Nunca as tarefas da manhã tinham levado tanto tempo. E, justamente naquele dia, Edward havia lhe pedido para ordenhar a vaca.

Curioso como a perspectiva de rever a mãe a deixava tão feliz. Especialmente considerando- se o fato de haver fugido de casa e jurado nunca mais pôr os pés lá.

Assim que acabou de ordenhar a vaca, Isabella levou o balde com o leite à pequena leiteria, construção arejada, perto do riacho. Ali, ele não azedava nem no verão.

— Já terminou todas as tarefas? — Edward indagou da porta.

— Quase — Isabella respondeu, esperando que ele não a incumbisse de outro serviço.

— Eu só queria avisá-la que vamos percorrer os pastos a fim de trazer os potros e as mães para perto do estábulo.

Ela soltou um suspiro de alívio. Edward e os empregados estariam longe quando ela saísse para ir visitar a mãe. Só faltava dar um jeito para Esme não perceber nada. Ia ser difícil, mas, tinha de tentar. Pela atitude de Edward, ela não teria outra oportunidade. Dentro de poucos dias, ele cumpriria a ameaça.

Ou seria promessa? Não importava, pois de qualquer forma, ela se casaria. Para ser honesta consigo mesma, não encontrava motivo algum para se lamentar quando refletia sobre a questão.

— Vou para casa daqui a pouco — disse a Edward ao juntar-se a ele. — Antes, quero brincar com os cachorrinhos. Você não encontrou ninguém que queira o último?

— Estou pensando em perguntar a Cord McPherson se os irmãos de Rachel não gostariam de ficar com ele. O cão pastor que têm já está velho e talvez precisem de um novo. — Fitou-a e sorriu. — Ele não ficaria muito longe e você poderia ir vê-lo de vez quando.

— No dia em que entregar os potros, você poderá mostrar o cachorrinho — sugeriu ela.

— Você vai querer me acompanhar quando eu for lá? Talvez já tenha novidades para contar a Rachel.

— Que novidades? Edward suspirou.

— Nós vamos nos casar, Isabella. Esqueceu? Naturalmente quer que Rachel saiba por você.

— Ora, ela não se interessa por mim e vai pensar que você foi fisgado à força. Ele aconchegou-lhe o rosto entre as mãos.

— Você ainda não entendeu, Isabella Swan? Vou me casar com você porque quero e te amo. Não se esqueça disto nem por um segundo sequer.

— Bem, não vamos nos casar hoje. Você tem de juntar as éguas e os potros antes que comece a nevar.

Edward olhou para as nuvens cinzentas e baixas a oeste.

— E provavelmente antes do pôr do sol. Não se esqueça do cachecol quando for ao estábulo à tarde. O vento está aumentando e Esme a esfolará viva se você ficar com dor de garganta. — Curvou-se e a beijou. — Fique perto de casa hoje, Maggie. Prometa. Não quero me preocupar com você.

Ela apenas sorriu, esperando que ele aceitasse o gesto como sinal de sua obediência. Não poderia concordar com palavras se pretendia escapar pela estrada tão logo ele sumisse de vista no pasto.

— Mamãe?

A casa estava no mais absoluto silêncio e Isabella não via sinal de fumaça na chaminé.

Desmontou e prendeu a égua na grade do terraço da frente.

O sentimento de culpa a tinha atormentado durante o trajeto. Primeiro, porque havia tirado, sem pedir licença, um animal do estábulo e segundo por desaparecer sem dizer a Esme aonde ia. Com um aceno de mão, tinha saído de casa como se fosse ao curral lidar com os potros. Embora não houvesse mentido através de palavras, o fizera com a atitude enganosa.

Havia levado mais de uma hora para encontrar a trilha que levava à destilaria do pai. Tinha escondido a égua na mata, a alguma distância, e seguido a pé. Havia se orientado pelo odor da bebida e ficado atrás de umas árvores, espiando. Ao ver que o pai começava a encher um sem fim de garrafões, sinal de que não iria para casa antes do anoitecer, tinha voltado para junto da égua e galopado para casa.

Como fizesse frio, ela achou estranho não ver fumaça na chaminé. O fogão da cozinha devia estar apagado. Assustou-se e, deixando a precaução de lado, entrou depressa em casa.

— Mamãe, onde está a senhora? — tornou a chamar.

Uma resposta fraca, vinda do quarto dos pais, fez Isabella correr para lá. Na cama, viu a mãe encolhida, mas com a mão levantada.

— O que está fazendo aqui, menina? Seu pai a esganará se a encontrar — avisou Renee Swan numa voz aflita.

— O que aconteceu com a senhora? Ele a espancou de novo? — Isabella indagou ao ajoelhar-se ao lado da cama e ver o sangue seco nos lábios e numa das faces da mãe.

Segurou-lhe a mão entre as suas enluvadas e, mesmo assim, percebeu como estava gelada.

— Vou acender o fogo.

— Não faça isso, filha. Volte para onde você está morando. Se seu pai chegar, Isa…

— Ele não me encontrará. Está na destilaria, verifiquei antes de vir para cá. — Tirou as luvas e as colocou nas mãos da mãe. — Isto vai esquentá-las um pouco. Já volto — prometeu.

Na cozinha, encontrou lenha e gravetos com os quais acendeu o fogo. Voltou ao quarto, decidida a levar a mãe para perto do fogão.

— Vou ajudá-la a ir até a cozinha — disse ao se aproximar da cama.

Com dificuldade, Renee levantou-se apoiada na filha. Isabella assustou-se ao notar-lhe a magreza.

— A senhora não tem se alimentado bem? — perguntou ao enrolá-la no acolchoado.

— Não ando com muito apetite — Renee respondeu.

Com o braço em sua cintura, Isabella a levou à cozinha e a fez sentar-se numa cadeira perto do fogo.

— Vou esquentar o café para a senhora — disse ao pôr o bule na chapa.

— Não, é de ontem. Ao se levantar hoje e ver que eu não tinha coado café, seu pai foi embora sem acender o fogo.

— Quando ele lhe fez isto? — Isabella indagou, tocando-lhe o rosto.

— Ontem — Renee balbuciou ao baixar a cabeça como se pudesse esconder os sinais da brutalidade do marido.

— A senhora irá embora comigo. Sei de um lugar onde poderá ficar e que o pai nunca encontrará — Isabella ofereceu embora soubesse que a mãe não aceitaria.

— Não. Pegue um pedaço de pão para mim ali no armário e vá embora. Seu pai logo vai chegar e, se a encontrar aqui, a matará.

— Ele jamais encostará a mão em mim de novo — Isabella afirmou. Deu-lhe o pão e contou: — Eu vim porque queria vê-la, mamãe. Vou me casar.

Verna arregalou os olhos.

— Com quem? Algum conhecido da redondeza? Ele a engravidou, menina?

— Não, mamãe. Edward jamais faria isso.

Bateu a mão na boca ao dar-se de conta de haver mencionado o nome que jurara jamais pronunciar nessa casa.

—Edward? — Renee repetiu. — Edward Cullen que tem uma fazenda adiante da dos McPherson? Você vai se casar com ele? Seu pai ficará louco de raiva quando souber. Como se não bastasse Rosalie e Alice terem ido embora, ele pragueja sem parar porque você fugiu também. Especialmente agora que precisa que você trate do cavalo dele.

— O que ele tem?

— Você conhece seu pai. Diz que o cavalo não o obedeceu e ele deu-lhe uma pancada com o cabo do machado que lhe cortou o lombo. Agora, o ferimento está infeccionado e seu pai tem medo que ele morra.

Isabella fechou o casaco até o pescoço e dirigiu-se à porta de trás da cozinha.

— Quero levá-la para casa comigo, mamãe. Vista-se depressa, pois voltarei logo para pegá- la. Terá de se apressar — avisou ao sair e correr ao estábulo.

O cavalo estava na primeira baia com uma das patas traseiras levantada sobre um monte de estéreo. O mau cheiro era insuportável e Isabella apressou-se em levar o animal para fora do estábulo.

— Vamos, rapaz. Prometo tirá-lo daqui e cuidar de você — murmurou ao conduzi-lo até o terraço de trás e prendê-lo na grade.

Entrou na cozinha e exclamou:

— A senhora não está pronta, mamãe!

— Vá embora, bella, e leve as luvas. Alguém deve gostar muito de você para fazê-las e lhe dar. São lindas. Se seu pai as vir, saberá que você esteve aqui. E não volte, bella. Não lhe dê outra oportunidade. Ele a matará. Jurou fazê-lo.

Isabella estremeceu. Depois de pegar as luvas e beijar a mãe, saiu pela cozinha a fim de levar o cavalo até a frente da casa onde estava a égua. Prendeu-o na sela, montou e, sem olhar para trás, foi embora, fazendo a montaria ir devagar a fim de que o cavalo machucado pudesse acompanhar-lhe o passo.

— Com todos os diabos, de onde veio aquele pangaré? — Edward indagou ao irromper cozinha adentro e olhando para Isabella. — Não me diga que você trouxe o imprestável para meu estábulo.

Encarando-o, ela endireitou os ombros.

— Não posso. Limpei o ferimento dele no lombo, passei ungüento e o deixei numa baia.

Isso sem falar que o roubei.

— Você roubou aquele saco de ossos? Cometeu um crime! Diabo, menina! Se ia roubar um cavalo, poderia ter pegado um que valesse a pena trazê-lo para casa. O desgraçado parece que não vai agüentar até amanhã cedo.

Isabella dirigiu-se à porta como se fosse sair.

— Ele deitou? Estava em pé quando o deixei.

— Continua, mas não vai ser por muito tempo. Pony afirma que está muito mal. Mandei levá-lo a uma baia dos fundos onde é mais quente.

— Essa menina não vai a lugar algum enquanto não se alimentar. Não comeu nada depois do café da manhã e chegou há pouco se arrastando de cansaço — contou Esme.

Edward observou Isabella.

— Não existe desculpa para não se alimentar. Nesta casa não falta comida. Mas onde arranjou o cavalo? Já sei, não precisa responder. Você foi visitar sua mãe, não foi? Viu o cavalo e não suportou a idéia de seu pai descontar a raiva no pobre animal.

Ela arregalou os olhos.

— Como adivinhou? Pretende… Não, claro. Você não mandaria Pony levá-lo a um lugar mais quente se tivesse a intenção de pôr fim ao sofrimento dele. — Sorriu com expressão triste. — Você não é tão durão quanto quer que eu acredite, Edward Cullen.

— Serei bem mais duro do que você calcula se tiver de enfrentar seu pai por causa de um pangaré imprestável — ele declarou com firmeza.

Ao vê-la assentir com um gesto de cabeça, Edward sentiu remorso por ser tão intransigente.

Passou os braços por sua cintura, puxando-a para mais perto.

Ficava apavorado só de pensar em que poderia ter lhe acontecido caso o pai a tivesse encontrado. A raiva ameaçava dominá-lo. Uma jovem devia ter o direito de ir ver a mãe sem correr

perigo.

— Vamos cuidar do cavalo — prometeu ao abafar o ódio.

— Eu tinha de trazê-lo. Você não pode imaginar a sujeira da baia em que ele estava. Precisei

lavá-lo antes de o levar para dentro do estábulo — contou Isabella.

Tê-la entre os braços acalmou as emoções tumultuadas de Edward. Graças ao bom Deus, ela se encontrava em segurança ali.

— Você acha que ele vai se recuperar, Isabella? — perguntou ao beijá-la na testa.

— Talvez, não sei. — Ela desabotoou-lhe o casaco, passou as mãos pelas lapelas e encostou o rosto na abertura da camisa. — Eu tinha de cuidar dele, Edward. Minha mãe não quis vir comigo, mas o pangaré me acompanhou como se soubesse que vinha para um lugar melhor.

— Bem, você viu sua mãe como desejava — murmurou Edward, massageando-lhe as costas.

— A casa estava gelada. Acendi o fogão e a levei para se sentar perto do fogo. Não pude fazer mais do que isso.

Sua voz triste e desanimada o deixou consternado. Gostaria de levá-la ao quarto dele onde poderia consolá-la em privacidade.

— Sente-se, Isabella, e coma alguma coisa.

Ela o atendeu e Edward acomodou-se a seu lado. Logo depois, Esme punha um prato de sopa de legumes a sua frente.

— Por enquanto, contente-se com isto. Daqui à uma hora, o jantar estará pronto.

Como uma criança obediente, Isabella pegou a colher, encheu-a de sopa e já ia levá-la à boca quando Edward segurou-lhe a mão.

— Cuidado! Está muito quente — avisou ao assoprar a colher.

— Obrigada — murmurou ela, enrubescendo

Ao ver a cor voltar a suas faces, ele sentiu-se aliviado.

— Assopre você mesma e tome tudo — recomendou. Satisfeito, a viu devorar o prato

inteiro.

A noite foi longa apesar de Pony estar a seu lado ajudando-a a cuidar do cavalo.

— Ele não vale este trabalho — resmungou Pony ao passar-lhe nova cataplasma.

— Eu sei. Mas o que posso fazer? Deixá-lo morrer sem lhe dispensar cuidado algum? — indagou Isabella.

— Não — ele concordou ao passar a mão no pêlo do animal. — Não entendo como alguém pode maltratar tanto um cavalo. Aposto como faz semanas que ele não é escovado.

— Meses, sem dúvida. Conhecendo meu pai, calculo que ele usou e abusou o quanto pôde deste pobre animal.

Ajeitou a cataplasma e cobriu-a com um cobertor a fim de manter o calor.

— Acho bom se sentar um pouco — aconselhou Pony. — Não vai demorar para amanhecer.

Se as cataplasmas surtirem efeito, logo saberemos. Parece que já drenou o pus do ferimento.

— Tenho medo de deixá-lo e ele se deitar. Então, não conseguiremos que fique em pé outra vez — Isabella confessou, enquanto afagava a cabeça do cavalo.

— Já está amanhecendo — avisou Edward da porta do estábulo. — Nevou mais um pouco.

Precisamos alimentar os cavalos, Pony.

— O que precisamos, patrão, é forçar esta moça a ir se deitar. Ela está prestes a desfalecer de cansaço.

— Você também passou a noite aqui, Pony. — Daqui a pouco, vou para casa tomar café. Só quero esperar uma meia hora para tirar a cataplasma e passar o ungüento.

Edward viu que o animal erguia um pouco mais a cabeça e até comia feno da mão de Isabella.

— Não lhe deu aveia ou milho? — indagou ele.

— Pensei em dar ração de farelo molhado, caso você não se importe — ela respondeu ao virar-se para Edward.

O cavalo ergueu mais a cabeça e roçou o focinho em seu ombro.

— Ele gosta que você o agrade — comentou Edward, dando razão ao animal e pensando como gostaria de também sentir a magia daquelas mãos. — Por que não termina logo tudo aqui e vai para casa?

— Vá já. Cuido do resto — disse Pony. — Depois, o patrão poderá me trazer qualquer coisa para eu comer enquanto encho o carroção com feno.

Os pés de Isabella arrastavam-se na neve, mas o braço de Edward em sua cintura dava-lhe uma ponta de ânimo.

— Estou exausta — admitiu ao ver os primeiros sinais de luz no horizonte a leste.

— Esme já deve ter esquentado água para você se lavar. Depois do café, poderá tomar um banho. Relaxará os músculos cansados e dormirá melhor.

Em questão de minutos, ele a ajudou a tirar o casaco e conduziu-a até a pia onde Sophie já tinha posto sabão, esfregão e toalha ao lado da bacia. Devagar, Isabella lavou-se, sentindo alívio ao livrar o rosto, as mãos e os braços da sujeira acumulada.

Como sempre, ao vê-la fazer isso, Edward lembrou-se da primeira vez em que ela se lavara ali e de como estava desfigurada com os ferimentos no rosto. Deu-se conta de que, naquele instante, começara a amá-la. Havia sentido a necessidade de dar-lhe amor e proteção, o instinto viril centrado em sua reabilitação. Mais tarde, ao tentar presenteá-la sem lhe ofender o orgulho, tinha aprendido a apreciar a mulher vibrante que se escondia na silhueta delicada. A sua Isabella não era aproveitadora. Habituada a trabalhar muito, havia conquistado o respeito dele e um lugar ali. E, aos poucos, tinha ocupado o vazio no coração dele.

Já não existia mais a mágoa pelo amor perdido anos atrás, nem a atração sentida por Rachel.

Havia unicamente Isabella Swan.

— O que você está olhando? Não lavei bem o rosto? — ela perguntou ao virar-se da pia e ver a expressão estranha de Edward.

— Lavou, sim, coração.

Embriagado com a emoção que sua presença lhe provocava, afastou seus cabelos e a beijou na testa. Deslizou os lábios pelo rosto até os lábios numa carícia meiga que não esperava retribuição, apenas apreciando a pele macia da mulher a quem amava.

— Às vezes, você me deixa sem fôlego — ela murmurou, fechando os olhos.

— Pretendo fazer bastante isso. Logo, logo.

Puxou-a para mais perto e Isabella, exausta por causa da noite sem dormir, apoiou o corpo no dele. Naquele dia, ele a deixaria se recuperar da noite em claro, mas no seguinte, se conseguisse o que desejava, a teria na cama dele.

Havia perdido um dia inteiro, Isabella deu-se conta. Sentada na beirada da cama, viu que outro já ia adiantado. Os raios de sol, que entravam pela janela, a fizeram se espreguiçar. Apesar do banho quente na véspera, os músculos dos braços e das pernas ainda doíam. Cuidar de animais feridos era um trabalho cansativo.

Edward a tinha acordado na hora do jantar, obrigado-a a se alimentar e a forçado a se deitar depois. Ajoelhado ali ao lado da cama, ele a tinha beijado e murmurado palavras amorosas.

Isabella arregalou os olhos. O que ele havia dito? Vamos nos casar amanhã, coração.

Amanhã? Isso queria dizer hoje. Levantou-se rapidamente e só então viu que a porta do quarto estava bem aberta a fim de deixar o calor do fogão aquecê-la.

— Já estava na hora de acordar. Pensei que fosse dormir outro dia inteiro — disse Esme da cozinha.

— Já me levantei. Onde está Edward?

— Foi ao estábulo, mas, volta já. Não quis tomar o café antes de você.

Isabella vestiu uma calça comprida limpa e pegou uma camisa de flanela xadrez. Tinha dormido com a roupa de baixo. A camiseta era nova e dispensava o uso de uma das camisas finas. Depois de vestida, sentou-se para calçar as meias. Escovou rapidamente os cabelos e, sem prendê- los, passou para a cozinha.

Uma xícara de café a esperava na mesa.

— Obrigada, Esme — disse ao pegá-la e se aproximar do fogão em busca de calor.

Sentia-se bem perto do céu. Antes, considerava a casa de Edward um paraíso para sua alma carente. Porém, os beijos, as carícias e as palavras amorosas dele a tinham transportado a um outro reino.

Ia ser sra. Edward Cullen, uma dama casada.

Um grito, vindo do pátio, interrompeu seus devaneios e um tiro de espingarda quebrou a vidraça da cozinha. Esme agarrou-a depressa e a fez deitar-se no chão ao lado dela.

— O que aconteceu? — Isabella balbuciou enquanto se arrastava para debaixo da mesa. Um vento gelado, vindo pela janela quebrada, lhe provocou um arrepio.

— Um idiota atirou na casa — respondeu Esme, furiosa. — Não creio que Rad tenha se atrevido a voltar aqui.

— Você está com minha filha aí dentro, Cullen! Exijo que ela saia já para o pátio. Vou levá-la de volta para casa onde é seu lugar.

Apavorada, Isabella cobriu o rosto com as mãos.

— Edward! — balbuciou como se fizesse uma prece.

— Acalme se. Edward jamais entregaria você para esse homem perverso, menina. Vou pegar a espingarda na despensa — Esme avisou em voz enérgica, embora baixa.

Agachada, foi até o depósito estreito onde ficou em pé entre as prateleiras. Isabella a viu pegar a arma, abri-la, olhar e tornar a fechá-la com um clique metálico.

— Está carregada e eu sei atirar com ela.

Do pátio chegou o barulho de uma grande confusão, difícil de se entender. Vozes exaltadas e a fúria do homem embriagado.

— Tire seus pés imundos de minha propriedade — Edward ordenou.

— Ele está com a pistola de Pony — Esme contou, olhando pela janelinha da despensa. Charlie Swan desfiou uma torrente de palavrões. Isbella estremeceu com nova onda de

pavor.

— Seu pai está descontrolado. A montaria nem sabe para que lado virar de tanto que ele

puxa as rédeas e é bem capaz de atirar o bandido no chão — comentou Esme.

— Venha já para fora, menina, ou atirarei em Edward Cullen— esbravejou Swan.

— Fique onde está, Isabella! Ouviu bem?

A voz de Edward revelava a raiva sentida. Sob a mesa, Isabella continuou a tremer. Se Edward recebesse um tiro por sua causa, ela nunca se perdoaria. Firmada nas mãos e nos joelhos, engatinhou até a janela, ignorando os cortes feitos com lascas de vidro.

— Nem sonhe em ir lá para fora — ordenou Esme ao abaixar-se na despensa e também se aproximar da janela. — Edward se livrará dele.

De fato, o fez. As duas, ajoelhadas e espiando pelo canto do batente, viram Edward assestar a arma. Com precisão, ele acertou o primeiro tiro no chapéu de Swan e o segundo na espingarda que caiu no chão. Com um grito de dor e abaixado na sela, o homem ameaçou enquanto partia a galope:

— Eu voltarei!

— E nós estaremos esperando por você — resmungou Esme ao se pôr em pé. Ao olhar para Isabella, disse: — Você está sangrando nas mãos. Não limpe na calça. Com a ponta dos dedos, a desabotoe e a deixe escorregar pelas pernas. Depois, tire os pés com cuidado.

Isabella examinou os cortes nas mãos. Nenhum era profundo ou tinha lascas de vidro.

— Não se aflija. Só preciso lavar as mãos e passar ungüento nos cortes. A porta foi aberta com estrondo e Edward entrou apressado.

— Vocês estão bem?

Com olhar aflito, examinou Isabella da cabeça aos pés. Ao ver os cacos de vidro no chão, ordenou:

— Saia já daí, Isabella.

Ela não conteve um riso nervoso.

— Acho bom decidirem o que devo fazer primeiro. Esme quer que eu tire a calça e você…

Sentindo as lágrimas, Isabella baixou o olhar.

— Esme está certa. Estou vendo pedaços de vidro espetados na calça. E bom tirá-la já.

— Você quer que eu me dispa em sua frente?! — indagou ela, incrédula.

— Foi o que eu disse. E tome cuidado onde pisa. Você nem calçou as botas — reclamou ele ao entrar no quartinho.

Quando voltou, trazia o acolchoado Isabella acabava de tirar a calça e Esme a fazia se sentar. Ajudou-o a cobri-la bem e disse:

— Vou varrer logo o chão. Enquanto isso, Edward, sirva um café à menina. Vai ajudá-la a se esquentar. Depois, cuidarei das mãos dela.

Isabella aceitou o café, sorveu um gole e sentiu-se reconfortada. Mas então, baixou o olhar e choramingou:

— Estou sujando a xícara toda de sangue.

— Que importância tem? Estou terminando de varrer o vidro e já vou limpar suas mãos — prometeu Esme.

Após uns instantes, ela passava um pano molhado nos cortes, mas estes continuaram sangrando.

— O jeito é deixar as mãos cobertas por algum tempo. Isso não a impedirá de usá-las, pois os cortes são na palma e os dedos vão ficar livres.

Com uma atadura improvisada de um lençol velho, enrolou suas mãos e a declarou pronta para tomar um bom café da manhã.

Pony apareceu no terraço e pregou uma tábua na vidraça quebrada a fim de impedir a entrada do ar gelado. Isso fez Edward acender uma lamparina e colocá-la na mesa. Além dos sinais visíveis da loucura do pai, tudo estava de volta ao normal, refletiu Isabella, aninhada no acolchoado. Ao ver suas faces coradas novamente, Edward respirou aliviado. Porém, sabia que ela se sentia culpada pelo incidente. Por isso, não se surpreendeu ao ouvi-la dizer:

— Lamento muito, Edward. Foi um erro ir ver minha mãe. Eu devia saber que meu pai a forçaria a lhe contar onde eu estava. Sem querer, mencionei seu nome. Ele não levou muito tempo para arrancar de minha mãe tudo que ela sabia.

Edward a acariciou no rosto.

— Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria. Como foi hoje, nossa ida à cidade se torna mais importante.

— Apesar de tudo, vamos mesmo até lá?

— Claro. Continuo firme no propósito de nos casarmos hoje. Assim que terminarmos o café, vamos nos aprontar e seguir de charrete para a cidade a fim de procurar o pastor.