A viagem de carro foi silenciosa, os eventos da noite finalmente sendo registrados pelas duas empresárias. Não era a primeira vez que passavam por uma situação de risco, mas nunca se acostumariam.

"O que é essa coisa?!" Cat questionou logo que Lena abriu a porta de sua cobertura.

"Esse aqui é o Krypto." Apresentou acariciando o cachorro atrás das orelhas.

"Parece uma bola de pelos." Comentou parada encarando o cachorro.

"Eu sei. Mas ele é adestrado e bem-comportado, não é Krypto? E não tenho problemas com pelo, por incrível que pareça." Informou se levantando.

"Não quero esse bicho perto de mim." Avisou indo direto para o bar no canto da sala. "Então, qual a história por trás do Cadmus?" Cat perguntou entregando uma taça de vinho para a morena.

"Sempre a jornalista investigativa, hm?" Tomou um gole do liquido adocicado. "Cadmus é um grupo terrorista que surgiu em National City oito meses atrás, eles são contra alienígenas e fazem de tudo para deixar isso bem claro." Parou por alguns segundos e respirou fundo. "Minha mãe está no comando do Cadmus." Lena não estava com medo da reação de Cat, longe disso, sua hesitação em contar era apenas por não gostar de saber que sua mãe estava por trás de uma organização tão cruel quanto Cadmus.

"Bem, sua mãe elevou o ódio para outro nível." Comentou bebericando sua bebida. "Mas não é uma grande surpresa se levarmos em consideração o histórico de sua família com alienígenas e a propensão dela em exagerar as coisas." Deu de ombros ao se lembrar das raras vezes que teve o desprazer de encontrar Lillian Luthor.

"Ela extrapolou desta vez Cat, pessoas poderiam ter morrido, nós poderíamos ter morrido hoje." Suspirou cansada.

"Mas não morremos, graças a você e Kara. Isso quer dizer que temos a chance de tentar impedir o Cadmus de atacar novamente." Expressou confiante.

"Eu sei, só é cansativo. Ainda bem que Kara estava lá, as coisas poderiam não ter dado muito certo para nós caso não estivesse." Se aconchegou um pouco mais no sofá, tirando os sapatos de salto e esticando as pernas sobre a mesa de centro.

"Verdade." Cat concordou com um olhar distante.

"Posso te fazer uma pergunta pessoal?" Questionou ao reconhecer o olhar da mais velha.

"Claro."

"Eu sei que sente algo pela Kara, não tente negar. Eu vi em seus olhos aquele dia em seu escritório, vi hoje no modo como olhava para ela na festa." Entrelaçou seus dedos aos dela. "Não estou te acusando, muito menos condenando; só quero saber como conseguiu ficar dois anos ao lado dela e resistir." Seus olhos verdes tentavam convir sua sinceridade.

"Não tenho certeza se consegui suceder, quando tudo ficou muito intenso resolvi fugir." Admitiu finalmente sua fraqueza, mais para si própria do que para sua companheira.

"Acho que estamos no mesmo barco então." Cat olhou para a morena intrigada. "Não finja que não notou o modo como a olho também, sabemos que é mais esperta do que isso." Riu dando um leve aperto na mão ainda junto a sua.

"Você nunca escondeu seus sentimentos tão bem quanto gostaria, pelo menos não para mim." Concedeu.

"Sim, mas convenhamos que é quase impossível não demostrar sentimentos quando perto de Kara." Ambas se pegaram sorrindo com a simples menção da loira e começaram a rir. "Como chegamos a este ponto, Cat?"

A mais velha simplesmente deu de ombros, seus olhos fixos em suas mãos entrelaçadas; gostaria muito de ter a resposta para tal pergunta, mas a realidade era que não tinha a menor ideia.

"Quem diria que um dia não só nos reencontraríamos como também estaríamos apaixonadas pela mesma mulher? Parece que o universo decidiu nos pregar uma peça muito sem graça." Lena quebrou o silêncio.

"Uma mulher. É isso que ela é agora, não é? Quando decidi viajar tinha deixado uma garota para trás, agora volto e encontro uma mulher em seu lugar, forte, destemida, com uma pitada de sarcasmo que a torna mais sexy do que antes." Começou a divagar.

"Você a acha sexy agora? Tente passar um dia inteiro na praia com ela! Deveria ser ilegal ter braços tão fortes." Exalou perdida em memórias.

"Você a viu em um biquíni? Não acho que seria forte o suficiente para presenciar tal cena." Tentava imaginar o cenário.

"Ela faz jus ao título de heroína, a pior parte é que nem sabe o efeito que sua beleza causa nas pessoas. Teve um cara que tropeçou e caiu de cara na areia enquanto ela tirava o excesso de água do cabelo com a toalha, acho que ela nem percebeu que isso aconteceu." Contou exasperada.

"Não foi até Supergirl surgir que eu finalmente percebi o que ela escondia por baixo de todos aqueles Cardigans; obviamente, quando isso aconteceu eu já tinha sentimentos por ela, mas confesso que fiquei surpresa com o que o uniforme revelou." As duas já estavam sonhando acordadas.

"Esta conversa só está me deixando mais frustrada." Grunhiu Lena deixando a cabeça recostar no encosto do sofá.

"Um brinde a frustração."

"Talvez possamos fazer algo a respeito, pelo menos por enquanto." Sugeriu esvaziando a taça e deixando sobre a mesinha.

"É mesmo?" Ergueu uma sobrancelha, sabia bem onde essa conversa terminaria.

"Sim." Se aproximou tomando a taça das mãos da loira e colocando ao lado da sua.

"E o que tem em mente?" Se fingiu de desentendida.

"Você sabe muito bem o que." Suas pernas se encostavam com a proximidade.

"Sei?"

"Cat." Arrastou o 'a' manhosa.

"Venha cá logo." Puxou-a pela nuca, juntando seus lábios em um beijo demorado.

"Tem certeza que quer fazer isso?" Cat se pronunciou quando se separaram para respirar.

Lena não respondeu, apenas sorriu e empurrou Cat até estarem deitadas no sofá.

Quando Kara voltou de sua ronda Lena e Cat já haviam partido. Um pouco chateada por não ter conseguido se despedir decidiu visitar todos os locais que sofreram ataque com armas alienígenas para ver se poderia ajudar de alguma forma.

Alguns lugares estavam desertos, a destruição do espaço e a fita amarela da polícia as únicas coisas que mostravam ser uma cena de crime; já em outros, agentes do DEO junto com a polícia local ainda estavam presentes recolhendo evidências e interrogando testemunhas. Não havia muito o que fazer ali no meio com o uniforme de Supergirl, patrulhar a cidade parecia uma boa opção depois de negligenciar os outros acontecimentos ao ficar para proteger Lena e Cat.

Clark nunca disse como era difícil carregar o peso de tamanha responsabilidade, como não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo não seria razão suficiente para não se sentir culpada pelas vidas que não pode salvar, pelos bandidos que não pode prender. O vento em seu rosto era, de certa forma libertador, flutuar pelo céu noturno sem ser vista por ninguém, não sentir o peso que a gravidade exercia sobre os humanos, por alguns instantes podia esquecer seus erros e incapacidades que resultaram em casualidades. De repente seu corpo parou, flutuando no ar, sua audição se aguçando em busca das batidas de um coração que lhe era tão familiar: nada. Seus olhos se abriram instantaneamente vasculhando através de paredes de alvenaria a silhueta familiar de sua ex-chefe; todas as luzes estavam apagadas, não havia sinal algum de que Cat voltou para casa depois de sair da festa.

Estranho.

Decidiu ir checar o apartamento de Lena antes de surtar e assumir que o pior havia acontecido, o que não estava muito longe de acontecer devido ao histórico das duas CEOs e os eventos da noite. Não querendo ser vista no caminho para a outra cobertura subiu para entre as nuvens e se deixou levar em uma velocidade mais rápida, sem medo de estourar os vidros da faixada dos prédios. A cidade estava agitada, mas mesmo assim conseguiu distinguir o som dos batimentos de Lena e junto com os dela os de Cat, estavam acelerados, pulsando sangue com toda força. Seu primeiro pensamento foi de que estavam em perigo, a fazendo voar mais depressa, porém, foi parada cinco metros de altura da cobertura ao ouvir um gemido; seu coração parou por um instante em medo, seus olhos buscaram os cômodos rapidamente e teve que se concentrar para não cair quando finalmente as encontrou.

Sem permissão seu corpo desceu até estar de frente para o vidro e ter uma visão clara do que acontecia no quarto principal da cobertura, seus olhos transfixados nos dois corpos nus que se moviam como um sobre a cama king size. Sabia que deveria sair dali e que não deveria invadir a privacidade das pessoas de tal maneira, no entanto, seu corpo não colaborava, seu cérebro não conseguia formular ordens para que seu corpo saísse do lugar.

Cat estava deitada na cama, uma mão segurando com força a coxa de Lena enquanto a outra desaparecia entre suas pernas, um sorriso nos lábios ao mesmo tempo que liberava palavras de incentivo. Lena por sua vez tinha ambas as mãos apoiadas nos seios de Cat, seus longos cabelos negros grudados em seu corpo pela fina camada de suor que cobria seu tronco, seus movimentos seguros e determinados na busca pelo ápice de prazer ao cavalgar os dedos da loira embaixo de si.

Inconscientemente, ao ver os lábios de ambas se movendo, Kara focou sua audição nos sons emitidos dentro daquele espaço somente, sua visão tão nítida quanto se estivesse ali dentro, a meros centímetros.

"Quase me esqueci de como você é boa nisso." Lena comentou mordendo o lábio inferior.

"Minhas habilidades que são boas ou a fantasia em sua mente?" Questionou sem julgamentos, sua mão arranhando a coxa da morena para extrair um gemido.

"Os dois?" Grunhiu ao sentir os dedos dentro de si curvarem.

"Pelo menos você incluiu minhas habilidades." Riu ao curvar os dedos novamente e arrancar mais um grunhido da mais nova.

"Menos conversa e mais ação Grant." Lena demandou rebolando o quadril e acelerando seus movimentos.

Cat sorriu maliciosa e sentou, derrubando a morena de seu colo e se colocando por cima dela, seus dedos logo voltando para o lugar onde estavam, sua boca mordendo com certa força os seios em sua frente.

"Assim?" Riu sacana quando Lena conseguiu apenas acenar.

Kara não sabia mais o que fazer, seu uniforme parecia uma fornalha e prisão, seu corpo respondia a cada som, cada movimento, ao mesmo tempo que sua mente travava uma batalha de pensamentos e seu coração uma batalha de sentimentos.

Uma parte de si dizia que era errado estar ali, errado assistir um momento tão íntimo e vulnerável; outra parte não estava nem aí, queria permanecer ali e gravar na memória cada detalhe, cada suspiro, cada gemido, cada movimento. Seu coração por outro lado parecia um furacão de emoções, sentia inveja da intimidade que as duas pareciam compartilhar, do modo como estavam a vontade a ponto de rirem, como demonstravam familiaridade com o corpo da outra; sentia também anseio por essa intimidade, queria fazer parte do momento, parte do ato acontecendo na enorme cama, sentir a pele nua junto a sua, ser a causadora dos gemidos que arrepiavam seu corpo por completo, se familiarizar com cada pedaço de pele, com cada reação; raiva por sua ingenuidade e negação, pelo tempo que perdeu se enganando namorando Adam, por não admitir, até aquele momento o que sentia realmente.

De repente sua mente e coração se calaram, seus olhos focando no que estava prestes a acontecer. Todo o cenário ficou em câmera lenta, cada detalhe e micro som foi capturado com a máxima precisão que seus poderes permitiam; Lena tinha os olhos fechados, uma mão segurando o lençol e a outra com as unhas cravadas no bíceps de Cat, suas costas arquearam e Cat segurou seu quadril na cama, um gemido baixo e prolongado escapou lábios rosados e Kara não sabia dizer se viera de dentro do quarto ou de sua própria boca.

"Senti falta desses seus orgasmos intensos e sensibilidade." Cat murmurou retirando os fios de cabelo que cobriam o rosto de sua parceira.

"De ver ou de causar os orgasmos?" Tentou brincar, mas ainda estava sem fôlego.

"Os dois?" Copiou a resposta, Lena soltou um pequeno gemido ao sentir Cat retirar os dedos de seu sexo sensível.

Repentinamente ouviu-se arranhões na porta do quarto, assustando as três mulheres.

"Seu cachorro é insuportável." Cat reclamou caindo na cama e rindo da situação.

Os arranhões foram suficiente para despertar Kara de seu transe, seus olhos se arregalaram quando voltou a si e percebeu o que havia feito, podia ouvir seu sangue pulsando por seu corpo, seu coração acelerado como nunca antes, seu corpo transpirando dentro do uniforme como nunca antes, tremendo da cabeça aos pés com o esforço de se manter no lugar e não ceder ao impulso de atravessar a porta de vidro e juntar-se as duas mulheres. Assustada com suas ações e seu estado físico fugiu dali, voou para cima com tanta velocidade que nem percebeu o impacto de sua decolagem nos edifícios ao redor.

Lágrimas de frustração e raiva escorriam de seu rosto involuntariamente, seu corpo tremia com tanta força que temia se machucar de alguma maneira. Na velocidade que estava não demorou muito para atravessar a atmosfera terrestre e chegar na estratosfera e sentir seu corpo começar a esfriar, no entanto a energia contida em si ainda era muito grande, o desejo que pulsava em seu corpo e não tinha como saciar. Fechou os olhos e deixou o silêncio do espaço tomar conta de si, sua mente se acalmando, seus batimentos frenéticos diminuindo, seu corpo esfriando e relaxando minimamente, porém, ainda precisava liberar a tensão por completo.

Não demorou muito para que achasse Saturno e, sem medo algum de causar danos usando seus poderes, voou com toda velocidade possível para o planeta. O frio começava a lhe incomodar, mas nada grave; as rochas que davam forma para os anéis do planeta serviriam como perfeitos saco de bancadas para descontar toda sua raiva, frustração e energia.

Depois de uma ducha rápida, Cat e Lena se encontravam deitadas na cama usando pijamas confortáveis; Cat estava em uma competição de olhares com Krypto que se encontrava entre as cobertas no pé da cama, seus olhos pidões implorando permissão para chegar mais perto.

"Não gosto do seu cachorro." Declarou finalmente desviando o olhar.

"Não acredito em você." Rebateu chamando o filhote para seu lado.

Depois de uma pequena pausa reflexiva, Lena se pronunciou.

"Você também estava pensando nela?"

"Sim."

"O que estamos fazendo Cat?"

"Não sei."

"Acha que vamos nos machucar com isso?"

"Mais do que já estamos?"

"Sim."

"Você sempre fará parte da minha vida Lena, temos uma história juntas e jamais faria algo para te machucar." Suspirou. "Kara é apenas um sonho, um amor impossível."

"Eu sei."

"Você tem mais chances de conseguir algo com ela do que eu. Não existe o problema de idade entre vocês, não foi o seu filho que namorou com ela até recentemente, não foi você que a demitiu e tirou o chão de seus pés; tem tanta bagagem entre mim e ela."

"Posso não ter visto a interação de vocês quando trabalhavam juntas, mas depois de tudo que Kara me contou, do modo como ela fala de você, como os olhos ganhavam um brilho melancólico, até mesmo o modo como te olhou esta noite: é recíproco o sentimento, você aceitando ou não."

"Poderia dizer o mesmo sobre os olhares trocados entre vocês, ou o abraço demorado e bem apertado que trocaram na festa: ela tem sentimentos por você, não por mim."

"Então o que? Ela gosta de nós duas? Porque eu vejo o modo como ela te olha e você vê o modo como ela me olha, a única outra explicação é que nós duas estamos loucas e imaginando coisas."

"Talvez seja isso, Kara Danvers nos levou a insanidade." Riu precariamente.

"Apesar de ser uma total possibilidade, também é possível que nós duas estejamos certas."

"Por que tem tanta certeza que não estamos loucas?"

"Ela não é deste planeta Cat e até onde sei Krypton tratava esses assuntos diferentes, prova disso é o suporte e incentivo que tem dado a irmã que acha estar apaixonada por duas mulheres; até agora só ouvi o desejo de Kara em ver a irmã feliz, sem pensar duas vezes se para isso será preciso amar duas mulheres."

"Oh."

"É, oh. Você realmente esqueceu que a cultura dela é diferente da nossa, não é mesmo, KitCat?"

"Por que insiste nesse apelido ridículo? Sempre estraga os momentos." Bufou puxando a morena para ser a conchinha menor.

"Porque sim."

O silêncio se instalou no ambiente mais uma vez, ambas refletindo nas palavras ditas e nas interações passadas com a outra loira.

"Não quero criar esperanças só para vê-las destruídas, estou velha demais para isso." Confessou em um sussurro.

"Eu também não, mas ambas sabemos que Kara tem seu próprio jeito de voar por cima das barreiras e se instalar nos espaços mais guardados do nosso coração."

"Verdade."

"Além do mais, não é mais interessante saber que existe a possibilidade de fazê-la feliz, romanticamente falando, do que viver miserável acreditando que isso jamais seria possível?"

"Hmm, talvez você esteja certa." Beijou-lhe a cabeça afetuosamente. "Estou orgulhosa da mulher inteligente que se tornou Lena, verdadeiramente orgulhosa."

A atmosfera entre elas era confortável, calma, suas mentes e corações tendo depois de muito tempo um momento de tranquilidade. Usando o tablet que ficava guardado na gaveta do criado mudo, Lena apagou as luzes e se aconchegou novamente nos braços de Cat. Alguns minutos depois, a jornalista sentiu algo pesando sobre seu braço, abrindo os olhos fechou a cara instantaneamente.

"Lena, seu cachorro está em cima de mim."

"Vai dormir Cat."

"Não vou dormir com esse bicho em cima de mim, quero ele longe."

Bufando indignada ordenou em kryptoniano que o animal fosse para o pé da cama.

"Não é o que eu queria, mas..."

"Boa noite Cat." Pronunciou quase como uma ordem.

"Ok, ok. Boa noite."

E em poucos minutos todos os três estavam dormindo relaxadamente sem nem imaginar o que acontecia a 1,4 bilhões de km dali, nos anéis de Saturno.