Capítulo 10

A música da recepção do consultório parecia estranhamente alta com o silêncio desconfortável entre mim e Jazz. Rose entrara na sala de consulta com Esme segurando-a protetoramente havia meia hora. O consultório estava vazio, a médica amiga de Esme havia aberto o consultório naquele horário apenas para nós. Era seis e meia, e não ouvíamos nenhuma grande movimentação na rua.

Suspirei, esfregando o rosto e me afundando ainda mais na cadeira. Jazz estava sentado ao meu lado, tão tenso quanto uma pedra. Éramos dois marmanjos sentados num pequeno banquinho de madeira branco e estofado florido numa sala com paredes rosas e quadros de mulheres nuas grávidas.

-Quando vai me contar exatamente o que aconteceu? - Sua voz profunda invadiu o ambiente de repente.

-Não sei o que está falando - eu o olhei, os olhos castanhos queimavam em minha direção - Te contei tudo que eu sabia.

-Está mentindo - ele falou, fitando a única parede verde em nossa frente - Você está envolvido nisso de alguma forma.

-Está querendo dizer que - eu comecei revoltado, mas ele me interrompeu.

-Não foi isso que eu falei - ele permaneceu inexpressivo - Estou dizendo que você sabe de mais coisas, coisas que Rose compartilhava com você e comigo, não.

Arregalei os olhos e quase engasguei. Como ele sabia de algo assim? Seus olhos se desviaram para minha direção e me fitaram como se pudesse ver através de mim. Jasper sabia fazer isso como ninguém.

-De onde surgiu com isso? - foi a frase mais elaborada que consegui montar no momento.

-Ela não teria procurado você se fosse diferente - ele suspirou - Rose sempre foi impulsiva, mas jamais procuraria uma pessoa aleatória como você nessa circunstância.

Eu quase sorri. Jazz era o filho da pura mais esperto que eu conhecia. Era extremamente calmo, quase nunca demonstrava emoções, mas está sempre observando, lendo pessoas como livros. E ele sabia sobre Rose tanto quanto sabia sobre mim.

-Você é tão observador - eu suspirei.

-Você vai me contar - ele cruzou os braços fortes sobre o peito e se recostou na parede -Me deve isso.

-Eu sei, mas não posso - eu suspirei - Ainda não sei muito. Rose não me contou muita coisa.

A porta se abriu e Esme saiu com Rose. Ela segurava uma pilha de papeis de exames e prescrições.

-Podemos ir - Esme falou para nós.

Jazz e eu nos levantamos juntos e seguimos para o elevador.

-Precisamos passar numa farmácia antes de deixá-los em casa - Esme falou enquanto segurava a mão de Rose, que fitava o chão em branco.

Assenti e depois de ter entrado no Volvo, paramos na primeira farmácia aberta da região. Esme desceu para comprar os remédios, ignorando o dinheiro que Jasper ofereceu.

Deixei os dois em casa, pedindo para me ligarem mais tarde. Dirigi para nossa casa, me sentindo esgotado. Esme fitava a janela, seu rosto tinha uma expressão tão triste enquanto fitava o tímido movimento da cidade em nossa volta.

-Tão triste o que aconteceu - ela falou de repente - Espero que ela melhore logo.

-Obrigado, Esme - eu falei, olhando-a parecia que pela primeira vez em anos - Se não fosse você, não saberia como reagir a tudo aquilo.

O sorriso brotou em seus lábios assim que terminei de falar. Mas antes que ela pudesse responder qualquer coisa, virei o rosto para a rua, voltando a acelerar. O silêncio voltou, mas percebi que o suave sorriso o rosto dela não havia se desfeito.

Quando chegamos em casa, o carro do meu pai já estava estacionado na garagem. Assim que puxei o freio de mão, meu pai surgiu pela porta da frente, os olhos arregalados quando viu Esme descendo do meu carro.

-Mas o que diabos aconteceu?! - ele gritou.

Esme se apressou e andou até ele, puxando-o para dentro. Suspirei e desci do carro, trancando. Agora que eu estava sozinho, era o momento de fazer algo que eu estive morrendo pra fazer desde que Rose chegou lá em casa.

Encostei-me ao capo do carro e peguei o celular do bolso. Disquei o numero de James. Chamou diversas vezes, e caiu na caixa postal. Suspirei irritado e liguei novamente. Liguei cinco vezes e nada do filho da puta atender. Quando a voz de James surgiu, o ódio correu em minhas veias. -"Você ligou para o James. Não posso atender no momento, mas assim que puder, retornarei s ligação" - a gravação formal foi ideia de seu pai, que eventualmente tinha sócios ligando para o filho.

Assim que o bipe saiu, respirei fundo.

-James! - eu gritei no telefone - Seu filho da puta! Que porra você fez com Roselie?! - eu suspirei irritado - Estupra-la ultrapassou os limites! - eu rugi - Quando eu te encontrar, vou te bater tanto - eu apertei meu celular - Filho da puta! Desgraçado! Vi-.

O bipe do limite de tempo da mensagem soou, encerrando a chamada. Eu suspirei, querendo bater em algo. Minhas mãos tremiam conforme a passei pelo meu cabelo.

-Não acredito que você é amigo da pessoa que fez isso com Roselie - uma voz feminina surgiu atrás de mim.

Virei-me assustado para encontrar os olhos castanhos de Bella. Ela estava sentada no banco traseiro de um taxi.

-Bella? - eu falei - Não é o que está pensando! Não sou amigo dele!

-Eu vim aqui ver se você precisava de ajuda - seus olhos se encheram de lágrimas - Mas parece que você não precisa. Sabe muito bem com quem está lidando.

-Bella, espera - eu pedi - me deixa explicar. James nunca foi um amigo, era mais...

-Esquece, Edward! - ela olhou pra frente - Não acredito que anda com monstros como essas pessoas que fazem isso.

E seu taxi começou a andar. Não pude fazer nada além de observá-lo se afastar. Ela estava certa. Quando eu comecei a andar com James fazíamos brincadeiras inofensivas, mas as coisas mudaram sem eu perceber. Em algum momento, as brincadeiras não eram mais tão inofensivas, em algum momento, paramos de nos contentar com o mínimo, mas eu jamais chegaria ao ponto em que James chegou. Eu só não estava enxergando, mas em algum ponto, James avançou e eu não quis acompanhar.

A imagem de Rose logo veio em minha mente, lembrei-me de seu desespero, dos seus machucados. A raiva voltou em mim só de imaginar por tudo que ela tinha passado. Afastei as imagens da minha cabeça e voltei para o carro. Ia arrumar as coisas agora mesmo.

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Parei na frente da casa de James. Analisei a imponente construção com o colorido jardim. A casa tinha um ar feliz, vendia a imagem de família perfeita. Era a ultima coisa que eles eram. Desliguei o motor do carro e desci. Pude ver que o carro de James estava estacionado na garagem, o deu seu pai, não. Bati na porta e a empregada latina atendeu a porta.

–Oh – ela sorriu – Senhor Eduardo! Entre! O Senhor James está lá em cima no quarto. Vou anuncia-lo – ela começou a subir as escadas, mas eu pousei minha mão em seu ombro.

–Ora, Consuelo – eu sorri – Desde quando preciso de formalidades aqui? – perguntei, me sentindo impaciente para subir logo e encontrar com James.

–Ah sim – ela sorriu – É verdade. Pode subir então – ela assentiu e desceu os poucos degraus que havia subido.

Sorri de volta, tentando parecer tranquilo. Subi as escadas o mais silenciosamente possível e quando cheguei à porta do quarto de James, pousei a mão na maçaneta. Surpreendi-me ao notar que minhas mãos tremiam. Abri a porta e James estava confortavelmente deitado na cama, o celular rosa de Roselie brincando em suas mãos.

–Ei, Edward – ele sorriu pra mim – Roselie foi tão boazinha ontem – abriu um largo sorriso – Até me entregou o celular e prometeu que nos deixaria em paz.

–Você que armou aquilo? – eu precisava perguntar, mesmo sabendo a resposta.

–Não foi exatamente armado – ele rolou os olhos, sentando-se na cama – Foi uma coisa mais... Espontânea! A oportunidade estava lá, nós aproveitamos.

–Nós? – eu senti meu estômago embrulhar.

–Não achou que eu fiz tudo aquilo sozinho, acha? – ele balançou a cabeça – Éramos três – ele riu – Mas pode ficar tranquilo. Eu não encostei um dedo nela, só peguei o celular.

Ele andou até mim e pousou as mãos em meus ombros.

–Não acredito que vá me entender – ele falou com superioridade – Mas foi um mal necessário, Edward. Fiz isso por nós.

Aquele foi o ápice. Minha mão coçou e eu a fechei em punho, acertando em cheio o queixo de James.

–Seu filho da puta! – eu gritei avançando para ele – Você passou dos limites, James! – eu dei outro soco, o fazendo cambalear – Você não tem noção das suas atitudes!

–E você? – ele gritou - Você está se fazendo de bonzinho agora por quê? – ele andou em minha direção e me empurrou – Estou fazendo isso por nós! Ninguém pode provar nada contra nós, Edward!

–Eu te falei que tinha tudo sob controle! – eu gritei, sentindo o irritante nó em minha garganta – Você tem noção do que fez para ela?! – eu o empurrei de volta – Seu merda.

–O que foi, Edward? – ele riu – A aleijadinha te mudou?

O frio subiu em minha espinha e minha reação só foi encará-lo.

–O que você disse? – o sangue voltou a funcionar e eu avancei pra ele – Do que você a chamou? – dei mais uma sequencia de socos nele.

–Aleijada! – ele gritou e me segurou pela camisa, me encostando contra a parede e me dando uma joelhada na costela. – Acha que eu não sabia por onde você andava? – ele perguntou enquanto me largava e eu me ajoelhava no chão – Aquela paraplégica é o seu "amiguinho", né? Porra, Edward – ele riu – Como foi que você foi cair de quatro pela aleijada?

–Você só tá com inveja – eu gemi – Porque eu tô seguindo minha vida. Você me inveja porque eu ainda tenho esperança – eu me levantei – Eu tô vivendo uma coisa que você nunca vai conseguir. Fica aí, se remoendo porque sua mãe fugiu com outra mulher e te deixou pra trás com seu pai bêbado.

O rosto de James se distorceu e ele se jogou contra mim.

–Eu não tenho inveja de você – ele gritou enquanto nós nos batíamos – Seu pai mata sua mãe e você tá transando com uma cadeirante!

–Seu estuprador de merda! – eu bati mais nele, conseguindo derrubá-lo – Você não sabe de nada! Filho da puta!

Eu ia montar em cima dele, mas um golpe em minhas costas me lançou para longe. Virei-me, achando que poderia ser algum amigo de James quando me deparei com Jasper subindo em cima de James e batendo nele como eu nunca tinha visto. Seu rosto estava distorcido pelo ódio, os olhos queimando conforme suas lágrimas escorriam. Pego de surpresa, James não conseguia reagir ou se defender.

Ouvi a porta fechar e meus olhos quase saltaram das órbitas quando vi Emmett fechar a porta e puxar Jazz para trás, dando um ultimo soco, mais forte que todos que demos, fazendo com que James desmaiasse.

–Foram três! – Jazz gritou, avançando para o James desacordado, mas sendo impedido por Emmett – Aquele filho da puta! – Jazz desmontou no chão e me olhou, os olhos vermelhos – Edward! Esse filho da puta armou pra minha irmã!

–Eu não acredito que isso tenha acontecido com ela! – Emmett segurou a cabeça, o assombro em todo seu rosto.

–Vamos sair logo daqui – eu falei pegando o celular de Rose em cima da cama – Nos encontramos no parque municipal do centro. É melhor que ficar aqui.

Olhei para James desmaiado no chão, mas nenhum sentimento surgiu. Nada da amizade que tivemos significou alguma coisa. Descemos as escadas e Consuelo estava com os olhos arregalados nos fitando. Cumprimentei-a como se estivesse tudo bem e saímos pela porta da frente. Cada um entrou em seu carro e seguimos para o parque municipal. Quando chegamos, sentei-me num banco de madeira.

–Quem foi os outros dois? – Jasper perguntou, os olhos castanhos vidrados enquanto me encarava.

–Eu não sei! – eu gritei – Não estou envolvido nessa merda – eu me levantei – Estou tão revoltado quanto vocês. – eu parei – Como chegaram lá?

–Eu te segui – Jasper falou sem me olhar.

–Bella me disse sobre James – Emmett disse.

–Bella está em casa? – eu perguntei.

-Não desvia o foco - ele rosnou - Quero saber exatamente o que aconteceu. O que não sabemos?

Eu suspirei.

-Rose tinha um vídeo comprometedor de James e estava chantageando ele - eu suspirei - Ela só queria que eu a ajudasse a desmentir os boatos dela ter transado com alguns caras.

-É boato? - Emmett perguntou surpreso.

-É claro que é! - Jazz gritou o olhando com revolta - Minha irmã era uma maluca socialmente, mas no fundo é uma freira - eu lancei um olhar cético para Jazz e ele revirou os olhos - Tá... Talvez não uma freira, mas vocês entenderam.

-Ela queria desmentir todos por sua causa - eu olhei para Emmett - Pra você saber que era tudo mentira.

Emmett chutou a grama, e cruzou fortemente os braços no peito balançando a cabeça.

-Não acredito que isso esteja acontecendo com ela - ele falou tristemente - Eu queria me aproximar dela, mas agora...

-E não vai mais? - Jasper se aproximou de Emmett e o empurrou - Agora ela não presta pro Capitão do time, é? Rose é muito melhor que qualquer vadiazinha que você tenha transado!

-Eu sei - Emmett se fez ser ouvido - Estou dizendo é que ela que não vai querer nada comigo! Ainda mais depois do que aconteceu!

-Não precisa pular em cima dela e arrancar suas roupas - eu falei - Seja amigo dela - eu suspirei, passando as mãos em meus cabelos - É só isso que ela vai querer e precisar por um bom tempo.

-E porque era você que ia ajudá-la, e não James? - Jasper perguntou. Aquele safado pegava as coisas no ar.

Emmett me olhou com interesse, esperando uma resposta. Não respondi, apenas fitei o chão.

-O vídeo é sobre você também, né? - Jazz concluiu com convicção.

Eu levantei, me sentindo completamente cansado.

–Preciso procurar Bella – olhei para Emmett – sabe onde ela está?

–Porque quer ir atrás de Bella? – ele cruzou os braços – Ela é boa demais pra você.

–Rose é boa demais pra você também – Jazz me defendeu.

–É – eu rolei os olhos – E Alice também é boa demais para Jazz – eu cruzei os braços – Somos três merdas querendo meninas que não merecemos.

–Você gosta de Alice? – Emmett perguntou surpreso. Jazz me lançou um olhar mortal e eu dei de ombros.

–Podemos pular essa parte? – Jazz cruzou os braços.

–O que vamos fazer então? – Emmett perguntou – Não acho que vocês mereçam Al e Bella.

–Eu não acho que você mereça Rose – Jazz estufou o peito.

–E se eu tivesse uma irmã, vocês também não iam merecê-la - rolei os olhos - Que tal deixarmos as coisas rolar – eu dei de ombros – Mas se alguém aprontar, vai levar.

Eles se entreolharam e um sorriso maléfico surgiu nos lábios de Jasper enquanto nos de Emmett, surgiu um feliz.

–Acho que temos um Tratado dos Cavalheiros – ele deu de ombros – Mas vou ficar de olho em vocês.

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Estacionei na frente da casa de Bella. Sra. Marie estava na livraria aquele horário. Desci do carro e subi os degraus. Suspirei na frente da porta e toquei a campainha.

–Vai embora, Edward – Bella gritou de dentro da casa.

–Eu vim explicar – eu falei – Por favor, Bella, me deixe entrar.

–Não quero você aqui dentro! Como pode andar com pessoas assim?

–Bella – eu apoiei minha cabeça na porta – Não posso te perder agora – eu suspirei – Eu te conto tudo que quiser saber, mas por favor – eu pedi, sentindo o desespero rastejando pela minha espinha.

No silencio que se seguiu, eu quis gritar. Bella não entendia o que havia se tornado pra mim. Ela era a calma que eu não havia sentido desde o acidente da minha mãe. Era como se sua presença aliviasse a dor e trouxesse de volta o bom senso. Quando estava com ela, não precisava ser um revoltado. Ser apenas o Edward era o suficiente. E eu conseguia ser o velho Edward quando estava com ela.

–Não me deixe sozinho agora – eu implorei. Sentindo a culpa pelo o que havia acontecido com Rose, que indiretamente era minha também.

Bella abriu a porta, me olhando com desconfiança, mas depois de um segundo, a desconfiança abriu espaço para o assombro.

–Oh meu Deus, Edward! – ela gritou – O que aconteceu com seu rosto?

–Briguei com James – eu falei – Fui até a casa dele e bati nele.

–Ótimo – ela parecia satisfeita.

–Posso entrar?

–Pode – ela abriu espaço, e eu caminhei para o sofá.

–Vá para a cozinha, é mais iluminado lá – ela rolou as rodas de sua cadeira – Vou pegar a caixa de primeiros socorros.

Sentei-me na cadeira de madeira e esperei Bella voltar com uma maletinha branca em seu colo. Ela abriu a maleta sobre a mesa e se aproximou de mim, tão próximo que senti minha mão formigar para tocá-la.

–Obrigado – eu falei enquanto ela limpava meu rosto com uma gaze húmida.

–Não tem problema – ela suspirou e me olhou cheia de desapontamento – Porque anda com esse James?

–Andava. – eu corrigi.

–Porque andava com esse James? – ela rolou os olhos – Fiquei tão surpresa quando ouvi sua conversa. O que aconteceu com Rose foi pior que se ele tivesse a matado. E você é amigo dele? Por quê?

Eu suspirei e fitei o chão. Estava na hora de começar a falar.

BPV

Edward tinha o rosto bem machucado, a maçã esquerda do rosto estava ligeiramente inchada e o lábio inferior estava cortado, mas ele não parecia notar. O que me fez imaginar que ele já esteve em situações assim antes.

Eu tinha falado sobre o que achava desse amigo dele. Saber que Edward andava com esse tipo de gente me assustou um pouco. Era como gostar de um cara e descobri que tinha um lado mau. Pior que você pudesse prever. Se seu amigo podia fazer coisas como a que fez com Roselie, o que ele mesmo não poderia fazer, ou já ter feito?

–Não sei como fazê-la entender – ele finalmente tirou os olhos do chão e me olhou. O choque atravessou meu rosto quando vi o seu. Toda sua expressão estava possuída pela dor, uma dor que eu nunca havia presenciado antes em seus olhos. – Não sei como te explicar.

Afaguei seu rosto, tentando tranquiliza-lo. Ele segurou minha mão contra sua bochecha e fechou os olhos.

–Me conta desde o inicio – eu falei – Pode me contar tudo que sentir que precisa.

Ele se levantou e me empurrou de volta para a sala. Encostou minha cadeira perto do sofá e, para o meu alívio, me sentou na fofa almofada. Meu bumbum secretamente agradeceu. Ele sentou-se ao meu lado, e para o meu espanto, pegou minhas duas pernas e esticou-as em seu colo. Abaixei um pouco meu short jeans, tentando cobrir um pouco mais das minhas coxas. Edward não pareceu notar, apenas fitava minhas pernas e passava suavemente os dedos sobre minha pele.

–Eu tinha um irmão mais velho – ele falou, seus olhos verdes se focaram em mim – Seu nome era Leonard – Ele sorriu levemente – Na época eu tinha quatorze anos, Leo tinha dezoito. Sempre fez sucesso com as garotas. Ele era loiro e alto. Jogava no time de futebol da escola, apesar de não ser o jogador principal, era muito popular. Sempre quis ser como ele.

–Ele parece ser ótimo – eu falei secretamente surpresa com a menção de um irmão mais velho que ele nunca falara sobre, tentei imaginar uma versão loira de Edward e um tipo ideal de irmão mais velho.

–Ele era. Implicava muito comigo, às vezes me irritava, mas sempre foi um bom irmão. – ele sorriu e balançou a cabeça, como se tivesse se lembrado de algo – Eu sempre enchia seu saco pra ele jogar bola comigo. Ele nunca me deixava ganhar.

–O que aconteceu com ele? – perguntei suavemente. Seus olhos voltaram para minhas pernas e ele continuou desenhando com a ponta dos dedos sobre ela.

–Ele tinha uma apresentação de piano numa sexta-feira a noite – eu podia jurar que o verde dos seus olhos escureceu – Meu pai estava de plantão e eu não queria ir, então minha mãe levou-o. Ela adorava nos ver tocar.

–Você toca? - perguntei surpresa.

–Não mais – ele respondeu rapidamente, num tom incisivo.

–E o que aconteceu? – eu perguntei, voltando para o assunto principal.

–Quando eles estavam voltando, - Edward suspirou pesadamente – Um carro atravessou o sinal vermelho no cruzamento que eles estavam. Ele veio do lado direito, acertando o lado do meu irmão. Leo morreu na hora – lágrimas começaram a escorrer de seu rosto – Mas minha mãe... – ele balançou a cabeça – Ela sofreu uma lesão muito séria na coluna, no pescoço pra ser mais preciso.

O frio subiu minha espinha e eu prendi a respiração. O nó se formou em minha garganta ao fitar Edward naquele estado, me contando a historia mais triste de sua vida.

–Meu pai recebeu-a em seu departamento, mas não havia nada que pudesse ser feito – Edward me olhou – Eu lembro até hoje de quando ela acordou e recebeu a noticia de meu pai. Leo havia morrido e ela estava tetraplégica.

–Eu sinto muito, Edward – eu estendi meus braços para ele. Quase imediatamente ele me puxou para seu colo e envolveu minha cintura. Deitei minha cabeça em seu ombro e ele apoiou sua bochecha em minha testa.

–Eu sei – ele suspirou – Ela respirava com ajuda de aparelhos e não podia mais se mexer pra nada. Minha tia se mudou para a cidade para nos ajudar, cuidando de mim e de minha mãe. No inicio ela parecia razoavelmente bem, tão bem quanto se poderia ficar, mas com o passar dos meses, ela foi perdendo o brilho que sempre teve. Foi se tornando fria e quase não falava com mais ninguém.

Engoli seco. Lembrei-me de Edward lavando meu cabelo e pensei em quantas vezes ele não lavou o de sua mãe depois do acidente. Imaginei Edward jovem ajudando sua tia a cuidar da sua mãe amargurada, enquanto lidava com a perda do irmão. Ninguém está preparado para esse tipo de situação.

–O que houve? – consegui perguntar quando Edward parecia perdido em lembranças.

–Ela começou a falar muito sobre a morte. Ela queria morrer – ele suspirou – Pediu ao meu pai que acabasse com o sofrimento dela. Ele não queria aceitar de maneira nenhuma, eu tentava alegrá-la de todas as formas que eu podia. Trazia boas notas, contava historias sobre como eu estava indo bem nas aulas de piano, tocava pra ela sempre que podia levar um teclado – ele suspirou – Me esforcei tanto, e não foi o suficiente. Ela se tornou agressiva com todos. Até que um dia de noite, meu pai me acordou e me levou até o hospital.

Eu podia sentir as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, e agora as minhas próprias escorriam pelo meu. Apertei-me mais conta ele, envolvendo meu braço pelo seu pescoço.

–Minha mãe estava diferente naquela noite. Pediu-me que a abraçasse e beijou-me muitas vezes. Lembro que ela me explicou que estava cansada da vida. Não queria mais viver naquelas condições – ele me segurou mais apertado – Disse que me amava muito, mas não podia mais ficar comigo. Que queria ficar com Leo. Meu pai desligou os aparelhos e tirou o respirador dela. Eu não podia acreditar que ele estava fazendo aquilo com ela, desistindo dela daquele jeito. Foram os momentos mais longos da minha vida. Meu pai me segurando enquanto eu tentava alcançar minha mãe e impedir que ela morresse asfixiada. Quando seu rosto relaxou foi que meu pai me soltou, mas já era tarde. Eutanásia ainda é proibida, tive que guardar segredo sobre a morte de minha mãe.

–Eu sinto tanto, Edward – eu o abracei – Eu não fazia ideia.

–Seis meses depois da morte da minha mãe, eu já não falava com meu pai. Um dia ele anunciou que minha tia, Esme, e ele estavam se envolvendo. Logo depois eles começaram o casamento. Senti-me traído, pela minha mãe. Ela mal tinha morrido e eles estavam juntos. Foi a coisa mais egoísta que eles haviam feito. Foi quando eu comecei a andar com James – ele suspirou – Ele também estava revoltado na época, então parecia a companhia ideal. Aprontávamos e conseguíamos tirar nossos pais do sério. Fazíamos o que podíamos para tornar a vida deles num inferno. Mas então James começou a ultrapassar certos limites, e fomos nos afastando.

–Até que chegaram ao ponto de se socarem – eu completei, olhando o rosto machucado de Edward.

Ele deu de ombro e assentiu, me puxando de novo para o abraço. Ele respirou profundamente e ficamos em silencio por um longo tempo. Pensei em tudo que ele tinha me dito, o quão triste era sua história.

–Não deve ter sido fácil – eu falei – Acho que agora consigo entender um pouco você, seu jeito. Mas você está perdido.

–Perdido?

–Está preso ao passado – eu suspirei, torcendo pra que ele não me jogasse longe e saísse explodindo pela porta – Eu entendo o que você sinta, mas Edward, isso já faz cinco anos.

–Mas meu pai... – ele começou aborrecido, eu segurei seu rosto com minhas mãos e ele ficou quieto.

–Não deve ter sido fácil pro seu pai. Você sabe disso. Imagina como estava a cabeça dele, perdeu o filho, a esposa estava naquelas difíceis condições, implorando pra ele ajuda-la. O que ele poderia fazer? Mantê-la viva contra sua vontade? Deixá-la deitada naquela cama dependendo de outras pessoas pra fazer tudo, incapaz até mesmo de respirar sozinha? – As lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto – Edward, ele fez o que tinha que fazer. Sua mãe estava sofrendo, você mesmo viu aquilo.

–Ele não podia tê-la matado – ele falou – Ele tinha que ter tentado mais, pesquisado mais.

–Ele tentou – eu afirmei com convicção – Ele tentou da mesma forma que está tentando comigo! – passei o polegar por uma lágrima que descia por sua bochecha – Às vezes é irreversível. Ele fez o melhor que pôde na época. Imagina como a vida é pra ele, Edward.

–Parece boa pra mim – ele desviou o rosto – Está muito feliz no casamento.

Nervosa com ele, dei um tapa em seu rosto. E ia dar mais se ele não tivesse segurado minhas mãos.

–Você está se escutando? – eu exclamei – Edward, ele perdeu Leonard! Foi obrigado a acabar com o sofrimento da esposa! Foi, e ainda é, desprezado por você. E no único momento da vida que achou uma chance de ser feliz, mesmo que não tenha sido com sua tia, mas ela é alguém que o ama, você complica esse casamento com seu rancor. Imagina o que é para ele deitar a cabeça no travesseiro e pensar em tudo isso.

Ele me olhou com horror e quando começou a se levantar, me empurrando pra longe, me enrolei em seu pescoço e segurei com força.

–Você só está pensando nele! – ele gritou – E eu, Bella?

–Foi triste, Edward – eu gemi – Foi muito triste, mas você tem que superar isso! Não precisa ficar vivendo no passado. Agir como se todos estivessem fazendo mal a você, tentando atingi-lo e machucá-lo. Não é o que está acontecendo. Seu pai só estava seguindo com a vida, segue com a sua também.

Ele parou e respirou fundo.

–Não é tão fácil – ele balançou a cabeça, me olhando derrotado.

–Eu imagino, mas você tem que tentar... – eu beijei sua bochecha – Pensa no que sua mãe e seu irmão gostariam que você fizesse.

Ele me fitou com os olhos verdes intensamente. Sua mão deslizou para meu rosto e ele afagou suavemente minha bochecha. Suspirei com o toque gentil. Seus olhos passeavam pelo meu rosto, seus pensamentos tão indecifráveis pra mim que me assustaram. Poderia ele estar me olhando com... Admiração?

–Você é tão boa comigo – ele falou – É incrível como você me conforta.

Sorri levemente.

–Você também é bom, Edward. Só não se enxerga.

Ele curvou o corpo sobre o meu, me deitando no sofá. Com nossas pernas intercaladas, Edward deslizou a ponta dos meus dedos pelo pescoço até chegar à base do meu decote. Tremi com o toque e fechei os olhos conforme ele descia a mão para minha cintura, segurando meu quadril com firmeza. Ele desceu o rosto até o meu, seus lábios roçando em meu pescoço, passando pela bochecha, indo para meu queixo.

–Edward – eu o afastei, tentando recuperar o fôlego que não havia notado que estava prendendo – Não posso – eu suspirei.

–Não pode? – ele continuou sobre mim, as mãos em cada lado da minha cabeça.

–Não posso ter um tipo de relacionamento assim – eu falei – Você não sabe no que está querendo entrar.

–Como pode dizer isso? – ele parecia ofendido.

–Porque nem eu sei onde eu estou – eu gemi e afaguei seu rosto – Enquanto estivermos na amizade, as coisas vão ficar simples. É o melhor que a gente pode fazer por enquanto, não concorda?

–Não – ele segurou minhas mãos e as juntou no alto da minha cabeça, mantendo-as lá sem dificuldades.

Sua outra mão enrolou minha cintura, pressionando seu corpo ao meu enquanto, e com o joelho, afastou minha perna, fazendo com que ele ficasse entre elas. Com nossos corpos colados em todos os lugares possíveis, ele me olhou.

–O que pensa que está fazendo? – perguntei irritada.

–Te provando que está errada – então afundou seus lábios nos meus.


Nota da Autora:

Tchanaaaaam! Mais um capítulo fresquinho! Pronto, descobrimos o passado de Edward e ainda de quebra o do James.

E aíí, quem se sentiu vingada com a surra do James? o/ O Jazz e o Emm aparecendo de surpresa foi ótimo!

O que acharam da historia do Edward? :/ Justifica seu jeitinho revoltado de ser?

E a Bella? Dá pra entender sua relutância, néé? :/

E atenção, geente! Esse capítulo é da semana do meu aniversário! :D E como é meu aniversário, queria pedir uma coisinha! ahhahaha... Sim, são reviews. Os capítulos até agora tem mais de 100 visitantes cada um (Uhuuuul!) mas não passam de 10 reviews por capítulo... então gostaria que se todos que lerem esse capitulo (do meu aniversário XD) , comentem sobre o que estão achando da Fic. Hahaha.. Fiquem tranquilos que esse pedido só é válido pra um capítulo! o resto fico feliz com o fiel grupo de comentadoras que sempre dão o ar da graça.

Espero que vocês tenham gostado e continuem acompanhando!

Beeeijinhooos!

PS: Gente, eu queria fazer um alerta! Dois dias atrás, duas amigas minhas vivenciaram o que a Rose viveu. Sim, foram estupradas. Não é a primeira vez que esse tipo de coisa aparece na minha vida. Eu nem ia comentar nada, mas depois do que aconteceu, me sinto na obrigação de alertar o maior número de meninas que eu possa.

A gente tem uma visão muito distorcida de estupro, só nos é mostrado aquele tipo que acontece com um bandido, um cara mau e você é raptada. Mas não é só assim! Nos que eu me deparei desde o ano passado, os caras maus tem rostos muito conhecidos. Não sei se vocês sabem, mas a maior parte dos estupros é praticado por amigos e conhecidos das vitimas. Essas duas amigas minhas, foram amigos. Uma outra amiga, foi um cara com quem ela estava ficando. A semelhança nesses dois casos é que elas foram embebedadas. Uma outra amiga minha sofreu isso durante um intercambio, onde um amigo dela de lá estava bêbado e a forçou. Sem falar outros exemplos que eu conheço melhor que gostaria. Por isso só tenho um alerta para dar:

Beber é legal, é engraçado e tudo mais! Mas não passem dos limites ao ponto de não poderem se defender.

Mesmo que estejam entre amigas e amigos, não confie em ninguém quando tiver com álcool envolvido.
As pessoas se transformam e fazem coisas que normalmente não fariam.

Você pode achar que vai ter o controle da situação, mas esse controle some tão rápido que você não vai saber o que fazer.

Por isso, preservem-se acima de tudo!