Olá. Espero que todos estejam bem.
Aqui está mais uma parte de O SIGNIFICADO DAS TREVAS.
Esse capítulo está saindo sem muita revisão, espero que não haja muitos erros.
Não há muito que dizer sobre ele, a não ser que resolvi, dentro do grupo dos Dúnedain, continuar usando o nome Strider para Aragorn e não Passolargo. Faço isso para que os outros nomes dos personagens que criei em VIDAS E ESPÍRITOS e que fazem parte do grupo de Aragorn, não destoem do nome do guardião. É que em VIDAS eu optei por usar todos os nomes em inglês (Mirkwood, Rivendell, Strider etc) e agora me vejo amarrada com esses problemas de idiomas.
Eu e minhas confusões...
Nem vou mais tomar o tempo de vocês.
Ah sim... Só mais um pouco... Só para agradecimentos sinceros, de todo o coração, a quem continua me oferecendo um tempo precioso, lendo e não deixando de me dizer o "vá em frente" de sempre. Obrigada a:
NANDA – GIBY – KIANNAH – NIMRODEL – PITYBE – TELPË – AKAI – LELE – TENIRA – MYRIARA – CAUINHA – LENE – JURUBY – LYTA – LARWEN – GREYHAWKSLASH – GIOZINHA – KARINA – LEKA – BOT – TRIX – IDRIL ANARION – THAISSI – PRI – GABY GRANGER – NININHA FERRARI - FLAVINHA
A dor existe.
Nos olhos da dor,
o brilho é triste.
A dor é triste?
Nos olhos da dor,
um brilho existe.
Jafet Vieira
CAPÍTULO 10 – INQUIETAÇÕES
O pássaro estendeu suas asas largamente, passando por entre os agitados galhos da grande árvore e fazendo um rasante pela fonte lateral. Glorfindel acompanhava-o de longe já, seus olhos claros fixos no bater daquelas negras asas.
"Um mensageiro." Ele disse para si, curvando descontente as sobrancelhas. Celeborn estava em Imladris, quem poderia estar mandando a Elrond uma mensagem de tamanha urgência?
O louro elfo desceu então os degraus da escadaria principal e aproximou-se do meio do pátio. Erguendo um braço ao céu, desferiu um longo silvo. A ave fez uma curva na próxima árvore e veio pousar certeiramente no braço do guerreiro.
"Olá, criatura dos céus." Disse o antigo senhor da Casa da Flor Dourada apoiando a mão no peito. "Que distância tuas bravas asas percorreram?"
O negro pássaro acomodou-se no braço do lorde elfo, parecia de fato cansado. Glorfindel sorriu complacente, tomando a mensagem sutilmente enrolada em uma das fortes patas e acenando em seguida a um dos elfos da guarda. O jovem aproximou-se no mesmo instante, inclinando o corpo em uma breve saudação.
"Proporcione alimento e descanso para esse nosso bom amigo." Pediu o guerreiro, passando a ave para o braço do sentinela. O rapaz assentiu com um pequeno aceno de cabeça, em seguida afastou-se.
Glorfindel ainda permaneceu em pé no centro da praça, encarando o pequeno pergaminho enrolado em sua mão, então soltou um breve e conformado suspiro e pôs-se a subir rapidamente a mesma escada que o conduzira até o pátio.
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"Ele quer saber o quê?"
"Se o filho está aqui." Elrond repetiu pela terceira vez, encarando um inconformado Glorfindel que agora se atirava em uma das cadeiras da biblioteca.
"Então o rapaz saiu do reino da Floresta sem o consentimento, ou melhor, sem sequer o conhecimento do pai? Isso explica muita coisa."
"Não tantas quanto eu gostaria." Elrond respondeu, já escrevendo algumas palavras em outro pergaminho de igual tamanho.
"O que vai dizer a ele?"
"A verdade, mellon-nin." O curador respondeu, enrolando o pequeno papel.
O guerrilheiro franziu o cenho.
"O que acha que ele fará com o rapaz?" Indagou então, recebendo um intrigado olhar do amigo moreno. "Não me olhe assim. Sabe que paciência e compreensão não são necessariamente características que façam parte da lista de qualidades do Rei Elfo."
Elrond ainda manteve seus olhos nos do amigo por mais alguns instantes, como se ponderasse a possibilidade que Glorfindel queria fazê-lo inferir, em seguida ergueu-se e caminhou até a porta.
"Creio que Thranduil já aprendeu muito sobre o filho desde a última vez que com ele tivemos algum contato." Ele declarou, aborrecendo-se ao ouvir o riso contido do amigo louro como resposta. Riso este que procurou ignorar, abrindo a porta e chamando por um dos empregados que passava pelo corredor.
Glorfindel cruzou as pernas, observando o amigo entregar o bilhete e instruções ao elfo, agradecer e voltar a fechar a porta. Quando Elrond retornou, entretanto, seu rosto parecia mais preocupado e isso foi o suficiente para irritar o já contrariado elfo louro.
"Thranduilion..." Ele murmurou descontente, mas Elrond não comentou, voltando a sentar-se diante de sua escrivaninha e fingindo ocupar-se com alguns papéis que já estavam há dias por sobre sua mesa. Sua mente, no entanto, ainda estava presa a um leito dos quartos da cura, no qual um paciente seu, cujo estado parecia apenas se agravar a cada minuto, ainda carecia de seus cuidados e atenção.
Ele tinha que centrar seu pensamento naquele problema em particular e esquecer os demais, por mais angustiantes que fossem, pelo menos até que o solucionasse.
"Esse rapaz tem mesmo o poder." Provocou ainda mais o guerreiro, parecendo não perceber que, desta vez, não era Legolas apenas quem, involuntariamente, desenhava o cenário de preocupações no qual Elrond parecia se perder agora. "Nem em nossas intrigantes e enfadonhas reuniões com Celeborn, eu o vi com esse semblante amargurado." Ele completou sacudindo inconformado a cabeça.
"Não comece, Glorfindel." Retrucou o curador em voz baixa, não parecendo de fato muito disposto à qualquer discussão.
"Começar? Eu não tenho esse dom. Normalmente me pego envolvido no que os outros começam. Nos pesadelos alheios"
O breve, porém escurecido e insatisfeito olhar que recebeu, calou por fim o guerreiro louro, que não custou a perceber o quão infeliz fora em sua escolha de palavras.
"Lamento, mellon-nin." Ele admitiu em um sofrido murmúrio e Elrond reergueu os olhos, voltando a encontrar as claras órbitas do amigo de Gondolin. Glorfindel ofereceu-lhe um sorriso complacente agora e o curador soltou vencido os ombros.
"Parece acreditar que não haja motivos para minha preocupação, mellon-nin..." Ele comentou em um tom cansado e pesaroso.
"Não." Glorfindel retrucou de imediato, desencostando-se da poltrona na qual estava. "Ao contrário disso. Acho que temos motivos de sobra para nos inquietarmos. Já o tínhamos antes da chegada do Thranduilion, e agora temos muito mais."
O semblante do curador se inquietou ao ouvir novamente menção à figura do príncipe.
"Com certeza não atribui culpa a Legolas. Atribui, mellon-nin?" Ele indagou insatisfeito.
Glorfindel refletiu, e suas expressões se congelaram naquele rosto de enigmas e contradições, seus olhos se perderam por alguns instantes, depois ele sacudiu conformado a cabeça.
"Bem que eu gostaria de atribuir culpa a alguém. Dar-me-ia um gosto tremendo. Mas... Não... eu sei que o pobre rapaz não tem culpa. O que me incomoda é sua inacreditável falta de sorte. Falta de sorte que parece estar se estendendo a alguns outros."
"Não diga isso, Glorfindel..." Elrond quis retrucar.
"Oras. E de que outro nome faria uso, mellon-nin? A má sorte persegue o pobre infeliz desde que veio ao mundo, tal qual uma sombra negra e perturbadora. Tudo se estende desde seus primeiros sons. Veja só o pai que o criador ofereceu-lhe? Que sorte poderia ser pior?"
"Glorfindel!"
"Por Ilúvatar, Elrond! O menino enfrenta provavelmente mais do que apenas indiferença dele. Thranduil o trancou por toda a infância, depois o despejou no mundo como quem quer se livrar de um grande tormento. Castigou-o, renegou-o, expulsou-o de sua terra, quis vê-lo morto!"
"Misericórdia!" Elrond enervou-se, apoiando ambas as mãos por sobre a mesa. "Isso já foi há muito tempo... e nem mesmo se deu do modo como relata, Glorfindel. Seja justo com Thranduil. Sabe que ele ama o menino."
"Ama tanto que não sabe onde o rapaz está." O tom do guerreiro de Gondolin se alterou então. "Isso porque o menino não pode ver! Poupe-me de suas defesas, Elrond. O rapaz não pode ver! Por todos os Valar! ELE – NÃO – PODE – VER! E saiu da Floresta sem que o pai soubesse! Como? Fugindo pelas frestas da caverna como o fez quando era um elfinho?"
Diante de tamanha veemência Elrond sentiu-se incapaz de responder, limitando-se a se erguer com um grande suspiro de insatisfação e postar-se diante da janela.
"Deve haver uma explicação." Disse o curador para si mesmo, enquanto observava o sol fixar-se definitivamente no horizonte. Passara mais uma noite em claro, sem que Ilúvatar o agraciasse com qualquer conclusão de serventia.
Glorfindel ergueu-se então. Os olhos claros fixos na figura do amigo de longa data. Elrond pendia o corpo por sobre o beiral da janela e seus olhos fixavam-se em uma imagem que, para o amigo que o observava, não parecia realmente pertencer ao cenário daquela manhã de Imladris.
"Muitas questões sem resposta." O lorde louro disse enfim, oferecendo um elo de recomeço para a conversa que tinham e, de certa forma, fornecendo ao amigo uma chance de guiar o diálogo para onde fosse mais conveniente.
Mas o cansado curador não se mostrou inclinado a aceitar tal convite, limitando-se a baixar a cabeça uns instantes, antes de afastar-se e postar-se diante das várias estantes do lugar. Os olhos agora em busca de algo naqueles inúmeros títulos gravados em ouro e prata.
Eram momentos difíceis. Foi o que pensou o guerreiro de Gondolin, ao deixar que seus olhos continuassem a acompanhar o líder de Imladris a quem tão bem queria. Mesmo em pé, altivo diante daquela infinidade de informação, Elrond tinha nas costas um grande peso, peso este que o curador tolerava conformado, mas que exacerbava seu amigo louro.
"Nem tudo está a seu alcance, mellon-nin." Ele lembrou, mesmo conhecedor do quão vago e inútil seria tal comentário.
"A tarefa da cura a mim foi atribuída..." Elrond retorquiu em um tom que, ao amigo, soou mais como um reflexo das próprias aflições, do que uma resposta ao comentário ouvido.
"É o outro Dúnadan, não é?" Glorfindel indagou enfim, parecendo apenas naquele instante perceber qual era o obstáculo que escurecia as sérias feições do líder de Imladris.
Elrond silenciou-se mais uma vez, fechando os olhos e virando-se em seguida. Era inútil ficar ali, buscar nos livros ou escritos antigos algo que jamais se lembrara de ter lido em sua vida. Ele conhecia aquela biblioteca de popa à proa. Qualquer que fosse a informação da qual precisava urgentemente, ela não devia estar lá.
Mas... se não estava, porque seu coração insistia em olhar para aquelas prateleiras?
Tal pensamento tomou o curador, mesmo quando já estava com a mão na maçaneta da porta. Ele ainda lançou um olhar triste àquele mar de livros que se quedavam silenciosos, como se o olhassem e se desculpassem. Por fim suspirou e sua atenção voltou-se para o amigo esquecido diante daquele turbilhão de encontros e desencontros com o qual sua mente tinha que lidar.
"Disse algo, mellon-nin?" Ele indagou um tanto constrangido e Glorfindel sorriu-lhe complacente. Pobre Elrond, talvez um dia, em Aman, ele encontrasse a paz que decididamente lhe era de direito.
Talvez um dia, mas não hoje.
"Indaguei-lhe sobre Skipper, meu bom Elrond." Respondeu. A mão já apoiada com leveza no ombro do amigo. "É sua recuperação que lhe tira dos eixos, não é, mellon-nin?"
"A ausência dela eu diria, Glorfindel." Elrond informou com tristeza, os olhos mais uma vez voltados para as longas prateleiras. "Sinto que não posso ajudá-lo."
"Piora?"
"Temo que sim."
Glorfindel seguiu o insistente olhar que o amigo lançava aos volumes da biblioteca e intrigou-se.
"Busca uma resposta que não está aqui." Ele disse e Elrond olhou-o como quem desperta de algum encantamento.
"Por que assim o afirma?"
"Porque a solução já se mostrou efetiva uma vez, Elrond."
"Não sei se compreendo."
Os olhos claros e agora muito azuis do guerreiro de Gondolin fixaram-se na face intrigada do amigo curador e de seus lábios libertou-se uma palavra que Elrond não sabia se de fato queria ouvir associada àqueles tristes eventos.
"Estel."
Elrond apertou os lábios e suas sobrancelhas se alinharam em seu habitual v cheio de significados. Glorfindel segurou-lhe um braço quando percebeu sua relutância e intenção de afastar-se.
"Estel foi curado. Não pode ignorar esse fato."
"Não compreendo o que aconteceu, Glorfindel. Não pense que essa não é mais uma das respostas que busco."
"Então apenas repita o mesmo processo."
"A que processo se refere?"
"Repita o mesmo processo, Elrond. Estejam vocês todos ao lado daquele pai como o fizeram com Estel, para que o filho não fique órfão sem necessidade."
Elrond puxou o braço num reflexo que surpreendeu o guerreiro diante dele.
"Eu e Elladan já tentamos. Até mesmo Idhrenniel vem adicionando sua força a nossa e..."
"Falta um elemento e você sabe disso, Elrond."
"Pelos Valar, Glorfindel!" Elrond voltou-se exacerbado, confirmando assim ao amigo o quão confuso e preocupado se encontrava. "Não estava lá. Não sabe o que aconteceu."
"Sei que com apenas um toque do menino a cura se fez."
"Pode ter sido coincidência."
"E eu posso ter asas. E eu mesmo levar sua mensagem àquele tirano da Floresta."
Elrond lançou um olhar de tamanha incompreensão ao amigo que Glorfindel teve que conter o desejo de rir. Por fim o curador pareceu achar por bem não responder a mais aquele comentário. Elrond puxou então a porta que abrira e ganhou rapidamente o corredor, antes que se julgasse incapaz de fazê-lo. Glorfindel suspirou, acompanhando-o e decidindo garantir o silêncio que o bom lorde elfo parecia querer semear.
Mas aqueles eram de fato dias de inquietação, por isso os dois elfos mal puderam chegar à grande porta de entrada, antes de ouvirem uma voz chamar do topo da grande escada.
"Adar-nin."
Era Aragorn, já descendo rapidamente os degraus. O rosto redesenhado pelos traços da preocupação.
"Estel." Elrond tentou sorrir-lhe. Não podia, principalmente cuidando do paciente que cuidava naquele momento, deixar de sentir o coração imensamente grato pelo filho caçula não estar na mesma situação do pobre Skipper.
"Estava indo a seu encontro." Comentou o guardião, após segurar rapidamente as mãos do pai e franzir os lábios preocupado por encontrá-las mais frias do que o de costume. "Ele piorou, ada? Como passou a noite?"
"Como passou as demais, infelizmente." O curador informou insatisfeito. "Vim até a biblioteca em busca de alguma inspiração, mas ainda não fui abençoado com o que preciso saber."
O rosto de Aragorn se contorceu como se houvesse sido esmurrado.
"Precisamos fazer algo, ada. Não podemos ficar como espectadores de tal tragédia."
Elrond suspirou. A mesma irresignação de sempre. Parecia que o eterno esperar pela dita oportunidade de sua vida, deixava o bom guardião inquieto e muitas vezes impaciente com os obstáculos do caminho. Ele não culpava o filho dúnadan. Afinal, os elfos tinham a eternidade a seu favor, no que dizia respeito à busca da solução de qualquer conflito, enquanto Estel sentia-se sempre um passo atrás dos demais, sempre andando apressadamente, com as mãos erguidas de quem pretende escavar saídas, torcer oportunidades, moldar soluções. Por isso o apelido de Passolargo lhe caia tão bem.
No entanto, tal inquietude sempre encontrava trégua e conforto, quando ele estava junto a alguém...
"E Legolas?" O curador deixou sua voz acompanhar o raciocínio, desviando o assunto com habilidade. Afinal, não havia resposta que o favorecesse naquela questão e ele ainda tinha que se manter a par dos outros problemas que o espreitavam.
"Não despertou ainda." Aragorn respondeu, olhando novamente a grande escada que acabara de descer. "Pedi à sentinela do corredor que ficasse de ouvidos atentos, já que Elrohir não apareceu para fazer seu turno. O senhor o viu?"
"Quem? Elrohir?"
"Sim. Devia ter chegado antes do primeiro cantar. Onde terá se metido?"
"Com Elladan, talvez." Glorfindel sugeriu, mas Elrond balançou discretamente a cabeça.
"Deixei-o apenas com Lady Idhrenniel há pouco. Elrohir não apareceu por lá."
Glorfindel intrigou-se.
"Onde terá ido?"
"Não faço idéia." Elrond comentou pensativo. A mente já voltada agora para o gêmeo caçula. Que rumos estranhos o destino parecia estar tecendo na terra que criara!
"Devemos ter nos desencontrado." Ofereceu o guerreiro louro então.
Elrond assentiu levemente, voltando agora os olhos para a escada de onde o filho chegara. Era uma infelicidade que cada canto de sua terra agora parecesse conter um elemento de apreensão e não de gozo, como era sua intenção quando ali reunira beleza e esperança.
"Legolas dormiu por toda a noite?" Ele inquiriu então, apenas para manter o diálogo enquanto pensava. O arqueiro o preocupava tanto quanto os demais problemas que tinha, e a estranha rotina que o príncipe empenhava-se agora a cumprir também adicionava mais alguns porquês às preocupações do curador.
Já fazia quase uma lua que o jovem elfo mal saía de seu quarto, passava o dia todo sentado pensativo na varanda e, ao entardecer, simplesmente desligava-se do mundo onde quer que estivesse, normalmente adormecia ou na poltrona do interior do quarto ou na da própria varanda. Sequer insistira mais em seu desejo de partir para sua terra.
Ao sinal positivo do filho como resposta, o curador suspirou novamente. Atormentava-o a hipótese de que todos esses acontecimentos tivessem uma sinistra ligação.
"Por que não esperou a chegada de seu irmão para deixá-lo, ion-nin?"
Aragorn mostrou-se inquieto com a pergunta, voltando a olhar para o caminho do qual viera e depois para a grande porta, como se estivesse se sentindo em um amargo ínterim de necessidades e obrigações.
"Legolas não despertará antes do topo do sol, ada;" Respondeu enfim o insatisfeito guardião. "O senhor sabe disso. Todos os dias ele mingua com a luz do fim de tarde e só retorna a nós quando o sol quente está sobre a cabeça de todos.". Ele respirou forçosamente então, enchendo o peito com pressa e voltando a olhar para a longa escada como se cogitasse a idéia de voltar. Depois seus olhos tristes tomaram a direção da porta. "E eu queria saber de Skipper..." Seu tom tornou-se amargurado então. "Queria saber se posso fazer algo... Estou me sentindo tão inútil, ada... Estou aqui em pé... sabe-se lá como e graças a quê... e Skipper... Ele está naquele leito..."
Elrond segurou o ombro do filho e Estel baixou a cabeça no mesmo instante. Envergonhava-se por mostrar tamanho desespero diante do pai, mas a falta da compreensão daqueles fatos estava torturando-o além do suportável.
Nisso a grande porta rugiu, abrindo-se pesadamente, e um vulto conhecido surgiu atrás dela. Era Elrohir, cujo semblante ganhou maior seriedade ainda ao ver os três elfos parados ao pé da escada.
"Demorou." Queixou-se o guardião assim que avistou o irmão. "Onde estava?"
"Fazendo bolhas de sabão." O gêmeo mais novo ofereceu de imediato uma resposta que parecia trazer por sob uma das mangas. "Elas flutuam muito bem nessa época do ano, sabia? Na minha total falta de afazeres diários, fazer bolhas de sabão me ocupa o tempo de ociosidade perfeitamente."
Estel rolou os olhos. Ele odiava quando Elrohir fazia aquilo.
"Preciso sair alguns instantes." Ele informou, buscando ignorar o ar de visível insatisfação que também desenhava os traços do irmão e segurando fortemente o braço deste. "Deixei a sentinela olhando por Legolas do corredor, mas não gostaria que ele despertasse sem nenhum de nós por perto. Você vai demorar a ir fazer-lhe companhia?"
"Se vai aonde penso que vai, devo aconselhar-lhe o contrário." O gêmeo respondeu insatisfeito. "Idhrenniel não vai deixá-lo entrar. Acabo de vir de lá."
"O que quer dizer?"
Elrohir bufou. Não parecia também muito satisfeito com a informação que transmitia.
"Qual parte você não entendeu?"
Aragorn voltou a rolar os olhos. Decididamente Elrohir estava atrás de confusão.
"Quero vê-lo. Não consigo uma informação efetiva há dias."
"Talvez porque uma informação efetiva seja tal qual o pássaro solitário. Uma espécie em extinção que foge a menor sinal de presença élfica ou humana."
Aragorn esvaziou ruidosamente o peito e Elrond e Glorfindel trocaram olhares conformados. Aquela era uma cena que os dois lordes elfos vinham testemunhando desde que Aragorn chegara à idade suficiente para entender e incomodar-se com a irreverência de Elrohir. O gêmeo de fato havia encontrado mais uma vítima.
"Você brinca com assuntos sérios, Elrohir." Bufou o guardião, já pensando em demonstrar sua insatisfação de formas mais efetivas. "Não sei como consegue tal façanha."
No entanto, a resposta esperada do gêmeo mais novo, outra suposta provocação, não veio, e para os presentes aquilo soou mais estranho do que se os irmãos resolvessem decidir fisicamente aquela questão.
Elrohir não parecia de fato inclinado a seu jogo de sempre.
Ele parecia.
Preocupado.
O gêmeo apoiou ambas as mãos na cintura e deixou a cabeça cair para frente.
"Temos conceitos diferentes para o verbo brincar." Ele respondeu enfim, sentindo o peso da mão do pai por sobre seu ombro direito agora. O esquerdo foi ocupado pela de Glorfindel, que lhe deu uma leve sacudida.
"Estamos em uma conversa sem serventia aqui." Disse o elfo louro, ainda apertando levemente o ombro do pupilo. "Há muito que fazer e somos um desperdício de mão de obra e cabeças pensantes aqui parados."
Elrond pendeu a cabeça em concordância, soltando o filho e dirigindo-se até a porta. Glorfindel tinha razão. A guerra na qual estavam não perdera sua razão de ser e por isso mesmo eles não podiam fazer o mesmo.
"Por que Lady Idhrenniel não nos quer no quarto de Skipper, ada?" Aragorn ainda indagou antes que o pai tomasse o rumo da rua. "Eu quero vê-lo."
"Eu o informarei do momento adequado para isso, ion-nin." Elrond respondeu, já por sob o largo batente da saída. "Agora, sua presença ao lado de Legolas é de maior utilidade."
Aragorn soltou os ombros, mas o pai não esperou por seus protestos, saindo em seguida e sendo seguido pelo guerreiro de Gondolin.
"Acho que vou explodir." Queixou-se o guardião mesmo assim, recebendo um aceno de concordância do irmão, que parecia compartilhar com bem mais do que a opinião do caçula.
Os dois ficaram mais alguns instantes em silêncio, encarando a porta de saída novamente fechada. Então Elrohir moveu o olhar para a escada, parecendo mudar o foco de seus pensamentos.
"Como será que ele vai amanhecer hoje?"
Estel acompanhou o olhar do irmão.
"Não imagino. O silêncio parece estar sendo sua melhor opção."
"Infelizmente. Ontem estava mais calado do que na véspera." Elrohir lembrou desanimado.
"Ada precisa vir vê-lo."
"Ada e Idhrenniel estão com um problema de igual tamanho nas mãos. Parece que nosso amigo dúnadan não teve a mesma sorte que você."
Aragorn curvou as sobrancelhas, desgostoso do que ouvia. Era de fato informação demais para sua capacidade de compreensão. Elrohir aproximou-se, apoiando a mão em seu ombro.
"Não contou a Legolas ainda, contou?" Indagou o gêmeo em um sussurro.
"Contar o quê?" O irmão respondeu no mesmo tom.
"Sobre o que aconteceu com você. Sobre sua suposta... cura..."
O guardião consternou-se com a lembrança. Um nó atado em uma das mais largas cordas parecia preso em sua garganta.
"Não. Não disse nada a esse respeito ainda... Não sei se vai ser de grande ajuda que ele saiba."
"Talvez seja..." Elrohir deixou escapar.
"Nem pensar." Aragorn objetou de imediato, a conjectura que o irmão parecia querer fazê-lo compartilhar pesou-lhe mais que um golpe de machado. "Não teria coragem de pedir a ele que repetisse seja lá o que fez... Se é que ele de fato fez algo. Ainda não compreendo o que aconteceu."
Elrohir sacudiu a cabeça, voltando a apoiar as mãos nos quadris.
"Talvez nem ele saiba." Comentou o elfo moreno em tom lamentoso, já arrependido da idéia que desobedientemente lhe escapara. "Contou a ele sobre Skipper?"
"Não. Ada me pediu que não comentasse."
O gêmeo calou-se pensativo então e longos instantes se decorreram até que os irmãos voltassem a se olhar, como se cada um tivesse engasgada uma questão que o outro pudesse responder. Mas na verdade, todas as questões se convertiam em enigmas sem resposta.
"Por onde esteve?" Lembrou-se o caçula de perguntar e o ar desconcertado e incomodado do irmão o fez intrigar-se. "Aonde foi, Elrohir?"
O gêmeo não respondeu, caminhando agora até a escada e apoiando a mão no corrimão, como se encarasse a subida de uma perigosa montanha, ao invés da escadaria de sua casa. Ele então sacudiu os ombros e aquele gesto em si, para o caçula que o conhecia muito bem, significou mais do que muitas palavras.
"Gwador-nín?" Ele indagou serenamente, aproximando-se com cautela e tomando o lado direito do irmão.
"Essa manhã... Eu tive uma estranha impressão..." Elrohir admitiu, sem desviar o olhar da grande escada.
"Que impressão?"
O elfo moreno baixou os olhos e Estel estranhou ao ver com que força ele agora segurava o corrimão no qual se apoiava.
"Diga-me, Ro." Ele pediu com carinho então, envolvendo o irmão com o braço direito.
"Tive a impressão de não... não os estar ouvindo..."
"Quem?"
"Os... os cavalos."
Aragorn contorceu o rosto em um ar indiscutível de incompreensão. Ele virou então o irmão para que o olhasse frente a frente.
"Como assim?"
"Eu os ouço, Estel. Pela manhã, quando desperto, são os primeiros sons que me chegam aos ouvidos. Estão sempre relinchando nas cocheiras, saudando alegres o sol, ansiando por comida e liberdade depois do descanso merecido. Eu os ouço. Ouço seus clamores, ouço Elrochian atendê-los um a um com seus elfos, ouço o cavalgar satisfeito quando as portas se abrem... Hoje... hoje não os ouvi... Por um momento pensei... pensei que... Tive que ir até lá."
"E foi?"
"Sim."
"E o que viu?"
"Nada... Estavam... todos lá..."
Aragorn pressionou os lábios trancados, depois segurou o irmão pelos ombros.
"Está dormindo sozinho, não é?" Ele indagou pacientemente e sorriu ao perceber o elfo desvencilhar-se constrangido dele. Os gêmeos raramente se separaram durante sua existência. Ocupavam o mesmo quarto, cavalgavam juntos, dividiam tarefas. O único obstáculo que se mostrava capaz de colocá-los por livre e espontânea vontade em locais diferentes era quando havia um paciente em Imladris que precisa da atenção de Elladan. "É isso, não é, Ro?"
"Lá vem você." Aborreceu-se o elfo moreno. "O que está insinuando? Que sou um elfinho que tem medo do escuro?"
Aragorn riu então, cruzando os braços diante do peito e erguendo ambas as sobrancelhas provocativamente. Mas o ar de insatisfação do irmão, por mais que Elrohir buscasse disfarçá-lo, roubou a pouca diversão que o momento parecia estar lhes proporcionando.
"Não o estou tomando por um covarde, se é isso que pensa." Esclareceu o guardião.
"E pelo que me toma?"
"Por um elfo incompleto." Ele admitiu e surpreendeu-se por ver os olhos do gêmeo escurecerem-se imediatamente. Já vira Elrohir irritado de fato com ele antes, diversas vezes para que a verdade prevalecesse, mas nunca tal atitude convertera-se em cena mais assustadora quanto aquela.
"Não se ofenda, Ro." Aragorn tentou consertar sua sentença, antes que o irmão não lhe oferecesse oportunidade de fazê-lo. "Se digo o que digo, é porque conheço os irmãos que tenho... Eu... Eu sei o quanto vocês precisam um do outro... É tão natural para mim que chego a sentir um aperto no peito quando vejo um de vocês e não vejo o outro o acompanhando."
Elrohir apoiou a mão no peito em um reflexo, parecendo estar enxergando, mesmo involuntariamente, a cena que o caçula descrevia. Sim. Eram já cinco dias sem Elladan e ele sentia-se de fato mutilado.
"Foi até os quartos de cura para vê-lo?" Aragorn indagou, lendo devagar os sentimentos expressos naqueles irrequietos olhos acinzentados e Elrohir balançou vagamente a cabeça.
"Não pude vê-lo. Skipper passou uma noite de conflito e Idhrenniel disse que Elladan a acompanhava em vigília incessante... Eu... Não posso vê-lo quando está assim tão concentrado... Eu o perturbaria se me aproximasse... Eu sei... Ele está em uma luta árdua... Sinto seu cansaço... Seu receio."
Aragorn soltou os braços. Sua mente já invadida novamente pela única imagem que se lembrava do dia do ataque: A do amigo ensangüentado, clamando por ajuda. Ele apertou então os olhos, ouvindo várias vezes a voz do velho guardião repetindo a súplica. Ele tinha que fazer algo, mas não sabia o quê. E tudo lhe mostrava que esse "o que" tinha que ser descoberto com urgência.
&&&
Era um barulho estranho. Um som metálico e sinistro que vinha da escuridão. Uma voz cavernosa entoava estranhas canções. A paisagem se resumia a um lugar úmido e negro, coberto por um lodo pegajoso. A canção se intensificava agora e a viscosidade daquele chão parecia ganhar vida, movendo-se como uma onda de pavor.
A pouca distância, um grupo de pessoas se aglomerava nos cantos da caverna, costas coladas às paredes úmidas, olhos brilhantes de pavor.
"Não podem vir por aí..."
"Legolas!" Aragorn segurou-lhe levemente pelos ombros.
"Não. Não há luz."
"Legolas! Desperte, vamos!"
"Não há luz... As frestas não são o suficiente!"
"Deixe-o falar." Elrohir tomou rapidamente o lado do irmão, diante da poltrona na qual o elfo louro adormecera na varanda.
"Está sofrendo." Aragorn contorceu o rosto em objeção, voltando a segurar o amigo pelos ombros. "É apenas um sonho ruim. Tem que despertar."
"Não, Estel." O gêmeo segurou as mãos do caçula, afastando-as do elfo ainda adormecido. "Ele não se lembra do que aconteceu. Pode estar sonhando com o ocorrido."
Aragorn desvencilhou-se irritado.
"E quer que ele se lembre, Elrohir?" Ele indagou, fixando seus olhos claros nos do irmão como se não o reconhecesse. "Já não o vemos angustiado o suficiente?"
O gêmeo pressionou o maxilar, olhando novamente para a amigo louro, cuja face se contorcia, os olhos mantinham-se fechados, mas ele agora erguia ambas as mãos como se tentasse alcançar algo.
"Ele sofre." Aragorn repetiu, voltando a apoiar as mãos nos ombros do amigo. "Legolas, acorde."
"Não. Não podem caminhar em tão escura caverna, deve haver outra saída. Eles vão alcançá-los."
"Quem? Quem Las?" Elrohir indagou, forçando novamente o caçula a se afastar.
O arqueiro passou a respirar mais rapidamente, apoiando agora a mão por sobre o peito.
"Quem, Las? Quem vai alcançá-los?" Elrohir insistiu.
"Elrohir..." A voz do príncipe mudou de tom, mas ele não ergueu as pálpebras.
"Sou eu, Las." Garantiu o gêmeo, pousando uma mão no ombro do amigo. "Onde você está? Quem os está ameaçando?"
"Elrohir, pare!" Aragorn protestou inconformado.
"Diga a eles que venham, Ro..." Legolas suplicou, segurando uma das mangas do robe do gêmeo com força. "Deve haver outra saída."
"De onde? Onde, Las?"
"Caverna... Estão... Estão... em toda a parte..."
Elrohir lançou um rápido olhar ao caçula, buscando talvez descobrir se ao menos Aragorn compreendia algo naquele emaranhado de informações, mas tudo o que encontrou foi um olhar idêntico ao dele, talvez um pouco mais indignado.
"Pare, Elrohir!" Pediu o guardião. "Não percebe que ele sofre com o que está vendo?"
"Vendo?" Elrohir ecoou intrigado e mais intrigada ainda tornou-se a feição do guardião. Ambos os irmãos então se voltaram para o elfo ainda adormecido.
"Não há luz..." Queixava-se o príncipe louro em tom lamentoso, erguendo novamente ambas as mãos. "Voltem... Não há luz... Elas vão alcançá-los."
"Quem, Las?" Elrohir insistiu, mesmo sentindo em seu peito que aquela situação chegava a um limite.
"As... As criaturas..."
"Que... Que criaturas?" Indagaram os irmãos instantaneamente.
"As... criaturas... do livro..."
Elrohir franziu o cenho, voltando-se mais uma vez para o irmão a seu lado, cujo semblante espelhava a mesma incompreensão.
"Livro?" Eles repetiram em uníssono. "Que livro, Las?" Elrohir completou.
Mas as respostas que Legolas era capaz de lhes dar pareciam ter chegado ao fim. Ele apenas balançava fortemente a cabeça para ambos os lados agora, a palma aberta por sobre o peito e o semblante de quem sente uma incrível dor. Aragorn inquietou-se então, voltando a segurá-lo e chamando-o com mais vigor.
"Las! Acorde, mellon-nin. Está tudo bem. Você está em Imladris."
"Venha. É só um sonho." Elrohir acompanhou as investidas do irmão, julgando ele também que o despertar seria mais conveniente agora. Legolas ainda debateu-se por mais alguns instantes, para enfim erguer assustado as pálpebras.
"Shh, tudo bem. Tudo bem, Las." Aragorn segurou-lhe um dos ombros. "Está em seu quarto em Imladris, acaba de despertar."
Os olhos do arqueiro ainda dançaram sem rumo certo, seu peito arfava e ele continuava a manter a mão firmemente apoiada sobre ele. Elrohir tomou-a entre as suas e o frio que percebeu nela foi mais do que suficiente para adicionar pedras de culpas a sua já pesada consciência. O gêmeo lamentava por tê-lo conduzido a ficar mais tempo dentro de uma imagem que parecia lhe fazer um mal imenso.
"Está tudo bem, Las." Garantiu então o elfo moreno, tentando acreditar no que dizia, embora sentisse que sua voz demonstrava exatamente o contrário.
Aragorn mantinha uma palma apoiada no joelho do amigo e lhe direcionava agora um olhar clínico.
"Como se sente, mellon?" Ele indagou, massageando devagar a perna do elfo. "Sua cabeça dói?"
Legolas voltou a fechar os olhos, depois cobriu o rosto em um instinto que se incorporava a sua rotina de despertar. Como o amanhecer e o anoitecer agora se resumiam a uma mesma ausência de cor e luz ele sempre se sentia inclinado a esconder o rosto, a esfregar a face com força, como se, inconscientemente sentisse que ainda não houvesse conseguido despertar por completo.
Entretanto, o que era uma rotina, soou preocupante dessa vez aos dois irmãos.
"Las? O que está sentindo?" Aragorn insistiu, puxando as palmas do amigo e voltando a analisar seu rosto pálido.
"Na... Nada..." O arqueiro enfim respondeu, soltando as mãos por sobre o colo como se finalmente percebesse onde estava. "Dormi... aqui... novamente..."
Aragorn e Elrohir se olharam mais uma vez e o gêmeo colocou-se de joelhos, sentindo enfim o alívio da certeza de que Legolas havia de fato despertado.
"Gosta de dormir em poltronas, não é elfinho?" Ele provocou e Legolas sorriu sem muito empenho, tornando a fechar os olhos como se desejasse voltar a dormir. Aragorn olhou pela sacada. De fato o príncipe despertara mais cedo do que nos outros dias.
"Venha para a cama desta vez, Las." Ele ofereceu em um tom carinhoso, apoiando levemente a palma por sobre a mão do amigo. Legolas reabriu os olhos com grande esforço e seu olhar se encontrou com o do guardião, fazendo-o estremecer.
"Estel..." Legolas disse em uma voz de sono e Aragorn custou ainda alguns instantes para perceber que de fato o amigo não o estava olhando, por mais que parecesse estar. "Ouço alguém chorar... Quem está chorando?"
Aragorn franziu o cenho, olhando para Elrohir.
"Ouve algo, Ro?" Ele indagou, imaginando se tratar de algo além de sua audição humana.
"Não." Elrohir concentrou-se. "Mas sabe que meus ouvidos não são tão aguçados quanto os de Legolas."
De fato. Elrohir e Elladan tinham algumas habilidades élficas perfeitas, mas seus instintos e capacidades sensitivas ainda foram-lhes dosados em grau inferior aos demais elfos. Isso era uma marca que carregavam. A marca dos Peredhil.
Aragorn ainda ficou inutilmente em silêncio por mais alguns instantes, depois voltou a olhar para o amigo. Legolas mantinha um olhar perdido, mas a cabeça voltava-se pesada em várias direções, enquanto seus olhos pareciam lutar arduamente para se manterem abertos.
"Ainda ouve?" Indagou o guardião, recebendo um pequeno aceno de cabeça como resposta.
Os dois irmãos se olharam mais uma vez e Elrohir soltou o ar dos pulmões, erguendo-se.
"Aonde vai?" Indagou o caçula.
"Aqui no corredor." Respondeu insatisfeito o gêmeo. "Indagar a Beinion se ele ouve algo."
O guardião não retrucou e Legolas também não mostrou objeção. Quando a porta se fechou atrás do elfo moreno, no entanto, o príncipe voltou a fechar os olhos.
"Las." Aragorn chamou-o. Ele não sabia ao certo o porquê, mas a idéia do amigo voltar a dormir, mesmo sabendo que este sono só se estenderia até o meio-dia, o estava incomodando.
"Cessou..." O príncipe disse em um suspiro, depois voltou a abrir os olhos. No entanto, tal informação só deixou o amigo ainda mais confuso.
"Sabe quem estava chorando, Las?"
O príncipe sacudiu a cabeça, apoiando agora uma mão por sobre a testa, sinal evidente de que sentia dor. A odiosa dor, que surgia ao entardecer, agravava-se até roubar-lhe os sentidos, tomar-lhe as forças do dia e que não o deixaria, ele bem o sabia, até que o sol traçasse aqueles noventa graus.
Aragorn condoeu-se pelo amigo, decidindo que seria melhor deixá-lo render-se ao cansaço que ainda parecia oprimi-lo.
"Durma, gwador..." Ele sussurrou com afeto, segurando novamente a mão do príncipe e sentindo o coração pesado ao vê-lo suspirar conformado, como quem na verdade não se entrega ao cansaço, mas sim ao carrasco.
Todavia, o estado de sono profundo não chegou a tomar o arqueiro, que reergueu repentinamente as pálpebras como se houvesse ouvido algo. Aragorn não teve tempo de indagar-lhe o que seria, pois a porta do quarto se abriu em seguida e, atrás dela, surgiu a resposta.
Um rosto conhecido do guardião lhe dirigia o olhar surpreso de quem julga estar vendo um fantasma.
"Strider! Então é verdade? Como... Como você..."
"Fowler." Aragorn surpreendeu-se, erguendo-se de imediato e indo ao encontro do filho de Skipper. O rapaz permitiu ser conduzir pelo braço para dentro do cômodo, seus olhos, porém, não deixavam a figura do guardião por um instante sequer.
"Então é verdade..." Ele repetia. "Como? Por quê?"
"Sente-se aqui, Fowler." Instruiu o guardião, oferecendo uma cadeira ao recém-chegado.
"Não, Strider. Você precisa me dizer o que houve. Quando os trouxemos... Você era quem estava mais... mais... Por que... Por... Por que meu pai está como está, Strider? Por que ele está como está e você... você está... você está..."
O rapaz não conseguiu terminar, de seus olhos já corriam fios de lágrimas e suas mãos tremiam. Aragorn sentiu que seu peito ia explodir de preocupação e remorso. Passaram-se os dias e ele sequer havia tido tempo de falar com o jovem filho de Skipper.
"Sente-se, Fowler. Por favor." Ele insistiu, segurando o rapaz pelos ombros.
"Eu não posso... Strider!" Reagiu, no entanto o menino, o desespero guiando todos os seus atos. Ele sacudiu os ombros e pôs-se a dois passos do líder, encarando-o dos pés a cabeça com um olhar quase desaparecido pelas contraídas sobrancelhas da dúvida.
"Fowler... Acalme-se." Elrohir aproximou-se enfim. Percebendo que apenas o caçula não conseguiria impedir que aquele pobre rapaz desfalecesse de desespero ou fizesse algo ainda pior. "Sente-se um pouco e coloque-nos a par do que está acontecendo, meu amigo."
"Do que está acontecendo?" Fowler lançou um olhar tão desesperado ao gêmeo que ele estremeceu. "O que está acontecendo é que meu pai vai morrer... Ele vai morrer... Eu ouvi Lorde Elrond e Lady Idhrenniel conversando hoje. Eles não estão... não estão conseguindo conter as hemorragias e a febre volta cada vez mais alta. Por tudo o que é sagrado, Strider. Por que você está de pé assim, como se nenhum mal o houvesse atingido e meu pai vai morrer? Por quê?"
Aragorn apertou angustiado os punhos e o mundo pareceu girar trezentos e sessenta graus sem que ele conseguisse pensar em algo que ao menos soasse razoável. Algo que não refletisse uma loucura ainda maior do que a que o pobre Fowler tentava compreender. Contudo, enquanto o agoniado guardião pensava em como compor uma sentença ao menos para dizer ao rapaz, ele sentiu uma presença atrás de si.
Legolas estava em pé diante da porta da sacada.
"Fowler?" Ele chamou, reconhecendo a voz do amigo que não via há muito tempo.
O rapaz voltou-se na direção do elfo e seu rosto empalideceu ainda mais.
"Squirrel?" Indagou, descrente do que seus olhos viam. "Squirrel? Você está aqui?"
Antes que Legolas, ou qualquer outro pudesse esclarecer algumas questões para o rapaz, o jovem Fowler já havia abraçado o arqueiro com uma força que traduziu toda a saudade que o menino sentia de seu amigo e protetor. Sentimento este que emocionou visivelmente o príncipe elfo.
"Squirrel. Squirrel. Não acredito que está aqui. Que bom encontrá-lo, Squirrel."
"Meu coração se alegra também com nosso reencontro, Fowler." Legolas respondeu, apoiando a mão nas costas do rapaz que parecia relutante em soltá-lo. Legolas também parecia compartilhar tal relutância, por um motivo a mais, entretanto.
Quando o rapaz afastou-se, porém, passou a enxugar como podia as lágrimas e, em seu ímpeto de esconder um pouco sua dor, não percebeu o que todos aguardavam que ele percebesse. Legolas apoiou a mão no ombro do amigo e baixou o rosto no momento exato em que Fowler voltou a encará-lo.
"Estamos com problemas, Squirrel... Você sabe disso, não sabe?" Fowler indagou com amargura, sua voz oscilante trouxe mais dor ao coração do arqueiro. Legolas reergueu os olhos e suas sobrancelhas estavam contraídas.
"Temos tantos problemas, Fowler..." Ele disse com igual tristeza. "A qual deles você se refere, meu bom amigo?"
Foi então que o jovem guardião percebeu que algo estava errado. Os olhos claros do príncipe agora se voltavam para longe dele, não o encaram, estavam estranhos... opacos... tristes...
"Squirrel? O que... O que houve com seus... com seus olhos?" A pergunta escorregou traiçoeira dos lábios do rapaz, antes que Elrohir ou Aragorn tivesse tempo de precavê-lo para que não a fizesse.
As órbitas do príncipe voltaram-se então e se fixaram por alguns segundos no rosto do jovem amigo e Fowler estremeceu como estremecera certa vez, ao olhar um eclipse do sol, mesmo com a desaprovação do pai.
"Squirrel..." O tom de voz do menino entristeceu mais uma vez, mesmo quando Legolas lhe ofereceu um sorriso triste. "O que... O que aconteceu com seus olhos?"
"Estão... Estão mortos, meu amigo Fowler." Legolas respondeu enfim e o menino sentiu o queixo cair, voltando-se inconformado para o elfo moreno e o guardião que estavam próximos. Aragorn baixou os olhos consternado, mas Elrohir encheu o peito.
"Não estão mortos, Fowler." Ele assegurou. "Apenas dormem."
Legolas sorriu, baixando o rosto e aquietando o espírito com aquela certeza que apenas Elrohir parecia possuir. Ele ainda se lembrava das palavras do gêmeo, por mais que tentasse esquecê-las e, mesmo sem querer, apegava-se a elas com teimosa esperança.
Fowler ainda olhou os três presentes com seu ar ingênuo da eterna criança que tudo tenta compreender. Ele já crescera e amadurecera depois que Legolas o vira pela última vez, mas, por ser o caçula do grupo e deveras protegido pelo pai, ainda guardava, apesar de estar a poucos anos da maioridade, a ingenuidade de uma infância que não se perdeu por completo.
"Eu sinto muito, Squirrel..." Ele disse por fim, lamentando o ocorrido do fundo de seu coração.
"Obrigado." Legolas respondeu, erguendo uma mão e sentindo o jovem recebê-la entre as suas. "Temo que há outra tristeza em seu coração, além da que hoje adiciono a ele."
O rapaz sacudiu a cabeça negativamente, querendo isentar o elfo de qualquer culpa, mas esquecendo-se que Legolas não podia ver sua atitude. Apenas após alguns instantes a percepção desse fato lhe surgiu e ele estalou insatisfeito os lábios.
"O que rouba sua felicidade, Fowler?" Legolas insistiu e os dois filhos do curador se olharam apreensivos.
Fowler ergueu olhos tristes, mas sentiu-se incapaz de encarar o amigo assim, por isso tornou a baixá-los.
"Meu pai está doente Squirrel... Assim como Strider estava quando chegou." Ele respondeu cabisbaixo. "Ele não consegue se recuperar... Ele... Ele vai morrer..."
Legolas estremeceu então e seu rosto perdeu a pouca cor que tinha tão rapidamente que Aragorn colocou-se a seu lado.
"Lorde Elrond está cuidando dele, Legolas." Assegurou o guardião, tentando soar o mais convincente possível.
"Lorde Elrond nada pode fazer." Fowler declarou em voz embargada, já cobrindo novamente o rosto para esconder as lágrimas que lhe brotavam. "Meu pai vai morrer."
"Não... Não vai..." Legolas respondeu então, sua mão fria segurando agora fortemente a do jovem amigo guardião. "Leve-me até ele, Fowler."
