Ela tentou dormir, mas não conseguiu. Teve uma noite agitada.

A mão de Sasuke em seu ombro, sacudindo-a, parecia um sonho, até abrir os olhos e vê-lo de pé a seu lado dela.

Ele usava jeans e camisa pólo preta, mas não tinha feito a barba e estava com o olhar cansado.

— O que... o que você quer?

— Temos um problema — disse ele. — Houve um deslizamento de terra. Guillermo tentou ir para Besavoro mais cedo e encontrou a estrada completamente bloqueada.

— Bloqueada? — repetiu Hinata. — Você quer dizer que não podemos sair?

— Infelizmente não. — Ele sacudiu os ombros. — Mas o gerador está ligado.

— Mas por mais quanto tempo terei de ficar aqui? Te... tenho de chegar ao aeroporto...

— Máquinas virão de Perugia, mas talvez só cheguem amanhã — disse ele sem expressão.

— Você não parece muito preocupado com o fato de estarmos presos aqui — acusou ela.

— Sinto muito pelo inconveniente — disse ele friamente —, mas estou bastante preocupado com Fredo. Ele sumiu. Vou lá ver em que posso ajudar.

Ela mordeu os lábios.

— Sei... claro. — E quando ele virou-se: — Sasuke, eu... eu sinto muito.

— Pelo quê? — Ele parou a porta. — Você nem o conhece.

— Não, mas ele é seu amigo. E se houver algo que eu possa fazer...

Ele deu um breve sorriso.

— Se souber rezar. — E depois saiu.

Ficou deitada, olhando fixamente para a porta fechada. Então aconteceu, pensou ela — ela o vira e sobrevivera.

No entanto, estava encurralada novamente. E não havia nada que pudesse fazer, a não ser agüentar.

Hinata virou-se, afundando a cabeça no travesseiro. Por que quando o vira sentira desejo por ele?

Porque sim, ela admitiu. Podia ser patético e vergonhoso, mas era inegável.

O que significava que, apesar de tudo, ainda o queria.

Meu Deus, pensou ela irritada, a rejeição dele não lhe ensinara nada?

Ela sentou-se com determinação. Tinha de se levantar e dar prosseguimento à sua vida. Uma vida que jamais incluíra Sasuke Uchiha e jamais incluiria.

Ela tinha de deixar essa loucura para trás e ficar sã novamente.

E conseguirei, prometeu a si mesma. Posso e vou conseguir.

O dia foi estranho. O céu ainda estava cinzento, mas o dia era quente e abafado. O ar estava com cheiro de terra úmida e, embora Guillermo tivesse limpado a piscina, Hinata não estava com vontade de passar muito tempo fora da casa.

Sasuke não retornara e quando Guillermo voltou, depois de ter levado almoço para os que trabalhavam na limpeza da estrada, só pôde dizer que Fredo ainda não tinha sido encontrado e que as buscas continuavam.

Ela leu o restante do livro e devolveu-o, mas não pegou outro.

Passou uma parte do tempo explorando a casa, especialmente as áreas mais antigas.

Queria saber por que alguém tão seguro de si como o conde precisava de um lugar desses? Por que sentia necessidade de refugiar-se?

Mas a maneira como o conde conduzia sua vida era um verdadeiro enigma, pensou ela. Um mistério que já lhe causara infelicidade demais.

Tenho de começar a esquecê-lo, falou consigo mesma. Por mais difícil que seja. Por mais que demore.

Como sempre, a música era seu conforto. Não fazia idéia de se teria oportunidade de tocar um piano maravilhoso como aquele, então estava determinada a aproveitá-lo ao máximo.

Encontrou as partituras das sonatas de Beethoven e selecionar as que aprendera a tocar quando criança. Escolheu uma e começou a tocá-la.

Somente a silenciosa entrada de Emilia com uma vela alertou-a da passagem do tempo.

— Nossa. — Hinata olhou para o relógio. — Estava na hora de preparar-me para o jantar. Nem percebi. — Ela fez uma pausa. — Sua Excelência já voltou?

— Não, signorina. Mas não se preocupe.

— Só quis dizer que deveríamos esperá-lo para o jantar — disse ela.

—Claro, signorina. — O sorriso de Emilia era sereno, mas abertamente cético. Parecia adverti-la de que ela e Guillermo não eram cegos e conheciam o conde Sasuke desde criança.

Sasuke chegou em casa meia hora depois, entrando direto na sala de estar. Hinata olhou para cima — as mãos nas teclas do piano. A expressão dele era de cansaço e as roupas estavam sujas de lama.

Ela engoliu em seco.

— Vo... você encontrou Fredo?

— Si, está tudo bem. — Ele serviu-se de uísque. — O encontramos porque seu cachorro estava a seu lado latindo. Agora está no hospital com a perna quebrada.

Ele não lhe contara as dificuldades das buscas e como fora difícil carregá-lo até a ambulância.

Também não contara que a imagem dela o seguira em cada passo que dera. Que vê-la agora o enchia de alegria.

Quando Hinata olhou para ele, ficou sem ar.

— As suas mãos estão sangrando. O olhar dele era de indiferença.

— Não é nada sério.

— Mas você precisa cuidar disso — insistiu Hinata. — Esses cortes podem infeccionar...

— Sua preocupação é comovente, mas desnecessária — disse ele. — Posso cuidar disso.

Ele fora mais brusco do que pretendia, mas porque estava lutando contra o impulso de ajoelhar ao lado dela e colocar o rosto em seu colo.

Mas era para o bem dela. Não podia amolecer. Não podia correr o risco de se aproximar.

Ele terminou o uísque e colocou o copo sobre a mesa.

— É melhor eu tomar um banho e trocar de roupa — disse ele.

Hinata observou-o sair da sala, depois foi lentamente para seu quarto. Tomou um banho rápido, mas não se vestiu. Em vez disso, ficou sentada na beira da cama com seu robe, olhando para o nada — presa em seus pensamentos infelizes.

Ela acordou de seu devaneio com uma batida na porta. Era Guillermo avisando que o jantar estava servido.

Ela levantou-se rapidamente e abriu uma fresta da porta.

— Não estou com fome, Guillermo — disse ela. — Eu... eu acho que é o tempo. Está tão abafado. Você poderia explicar a Sua Excelência, por favor?

Ele balançou a cabeça relutante e saiu.

Mas alguns minutos depois estava batendo na porta novamente e, dessa vez, entregou-lhe um bilhete.

As palavras eram concisas.

"Hinata, não me force a ir buscá-la." E estava assinado "Uchiha".

— Desculpe, signorina, eu tentei — disse Guillermo apologeticamente.

— Sim — disse ela. — Tenho certeza disso. Diga ao signore que estarei lá.

Sasuke estava recostado na cadeira, esperando por ela.

Assim que chegou à sala, ergueu o rosto e olhou para ele. Estava tentando mostrar-se firme, mas estava desmoronando — morrendo.

Ao vê-la, o primeiro pensamento de Sasuke foi que se ela tivera a intenção de esconder sua feminilidade, ela calculara mal. As calças de linho que usava apenas acentuavam suas curvas.

E depois que a vira nua, aquela blusa apenas o provocava, o fazia se lembrar da beleza que havia sob ela.

Ela sentiu o coração palpitar e ergueu o corpo enquanto caminhava.

— Rezar é uma coisa. Fazer jejum é outra. Ela lançou-lhe um olhar desafiador.

— Só não estou com fome.

— E não me importo de comer sozinho — retrucou ele. — Mas quando a comida chegar, seu apetite surgirá.

— Isso é uma ordem? — perguntou ela.

— Não — disse ele. — Simplesmente uma predição.

Ela mordeu os lábios.

— Vejo que vamos jantar à luz de velas novamente.

— Não tem muito combustível para o gerador — respondeu Sasuke casualmente. — Fique certa de que não é um prelúdio para um romance, signorina.

— Não pensei nisso, signore.

— Mas parece que o conserto para restaurar o serviço elétrico e telefônico já começou.

— E a estrada?

— Vão começar na primeira hora da manhã. Assim que houver condições, vai estar a caminho de Roma. Isso a deixa feliz?

— Sim — disse ela. — Claro..

— Bene — comentou ele com sarcasmo. Houve um silêncio enquanto ele a olhava pensativamente. Depois acrescentou: — Acredite em mim, signorina. Estou fazendo tudo o que posso para apressar a sua partida.

Hinata olhou para a mesa.

— Sim — disse ela. — Acredito.

A refeição foi feita em silêncio; os dois presos à própria infelicidade.

Depois da refeição, foram à sala tomar café, mais por convenção do que por desejo de suportar a companhia um do outro.

Sasuke, física e mentalmente exausto por causa dos acontecimentos do dia torturava-se com o desejo de poder dormir no conforto dos braços de Hinata.

Tudo o que acontecia naquele momento — cada palavra, cada ação — podia claramente ser a última vez, pensou ela. E a constatação de que logo partiria dali e nunca mais o veria novamente estava destruindo-a.

Não posso partir assim, ela pensou de repente. Não quando, mesmo agora, eu o desejo tanto. Sei que não sou experiente, mas com certeza deve haver algo que possa fazer para atrair o interesse dele...

— Aceita algo mais com seu café? — o tom de voz dele era formal e Hinata olhou-o com um impulso.

— Obrigada — disse ela. — Posso tomar grappa?

Ele levantou as sobrancelhas.

— Se é isso que você deseja.

— Gostaria de experimentar novamente.

Os olhares encontraram-se em um silêncio constrangedor e, então, Sasuke virou-se abruptamente e logo retornou com duas taças da bebida incolor.

Ele entregou-lhe uma e levantou a outra, os lábios curvando-se levemente.

— Salute.

Hinata repetiu o brinde e bebeu, esperando não lacrimejar.

Estava sentada em um dos sofás e Sasuke estava distante, em pé ao lado da lareira. Não havia chances de um começo.

Respirando fundo, ela tomou o resto do grappa e levantou a taça vazia.

— Acho que estou começando a gostar disso.

— Eu não aconselharia.

— E a minha última noite na Itália. — O olhar era um pouco desafiador. — Talvez eu deva correr um risco ou dois.

Quando ele virou-se, ela disse:

— Sasuke...

Ele olhou para ela, franzindo levemente a testa.

— Sim?

— Na noite passada, você me pediu um favor — disse ela. — Pediu-me que eu tocasse piano.

— Não esqueci.

— Estava pensando que hoje seria a minha vez... de pedir um favor para você.

A repentina precaução dele fora quase tangível.

— Sinto desapontá-la, mas não sei tocar piano.

— Não — disse ela, sentindo o coração palpitar em seu peito. — Mas joga pôquer, e se ofereceu para me ensinar. — Ela respirou. — Gostaria de aceitar a oferta.

Ele permaneceu imóvel.

— Mas, como você mesma ressaltou, signorina, é necessário mais gente e você não tem dinheiro para perder.

Ela disse calmamente:

— Mas você tinha uma versão bem diferente em mente. — Ela tirou um de seus brincos e mostrou para ele. — Não tinha?

— Talvez. — O tom de voz dele era austero. — Mas foi uma sugestão imperdoável e que me envergonha. Devo me desculpar. Desejo-lhe boa noite, signorina.

Ele cumprimentou-a com um leve movimento de rosto e virou-se para sair. Ela agarrou a ponta da camisa dele, tomada pelo desejo.

— Vo... você me fez pensar que me queria. Não era verdade?

— Sim — disse ele asperamente. — Mas as coisas mudaram, e agora quero que você volte para seu país e leve sua vida adiante, assim como devo fazer. Esqueça-me assim como eu devo esquecê-la. — Ele soltou-se implacavelmente dos dedos dela.

— Recomendo que durma um pouco — acrescentou ele. — Pois terá uma longa viagem amanhã.

— Sim — disse ela. — E irei sem problemas. Juro. Eu... eu não vou pedir-lhe novamente. Mas... oh, Sasuke, por favor, fique comigo essa noite.

— Não posso fazer isso. E um dia vai me agradecer, Hinata mia. Quando puder olhar nos olhos do homem que você ama sem sentir-se envergonhada.

Ela observou-o partir.

O homem que você ama, sussurrou ela. O homem que você ama. Foi isso o que me disse? Oh, Sasuke, se você soubesse a ironia de tudo isso.

E ela afundou o rosto nas mãos, sentada imóvel no sofá, sem perceber o tempo passar até que as velas, uma a uma, derretessem e apagassem.

Conseguiu voltar para o seu quarto, despiu-se ê deitou-se na cama, cobrindo a cabeça com as cobertas como se quisesse se esconder do dia por vir.

Ela percebera que o curto espaço de tempo que estivera na companhia dele fora suficiente para que se apaixonasse desesperadamente por ele? Para que construísse uma fantasia patética em que um final feliz poderia ser possível?

E era o fato de ter reconhecido que poderia partir seu coração — e não o fato de ser inexperiente — que o fizera afastar-se dela?

Agora tudo o que lhe restava era agir com o máximo de dignidade possível.

Suas malas já estavam praticamente prontas nos primeiros raios de luz.

Seria mais um dia quente, então decidiu viajar novamente com o vestido de algodão cor de creme.

Ela abriu as persianas e saiu do quarto. Não parecia que tinha havido uma tempestade, pois o céu estava azul.

Ainda era muito cedo, e ela duvidava que alguém na casa já estivesse acordado.

Ela de repente sentiu-se exausta — e estranhamente derrotada. Ela voltou para seu quarto e deitou-se sobre a cama, espreguiçando-se com um suspiro.

Iria tomar banho e vestir-se, mas não agora. Hinata fechou os olhos e permitiu que sua mente vagasse. Mas antes, ela ficou ciente de uma voz dizendo, "Signorina!"

Ela abriu os olhos e viu Emilia inclinada a seu lado. Ela sentou-se lentamente.

— Alguma coisa errada?

— Não... não — Emilia assegurou-lhe. — Mas está na hora de comer, signorina. Venha.

— Estou bem. Eu... eu não quero o café-da-manhã.

— Café-da-manhã? — As sobrancelhas da mulher levantaram quase comicamente. — Mas é o almoço que está a sua espera, signorina.

— Almoço? — inquiriu Hinata sem acreditar. Isso significava que dormira por horas, quando achava que só tinha fechado os olhos. Ela olhou para o relógio. — Meu Deus, já é tarde?

— Si, si. — Emilia balançou a cabeça com vigor.

— O signore ordenou que não a perturbássemos, mas você não pode dormir o dia inteiro. Também precisa comer.

Hinata hesitou.

— Primeiro preciso me vestir.

— Não precisa, signorina. Não há ninguém aqui — acrescentou ela. — O signore está na estrada falando com os engenheiros. Disse que só volta mais tarde.

— Sei. — Hinata levantou-se da cama. Ele estava fazendo uma gentileza, pensou ela, e deveria sentir-se agradecida, e não se sentir tão sozinha ao ponto de desejar chorar.

Depois do almoço, ela tomou banho e lavou os cabelos. Emilia dissera-lhe, radiante, que a luz retornara, mas mesmo assim Hinata decidiu secar o cabelo ao sol, num banco do jardim.

Naruto, pensou ela. Teria de deixar um bilhete com uma explicação. Naruto provavelmente não ficaria contente, mas não podia evitar.

Depois de três longas horas, ainda aguardava. Tentou distrair-se no piano, mas não havia concentração, então deixou a música de lado e afastou-se do piano. Um outro adeus.

Ela não fazia idéia do vôo em que conseguiria embarcar. Talvez não houvesse mais vôo hoje e teria de passar a noite no aeroporto. Mas até isso poderia suportar.

Qualquer lugar, pensou ela. Menos aqui. Não posso permanecer perto dele mais uma noite. Não posso...

O sol estava se pondo quando finalmente escutou o barulho do jipe. Ela escutou os passos dele; a voz cumprimentando Guillermo.

E então ele entrou e olhou para ela em silêncio uma força estranha que a fez tremer.

— A estrada... está pronta? Podemos ir?

— Si — disse ele. — Está liberada. Ela tocou os lábios secos com a ponta da língua.

— Então... é melhor eu pegar as minhas coisas.

Ele murmurou algo, depois aproximou-se dela, o longo passo engolindo a distância que havia entre eles. Ele segurou-lhe os pulsos, levantando-a do sofá em um único movimento.

Depois abaixou a cabeça, e beijou-lhe a boca com uma paixão que fez o corpo dela tremer por inteiro.

— Hinata, perdoe-me. Não consigo mais viver uma hora sem você.

Sasuke beijou-a novamente, e ela envolveu seu pescoço com os braços e deixou que ele a carregasse para fora da sala.