-Espero que esteja se sentindo confortável aqui em Naboo, Alteza.- disse a Rainha da ponta da mesa. Leia lhe respondeu do outro lado, quase tendo que gritar:

-Sim, estou sim. Obrigada.

-Naboo sempre manteve uma relação amigável com Alderaan.- continuou a Rainha pegando os talheres com as pontas dos dedos.- Uma pena que eu não tive a oportunidade de visitar seu planeta, sempre ouvi dizer que era lindo.

-Era mesmo.- disse Leia com sinceridade. Sentiu uma pontada de dor no peito, sempre acontecia quando falavam sobre Alderaan.- Naboo me lembra muito de lá.

-Verdade?

-Sim. Era um planeta cheio de verde e as pessoas também tinham uma natureza pacífica.- ela refletiu um pouco.- Também eramos muito protetores com nossa terra e costumes.

-Me perdoe a intromissão, mas ouvi dizer que você foi adotada pela Rainha Organa. Isso é correto?

-Sim, o Senador Bail Organa e a Rainha Breha me adotaram quando eu era recém-nascida.

-Você chegou a descobrir quem eram seus pais biológicos?

Leia olhou rapidamente para Han, ao seu lado. Ele ficou de cara fechada durante todo o jantar, chegou a revirar os olhos durante algumas frases da Rainha. Agora ele a olhava sério.

-Não. Sei apenas que eles morreram muito jovens.- Leia levou a comida à boca para não ter que se alongar na resposta.

-Desculpe-me, sou incovenientemente curiosa.- ela disse com um sorriso apaziguardor. Han Solo olhou para ela com uma sobrancelha erguida, como se dissesse "Será?".

-Não, de modo algum. Eu também sou assim. Quando cheguei fiz várias perguntas ao Han sobre Naboo.- as duas sorriram uma para a outra. Leia não estava errada quando disse que criaria um vínculo com a Rainha pelas duas serem da realeza. Durante todo o jantar, a Rainha só se dirigira à princesa de Alderaan.

-Imagino que ele tenha lhe contado sobre nossos desentendimentos.- ela disse sorrindo, mas Han percebeu sua irritação. Leia passou a mão pelo braço dele.

-Majestade, conhecendo meu marido, ficaria surpresa se não houvesse desentendimento algum.

A Rainha deu um risinho. Han suspirou pensando que aquele era possivelmente o pior jantar da sua vida, de repente sentiu falta de ser torturado por Vader em Bespin.

-Gostou das tapeçarias?- perguntou quando percebeu Leia observando as paredes.

-Sim, muito.

-Elas representam todos os Reis e Rainhas de Naboo. E, claro, toda a História de Naboo.

Han se perguntou se tinha alguma coisa alí sobre um cidadão de Naboo que não era da realeza, provavelmente não.

-Fascinante.- comentou Leia. Eram tapeçarias bem detalhadas e belas.

-Essa é minha favorita.- a Rainha disse apontando para uma à sua esquerda.- A grande Batalha de Naboo.

Leia já ouvira falar daquela batalha por alto.

-Ah, sim, eu vejo os gungans.

-Sim, ela foi muito sábia ao abandonar o disfarce e fazer uma aliança com os gungans. A Rainha daquela época quero dizer, Padmé Amidala.

-Hum...- Leia franziu a testa.

-Provavelmente já ouviu falar dela. É uma de nossas Rainhas mais famosas.

Leia não queria ser grossa e dizer a verdade.

-Sim, já ouvi falar.- ela fez um esforço mental e não conseguiu achar nada relacionado àquele nome. Apesar dele lhe soar vagamente familiar.

-Ouvi dizer que eles foram extintos.- disse Han, pegando as duas de surpresa. Era a primeira vez que se pronunciara durante toda a noite.- Os gungans, quero dizer.

-Bem, não exatamente. Muitos foram perseguidos e mortos quando os Jedi perderam o poder, mas dizem que ainda existem alguns sobreviventes.- ela disse de cara fechada, obviamente sem vontade de conversar com ele.

-Esse jantar está delicioso.- disse Leia rapidamente, tentando aliviar o clima.- Gostaria de poder morar aqui para sempre.

-Qualquer cidadão de Alderaan será bem-vindo em Naboo.- ela deu uma olhada de relance para Han, deixando claro que os cidadãos de Alderaan eram bem-vindos. Leia segurou a mão dele e disse:

-Obrigada, mas tenho uma ótima casa em Coruscant que não posso abandonar.- Han apertou sua mão de volta, agradecendo.

A Rainha torceu o nariz.

-Coruscant. Acho um péssimo lugar para morar. Tanto barulho e poluição...

-Sim, também achei isso quando me mudei. Mas depois descobri que ele é muito bonito, à sua maneira.- Leia olhou para Han e sorriu.- Algumas coisas demoram tanto para entrarem em seu coração quanto para saírem.

Han Solo piscou o olho para ela.

-Eu nunca me acostumaria.- disse a Rainha, sem perceber a troca de carinho entre os dois.- Prefiro a tranquilidade de Naboo.

"Também adoro a tranquilidade de alguém querendo me matar.", pensou Han.

-Bem, se mudar de ideia nossas portas estarão abertas para recebê-la.- disse Leia, voltando sua atenção à Rainha.

-É muito gentil.- ela respondeu com um sorriso sincero.


-Não sei como você consegue.

-Ela não é tão ruim assim.- resbateu Leia entre risos. Han estava sentado na cama tirando os sapatos.

-Ela é um pesadelo! Devia vê-la nas reuniões.- ele endireitou a coluna e fez uma careta imitando a solenidade da Rainha.- "General Solo, algo a acrescentar? General Solo, você não entende os costumes de Naboo. General Solo... General Solo..."

Leia ria enquanto desmanchava seu coque na frente do espelho.

-Bom, você sabe ser irritante quando quer, Han.

-É, fique do lado de sua melhor amiga...

-Com licença, acho que eu defendi você o bastante por hoje.

-Disfarçadamente. Você devia ter dito "Escute aqui, minha filha, quem você pensa que é pra falar com meu marido desse jeito? Ele é o homem mais maravilhoso que já passou por essa galáxia decadente!".

Leia virou-se pra ele fazendo uma careta.

-Eu nunca mais me respeitaria se dissesse uma coisa dessas. Além do mais, temos que ser gentis com ela. Estamos em seu planeta e queremos que ela goste de nós.

-Eu sei, eu sei...- ele sorriu.- Ah... enfim, sós!

Leia conhecia muito bem aquele sorriso.

-Não, senhor. Desculpe, mas eu tenho coisas para fazer.

-Que coisas?- ele perguntou distraidamente passando as mãos por sua cintura.

-Coisas importantes.- ela planejava ler o diário de Mon Mothma enquanto Han dormia.- Vamos ter que deixar isso para outra noite... General Solo.

-Tem sempre uma desculpa com você, não é? "Não posso, tenho que trabalhar. Não posso, estou com sono. Não posso, tem um monte de Ewoks lá fora.".

Ela riu lembrando-se das noites que passou em Endor depois do fim da guerra.

-Eu sou casado com uma princesa, então sou da realeza também.- ele empinou o nariz.- Mereço um tratamento melhor.

Leia lhe deu um beijo demorado, esperando que aquilo servisse por enquanto. Mas quando ele a puxou para mais perto de si percebeu que teria todo o tempo do mundo para ler o diário de Mon Mothma.


Tudo estava embaçado e ela escutava vozes ao longe, mas não sabia de quem eram. Sua cabeça latejava e as lembranças do ocorrido voltavam lentamente.

-Luke...-sussurrou.

-Estou aqui.- disse uma voz ao seu lado.- Como se sente?

Ela tentava falar, mas sua voz não saía.

-Ainda bem que acordou. Aqui. Beba um pouco.

Luke segurou sua cabeça e colocou um copo em sua boca. A água se misturou com o gosto metálico de sangue e ela fez uma careta.

-Onde estou?- Mel conseguiu pronunciar.

-Na casa da senhora Katracks, ela está cuidando de você.

Sua visão ainda estava bastante embaçada, ela não o via direito.

-Você...?

-Eu estou bem, não se preocupe.- ele segurou sua mão.- Obrigado.

Luke olhava para a garotinha com o rosto cortado e se sentia mais culpado a cada minuto.

-Rosch...?

-Ele fugiu. Eu trouxe Mesch e Kesch para cá também.- disse prevendo as próximas perguntas.- Eu não disse nada a ela... só disse que seu primo a feriu.

Ela sentiu o coração bater depressa.

-O seu... o seu...

-Descanse.- disse Luke tentando soar acolhedor.- Eu cuido de tudo agora. Não se preocupe com nada.

Mel levou a mão ao rosto. Percebeu a textura de ataduras. Luke suspirou. Não queria que ela ficasse com cicatrizes, mas não via outro resultado. O sabre de luz é muito potente e provavelmente ela estaria morta se a Força não estivesse tão presente nela. E agora aquela arma estava nas mãos da pior pessoa possível.

Luke percebera uma aura perturbadora em Rosch, mas nunca suspeitara de seus poderes. Devia ter visto os sinais. O modo como ele protegera sua mente em Mos Eisley foi um bom indicativo. Mas agora era tarde.

-Eu ouvi... eu ouvi o barulho... Rosch... e desci... eu não sabia que...

-Shh! Você não fez nada errado. Nada.- ele beijou-lhe a testa.- Foi tudo minha culpa. Tenho que consertar as coisas agora.- ele suspirou novamente- Tenho que achá-lo.

Ela olhou para a imagem embaçada que se parecia com Luke.

-Você... vai embora?

-Eu tenho que ir. Tenho que impedí-lo. Só fiquei até agora para saber se você está bem.

Mel agarrou sua mão.

-Eu... não estou... bem.

Ele a olhou com remorso.

-Olhe, Katracks vai cuidar de você agora. E eu não farei mal ao seu primo. Só tenho que recuperar meu sabre de luz.

Viu os olhos dela se encherem de lágrimas.

-Você... vai voltar?

Luke não respondeu. Era um assunto que ele ainda não havia resolvido.

-Prometa. Prometa que vai voltar.

Mel olhou para ele querendo mais que tudo no mundo que sua visão voltasse. E não queria que ele fosse. Sentia-se bem com Luke, e acabara de descobrir que poderia ser uma Jedi. Se ele fosse embora, sua vida voltaria a ser o que era antes. Além disso – por que não admitir- ela tinha uma quedinha por ele.

-Eu prometo.- Luke levantou a mão direita.- Palavra de Jedi.

Ela soltou um pouco sua outra mão. O Jedi inclinou-se e lhe deu outro beijo na testa.

-Até lá: Cuide-se. Seja esperta. Proteja-se.

Luke achava que havia uma possibilidade de Rosch voltar para apanhá-la, mas provavelmente não iria acontecer. De qualquer forma, todo cuidado era pouco. Ele se levantou e saiu do quarto fechando a porta atrás de si.

Sua força de vontade ficou maior. Não sabia onde Rosch estava. Não conseguia sentí-lo. Não sabia até onde iam seus conhecimentos sobre a galáxia. Mas sabia que existia um lugar onde tudo pode ser encontrado, o Governo. A República. Coruscant.

Leia.