FULL MOON by Sue Hellen
10. Capturados
"Que foi, Sandra?" eu ouvi a voz de Leonard ao meu lado, porém, não precisei responder.
O vampiro moreno parecia não se importar em ser visto, e continuava lá, com uma expressão ligeiramente cínica no rosto. Foi quando eu senti Leonard girando em seu próprio eixo e olhando à nossa volta. Acompanhando o movimento dele com a cabeça, eu notei que vários homens, vestidos com as roupas pretas da polícia, vinham na nossa direção, cada qual de um lado, passando por entre as pessoas.
Estávamos sendo cercados.
"Vem!" gritou Leonard puxando a minha mão, e nós disparamos a correr.
É claro que, com tanta gente pela frente, nós não podíamos atingir nossa maior velocidade. As pessoas pareciam paredões de pedra, nos quais a qualquer minuto seríamos fuzilados. Eu não sabia bem para onde Leonard estava indo, e apenas seguia seus cabelos que brilhavam como fogo à minha frente. Nós corríamos ziguezagueando, e eu entendi que ele pretendia fazer com que nos perdessem de vista, para só depois voltarmos para o hotel, onde seriam necessários apenas alguns segundos para que avisássemos Hendrik e deixássemos da cidade.
A única falha nesse plano era que, longe do que poderíamos pensar, não estávamos fugindo de homens normais. Eles eram vampiros. Corriam e enxergavam tão bem quanto nós. Pena que tenhamos percebido isso quando era tarde demais...
Quatro criaturas pularam na nossa frente, tão rápido que os humanos nem se deram conta. No instante seguinte, já eram seis, e Leonard deu dois passos para trás, me empurrando, e se preparando para retomar pelo caminho por onde havíamos vindo. No entanto, isso era impossível, pois desse lado vinha o vampiro moreno, andando com uma incrível graciosidade felina.
Meu cachorro de pelúcia foi inconscientemente largado no chão, e então, não houve tempo para pensar.
Os seis vampiros disfarçados avançaram para cima de Leonard e o outro se adiantou sobre mim. Eu reagi instintivamente tentando me defender, mas ele não me atacou como eu previa. Sua ação foi me segurar pela nuca com uma das mãos, e com a outra pressionar um pano contra o meu nariz e minha boca, com uma força capaz de quebrar os meus ossos.
Um cheiro carregado de clorofórmio invadiu as minhas narinas, e eu me debati, tentando me desvencilhar do aperto extremo dele. Contudo, já era tarde demais. Minha visão foi se turvando aos poucos e minha cabeça ficou pesada, a ponto deu não conseguir mais mantê-la erguida.
A última coisa que consegui registrar foi a voz de Leonard rugindo bestialmente o meu nome, em desespero.
Daí, tudo ficou escuro, e eu não pude ouvir mais nada.
Um silêncio aterrador me cercava quando eu, finalmente, consegui recobrar a consciência. Com a cabeça latejando de dor, abri meus olhos e tentei encontrar alguma pista que pudesse me dizer que lugar era aquele. Porém, não consegui ver muita coisa, pois a noite estava escura, e eu me encontrava deitada sobre um chão de terra, em meio à grama alta. Ao me sentar, notei desnorteada que algemas prendiam meus pulsos e tornozelos, ligadas entre si por correntes grossas e brilhantes, – seriam de titânio? – e atreladas a uma coleira metálica atada ao meu pescoço.
Que isso seja só um pesadelo... Desejei suspirando, mas logo percebi que se aquilo era um pesadelo, ele ainda ia demorar muito para terminar.
À apenas alguns metros de mim, estava o vampiro que me raptara, encostado numa motocicleta de competição preta, me fitando com seu olhar amarelado, frio como gelo.
Ele parecia prestes a se levantar e vir falar comigo, quando o celular fino que ele segurava entre os dedos tocou. Lentamente, ele abriu o aparelho flipe o levou até o ouvido.
"Alô?" disse com uma voz meio rouca, exclusivamente masculina.
"Monsieur LeBrant?" perguntou uma voz de homem do outro lado.
"Oui..." disse ele em francês, a língua quase típica da região "Como vai, Doutor?" completou dando um sorriso.
"Não muito bem." o outro respondeu, e agora eu pude notar um forte sotaque alemão "Acabei de serr inforrmado que o senhorr está quebrrando o nosso trrato."
"Isso não é verdade..." dissimulou o vampiro moreno.
"Ah, não? Então onde está a garrota? Eu estou pagando pelos dois e não porr um só..." eu ouvi o interlocutor reclamando, me dando conta de que sabia de quem se tratava agora. Aquela era a voz que Leonard ouvia em sua cabeça... a qual lhe ditava as ordens...
"Eu sei disso!" encapelou-se o vampiro "E pretendo devolvê-la! Assim que você me pagar o acertado, é claro."
"Como é?" soltou o homem, parecendo achar engraçada tamanha ousadia.
"A garota é a minha garantia, Doutor. Minha hipoteca, por assim dizer. Deposite o dinheiro na minha conta agora e eu a levo imediatamente para o senhor. Do contrário..." ameaçou ele, com uma animosidade fingida.
"Cerrto, cerrto... Você terrá o seu dinheiro, Monsieur LeBrant." concordou o vampiro "Me dê apenas alguns minutos, está bem?"
"Perfeitamente!" sorriu de novo o homem, e em seguida, desligou o telefone.
"Se você está precisando tanto de dinheiro assim, por que não usa seu poder para roubar um carro forte?" perguntei com desdém quando ele veio se aproximando de mim.
"E onde está a emoção nisso?" ele perguntou, me rodeando com seus passos lentos e hipnotizantes.
"Não sei. Mas talvez você pudesse achar alguma, Monsieur... LeBrant, não é?" falei em tom de chacota "É seu nome de guerra?"
"Não. É meu sobrenome mesmo." ele disse displicentemente, de súbito se agachando perante mim "Mas você pode me chamar de Mark..."
"Hunf!" desdenhei virando a cara "Dispenso a intimidade."
"Que pena. Eu gosto desse seu tipo, sabia, cadelinha?" ele disse deslizando seus dedos frios sobre a minha coxa desnuda "Nós até poderíamos brincar um pouquinho enquanto esperamos. Se ao menos você não cheirasse tão mal..."
"Você estaria morto antes que tentasse!" vociferei, colocando a ponta do meu salto agulha na base da garganta dele com um movimento rápido. O vampiro, todavia, se esgueirou para trás bem a tempo de não ser perfurado.
"Tsc, tsc." fez ele, com uma expressão divertida no rosto "Vocês lobisomens são uns blefadores mesmo..."
"Você acha?" perguntei com ironia "E será que os seus colegas de bando concordam com você? Ou melhor, será que eles concordavam?"
"Ah, aquilo..." o vampiro rolou os olhos se afastando de mim "É, vocês tiveram sorte naquela noite. Ainda bem que eu não sou vingativo, e estou deixando aqueles caras darem o troco no seu namoradinho por mim. Afinal, o Dr. Esquisitão de Chicago pediu ele vivo, mas não disse nada sobre ele estar inteiro..." ele zombou e, dessa vez, fui quem rezou para que ele estivesse blefando.
Nessa hora então, o celular dele voltou a tocar.
"O dinheirro já está na sua conta, Monsieur LeBrant, pode checarr."foi dizendo o vampiro assim que o outro atendeu "Agorra, leve a garrota para o local combinado. E sem mais grracinhas, por favorr." finalizou ele, e LeBrant sorriu, satisfeito.
"Ótimo, Doutor. Logo, logo, ela estará lá." ele assentiu, e desligou outra vez "Hora de ir, cadelinha..." disse me levantando pela corrente do pescoço. Tamanha humilhação fez a minha Fúria subir à cabeça e eu o ataquei com os dentes, arrancando uma lasca de sua carne. Entretanto, fui vencida por sua habilidade muito superior à minha "Quietinha!" comandou ele com um chiado, me prendendo pelas costas, e encostando o fio gelado de uma faca no meu pescoço "Essa é a faca de prata que o meu colega usava para sangrar os seus amigos, e eu não vou ter problema algum em usá-la em você, entendeu?"
Sem poder me mover, mas ainda rosnando, eu acatei sua ordem, e me sentei com ele na moto.
Acelerando com apenas uma das mãos, ele nos conduziu para a auto-estrada, que estivera bem ali perto o tempo todo, e eu não reparara. Em alguns minutos, pegamos uma via anexa, ladeada por árvores, que continha uma placa na entrada onde se lia Louisiana State University. Um pouco mais à frente, eu avistei um enorme prédio de tijolos, em estilo francês, bastante iluminado. Sendo uma noite de meio de semana, com certeza deveria ter aulas acontecendo lá dentro.
LeBrant passou à toda pela frente do campus e circundou o prédio principal, estacionando a moto num acesso dos fundos. Não fazia o mínimo sentido para mim que aquele fosse o lugar combinado por eles, porém, desde que eu pudesse reencontrar Leonard, nada mais importava. O vampiro me carregou escadas acima e nós passamos por uma porta vai-e-vem, atingindo um corredor silencioso. Eu tentei andar o mais rápido que era capaz para acompanhá-lo, virando os corredores e passando por outras portas, até que ele parou perante uma entrada mais larga, onde se lia Science Laboratory.
Como convidadospreviamente aguardados, nós adentramos a sala, sem cerimônias. De cara, eu senti o odor doce de vampiro, misturado com um cheiro de éter, impregnando todo o ambiente e revirando o meu estômago. Meus olhos, porém, não quiseram se ater a mais nada que não fosse a imagem do homem ruivo sem camisa, totalmente acorrentado a uma mesa de granito que ficava no meio da sala, a qual, naquele momento, mais parecia um altar de sacrifício. Pegando o meu raptor de surpresa, eu me soltei de seu braço e corri até ele.
"Sandra!" Leonard sussurrou ao ver-me, com sua voz repleta de agonia, de apreensão. Igualmente aflita, eu tomei o rosto dele entre as mãos e o beijei sofregamente nos lábios, feliz por encontrá-lo, feliz que ele estivesse inteiro.
"Eu estou bem, não se preocupe." disse olhando em seus olhos, tentando fazê-lo acreditar que tudo ia dar certo. Um puxão impetuoso, entretanto, me tirou de onde eu estava, e me arrastou até o canto do laboratório, me jogando contra uma cadeira de metal. Dois dos seis vampiros – bem armados, trajando preto – que estavam na sala se posicionaram ao meu lado, e eu vi LeBrant sorrir para mim em despedida.
"Seja uma boa cadelinha e fique sentadinha aí, enquanto eu vou embora. Nós nos reencontraremos um dia desses para terminar aquele nosso assunto..." tripudiou ele no meu ouvido, e eu não resisti em cuspir em sua cara assim que tive a oportunidade.
"A próxima vez que nos encontrarmos será a última vez que você verá alguém, cadáver!" explodi cheia de ódio, e recebi uma bofeada como resposta, que me causou um corte no canto da boca. Leonard rosnou e se debateu tão forte que os homens se assustaram e se prepararam para reagir.
Porém, tudo ficou absolutamente quieto quando a porta se abriu novamente, e por ela surgiu um homem alto e careca, de pele muito clara, vestido com um jaleco bem alvejado. Por trás de seus óculos de armação fina e dourada, um par de olhos cor de âmbar faiscou em reprovação.
"O que está acontecendo aqui?" perguntou ele com aquele mesmo sotaque carregado que eu ouvira antes, seu olhar intimidador escrutinando todos em volta. Leonard parecia sequer respirar ao ouvir aquela voz.
"Nada, Doutor." disse o vampiro moreno se aproximando dele "Eu já estava de saída."
"Você deve serr LeBrrant..." constatou ele "Trrouxe a garota para mim?" perguntou.
"Ela está ali." ele me apontou. Aqueles olhos amarelados se fixaram nos meus, me causando tremores. No entanto, eu me mantive firme, e não demonstrei meu medo.
Com passadas largas, semelhantes a uma marcha, ele andou até mim, puxando um pacote de lenços de papel do bolso do jaleco, que pelo cheiro eram umedecidos com álcool. Sem a menor delicadeza, limpou o sangue que escorria em direção ao meu queixo, com seus dedos duros e frios escondidos sob luvas cirúrgicas, expressando desagrado.
"Muito bem, LeBrrant. Você cumprriu sua parrte no trrato. Pode se retirrar agorra." disse rudemente, por fim.
"Claro... Foi bom negociar com você." emendou o vampiro antes de deixar a sala.
"Hu-hum." fez o Doutor com a garganta, o ignorando, e logo ele não estava mais lá. Seu semblante abriu-se sutilmente quando ele falou comigo pela primeira vez "Finalmente, poderremos nos conhecerr."
"Deixe-a ir. Você já conseguiu o que queria, não precisa mais dela!" bradou Leonard, de seu lugar. O homem não desviou sua atenção, entretanto.
"Como a sua mentalidade é restrrita, Sr. McPhill... Porr que você acha que eu ia querrer terr apenas um lobisomem trrabalhando parra mim, quando eu posso terr dois?"
"Para que você nos quer trabalhando para você?" eu tentei me acalmar, e ganhar alguma informação "Quem é você, afinal?"
O homem de jaleco puxou um banco que ficava próximo à bancada, onde as experiências pareciam ser realizadas, e se sentou de frente para mim e ao lado de Leonard.
"Muito bem. Já que, enfim, vocês irrão integrrar a minha equipe, eu acho posso contarr algumas coisinhas..."
"Errado." interrompeu Leonard olhando para o teto "Nós não estamos integrando equipe nenhuma."
"Isso é o que verremos." o homem deu um sorriso malévolo e Leonard o ignorou "Mas, enfim, como eu dizia..." continuou o doutor "Meu nome é Gustav Holst, ou apenas Drr. Holst, como sou conhecido. Sou médico e pós-doutorr em Genética pela Univerrsidade de Viena. Trrabalho nos Estados Unidos há alguns anos, desde que perrcebi que aqui eu terria muito mais liberrdade de conduzirr as minhas pesquisas do que na Eurropa."
"Pesquisas que basicamente consistem em escravizar pessoas?" perguntei querendo cortar a historinha entediante pela metade.
"Não." ele respondeu com calma "Pesquisas que são complicadas demais para explicarr a vocês dois." disse, se levantando "No momento, tudo o que vocês prrecisam saberr é que eu estou aprroveitando o grande potencial de vocês parra um bem maior..."
"Que bem maior?" perguntou Leonard.
O sorriu do vampiro se alterou, parecendo insano "Constrruirr uma nova sociedade, meu garroto."
"Como assim?" o ruivo franziu a testa.
"Em brreve, você entenderrá." replicou o homem com desprezo, de súbito se pondo de pé, e caminhando a passos lentos até mim "Agorra vamos trratarr de um outrro assunto especial... Sandrra." pronunciou ele, de um jeito que me fez notar de cara que eu não era bem quista "Você quase estrragou os meus planos, rroubando uma das peças mais imporrtantes do meu jogo, sabia?"
"Oh, eu sinto muito!" falei em tom de zombaria, o encarando "É que a sua peça meio que pediu para ser roubada, sabe?"
"Entendo." ele levantou uma sobrancelha e ficou me fitando de cima "Mas não há prroblema... Esse detalhe acabou se mostrrando uma feliz coincidência."
"E eu posso saber por quê?" inquiri.
"Bem... eu não dava um centavo sequerr porr você antes da sua fuga com Leonarrd, mas tive que levantarr o seu histórrico quando isso aconteceu..." disse ele cruzando os braços "Tenho que confessarr que fiquei bastante imprressionado com a influência de seu pai sobrre o mundo sobrenaturral na América do Sul, e que fui obrrigado a reconhecerr que ele erra um homem de fibrra, temido e amado ao mesmo tempo. E devido a isso, e a algumas outrras coisas, fui obrrigado a mandarr matá-lo..."
"O QUE?" eu gritei ao ouvir aquilo.
"Sim... Em apenas trrês dias os meus enviados fizerram o que aqueles vampirros incompetentes do sul semprre tentarram, e nunca conseguirram... Não é interressante?" caçoou ele, com uma satisfação bizarra no rosto.
"Não! Você... não..." eu tentei dizer, mas o pranto já ia tomando conta da minha garganta. Toda minha bravura havia desabado.
"Oh, sim!" ele prosseguiu "E agorra você vai, assim como o seu namorradinho, serrvir aos meus prropósitos... Nós vamos fazerr um belo trrabalho entrre os Latinos também."
"Você é louco!" enfureceu-se Leonard, gritando com o vampiro "Nós não vamos fazer NADA do que você quer! NADA!!!"
"Ah, não vão?" indagou ele com escárnio. E, me largando com minha lamúria, voltou para perto da mesa onde seu prisioneiro estava "Somente porrque você conseguiu resistirr às minhas orrdens até agorra, você se acha algo muito além de um verrme, não é mesmo, Sr. McPhill?" prosseguiu ele, sem obter uma resposta.
Então, sem nenhuma pressa, tirou uma seringa tampada do outro bolso do jaleco, e passou a arregaçar a manga, expondo o braço branquelo. Num movimento ágil, injetou a agulha numa de suas veias e retirou uma pequena mostra de sangue.
Meu peito subia e descia ruidosamente enquanto eu assistia àquela cena, arfando e contendo o choro. Leonard tentava manter a calma, mas eu via que ele estava pálido, suando em abundância. Não demorou muito para que o nosso maior temor se transformasse em realidade, e ele estivesse recebendo mais sangue daquela criatura odiosa.
Quando terminou de injetar a última gota então, ele voltou-se para mim, sombriamente "Agorra é sua vez." disse vindo se ajoelhar perto da minha cadeira. Desesperada, eu passei a me sacudir, tentando me libertar, mas fui impedida pelos vampiros ao meu lado.
Novamente, o maníaco homem de branco retirou um tanto de seu sangue, e mandou que os homens esticassem o meu braço, para pegar uma veia. Eu lutei contra o quanto eu pude, mas não consegui resistir até o fim. Virando o rosto para não olhar, senti a pressão da ponta da agulha contra a minha pele, quando de repente, uma sirene estridente tocou no corredor.
"Atenção. Isso não é um treinamento. Por favor, utilizem as escadas de incêndio e evacuem o prédio ordenadamente." soou alto uma voz mecânica feminina, logo repetindo o mesmo aviso. Uma grande algazarra de portas de abrindo e pessoas correndo em desvario pôde ser ouvida do lado de fora, e na seqüência, esguichos surgiram do teto e começaram a despejar uma enorme quantidade de água sobre nós.
Visivelmente irritado, o vampiro fez sinal para um dos homens, ordenando que fosse verificar se era verdade, e esse saiu da sala apressado. Em menos de meio minuto, ele retornou.
"Senhor, o corredor da frente está cheio de fumaça, parece que foi o almoxarifado que pegou fogo."
O vampiro soltou um xingamento que eu não entendi, e voltou a se levantar "Vamos terrminar isso em outrro lugarr." falou para os homens, e quatro deles passaram a soltar Leonard, enquanto os outros dois me puxaram da cadeira.
Enquanto andávamos para a porta, Leonard e eu reparamos que o barulho agudo da sirene, somado ao alerta de voz e aos gritos dos estudantes pelo corredor, estava desorientando os vampiros que nos seguravam, os quais, certamente por serem recém-criados, não estavam acostumados a lidar com os seus novos sentidos apurados ao extremo. Assim, vendo o doutor deixar primeiro a sala, nós precisamos apenas de um único olhar, uma única deixa, e em seguida, tínhamos todo um plano traçado.
E sem se importar com o quão mal elaborado e arriscado ele era, nós começamos a agir.
Aproveitando que estava na frente, eu usei os braços dos homens como apoio, e alcei as pernas no ar, golpeando a porta com os pés, e fazendo esta trancar-se com a potência da batida. Ao mesmo tempo, Leonard arrebentou as correntes de suas algemas, e socou os narizes do par de homens ao seu lado. Os dois que estavam comigo tentaram me agarrar, mas usando toda a minha força, eu rompi as correntes dos tornozelos, e os ataquei com joelhadas certeiras entre as coxas.
O que veio depois disso pode ser comparado a um filme de artes marciais. Leonard e eu terminamos de nos livrar das algemas e, já em forma de batalha, nos arremetemos furiosamente contra os vampiros, derrubando lâmpadas, colidindo contra os móveis, destruindo tudo em meio à aguaceira que nos caía de cima. Microscópios, frascos, cadeiras, armários. Não sobrou nada ileso. Nem eles.
Nós havíamos acabado de terminar a nossa matança, quando a porta veio abaixo, e o vampiro entrou por ela insanamente, atirando em nós com uma pistola. Agilmente, nós dois nos esquivamos das balas, que pelo brilho que tinham eram de prata, e avançamos sobre ele. Leonard chegou antes, espumando de ódio, e bateu na arma com as garras, arrancando a mão dele ao mesmo tempo, e jogando-o para o canto. Com um grito de dor e surpresa, o vampiro se chocou contra a parede, segurando o pulso ensangüentado. Ele estava prestes a ser atacado de novo, quando seus olhos miraram os de seu oponente, e sua boca passou tremer, aos cochichos.
"Ela! Ataque ela!" eu o ouvi dizer, e senti meu coração parando de bater por um segundo dentro do peito, quando vi Leonard virando-se para mim, enquanto o seu real inimigo se preparava para nos deixar.
Para o meu infortúnio, eu não podia falar nada, e tentei apenas acessar a mente dele, como em geral os lobisomens fazem em suas formas guerreiras, mas ela estava completamente vazia.
"Leo? Leo? Sou eu! Você não quer me bater..." eu repeti mentalmente, andando para trás conforme ele caminhava na minha direção "Leo, não..." supliquei, desejando que o choro que me escapava da garganta pudesse se traduzir em algo diferente do que simples ganidos. Todavia, ele não ouviu nem uma das duas coisas, e cumpriu a ordem que lhe foi dada. Tudo o que eu podia fazer então, era tentar me defender.
Nunca antes eu havia lutado de verdade com um outro lobisomem, muito menos com um tão mais forte do que eu. Ainda que eu conseguisse, porém, jamais teria coragem de atacar o meu namorado, o garoto por quem eu estava apaixonada, da mesma maneira como ele estava me atacando. Assim, todos os meus esforços se concentraram em sair dos golpes dele, e continuar falando em sua cabeça, embora parecesse inútil.
Eu estava me virando suficientemente bem no embate, até que escorreguei no piso encharcado e perdi o equilíbrio, batendo as costas na mesa de granito já aos pedaços. Leonard aproveitou a minha falha e, impetuoso, cravou as garras em meu abdômen. Um rugido de dor nasceu no meu peito e subiu pelo meu pescoço, até explodir em meus lábios.
Foi quando uma outra voz ecoou pela sala vazia.
"Leonard, pare!" gritou Hendrik, surgindo perto de nós, e empurrando o lobisomem para longe. Meio zonza, eu fui retomando minha forma humana e desabando no chão, enquanto o vampiro tentava me acudir "Sandra? Sandra, fale comigo!" pedia ele, atormentado.
"Hendrik..." balbuciei fechando os olhos "Ta tudo bem, Hendrik. Eu vou ficar bem." disse pressionando o ferimento.
"Oh, não... não... não!" eu ouvi um arfar descontrolado se aproximando de mim "O que eu fiz... O quê...?"
"Leo? É você?" eu perguntei abrindo os olhos, e o vendo parando sobre mim com seus cabelos pingando em meu rosto.
"Me perdoe, Sandra! Me perdoe!" disse ele começando a chorar, e me pegando nos braços.
"Tudo bem, Leo... Já está curando." procurei acalmá-lo, sabendo que em alguns instantes não haveria mais nem uma cicatriz no lugar onde as garras dele haviam entrado. Leonard não disse nada, mas seu choro persistiu, enquanto esperávamos. Vagarosamente, eu sentia o machucado se fechando, contudo, intuía que havia algo errado, pois a dor não estava indo embora, e ao contrário, ela apenas crescia.
Já sem forças para continuar escondendo-a, eu encolhi as pernas, e abracei meu namorado, soltando um gemido curto.
"Sandra?" ele estranhou o meu gesto, e ficou abruptamente tenso "Hendrik... O que é isso?" perguntou mostrando algo ao vampiro. Movendo a cabeça para olhar do quê ele falava, eu vi que uma espantosa quantidade de sangue escorria por entre as minhas pernas.
"Ela está tendo uma hemorragia!" exasperou-se Hendrik, e logo foi se levantando "Venha, temos que levá-la para um hospital, rápido!" comandou ele em tom de urgência, e como um raio, Leonard me apanhou no colo e saiu me carregando da sala.
Meu sofrimento apenas aumentava a cada passo que ele dava.
Os minutos transcorridos no carro durante a ida pareceram uma eternidade inteira vivida no inferno. Quando chegamos, eu já estava semi-acordada, e as pessoas passavam por mim como vultos, emitindo sons inteligíveis. Antes de desmaiar pela segunda vez naquela mesma noite, contudo, eu fui colocada numa maca e rodeada por enfermeiros. Por fim, não havia mais dor. Não havia mais nada.
Quando dei por mim novamente, o dia já estava claro.
A luz do sol entrava pelas janelas do quarto de hospital, e pássaros cantavam lá fora. Procurando algum rosto familiar pelo cômodo, notei que Leonard cochilava sentado numa cadeira aos meus pés. Seus cabelos já estavam secos e ele havia trocado de roupa, porém, olheiras profundas rodeavam seus olhos inchados. Eu estava prestes a chamá-lo, quando alguém abriu a porta, o fazendo pular de susto. Era Hendrik, trazendo um copo de café.
"Oh, você já acordou?" disse o vampiro amavelmente, e parou junto a minha cama, deixando a bebida na mesinha lateral "Como está se sentindo?"
"Melhor." eu disse forçando um sorrido "Mas com um pouco de sono ainda." reclamei.
"É bom que durma bastante mesmo. Irá fazer com que se recupere mais rápido!" ele aconselhou, e eu vi Leonard surgindo de mansinho atrás dele.
"Vem cá." pedi esticando o braço. Timidamente, ele se sentou ao meu lado, e se debruçou sobre mim para me dar um beijo na testa. Quando voltamos a nos olhar, percebi que seus olhos estavam úmidos "Leo? O que foi?" perguntei ansiosa, alisando sua barba. Percebendo que ele estava abatido demais para me dizer alguma coisa, eu olhei para Hendrik, em busca de respostas "O que aconteceu?" pressionei-o.
O vampiro pegou a minha mão e beijou-a afetuosamente "Eu sinto muito, Sandra. Eu realmente sinto muito."
"Pelo que?" eu continuava sem entender.
"Você estava grávida, minha querida. Estava entrando na quarta semana de gestação." ele disse com um suspiro triste, e eu vi Leonard abaixando a cabeça, derramando lágrimas silenciosas no meu colo.
"Eu estava... grávida?" eu quis confirmar, sentindo os olhos e o nariz começando a arder também.
"Sim. Os médicos disseram que você teve um aborto espontâneo." respondeu o vampiro.
"Não, Hendrik." fungou Leonard de súbito, expressando mágoa "Não precisa tentar amenizar."
Eu ergui o queixo dele com os dedos, e fiz com que me encarasse "Leonard, você não está pensando que... Não! É claro que não foi culpa sua!"
Ele simplesmente riu, em descrença "E de quem é a culpa, Sandra? Quem mais feriu você ontem à noite?" chorou ele, amargurado, e eu vi que íamos sendo deixados às sós.
"Não era você, Leo... Você nunca faria isso, nunca me machucaria!" eu discordei, convicta do que dizia.
"Isso não importa! Eu tinha que ter resistido dessa vez muito mais do que das outras! Eu tinha!" replicou ele, aos prantos, me condoendo o coração. Sem hesitar, eu o puxei pelos ombros, e deitei sua cabeça em meu peito, o abraçando apertado.
"Você não podia, amor. Era impossível! Não se culpe..." pedi, chorando com ele.
"Eu não queria que ele morresse, Sandra... Eu juro." eu o ouvi soluçando, se agarrando a mim em desvario.
"É claro que você não queria. Você nem sabia que ele existia, nenhum de nós sabia!" eu tentei consolá-lo.
"Eu preciso te ouvir dizer que me perdoa. Por favor?"
"Eu não vou dizer isso, porque eu não tenho que te perdoar! Você não fez nada por sua própria vontade... e teria resistido se pudesse!"
"Mas eu matei... eu matei o nosso..."
"Shh. Você não matou ninguém, foi um acidente. E teria sido uma hora ruim para ter um bebê de qualquer maneira. Nem eu nem você estamos preparados para sermos pais."
"Eu sei... mas eu não queria ter feito aquilo... Eu sinto muito."
"Tudo bem, acabou agora, passou. O importante é que nós dois estamos vivos, e que estamos bem... E quanto a essa história de bebê, você pode compensar me dando outros daqui a alguns anos, não pode?" eu o provoquei, dando um sorriso.
Leonard voltou a me olhar nos olhos "Você ainda vai querer continuar comigo depois disso?" perguntou ele, assustado.
Eu ri da expressão de seu rosto, o enxugando com as mãos "Quantas vezes eu vou ter que repetir que não foi culpa sua? Será que é tão difícil assim acreditar em mim?"
"Hmm..." fez ele envergonhado, se recompondo "Obrigado."
"Por nada... seu bobo!" eu brinquei, e puxando-o outra vez, lhe dei um beijo apaixonado. Aparentemente mais calmo, Leonard deitou-se comigo na cama, e me deixou mexer em seus cabelos até que eu dormisse. Contudo, foi ele quem acabou dormindo, e eu fiquei acordada, olhando para o nada por um bom tempo.
Livre de ter que continuar encenando para ele, eu voltei a chorar baixinho, pensando nos estragos, muito mais do que físicos, que aquela noite me causara por dentro. Depois de apenas duas semanas após ter perdido o meu pai, eu havia perdido um filho, que eu não sabia que estava gerando, mas que de certa forma, já pressentia que estava lá. Um vazio repentino me consumia por dentro, alimentado pelo remorso de não ter sido mais cuidadosa comigo mesma.
E parecia que acontecesse o que acontecesse, tal sentimento jamais iria me deixar.
