Capítulo 10
Ufa! Por pouco...
Os dias que se seguiram foram o completo oposto dos que tinham passado. Não havia mais conversas, risos, provocações, nada. Os únicos momentos em que nos víamos era de manhã e raramente a noite, quando eu chegava dos treinos. A maior parte do tempo, quando eu estava em casa, ele passava dentro do quarto e eu nem sabia o que ele fazia. Sempre estava em silêncio e aquela ausência de sua voz simplesmente me frustrava. As vezes tinha uma visão perfeita: eu correndo para os braços dele, implorando que ele falasse comigo, e ele me beijava apaixonado. Mas então me dava conta de que era apenas fruto do meu desejo, o qual não teria coragem de realizar. E todo o tempo livre que eu tinha dedicava a ler e procurar uma forma de fazer com que sua memória voltasse. Ele tinha que se recuperar. Sempre que achava algum feitiço interessante sobre memória ou uma poção que pudesse ajudar, eu subia ao quarto de Draco e testava nele, que sempre se mostrava muito indiferente, e sempre sem obter sucesso. Depois de uma tentativa fracassada, pegar um livro e buscar alguma coisa me dava a sensação de perda de tempo. Imaginava se a única solução fosse dar uma pancada bem forte na cabeça dele. Se eu pudesse fazê-lo com a certeza de que o resultado seria positivo, eu o faria. Mas não arriscaria a machucá-lo ou até mesmo matá-lo. Mas confesso que a vontade de bater em sua cabeça algumas vezes me era tentadora, principalmente quando ele me ignorava por completo. Talvez não faria com que sua memória voltasse, mas me aliviaria a raiva.
●O●
Eu havia acabado de chegar do treino muito mais cedo do que o costume. Ao entrar em casa, apesar do silêncio profundo, estranhei logo a falta de qualquer luz ali. Parecia até mesmo vazia e imaginei, quase entrando em em pânico, se ele havia me abandonado. No entanto, observando mais atentamente o cômodo, me chamou ainda mais a atenção a bagunça que ali estava, deixando claro que algo havia acontecido. Ou uma briga tinha ocorrido ou Draco tivera um ataque de raiva e derrubou o que viu pela frente, sendo ambas suspeitas pouco prováveis.
Meus livros estavam caídos próximos a escada, minhas almofadas também estavam espalhadas pelo chão junto com a manta da poltrona e a porta do porão estava aberta. Cheguei mais perto procurando fazer silêncio. Abaixei-me e pude ouvir um barulho vindo de dentro. Só poderia ser Draco, mas o que ele estaria fazendo ali era a única coisa que eu me perguntava. Pude ouvir sua voz resmungando algo incompreensível. Pensei em entrar, mas preferi chamá-lo. Logo que minha voz ecoou por dentro do porão, senti uma movimentação mais intensa lá. Poucos segundo depois Draco apareceu subindo as escadas rapidamente. Ao vê-lo, meu coração disparou num susto e, espantada, saltei para trás. Parte de sua testa estava coberta por sangue e sua blusa também estava suja. Quando consegui ter uma reação, puxei-o para o sofá para que ele se sentasse, sem dar-me conta de que ele, mesmo machucado, estava bem.
- O que houve? – perguntava desesperada enquanto alisava seu rosto, procurando um outro ferimento.
- Nada, não foi nada. – Ele tentava se desvencilhar das minhas mãos. – Apenas cai da escada quando estava levando uns livros pro quarto. Foi estúpido. – Parecia irritado consigo mesmo e revirava os olhos ao falar, evitando ao máximo me encarar.
- Deixe-me ver isso. Eu entendo um pouco de enfermagem. – Cheguei mais perto para ver o ferimento. Era um grande corte na parte mais alta da fronte de seu rosto. – Vou pegar minha varinha e dou um jeito nisso.
- Não precisa, Weasley. Por isso fui procurar minha varinha no porão. – falou muito sério e então percebi que ele estava com sua varinha em mão. Apontou para a própria cabeça, proferindo alguns feitiços, e logo parecia estar melhor. – Eu vou arrumar tudo, não se preocupe.
Apenas fitei-o se levantando e apontando a varinha em direção aos livros. Logo eles voaram em direção a estante, as almofadas voltaram para o lugar e a manta que estava no chão voou até sua mão. Ela estava coberta de sangue, coisa que eu não havia visto antes.
- Eu peguei a primeira coisa que vi para enrolar na cabeça. Jamais imaginei que pudesse sair tanto sangue de mim mesmo. – falava ao lançar um feitiço para limpar a manta e logo ela estava em seu lugar de costume. – É só isso. Já está tudo no lugar, eu estou bem. – Voltou o olhar pra mim e ficou a me encarar por um momento, um tanto perdido. Tentava olhar para o chão, para o lado, mas logo voltava a me encarar, muito estranhamente. – Eu vou subir.
Mal terminou de falar e subiu as escadas correndo. Eu fiquei ali, muda e confusa pelo que acabara de ver. Eu havia esquecido completamente da varinha de Draco, que obviamente estava no porão. Mas ele se lembrara dela e de muitos feitiços, repentinamente? Tudo ficou muito claro em minha mente e meu coração ficou apertado. Ele só podia ter recobrado a memória. Num ímpeto, subi correndo as escadas atrás dele e irrompi em seu quarto sem ao menos bater na porta. Ele levou um susto ao meu ver.
- Sua memória voltou, não é?! – perguntei com medo, sem saber bem o motivo. Meu coração batia acelerado. Senti minhas mãos tremerem e não consegui me aproximar muito.
Draco permaneceu a me encarar, ainda sentado na cama. Não sei por quanto tempo ficamos assim, nos encarando sem dizer uma única palavra. Ele pareceu um tanto perturbado com minha pergunta. Olhou de um lado para o outro, como se estivesse com raiva, e se levantou, caminhando em minha direção.
- O que você acha, Weasley? – perguntou com um olhar intenso e indecifrável.
- Acho que sim...
Lançou-me um olhar de canto, quase feroz. Seus lábios cerraram, como seus punhos.
- É o que você quer que aconteça logo, não é? Você deseja que minha memória volte para não se sentir mais culpada por minha situação e assim poder finalmente se livrar de mim e poder voltar a sua vidinha perfeita com seu namoradinho perfeito! Você só quer se livrar do seu ex-amante imbecil! – dizia alto, em tom acusador, com o dedo apontando em direção do meu rosto. Eu, boquiaberta, não consegui acreditar no que estava ouvindo e na sua tamanha grosseria.
- Eu não acredito que você está falando isso... – respondi muito baixo, olhando no fundo de seus olhos, desejando que aquilo não tivesse acontecido. O desgosto roubando minhas energias – Sabe que isso não é verdade, por que está falando desse jeito comigo, Draco?!
Ele revirou os olhos e me deu as costas, dando de ombros, explicitamente irritado. Sentou-se na cama novamente e voltou o olhar para a janela. Eu apenas respirei fundo.
- Você recuperou a memória, sim ou não? – perguntei mais uma vez, com os olhos direcionados aos meus pés.
Ele virou-se para mim e me observou por alguns segundos, eu pude ver.
- Não Gina, não lembro de nada. Não está vendo? Estou aqui, como antes, exatamente como antes. – respondeu seco.
- Como você se lembrou de sua varinha e de tantos feitiços que você não vinha usando? – Eu ainda não conseguia olhá-lo.
- Eu li nos livros alguns feitiços, e outros eu lembrava. E só supus que minha varinha estivesse no porão. Não sei, de repente ela veio em minha mente quando cai.
- Só a varinha?
- Sim, Ginevra! Só lembrei da varinha!
Levantei o olhar desconfiada e o fitei. Então por que ele parecia tão diferente? Contudo, no fundo, mais do que qualquer desconfiança, meu coração queria acreditar que ele ainda era meu protegido desmemoriado, ainda que estivesse com raiva de mim por causa de Harry. Minha alma se encheu de um estranho alívio e angústia, sem saber no que pensar. Sem ter mais o que dizer, dei dois passos para trás, saindo do quarto e fechei a porta atrás de mim. Minha vontade era de socar aquela porta descontroladamente e descontar minha raiva em alguém, mas apenas suspirei algumas vezes e fui para a cozinha, me convencendo de que ele realmente ainda estava sem memória e eu ainda iria tê-lo ao meu lado, mesmo que sem falar comigo.
Enquanto eu revirava os armários de uma forma quase alvoroçada, ele apareceu na porta. Fingi não notá-lo e ele se aproximou de mim lentamente, como uma criança desejando pedir algo. E eu adorava crianças.
- Ginevra, me desculpe. Sei que fui rude com você. – disse como quem não pedia desculpas há anos e já não sabia como o fazer. Olhava de um lado para o outro, inquieto, apoiado na bancada. – Eu só fiquei irritado com sua desconfiança.
- E agora acabou sua irritação? – perguntei, encarando-o muito séria.
- Weasley, por favor, entenda. Eu caí, me machuquei e...
- Isso não te dá o direito de ser estúpido comigo e de me acusar da forma que fez! – interrompi logo. Cheguei o mais junto possível dele para encará-lo de bem perto. – Você sabe que eu não quero que você vá e que só quero ajudar.
Disse sinceramente e esperava que ele fosse me sorrir e concordar comigo. Mas ele apenas revirou os olhos e apoiou as costas na bancada, ficando de lado para mim.
- Você fala como se não fosse eu quem realmente tivesse motivos para se irritar aqui. – Ele resmungou mais para si mesmo, olhando para as próprias mãos, mas eu pude entender perfeitamente. Soltei um suspiro e, meneando a cabeça fui para o outro lado da cozinha.
Era óbvio, ele estava com raiva de mim por causa de Harry. Lembrei-me do que ele disse sobre ser o "ex-amante imbecil" e me senti péssima. Mas o que eu poderia fazer? Eu queria estar com ele, eu jamais poderia negar aquilo. Mas eu já tinha um compromisso antes dele aparecer na minha vida, e dar um fim nele para ficar com um desmemoriado me colocava numa situação muito instável. Tinha a certeza de que a qualquer momento que ele recordasse de sua vida, voltaria seu ódio por mim e lá estaria eu, apaixonada por quem não me suportaria. Só de imaginar tal situação meu coração apertava triste. E como explicar meus sentimentos a ele? Realmente não sabia como fazê-lo sem me colocar num papel de idiota. Simplesmente, então, abstrai o desejo de me explicar a ele.
- No domingo minha família vai vir almoçar comigo. – falei, mudando de assunto, enquanto abria um pacote de batatinhas trouxa que eu adorava e enfiei algumas na boca. Sabia que eu perderia aquela discussão. – Temos que saber o que fazer com você. Não poderá ficar o tempo todo no porão. – terminei sem olhá-lo e fui para a sala. Joguei-me no sofá, esperando o que ele falaria.
- Eu posso participar do almoço, como um membro da família. – Draco veio atrás de mim e parou em minha frente. – Eu os recebo enquanto você prepara a comida. Eu digo para o seu namorado que somos apenas bons amigos – acrescentou um terrível tom irônico à sua voz. – e que você só está me ajudando. Serei totalmente sincero. – Eu quis pular em cima dele e arrancar aquele sorriso sarcástico com minhas próprias mãos, mas me controlei. Sabia que agora ele me provocaria mais do que o possível, e não tinha como objetivo me fazer rir.
- Lógico, e eles matam a você e em seguida a mim. – Sorri como ele e enfiei mais um bocado de batatas na boca.
- Acho que matariam a mim primeiro... – numa mudança repentina de expressão, falou com um olhar reflexivo, se sentando ao meu lado no sofá.
- Porque te odeiam, óbvio. – Tentei parecer indiferente ao toque de seu braço no meu.
- Não. – Fitou-me com aquele olhar superior tão único seu. – É porque saberiam que seria uma terrível dor pra você me ver morrer. Seu castigo seria esse sofrimento. – Soltou uma risada e voltou o olhar para a lareira.
Eu gargalhei debochada, tentando disfarçar minha irritação. Como podia ser tão convencido?! A vontade que eu tinha era de lhe acertar um soco naquela expressão superior e depois beijar-lhe como nunca. Como estava sendo difícil. Fitei-o distraidamente. Seria tão perigoso manter Draco escondido por todo o domingo. Minha familia iria querer ver a casa e se ele estivesse com mau humor neste dia poderia fazer alguma coisa que nos comprometeria. De repente, algo me surgiu na mente. Se ele queria me provocar, então eu entraria no jogo e faria algo divertido. Perigoso, mas divertido. Abri um imenso sorriso para ele, que me olhava intrigado, talvez percebendo que eu havia tido uma idéia.
- Você vai participar do jantar, Malfoy. Promete que não vai nos colocar em uma enrascada?
- Claro, Weasley. Até porque o primeiro a se ferrar seria eu, e não quero morrer na mão de sua família.
Concordei e expliquei ao loiro minha idéia. Ele ficou muito contrariado de inicio, dizendo que jamais faria aquilo que eu dizia, mas acabei o convencendo, dizendo que era aquilo ou ficar um dia inteiro no porão sem comer nem nada. Ele levantou-se, rodou a sala de um lado para o outro, tentando ter outra idéia, mas nada lhe ocorreu. Deu algumas condições também e, no final, aceitou meu plano. Eu ri imaginando a situação. Sabia que estava me arriscando, mas merecia rir um pouco. Ele já estava com raiva de mim. Eu não tinha nada a perder, a não ser bons motivos para rir.
●O●
Passamos o sábado inteiro ensaiando o que íamos dizer para todos de minha família e tudo que Draco deveria fazer e como se comportar. Ele parecia estar ainda mais chateado comigo, pois me provocara o dia inteiro e discutimos por várias vezes. Não havia muito o que fazer. Eu não queria que as coisas estivessem assim, mas talvez fosse o melhor caminho que minha vida poderia ter tomado. Eu desejava estar com ele novamente e poder abraçá-lo, mas eu não podia brincar com Harry daquela forma. E Draco mesmo, por mais que muitas vezes jogasse em minha cara com comentários sutis que era culpa minha não estarmos juntos, não parecia mais interessado em ficar comigo de novo. E eu o entendia. Não deveria ser fácil, sem memória e na situação que estava, ficar com uma mulher que estava prestes a se casar. Ainda mais da forma tão intensa que nossa relação começara. Mas eu percebia que muitas vezes ele me fitava longamente e quando eu voltava o olhar para ele, ele desviava. Aquilo, de alguma forma, me deixava feliz e tinha que, por vezes, disfarçar um sorriso teimoso. Então eu apenas suspirava fundo e continuava com minhas indicações a ele para que tudo desse certo.
Ao final do dia, estávamos na sala comendo juntos como há muito tempo não fazíamos. Enquanto ele tentava comer como eu disse para ele fazer, fiquei a fitá-lo pensativa. Havia algo de diferente nele. Quando Draco percebeu meu olhar, me encarou desconfiado.
- O que é, Weasley? Acha que não farei bem o papel no qual você me colocou? – perguntou com um meio sorriso no canto da boca e o olhar altivo.
- Não. Só acho que você está diferente... – comentei sem tirar os olhos fixos sobre ele.
- Na verdade, me sinto diferente. – Colocou o prato de lado e olhou para a lareira. – É como se eu estivesse mais perto de quem eu realmente sou, ou era.
- Depois do dia que caiu?
- Sim. Sinto-me melhor depois daquele dia, mesmo sem ter minha memória. Sinto que sou quem eu realmente deveria ser. – dizia com os olhos sobre a lareira, ainda.
Soltei um muxoxo e voltei o olhar para o mesmo ponto que o dele. Tive certeza de que a memória dele não havia voltado mesmo, mas que, como eu desconfiava, traços de sua personalidade haviam ressurgido. Agora ele era um Draco Malfoy muito parecido com o rapaz de Hogwarts. A idéia de que a memória dele logo voltaria me apavorou. Qualquer coisa que acontecesse a ele poderia fazer com que ele se recuperasse e voltasse a me detestar. Um enorme nó em meu estômago surgiu.
Depois de alguns minutos silenciosos, ele se levantou do sofá, deixou sua louça na cozinha e parou de pé ao meu lado. Encarou-me com um olhar longo e profundo. Talvez estivesse lembrando, assim como eu, dos bons momentos que havíamos passado ali, naquele sofá, em frente àquela lareira. Será que sentia tanta vontade de fugir antes que perdesse o controle de seus desejos, quanto eu estava?
- Boa noite, Ginevra. – disse com um pequeno sorriso e senti seus olhos invadirem os meus.
- Boa noite, Draco... – disse num tom incontrolavelmente triste.
Triste por ele estar se afastando; triste por não poder abraçá-lo; triste porque não podia ouvir meus desejos.
Ele só acenou com a cabeça e direcionou-se para as escadas. Cada passo pesado seu era uma batida forte do meu coração.
N.A.: Esse jantar vai ser muito divertido. Eu adoro escrever com os Weasley. Espero que gostem do capítulo. Besous :*
