Resumo: Eu tinha sete anos quando o conheci. E nem eu nem ele sabíamos como nossas vidas iam mudar a partir daquele momento. AU, B/B.
N/a: Angie, obrigada por sempre deixar comentários! Sim, o fato da Brennan pular de um lar adotivo para outro é pelo mesmo motivo da série, resolvi manter isso.
Não posso ignorar o fato que a Brennan é uma cabeça dura. E isso é tudo que vou declarar. :P
Brennan's song
10. O que nós fomos, o que nós somos
I was sixteen when suddenly
(Eu tinha dezesseis anos quando de repente)
I wasn't that little girl you used to see
(Não era mais aquela garotinha que você costumava ver)
But your eyes still shined like pretty lights
(Mas os seus olhos ainda brilhavam como lindas luzes)
Eu sempre chegava cedo ao colégio, mas me refugiava no campo ou na biblioteca e só entrava na sala perto do horário da aula começar. Tentava não ficar nos corredores, principalmente quando eles estavam cheios de gente. Eu sabia me defender se precisasse, mas na maioria das vezes eu apenas não queria ouvir as grosserias de uma ou outra criança quando eu passava.
Até aquele momento havia conseguido me tornar quase que invisível, mas sabia que não levaria muito tempo até que eu fosse reconhecida como uma foster kid. Eu sabia como foster kids eram tratadas. Mas talvez mais do que isso, eu queria que não me reconhecessem. Não queria perguntas sobre meus pais e minha família, mesmo que fossem perguntas educadas. Não queria perguntas sobre por que eu havia sumido e o que andara fazendo. E para minha sorte, uma ou outra pessoa da minha antiga turma que eu reconhecera não viera falar comigo a respeito de nada. Eu estava bem com isso, eles me ignorarem era a melhor coisa.
A única exceção para a regra era Angela. Normalmente ela sentava para conversar comigo depois da aula, quando eu queria me enrolar para voltar para casa. Ela não sabia que eu estava fazedo isso, adiando o retorno para casa, mas ficava comigo por algum tempo, às vezes desenhando, às vezes só conversando. Certo dia no almoço ela me chamou para sentar junto com suas amigas, mas foi tão estranho e desconfortável que achei que seria melhor para nós duas que aquilo não se repetisse.
E mesmo eu repetindo para mim mesma que não precisava de amigos afinal, era grata a Angela por me encontrar todos os dias, e conversar por meia hora. Eu nunca confessaria isso, mas no fundo sabia que eu precisava daquilo.
Naquela terça-feira ela estava me contando sobre uma festa que havia ido, com muitos gritinhos excitados e movimentos com as mãos, quando ouvi alguém me chamar.
-Ei, Brennan. – me virei para ver Hodgins caminhando em minha direção, segurando alguns papéis. - Que bom que consegui pegar você, me atrasei pra sair da aula e achei que não ia dar tempo. – disse ele, colocando os papéis na minha mão.
-Quer que eu preencha agora? – não obtive resposta, e tentei de novo. – Hodgins?
-Se não se importar, assim já levo. – disse ele, finalmente tirando os olhos de Angela para ouvir minha pergunta. Ouvi uma risadinha vir do meu lado.
Eu preenchi rapidamente, não querendo pensar sobre endereço e telefone por muito tempo. Em um segundo de besteira, quase coloquei meu antigo endereço e quando lembrei que havia mudado, senti algo ruim no estômago.
Devolvi o papel para ele, que havia se apoiado em uma lixeira. Quando ele se aproximou para pegar os papéis, a lixeira virou com um barulho enorme. Ele a levantou, atrapalhado, e uma nova onda de risadas veio da direção de Angela. Eu olhei de um para outro sem entender, e Hodgins deu um tchau ainda sorrindo, se encaminhando para um carro do outro lado da rua.
-Wow. – disse Angela, olhando ele ligar o carro e sair. – Wow.
-O que isso significa? – perguntei confusa. Até onde eu sabia 'wow' não era uma palavra.
-Vai dizer que você não acha ele uma gracinha? – perguntou Angela, com um sorriso enorme.
-O Hodgins? Não sei, o rosto dele é muito comprido, prefiro uma estrutura óssea mais larga.
-Querida, se você não acha, é só falar. – disse Angela depois de uma risada. – Pelo menos não vamos brigar por caras, seu gosto é diferente do meu. Então qual seria o seu tipo?
Pensei por um instante no que me chamava a atenção em um garoto.
-Composição larga, bem estruturado... ossos zigomáticos proeminentes...
-Não sei o que são ossos zigomáticos, mas vamos ver se entendi... Algo como aquele loirinho ali? – ela apontou para um menino do segundo ano que subia as escadas.
-Não... Algo como... – procurei pelos vários estudantes que saíam da escola – Aquele ali!
Apontei para um garoto moreno e alto que saía conversando com outro. O rosto dele era realmente atraente para mim, e sua estrutura física não estava completamente desenvolvida, como nenhum de nós estava, mas eu podia ver que ele ia ficar ainda mais bem estruturado quando fosse mais velho. Então ele ergueu os olhos e me pegou o encarando.
Vi a surpresa passar pelos olhos chocolate dele. Eu poderia reconhecer aquele brilho no olhar em qualquer lugar. Fiquei a mirá-lo, sem realmente acreditar que estava vendo quem eu achava que estava vendo.
-Whoa, ele está olhando para você. Que mágica foi essa? – eu ouvi Angela murmurar, mas só compreendi o significado das palavras muito tempo depois. – Olha só, ele está vindo para cá.
Vi quando o amigo dele foi deixado para trás, o mirando confuso. Ele não quebrou o contato visual enquanto se aproximava, nem eu. Quando chegou perto o suficiente e parou na minha frente, murmurou:
-Bones?
O mesmo de sempre.
- Booth.
-Vocês está diferente... não é mais uma garotinha afinal.
-Você também não é mais um garotinho, Booth. - isso era óbvio.
Ele continuou a me mirar por alguns segundos e eu comparei a imagem mental que tinha de meu amigo com ele. Os mesmos olhos castanhos, o mesmo brilho, o mesmo sorriso.
-Eu não acreditei que... – começou ele de repente, como se tivesse acordado de um sonho - Eu tentei te ligar montes de vezes, pra avisar que estava voltando. Eu consegui falar com Russ uma vez, mas ele estava em outra cidade e me pareceu um pouco bravo em falar comigo...
-Eu não tenho mais contato com meu irmão.
-O quê, você tem um irmão? – ouvi Angela exclamar, do meu lado.
Booth olhou brevemente para ela, e então voltou os olhos para mim.
-O que aconteceu, Bones? Ele saiu de casa? Por que vocês mudaram? Passei na sua antiga casa semana passada e...
-Olha, Booth. Eu preciso ir embora, ok?
Eu me afastei, antes que ele ou Angela conseguissem me alcançar. Quando cheguei à esquina e olhei para trás, os dois ainda estavam parados, me vendo ir embora.
Eu sabia que enfrentaria um interrogatório por parte da Angela. E sabia que agora que descobrira que Booth voltara e também estava estudando ali, ele iria descobrir a minha turma, o horário que eu chegava e como vinha para a escola e qualquer outro detalhe adicional que quisesse. Ele era ótimo em descobrir coisas. E também sabia que ele iria me questionar sobre o que acontecera e, eu querendo ou não, ele iria descobrir tudo.
Mas eu ainda não estava preparada para isso, não estava preparada para mostrar minha vulnerabilidade na frente dele. Por isso fui para casa. Eu poderia trabalhar em compartimentalizar, em levantar minhas defesas, e no dia seguinte eu estaria pronta para enfrentá-lo.
E quão certa eu estava, pensei, ao entrar pelas portas do colégio no dia seguinte e encontrá-lo me esperando.
-Ei, Bones! Que história é essa de fugir de mim? O que aconteceu com o Russ?
Aquilo me fez sentir raiva.
-Por que você quer saber da minha vida, hein? E o que você está fazendo aqui afinal? – vi um pouco de mágoa passar pelos olhos dele, mas ele respondeu firme.
- Eu estudo aqui desde o começo do semestre. Te falei, nós voltamos de São Francisco, e eu te procurei um monte. Quero saber o que está acontecendo, Bones, estou preocupado.
-Minha vida só interessa a mim!
Ele me olhou de olhos arregalados, não preparado para aquela explosão.
-Bones, nós somos amigos!
-Pessoas como você não andam com pessoas como eu. Eu sei disso, ok? – respondi eu, mirando a camiseta dele, do time de basquete. Era fácil ver que ele era um cara popular.
Estávamos no corredor cheio, e um grupo de alunos com o uniforme de futebol parou pra perguntar para Booth por que ele estava falando comigo. Aproveitei a oportunidade para sumir na direção da biblioteca.
Pouco antes de tocar o sinal para o início das aulas, ouvi alguém se sentar ao meu lado. Levantei os olhos zangada, achando que Booth havia me encontrado, mas vi o rosto de Angela.
-Ei, Brenn. Só você pra estar na biblioteca às oito e meia da manhã.
-O que você quer? – perguntei eu, mais rude que pretendia.
-Ei, por que está brava comigo?
Eu suavizei a expressão. Não tinha o direito de descontar minha fúria em Angela. Justo em Angela, a primeira garota que se esforçara em ser minha amiga.
-Me desculpe, você não tem culpa de nada.
-Tem haver com aquele garoto de ontem, não tem? Me conte tudo, deve haver uma mega história por trás disso.
Eu estava pensando em como desviar o assunto, quando o sinal tocou, bem a tempo.
-Vamos, Angela, não podemos nos atrasar.
Ela sorriu, antes de me seguir biblioteca afora. Antes de entrar em minha sala e nos separarmos, ouvi ela falar:
-Não pense que você escapou assim fácil.
Angela era persistente, assim como Booth. Sabia que ele não ia desistir com tanta facilidade. Alguns dias depois eu estava voltando para casa, já a algumas quadras da escola, quando ele me surpreendeu, surgindo do nada.
-Nós vamos conversar agora, Bones.
-Não sei sobre o que você quer conversar. E por que continua a me chamar de Bones? É um apelido infantil e idiota!
Ele segurou meu braço, me fazendo parar de andar. Por alguns segundos ele me olhou nos olhos, e eu vi meu conhecido, meu amigo. Mas eu não queria me entregar, e desviei o olhar.
-Você mudou. Você não era assim.
Eu puxei meu braço com violência.
-Por que está preocupado comigo agora, Booth? Foi você quem foi embora.
Ele finalmente começou a ficar com raiva.
-O que eu ia fazer? Eu tinha treze anos, Bones! E você que parou de me ligar e não mandou mais notícias?
Eu sabia que a culpa não era dele. Não foi por vontade própria que ele foi embora. E não era culpa dele que meus pais tenham ido embora quatro anos depois. E então Russ. Mas naquele momento, eu quase me sentia bem em poder descontar minha raiva em outra pessoa.
-Booth, por favor, me deixa em paz... – murmurei eu, me virando e me afastando.
Não olhei para trás enquanto praticamente corria, mas sabia como devia estar sua expressão. Os olhos escuros, as sobrancelhas juntas, em sua típica expressão magoada. E eu o havia magoado. Mas me surpreendi quando ouvi a voz dele, gritada:
-Tudo bem, me culpe! Achei que nossa amizade fosse mais importante pra você!
Eu imprimi mais velocidade em meus pés, querendo botar a maior distância possível entre nós.
