a menção desse nome era capaz de me deixar com uma tremenda dor de barriga.

- E depois você zomba o meu medo! - Falei indignada. - Achei que o mundo todo gostasse de bailes!

- Ah, não! Eu não sei se o que mais me assustava era a idéia de dançar com uma garota ou convidá-la para me acompanhar. Eu tinha medo de fazer tudo errado e acabei meio que odiando a idéia. Sempre quando aparecia alguma coisa eu fingia-me de doente ou algo parecido para conseguir me livrar.

- Você sempre esta fugindo das coisas mais divertidas, Doutor.

- É você que tem medo de Parque de Diversões, não eu. - Ele devolveu com categoria fazendo uma caretinha.

Eu ri e revirei os olhos.

- Certo, certo. Nós dois somos estranhos.

- Você é mais estranha que eu! Não tem essa de igualdade! - Ele pegou um dos marshmallows e jogou na minha cabeça.

Eu soltei um gritinho agudo e lancei um olhar mortífero para ele.

- Não faça isso! Não desperdice essas maravilhas! Se quiser jogar alguma coisa pegue as ervilhas!

Ele deu uma gargalhada histérica.

- Você é anormal. - Falou com os olhos brilhando. - Mas eu quero outra confidencia. Diga, diga!

- Nada disso! A Missão é sua e não é minha, Doutor. Controle a sua curiosidade. - Eu desviei o olhar e tentei ao máximo esquecer aquele assunto. - Eu sei que tem uma coisa que você está me escondendo.

- Quê? Não! - Ele franziu a testa.

- Você não tem medo só de bailes... - Deixei a frase no ar para que ele captasse a idéia e me explicasse o que tanto o incomodava.

- Eu tenho muitos medos assim como você. - Ele deu os ombros.

- Eu percebi que você fica um pouco tenso quando o assunto é a sua família.

Ele me lançou um olhar profundo e depois de alguns segundos de silêncio finalmente assentiu.

- Eu tenho vergonha do que falei e do que fiz. Eu não tenho coragem de reencontrá-los. Eu tenho medo do que possa ouvir ou ver. - Sua voz não passou mais do que um sussurro. Ele abaixou a cabeça e ficou sério.

Instintivamente eu me levantei e me aproximei dele. Eu não tinha comando nenhum sob meu corpo. Ele agia sozinho sem nem ao menos depender de meus impulsos nervosos.

É como se Edward estivesse me atraindo e me puxando para sua órbita.

Sentei-me bem perto dele e toquei o seu braço em um gesto de apoio e até mesmo conforto. Eu sabia como era sentir-se estranha em relação à própria família. Esse havia sido um dos grandes motivos para eu ter decidido ir embora.

Sabia o quanto isso era torturante e ruim.

- Não tenha medo e receio de se desculpar, Edward. Todo mundo erra. - Sussurrei meio entorpecida.

Parecia que tudo estava agindo por conta própria. Meus lábios, minhas mãos, todo o meu corpo..

- É difícil. - Ele soltou um longo suspiro.

- Eu sei que você consegue. - Levantei o rosto dele com a ponta dos meus dedos e o encarei intensamente.

Naquele momento todo o meu autocontrole esvaiu totalmente de meu corpo deixando apenas espaço para o desejo que se acumulava em meu peito. Os meus lábios secaram e eu senti a necessidade de beber o gosto dele, de saciar a minha sede naquela boca perfeita.

- Você tem muita fé em mim, Bella. Não acho que mereço tanto. - Aquele mero sussurro fez com que o seu hálito quente batesse em meu rosto acabando com qualquer resquício de sanidade que ainda restava nas minhas entranhas.

- Você tem que ter um pouco de mais fé em você. Você merece muito mais do que pensa. - Falei em um fio de voz. Eu parecia uma gralha desafinada ao lado do som gutural e melodioso que ele emitia.

Maquinalmente nós fomos aproximando-nos. Parecia algo óbvio. Algo que definitivamente tinha que acontecer. Algo que havia sido escrito e premeditado. Era tão certo, não conseguia enxergar nada contra aquilo.

Seus lábios gritavam pelos meus. O meu corpo ardia de vontade pelo dele. A minha língua explodia de desejo de conhecer a textura dele. Minhas mãos coçavam por acariciar a pele macia.

Eu estava louca. Louca por ele.

Tive um lampejo de realidade quando nossos rostos já estavam muito próximos. Todos os motivos que havia misteriosamente desaparecido de minha mente ressurgiram, fazendo com que eu me afastasse brutamente.

Senti o meu rosto corar de vergonha, portanto levantei-me em uma desculpa esfarrapada de esconder a vermelhidão.

- Você tem um potencial muito grande.. - Falei como se nada tivesse acontecido.

Escutei um grunhido saindo dos lábios dele e instantes depois mãos tocando os meus braços e me rodando rapidamente. Senti uma leve tontura e por alguns instantes pensei que fosse cair, porém ele estava lá para me segurar.

- É isso que mais me incomoda! - Ele falou irritadiço. - A sua distância! A mascara que você de repente criou! Eu quero a Bella autentica e espontânea de antes! Você diz que presa tanto a verdade, mas não cumpri as suas próprias regras!

Eu abri a boca e não saiu nada dali. Palavras não sabiam descrever o que se passava dentro de mim.

- Eu não quero que as coisas fiquem estranhas para nós. - Sussurrei baixinho. - Me desculpe por ser fraca.

- Você é a única que está tornando as coisas estranhas.

As palavras verdadeiras dele caíram como um baque na minha mente. Eu estava agindo exatamente como eu tentava ensiná-lo a não agir. Eu estava sendo a pessoa mais hipócrita do mundo.

- Esqueça as conseqüências e todo o resto.. apenas seja você mesma. - Ele sussurrou com a voz mais calma e doce.

Eu assenti e dei um sorriso fraco.

- Eu só quero que seja verdadeira comigo e consigo mesma. - Ele estava mais perto. Esticou a mão lentamente e tocou em meu rosto com carinho. Senti um arrepio gostoso. Sua mão estava fria e deliciosa sob minha pele, ele poderia ficar tocando-me pela eternidade que eu adoraria. - Meu deus!

- O quê? - Perguntei meio confusa. Estava meio lenta e tonta.

- Você está muito quente. - Ele fez uma pressãozinha em minha bochecha com a sua mão. Eu fechei os olhos e sorri com o contato gelado e refrescante.

- Deve ser a proximidade com a fogueira. - Instintivamente aproximei-me um pouco mais.

- Não diga besteiras. Você está conversando com um médico, esqueceu? - Ele passou a mão pela minha testa. Abri os olhos quando percebi certa aproximação. Ele estava colando o seu rosto ao meu. Em vez de vir me beijar como eu imaginei que ele faria, ele simplesmente colocou nossas bochechas. - Por que não falou que não estava se sentindo bem?

- Eu estou ótima! - Franzi a testa e quase soltei um gemido ao vê-lo distanciar o seu rosto do meu.

- Ótima?! Você está ardendo em febre! - Ele ralhou nervoso.

- Não é nada! - Falei me desvencilhando de suas mãos e me afastando.

- Você vai ir deitar agora mesmo! - Ele me pegou suavemente pelo braço e me guiou para a cabana.

- Não estou com sono! É cedo ainda, Edward! - Gemi em protesto, porém sem lutar contra sua força.

- Você quer morrer? Eu acho que não.. então é bom entrar nessa barraca e deitar.

- Como você é melodramático. - Revirei os olhos e soltei um longo suspiro.

Ele entrou primeiro que eu e comecei a ajeitar as coisas em uma velocidade incrível.

Eu não havia percebido o quanto a minha cabeça estava pesada e quente em relação ao meio. Não tinha conseguido sentir o mal estar que preenchia o meu corpo e que me deixava sonolenta.

Observei Edward retirar o próprio cobertor colocando-o em cima do meu saco de dormir. Ao que pareceu milésimos depois as suas mãos estavam nas minhas costas, guiando-me cuidadosamente para baixo das cobertas.

Dentro das cobertas ainda estava gelado o que me fez ter um leve estremecimento. Edward sentou-se ao meu lado e ficou me encarando com os olhos brilhando em preocupação.

- Nadar foi definitivamente uma péssima idéia! - Ele resmungou baixinho.

- Fique tranqüilo, Doutor. - Falei com a voz um pouco manhosa e molenga. - Não é como se eu estivesse morrendo. Vaso ruim não quebra.

Ele me lançou um olhar mortífero e começou a ajeitar as cobertas sob meu corpo. Cobriu-me até o pescoço.

- Você está fritando de febre, estamos no meio do nada, sem Hospitais e nem ao menos uma alma viva para nos ajudar! Não consegue ver a gravidade? - Ele pegou a mala que estava ao seu lado e começou a procurar alguma coisa freneticamente.

Seus dedos movimentavam-se muito rápido e deixavam-me meio zonza.

- Você está exagerando, Edward. - Bufei. - Eu estou com um médico. Que companhia melhor eu poderia ter?

Ele não respondeu. Apenas retirou o que quer estivesse procurando na mala e passou em minha cabeça. Estava gelado e úmido pegando-me de surpresa fazendo com que eu levasse um sustinho.

- Calma.. - Ele sussurrou. - Eu molhei a minha camiseta com água. Não tem como você tomar um banho pra diminuir a temperatura e então esse é o melhor que posso fazer.

Eu dei um grunhido como resposta e fechei os olhos. A sensação de tê-lo perto de mim era boa, principalmente ao sentir o cuidado e o carinho que ele estava tendo. Era gratificante notar a preocupação em cada gesto.

Coloquei a minha mão sob a dele e percebi que ele tremia. Abri os olhos no mesmo instante e o encarei com o cenho franzido.

- Você está com frio. - Falei meio grogue.

- Não importa. Eu não estou com febre. - Ele deu um sorrisinho e retirou a camiseta de minha testa para colocar mais um pouquinho de água.

- Mas você vai acabar ficando e aí sim a situação vai se agravar. - Ralhei com a voz autoritária e preocupada ao mesmo tempo.

Ele deu um risinho e revirou os olhos.

Ficamos em silêncio novamente. Apenas escutava o som de nossas respirações e dos nossos corações batendo. Edward continuava a tomar conta de mim, enquanto eu o encarava com os olhos brilhando.

Para qualquer pessoa de fora que visse aquela cena provavelmente pensaria que éramos um casal apaixonado. Para mim: Não passávamos de duas pessoas que se desejavam desesperadamente.

De repente um barulho estranho e diferente vindo da mata me sobressaltou. Encarei Edward com os olhos arregalados. Ele me olhava com uma expressão desconfiada e temerosa. Automaticamente colocou a mão em mim em um gesto protetor.

- Você ouviu isso? - Eu sussurrei.

Ele assentiu.

- Está com medo? - Perguntou com o tom de voz tão baixo quanto o meu.

- Não. Por quê?

- Você está tremendo, Bella. - Ele passou os dedos em minha bochecha a corando automaticamente.

- É frio. - Falei sem graça. Não gostava de me sentir vulnerável pra ele.

Ele não falou nada, apenas tirou a mão de meu rosto e começou a tirar a camiseta. Eu o encarei com uma das sobrancelhas erguidas, esperando uma explicação. Será que ele havia decidido que iríamos transar?

- O que é isso? - Perguntei em um fio de voz.

Ele aproximou-se e olhou profundamente em meus olhos. Ainda sentia o meu rosto queimando por culpa da febre e agora também por conta do sangue que ali se acumulava.

- Você se importaria se eu deitasse com você no saco de dormir? - Ele havia sido tão gentil e cavalheiro que eu quase derreti.

- Não. - Falei bem baixinho.

Ele veio e eu o ajudei a entrar no pequeno espaço quente que eu estava. Seu corpo colou-se ao meu e eu instantaneamente fiquei arfante. Ele pareceu meio tenso, porém tinha um sorrisinho nos lábios que contradizia o seu corpo.

- Calor corporal é bom para você. - Ele sussurrou. - O frio vai melhorar.

- Que bom.

Em um pedido mudo ele me abraçou carinhosamente e me colocou em seu peito nu. Eu conseguia ouvir o seu coração galopar em uma música bela e compassada.

Coloquei a minha mão em seu abdômen e comecei a fazer algumas caricias.

A pele dele era muito macia.

- Eu estou com medo agora. - Sussurrei em seu ouvido.

- Medo de que, Bella? - Ele perguntou enquanto começava a passar as mãos pelas minhas costas.

- Medo de tudo dar errado. Medo de não conseguir cumprir o que prometi.

Ele me apertou com um pouquinho de força em seus braços para me passar segurança. Senti por uns instantes como se realmente pertencesse àquele lugar. Senti-me segura e feliz.

- Eu confio em você. - Ele beijou o topo da minha cabeça.

Fui sentindo o meu corpo indo relaxando aos poucos. Fechei os olhos e me concentrei no odor fantástico que exalava do corpo dele. Também não conseguia esquecer de suas mãos que me acariciavam.

Tudo nele me atraia e me fazia desejá-lo mais e mais.

- Eu também estou com medo. - Ele falou de repente.

- De que, Edward?

- De que você volte a ficar distante e estranha. - Eu consegui sentir a tristeza e o receio na voz dele.

- Isso não vai acontecer. Eu estou prometendo. - Falei com a voz confiante.

Eu havia me decidido naquele momento: Deixaria a vida me levar e só depois lidaria com as conseqüências.

Seria eu mesma, porque pra ele isso bastava. E a felicidade dele era o meu propósito.

Fim do Capítulo IX


Nota da Autora: Mais um capítulo gigante para vocês! Espero que tenham gostado! Agora podemos começar a perceber o interesse de um no outro, assim como os medos de Bella.

É um bom capitulo para conhecê-los mais um pouco e para ver o companheirismo entre eles.

Eu adorei escrever!

O número de reviews caiu um pouco, mas isso é comum. Agradeço a todos que lêem essa fic e peço para os famosos BBB's se apresentarem e deixarem uma pequena resenha sobre a história. Isso me ajudaria muito.

Avisinho: Estou com uma fic nova. "Punishment". Espero que gostem. Nela tem vampiros, sangue e tudo isso. Eu estou adorando escrevê-la. Era para ser apenas uma one-shot, mas acabou crescendo mais do que o previsto.

Se tiverem tempo, deem uma olhada no meu perfil, ok?

Beijinhos, amores! E até a próxima!