15 anos
Tudo errado
Era a primeira vez que eu almoçava com a família do Edward. Ele já tinha passado pelo crivo do meu pai, da minha mãe e até da minha querida avozinha, que entupiu o coitado de comida quando eu o levei para jantar na casa dela. Agora era minha vez de conhecer os pais do fofo com quem eu estava saindo havia uns três meses.
Ao contrário de muitas amigas minhas, sempre adorei o momento de conhecer os pais dos meus namorados. Sou ótima com eles.
Cativante, carismática, articulada, divertida, inteligente, irônica...
E modesta, claro. Enfim, sou tudo o que os pais procuram em uma namorada de filho. Pais e mães sempre me amam. Sempre!
Quero dizer... Quase sempre.
A minha primeira vez com os pais do Edward não foi, assim, tão legal. Não sei o que aconteceu, acho que estava gostando muito dele e acabei ficando nervosa.. Ah sei lá!
Sei que toquei a campainha pontualmente ás 12h30 e fui recepcionada pela sorridente e simpática dona Esme, a mãe do Edward.
— Nossa você é mais linda do que o Edward falou.
"Oba, começamos bem!", vibrei por dentro."Eu sou incrível até de boca calada, impressionante. Imagina quando eu começar a fazer minhas observações inteligentes. Aí é que ela vai babar por mim".
— Linda? Aaah, são seus olhos, dona Esme... — fui fofa.
Nesse momento com a minha auto-estima lá em cima, batendo no teto, entrou o irmão mais novo de Edward. Abri meu melhor sorriso para o pirralho, que tinha oito anos, quando ele veio me perguntar.
— O que você acha de uma criança ter um colelho, mesmo morando num apartamento?
Nossa, a bola perfeita para eu cortar!, pensei. Ele deve estar enchendo o saco dos pais para ter um coelho e eles certamente estão detestando a idéia. É a minha chance de conquistar a família inteira para todo o sempre.
— Acho péssimo, coelho é um bicho idiota. Não interage, não reage e faz o número dois mais fedidos do mundo animal, o apartamento vai ficar uma fedentina! Sem contar com os pêlos que ele vai soltar pela casa inteira, um horror para limpar. Bicho é bom na floresta, né não, dona Esme? — Concluí, sorrisão no rosto.
Após intermináveis segundos de silêncio, dona Esme se manifestou, séria:
— Nós acabamos de dar um coelho para o Emmet.
Caraca! Como é que eu fui dar um furo desses? Como é que se conserta um furo desses?
— Ah, o bom é que coelho não vive muito tempo, a fedentina vai acabar rapidinho — disse o que não deveria ser dito.
— Buááá! Meu colelho vai morrer! Morrer! — Berrou Emmet, antes de sair correndo para o quarto, provavelmente para se agarrar ao tal coelho.
O pai do Edward interveio para quebrar o gelo:
— Oi, muito prazer eu sou o pai do Edward. Você quer água, guaraná, suco, vodca ...
— Hã ?
— Brincadeirinha ... é pra você ficar menos nervosa — confessou, antes de se aproximar para sussurrar no meu ouvido: — Também acho coelho um bicho idiota, mas a Esme faz tudo para esse menino. Uma vez ele pediu um caiaque pra remar na banheira e ela pensou em se mudar para uma casa com piscina, acredita?
— Caramba! E para ter um caiaque? Logo caiaque. Eu acho remo um esporte tão idiota...
— Eu fui treinador da equipe de remo de Vasco da gama na década de 70, tenho muito orgulho disso — revidou na lata.
Fiquei muda.
Pasma.
Não era possível!
— Brincadeira, bobaaa! — ele caiu na gargalhada.
E eu cai nessa pegadinha ridícula. Tudo que eu queria era fazer um "dâ-â!" enorme pra ele, mas fiquei séria como uma múmia.
Não precisava de mais nada para chegar à conclusão de que o pai do Edward, assim como os coelhos e o remo, era meio idiota. Idiota tipo que faz piadinhas sem gracinha.
Sentamos a mesa e Dona Esme avisou:
— Olha, Bella, como o Edward disse que você é boa de garfo, que come de tudo, resolvi fazer a minha especialidade pra você. Tem gente que acha exótico, mas eu acho muito gostoso.
Glup!
Fiquei com medo e olhei para o Edward, que baixou os olhos.
Nunca fui muito chegada a comidas elaboradas. Gosto mesmo é de feijão, arroz, bife e batata frita.. O prato mais exótico que comi na minha vida foi batata sautée, que nada mais é do que uma batata frita cheia de si.
Ela continuou:
— Fiz língua, espero que você goste.
Tive ânsia de vomito.
Língua?
Quem é que come língua? Existe um prato chamado língua?
Quem é que faz língua para uma pessoa na primeira vez que a vê?
Língua de booi? Eu sei lá aonde é que o boi colocou a língua! Eeecaaaatiiii!
— Tá ótimo, dona Esme. Adoooro língua. — Menti.
Na primeira garfada vi que não seria capaz de manter a mentira.
— Desculpe a indelicadeza, mas não dá pra comer isso. Onde é o banheiro? — Perguntei, a mão tapando a boca e já correndo para longe da sala de jantar.
Enquanto lavava as mãos, resolvi dar uma inspecionada básica no armário. Ah! Que é que tem? Todo mundo xereta o banheiro dos outros, não é nenhum crime fazer isso! O problema é que aquele não era o meu dia e o que era improvável de acontecer aconteceu.
De repente, do nada, um vasinho de porcelana se jogou de dentro do armá certeza de que não esbarrei nele, ele é que quis se suicidar. Juro! Resultado: O barulho de vasinho quebrando no chão logo tomou conta do apartamento.
— Tá tudo bem ? — gritou Edward, do outro lado da porta.
— Tudo, mas quebrei sem querer um vasinho que ... estava em cima da pia ...
— Que vasinho em cima da pia? — perguntou o pai de Edward.
— Não tem vasinho em cima da pia! — Completou a mãe do Edward, com voz brava.
— O único vasinho que tem no banheiro é o vasinho que a mãe da minha vó deu pra minha mãe — gritou o irmão do Edward.
Droga! Era um vasinho do tipo relíquia!
— E só fica no armário porque dona Esme tem medo que eu quebre — concluiu a empregada, dona Efigênia.
Fala serio! Era uma relíquia do tipo querida. Querida e intocável. Quase meti minha cabeça na privada e dei descarga. Todo o mundo sabe naquela casa que eu tinha xeretado o armário, quebrado uma relíquia de família, falado mal de coelhinhos indefesos e de caiaques e ficado com nojo da comida deles. Nojo!
Que lástima!
Saí péssima do banheiro, as mãos no rosto escondendo a vermelhidão da vergonha.
— Desculpa! Eu compro outro vasinho para a senhora dona Esme!
— Não vai conseguir achar. Esse vasinho é antigo e é da Índia. Mas não precisa se preocupar não, não — lamentou chorosa, mal conseguindo esconder as lágrimas.
Ai que clima péssimo! Aquilo não podia ficar pior!
Ficou.
— Vamos voltar pra mesa, daqui a pouco seu ovinho vai chegar Bella — Comentou Edward.
— Ovinho? Fala serio amor! Ovo me dá dor de barriga! — sussurrei no ouvido dele, muito injuriada.
— Jura?
— Caraca! Você sabe alguma coisa ao meu respeito?
Terminei a tarde comendo macarrão instantâneo.
Todos foram fofos comigo mesmo depois de tantas tragédias.
Mas eu nunca mais fui à casa do Edward. E olha que fiquei com ele mais uns cinco meses depois desse almoço.
Falando elado com o namolado
As coisas com o Edward iam de vento em polpa. Estávamos a cada dia mais apaixonados. Nosso namoro era de verdade, namoro lindo, paixão arrebatadora, pra vida toda, eu tinha certeza. E, por isso, mesmo eu precisava ter uma conversa importantíssima com ele. Importante e delicada.
Sempre odiei gente que fala com voz de neném. Acho idiota, ridículo, tenho vontade de enforcar maiores de sete anos que dizem 'voxê', 'ninguém melexe', 'namolado' e afins. E sou assim com todo mundo: pais, irmãos, amigas... Quem me conhece sabe: para me irritar é só fazer voz de neném pra mim.
Por muito tempo essa regra vale para todos que me cercam, menos para meus namorados. Não sei por que abri essa concessão. Talvez porque tenha me deixado contaminar pela bobeira da paixão, vai entender. O fato é que quando dava por mim, lá estava eu falando como o Cebolinha em diálogos insuportáveis, ridículos e zero românticos com meninos da minha idade que me beijavam na boca depois de pedir um 'bezo apassonadu'.
Fala sério!
Resultado: todos os meus namoros e rolos foram por água abaixo e eu, revirando a lista de ficantes e namorados mais sérios, percebi que a causa do fim podia ser essa chata, mil vezes chata!, voz de neném. Como eu estava gostando muito do Edward, e ele de mim, e como o diálogo infantil ainda não tinha invadido nossa relação, resolvi chamá-lo para uma conversa séria depois da aula.
— Eu preciso falar com você Edward.
— Quer discutir a relação? — Questionou, com indisfarçável cara de pânico.
— Claro que não, não sou desse tipo — menti descaradamente.
— O que é então? Tô com a unha grande?
— Grande e sujinha em baixo, tá meio nojentinha até, mas não é isso que quero falar.
— Tô com pêlinho saindo do nariz?
— Um pouco pode cortar, mas também não é isso.
— É a minha letra? Pode dizer, ela é um garrancho e você não entende meus bilhetes apaixonados?
— Sua letra é péssima, Edward, mas eu entendo o que você escreve. Não é só sobre isso que eu quero conversar com você! Caraca! Posso falar?
— Pode.
— A gente ta há um tempo junto...
— Ai, não, você quer terminar! Bella, me dá mais uma chance!
— Menino deixa de ser bobo, é justamente por que eu não quero terminar com você que a gente precisa conversar.
— Ah, tá. Que alívio!
ÓÓÓ, que bonitinho!, vibrei por dentro.
— Eu quero fazer um pacto com você.
— Pacto? Do tipo furar o dedo e jurar fidelidade? Menina adora essas coisas, mas eu tô fora, morro de medo de agulha.
— Jura? Meio fresco isso hein? Mas tudo bem, não é esse tipo de pacto que eu quero fazer. Nada a ver esse negócio de furar o dedo pra jurar amizade eterna, amor eterno, fidelidade terna...
— Graças a Deus! O que é então?
— Eu quero que a gente prometa que nunca, NUNCA, mesmo que de vontade, vai falar com voz de neném um com o outro.
— Ai Bella! Que susto! E que notícia boa! Eu acho ridículo casal que fala assim!
— Eu também! Eu também! — comemorei, alegre e saltitante, me jogando pra cima dos braços dele.
— Tem gente que fala assim em publico, quer coisa mais absurda?
— Não! Não existe nada mais absurdo que isso! — Dei mais um abraço nele, seguindo de muitos beijos empolgados, com certeza de que finalmente tinha encontrado a outra metade da minha laranja. Aquele namoro tinha futuro!
Duas semanas depois dessa conversa, fizemos quatro meses de namoro — eu estava bem apaixonadinha. Edward me levou para uma casa de sucos que eu amo para comemorarmos. Enquanto ele devorava um açaí e eu comia um sanduíche de peito de peru com queijo-de-minas, olhos grudados um no outro, a paixão ocupando todo o espaço que havia entre nós naquela mesinha...
— Amoli di vida, plomete que nunca vai abandonar seu colelhinho losa?
Quase tive uma indigestão.
— Coelhinho losa? Fala sério, Edward! Que coisa mais gay!
— Mas é que você gosta das...
— Não é por que gosto das suas bochechas rosadas que você vai virar meu colehinho losa de repente! Que é que é isso? Surtou? A gente não tinha combinado que nunca ia falar assim?
— Mas hoje é nosso aniversálio de namolo... Achei que podia falar axim com minha plinxejinha... — Fez dengo. — Coelhinho losa, tlistinho, tlistinho.
— Ô, Edward, não fica assim vai ... — tentei melhorar a situação, me senti a pessoa mais vaca do mundo. Às vezes eu erro na mão e acabo sendo grossa com as pessoas que mais me adoram. Vaca, vacona.
— Dixculpa o namolado, Bella. Não vou magi falar axim com
voxê, fica tlanquíla — chorou.
Droga! Eu fiz o menino chorar! Não precisava ter isso no meu currículo! Que péssimo! É, não seria daquela vez que meu plano de abolir essa língua idiota da minha vida daria certo. O que a gente não faz enquanto tá apaixonada?
— Vem cá coelhinho losa, vem cá com a Bella, disculpa a Bella. Bella é glossa, xem alma e xem colação.
Beijinhos e mais beijinhos selaram nosso novo dialeto.
O Tempo passou e continuamos a fala assim um com o outro, mas sempre baixinho, nunca em público... Até que um dia, na fila do teatro, aos cinco meses de namoro, quanto eu via a vitrine de uma livraria, ouvi o que não queria ter ouvido jamais ...
— Xapinha! — Ele berrou (um parêntese se faz necessário para explicar o "xapinha" em questão. Xapinha foi a maneira simpática e diminutiva que ele encontrou para me chamar de sapa. Sa-pa. Apelido fofo, apelido lindo! Suuuuuuper romântico). — Voxe vai queler lugar na flente ou atlas do teatlo?
O que fazer uma hora dessas?
— No meio, colelhinho losa. Xapinha quer ficar no meio do teatlo — respondi, resignada, tentando esconder meu embaraço.
Fiquei com o coelhinho losa mais alguns meses. Falando elado, mas ainda completamente passonada por ele. Um tempo depois, desisti. Fala xériu! Exa coija de falar axim, como clianxa, é lidícula. Li-dí-cu-la!
Diálogo com meninos
Meninos me irritam quando o assunto é diálogo. Tudo bem, eu sei que esse negócio de discutir a relação é meio tedioso, mas não é a esse tipo de diálogo que estou me referindo. Estou falando de diálogos corriqueiros, diálogos do dia-a-dia, conversas, bate-papos.
O problema da maioria dos garotos é que eles não são chegados a uma conversa. Não é que eles não gostem de dialogar.
Eles simplesmente não sabem dialogar. Lembro o meu namorico com o Garret, morador da minha rua, que era a versão mais nova e mais bronzeada do Tom Cruise. A gente estava saindo há uma semana e nossa relação começou a desgastar quando puxei uma conversa sobre papel de bala na fila do cinema.
Tudo bem, eu sei que papel de bala é um assunto meio nada a ver, mas, pô, o cara não falava nada! Eu pre-ci-sa-va conversar, tornar o clima agradável. Se eu não quebrasse a porcaria do silêncio, morreria sufocada. Meninos não são assim. Eles sempre preferem o silêncio. Sempre.
— Você reparou que mudaram o papel da bala Juquinha? Não acredito que fizeram isso com a bala Juquinha, logo com a bala Juquinha, eu adoro bala Juquinha, o papel da bala Juquinha não era assim, mesmo! Se tem uma coisa que eu conheço é a textura do papel da bala Juquinha. Eu como bala Juquinha desde pequenininha. Xi, até rimou. Que fofo! Se bem que eu não gosto de diminutivo... Você gosta?
— Não sei, nunca pensei no assunto.
Grosso!, berrei por dentro.
— Bem que podiam inventar uma substância que fizesse com que os papéis de bala parassem de fazer barulho. Barulho de papel de bala no cinema ninguém merece, né?
— É.
Mal-educado! Insensível! Monossilábico ridículo!, gritei em pensamento.
— Sabe quem veio ver esse filme? — tentei de novo puxar assunto. — A Suzana, já falei da Suzana? Uma menina do meu colégio que tem um cachorro chamado Cão, é feia, mas se acha linda, tem muito mais dente do que devia, é meio porquinha, fofoqueira, bigoduuuda... não acredito que não te falei da Suzana, ela é ótima, super amiga minha!
— Nunca ouvi falar dessa Suzana — disse ele, me lançando um olhar estranho, olhar de quem olha um extraterrestre.
— Tá calor, né?
— Tá muito quente. Espero que o ar-condicionado do cinema esteja funcionando direito.
Ufa! Até que enfim ele disse mais de uma frase!
— E cereal? Você come cereal de manhã? Cereal com leite? Ai, eu não consigo, olho praquilo e acho que é um monte de pedaços de cérebro de macaco flutuando em gosma.
— É tão esquisito...
— Cereal? Também acho! — empolguei-me, feliz por finalmente ter puxado um assunto pelo qual ele se interessava.
— Não, esse jeito de vocês, meninas... Vocês são muito esquisitas. Como falam, como são tagarelas. Você é a menina mais tagarela que eu conheço.
— Tagarela? Eu? Fala sério, Garret! Estava falando só para quebrar o silêncio!
— Quebrar o silêncio? Pra quê? Deixa o silêncio quieto, coitado! Ele não faz mal pra ninguém...
— Tá bom, tá bom... desculpa... Eu falo um pouco demais às vezes, admito. Vamos ficar quietinhos.
Menos de sete segundos se passaram quando as palavras pularam para a minha boca. Eu precisava comentar o que tinha acabado de ver.
— Repara o cabelo dessa mulher! Repara o cabelo dessa mulher! Aposto que é chapinha. Chapinha malfeita, ainda por cima. Deve ter feito em casa, de qualquer maneira. A minha amiga Ângela quer fazer escova progressiva no cabelo. É uma espécie de chapinha que dura três meses. É uma fortuna. O meu cabeleireiro Rômulo é totalmente contra. Acha uma agressão.
— Não é possível, Bella!
— É sim, agride o couro cabeludo e ainda...
— Não é isso! Não é possível que você fale tanto!
— Ai, foi só um comentário, que chato você tá!
— Eu? Eu tô chato? Você não parou de falar um segundo! Vocês, mulheres, falam porque têm necessidade de emitir sons. Só por isso. Para vocês é normal falar o que se passa na cabeça, é normal pensar em voz alta. Mas é humanamente impossível acompanhar cada palavra que sai da sua boca. Que eu me lembre, de casa até aqui você já falou de bala, de papel de bala, da Turma da Mônica, de castelos medievais e da qualidade das novelas do SBT. Ah! Você disse também que eu precisava passar vinagre de maçã no meu cabelo para tirar a oleosidade dele, depois emendou no novo namorado da sua amiga, Alice, que eu nunca vi na vida, e ficou indignada com a chapinha caríssima que uma tal de Ângela quer fazer. Para quê, meu Deus? Quem são essas pessoas? Qual a importância de monologar sobre esses assuntos? Qual é a dificuldade de pensar em silêncio? E o que é chapinha? O que a gente perderia se não falasse da chapinha progressiva da sua amiga?
— Escova progressiva — corrigi.
— Caguei!
— Caraca, Garret, você é péssimo, sabia?
— Engano seu. Eu sou ótimo. O que vocês, mulheres, nunca vão entender é que nós, homens, só falamos quando realmente temos algo a dizer. Não desperdiçamos palavras, não jogamos saliva fora.
Que cara grosso, viu? Terminei tudo ali mesmo, na fila do cinema. Mas nem fiquei triste. Poucos dias depois saí com uma amiga e ela me apresentou ao Vinicius, com quem conversei horas a fio. Falamos de vida, de música, de Chico, de Caetano, de Tom Zé, de Cinema Novo, de teatro, de livros, de cremes para cotovelos desidratados, do novo rímel que dava um volume sensacional aos cílios... Eu era a encarnação da felicidade. Tinha, enfim, encontrado um cara legal, o cara certo para mim. E ainda por cima era lindo e cheio de estilo.
No dia seguinte descobri que minha quase futura relação amorosa tinha um único empecilho: Vinicius já estava namorando. O Emílio. Isso mesmo, Vinicius era gay. Convicto e muito feliz. Fiquei sozinha por um tempo depois desse episódio, mas nunca desisti de encontrar o cara dos meus sonhos: engraçado, sarado, nem tão bonito, nem tão feio, mais alto que eu, espirituoso, romântico, que não me troque por peladas com os amigos, que não goste de ver esportes pela tevê, que adore ver vitrine e que largue tudo por uma boa conversa. É pedir demais?
É cada um que me aparece...2
Olhinhos pequenos, abdômen sarado, perna grossa, pele dourada, um Adônis em plena praia de La Push escolhe o espaço de areia ao meu lado para se estabelecer. Fica em pé, olha o mar, encolhe a barriga, empina o peito, dá uma alongada, exibe os músculos, olha o mar de novo, olha para os dois lados da praia... Olha pra mim.
— E aí? — fez ele, levantando as sobrancelhas.
— E aí? — Eu não tive alternativa.
— Beleza?
— Be... beleza...
Ele senta.
— Mora aqui perto?
— Em Forks.
— Eu moro em Port Angeles.
— Ah, tá.
Silêncio se faz. Ele olha o mar de novo. Vira-se para mim, compenetrado, espremendo os olhinhos, e pergunta:
— Você acredita em fada, duende, ogro, essas paradas?
Mastigo a pergunta. Mastigo mais um pouco, tentando passar a idéia de que aquela é a pergunta mais normal do mundo e...
— N-não...
— Show! — comemorou. Acho que se eu acreditasse ele não seguiria conversa.
— Super-herói você não curte também não, né?
— Gosto de alguns.
— De quais?
— Do Homem-Aranha, do Batman...
— Do Batman? Batman?
— É, do Batman. O que é que tem de errado com o Batman? Eu gosto bem do Batman.
— Fala sério! Qual o superpoder do cara? Tem bat-caverna, Bat-móvel, bat-acessórios, bat-tudo! As bat-coisas que fazem tudo por ele, ele não faz nada. É um bat-bocó esse cara! E ainda é bat-boiola, na boa. Nada contra os boiolas, mas vai dizer que aquela amizade com o Robin não é meio esquisita?
— Arrã... — respondi, um tanto assustada. Preferi não contrariar a pessoa.
— Que superpoder você gostaria de ter?
— O de ficar invisível a qualquer hora — respondi, acreditando que tinha dado a entender que era exatamente isso o que eu queria naquele momento.
— Sério? Eu queria o superpoder de comer muito e não engordar.
Eu só tenho esse corpo porque malho três vezes por dia, todo dia.
Corro na areia, malho na academia, pego muito peso, sente meu bíceps — pediu, pegando minha mão e encostando-a em seu braço.
— Nossa... — Foi a única coisa que consegui verbalizar.
— Você malha?
— Não.
— Fala sério!
— Tô falando.
— Por quê?
— Não gosto.
— Por quê? Não quer ficar sarada, não?
— Não faço questão.
— Que é isso? Levanta aí, deixa eu ver seu corpo.
— Quê?
— Anda, levanta, se eu der uma analisada no seu material posso te dizer o que uma horinha diária de malhação pode fazer por você.
— Não... tô legal aqui, valeu. .
— Bunda mole?
— Garotooo!
— Se for tem remédio. É só começar agora.
— Deixa a minha bunda em paz! Não vou mostrar nada pra você.
— Beleza, eu vou olhar pra ela quando você for dar um mergulho, mesmo... Depois dou a nota.
Fico muda. E emburrada. Olho para o mar.
— Vou te dar nota baixa, não... Fica tranqs... Ó, olhando daqui, meio esparramadinha no chão, acho que pode rolar um cinco... cinco e meio com muito esforço. Não é nota vermelha, viu?
Faço cara de raiva.
— Tá com vergonha, né?
— Claro que não, cara!
— Se não quer mostrar, beleza, não vou insistir.
Ufa! Finalmente ele se tocou que estava sendo inconveniente, que estava me enchendo o saco, que eu queria ficar em silêncio.
— Deixa só eu pegar na sua bunda, então.
— Quê?
— Rapidinho! Só pra sentir a consistência dela!
— Olha só, você tá me chateando. Se continuar vou chamar meu Irmão, que é dez vezes mais forte que você e tá na água com os amigos... — menti descaradamente. Eu estava sozinha esperando minhas amigas e o Mamá é pele e osso.
— Já entendi. Cê deve estar toda molenga, barriguda, cheia de celulite... Olha a lei da gravidade... Ela é cruel com a mulherada... Vai malhar enquanto é tempo, menina...
Levanto em busca de outro lugar na praia. Enquanto ando e me afasto, ainda tenho o desprazer de ouvir o Adônis gritar:
— Seis e meio! Seis e meio, garota! Melhor do que eu pensava!
Olá meninas!
Desculpem o sumiço!
Até a próxima.
Beijinhos,
SrtaSwanCullen!
E JÁ SABEM NÉ?
QUEREM FAZER UMA AUTORA FELIZ?
DEIXEM REVIEWS!
