Capítulo 10
A GAROTA E A FUGA

Harry acordou cedo com uma dor de cabeça bem irritante mas não se importou muito. Estava convicto de que consertaria tudo naquele mesmo dia. Iria embora de Hogwarts, chegaria em casa e arranjaria um jeito de conseguir o espelho de Sirius. Foi então que um pensamento lhe atravessou: o padrinho estaria vivo?

Ao pensar naquilo, Harry sentiu-se nauseado. "Não consegui impedir a morte do meu pai. Ele morreu... e os Weasley também. Isso não pode estar certo".

Tentou agir o mais normal que pôde, não ficando ansioso demais. Desceu para o Salão Principal com Frank, conversando alto e fingindo estar animado. Comeram torradas e falaram sobre o campeonato de quadribol inter-casas, que estava liderado pela Lufa-lufa.

- Mas eu tenho certeza – falou Frank entusiasmado – que podemos pagá-los no jogo de sábado. Afinal de contas, a temporada mal começou...

Frank jogava de artilheiro e era o capitão do time; e Harry descobriu que ainda era apanhador. Mas o time não era nada parecido com o que estava acostumado. Afinal de contas, ter Colin Creevey de batedor não era exatamente a formação de um time dos sonhos.

- Ah, eu tenho certeza de que ganhamos esse ano – falou Francesca sentando-se à mesa com eles – a Lufa-lufa perde a vantagem fácil fácil... foi uma sorte aquele jogo contra a Sonserina, nada mais do que sorte.

- Se bem que não tem mais Diggory o que definitivamente é melhor para nós. Lembra da surra que ele te deu no último jogo dele, Harry? Eu queria quebrar aquela cara bonita dele...

- Seria engraçado – comentou Francesca abrindo a risada – mas seria uma pena... Ainda mais agora que ele conseguiu um emprego no Ministério...

Harry não estava escutando. Cedrico estava vivo. Tinha até um emprego no Ministério. "Claro, o Harry não o levou para um cemitério da morte...".

- Eu já tenho tudo pronto – murmurou Francesca enquanto Frank se distraía com uma quinta-anista que passava – seu mapa estará em suas mãos ainda hoje de tarde.

- Ele parece mais um pergaminho muito velho – explicou Harry ainda atordoado com a história de Cedrico – mas é só dizer "Juro solenemente que não vou fazer nada de bom" que ele se abre e revela o segredo.

- Mas que encantamento mais apropriado! – exclamou a garota – eu acho que vou adorar esse mapa!

- Você tem consciência da gravidade da acusação que fez, James? – perguntou Dumbledore calmamente por trás de seus oclinhos de meia-lua – Pedro é seu amigo desde muito tempo...

- Pedro sempre foi mais adorador do que amigo, professor – falou James com a voz dura – podemos investigar e tirar a prova, se o senhor ainda estiver duvidando...

- James – Dumbledore falou pesadamente, encarando o outro com os olhos – em que está se baseando para supor que Pedro Pettigrew é o traidor da Ordem da Fênix?

James mexeu-se um tanto inquieto na cadeira e desviou os olhos dos de Dumbledore. O que iria responder? Que se olhara num espelho e seu filho dezesseis anos no futuro lhe contara? E que pior, ele acreditara em cada palavra e agora estava tentando evitar a própria morte?

- Confesso que é um palpite, professor – James finalmente decidiu falar – mas é um palpite que compartilho com Lily, e o senhor sabe como ela é boa nessas coisas...

- Lily nunca conseguiu persuadi-lo nesse palpite, James... você sempre defendeu suas idéias fortemente quando se trata dos seus amigos.

- Mas agora é diferente! – exclamou James irritado com o jeito calmo e levemente desconfiado de Dumbledore.

- Por quê?

A verdade quase escapou da boca de James, mas ele a conteve:

- Ele anda estranho. E não consigo mais confiar nele...

- Então é válido – falou Dumbledore ajeitando os óculos – se você não consegue mais confiar numa pessoa gratuitamente é porque ela esconde algo ou é porque ela está agindo de forma assustadoramente antipática. E digo, os dois argumentos são válidos.

- Por favor – retomou James tentando parecer mais concentrado – qualquer pista que tivermos... qualquer palpite já é de serventia para a Ordem!

- Está bem, está bem – disse o diretor mirando James com exagerada atenção – prevenir é melhor que remediar, não é mesmo?

- Com certeza é! – exclamou James se lembrando das coisas que seu filho lhe contara.

- Sirius já foi conversar com você?

- Sim. Ele ainda é nosso Fiel Segredo, professor. Consegui persuadi-lo.

- Um passo importante, creio – falou Dumbledore com displicência.

James se levantou para ir embora, mas então algo o deteve. Permaneceu alguns segundos parado, apenas olhando para o vazio. Então, respirou fundo e perguntou a Dumbledore com a voz mais calma que conseguiu:

- Professor... Severo Snape já veio procura-lo?

Se haviam coisas de que Francesca Burnett se orgulhava em si mesma, era sua habilidade em feitiços e sua habilidade de atuação. Não fora difícil convencer Filch de que Pirraça estava destruindo a sala de Troféus e achava que também não seria encontrar o tal mapa usando um feitiço de vasculhamento. O problema era a gata.

Aquela maldita gata, Madame Nora. Havia teorias interessantes sobre ela em Hogwarts. Uma delas era que na verdade, a gata era um animago que se encontrava com o zelador durante a noite; uma outra era de que Madame Nora funcionava como o segundo par de olhos de Filch e que tinha modos secretos de se comunicar com ele através da mente.

Infelizmente, Francesca acreditava na segunda opção.

"Esqueça isso, Francesca Burnett – dizia ela para si mesma – é só uma gata estúpida. Uma droga de gata estúpida."

Mas não adiantava. Estava tensa. Seus músculos pareciam estar todos contraídos, tamanho era seu nervosismo. Mas sabia o que ia fazer.

Harry estava saindo da aula de Herbologia com Frank quando viu a confusão que se instalara no hall principal.

- O que está acontecendo? – perguntou Frank com um brilho de satisfação nos olhos.

- Eu não sei – falou Harry tentando espiar entre os estudantes que se acumulavam perto das escadas – mas o que é isso?

A cena do hall era no mínimo, impressionante. Francesca Burnett vinha correndo, a gata de Filch grudada em uma de suas pernas, e na mão direita, seguro firmemente, o Mapa do Maroto. Harry achava que poderia reconhece-lo em qualquer lugar.

- Anda Harry! – ela berrou passando por ele – vamos rápido!

Harry não teve tempo para pensar muito, quando se deu por si, já estava correndo atrás de Francesca pelos corredores do castelo. Uma sensação muito familiar de que já tinha feito aquilo antes o invadiu. Já teria feito aquele caminho mesmo? Sabia para onde ia?

- Lembra daquela vez com o gato da Granger? – perguntou Francesca meio que respondendo a sua pergunta – foi aqui mesmo que nos livramos dele.

Francesca parou então, olhando para trás para ver se Filch já não vinha desembestado atrás deles. Pegou Madame Nora com força e pouco jeito e jogou-a dentro de uma armadura de dois metros que tinha uma abertura no peito.

- Eu detesto gatos! – exclamou ela, tremendo ligeiramente – agora vamos.

Harry a seguiu, não conseguindo se posicionar muito bem sobre o comportamento da garota. Algo lhe dizia que aquilo era errado enquanto uma parte dele brigava dizendo que era lógico, que já tinha feito aquilo antes. Era melhor ir embora logo, antes que sua mente o deixasse louco.

- Vassouras – disse Francesca abrindo uma porta ao lado. Harry percebeu que era um armário de vassouras velhas – eu acho que ainda funciona.

- Obrigado – falou ele pegando uma vassoura horrível e velha.

- O seu mapa é incrível! – exclamou ela – inacreditável! Como nunca descobri que havia uma coisa assim?

- Agora você sabe...

- Espero que ele o ajude mesmo – falou, observando, com os olhos arregalados, o pontinho Argo Filch entrar no corredor onde estavam.

- Anda! Nós temos que ir muito rápido!

Os dois correram até chegar novamente a um dos corredores adjacentes ao salão principal. Harry queria continuar correndo e chegar o mais rápido possível até a estátua da bruxa de um olho só, mas Francesca abriu uma porta à esquerda e numa manobra fantástica e pouco provável, arremessou Harry e a si mesma para dentro da sala.

- Mas o que...? – perguntou Harry exasperado, observando a garota bloquear a porta.

- Você está indo embora – ela falou, arfando – e eu provavelmente receberei uma detenção de Filch que vai deixar meu castigo por pendurar Malfoy pelas canelas uma tarefa fácil então... – Francesca parou de falar, respirando fundo – eu preciso ter a certeza de que você, quem quer que seja, vai colocar as coisas no lugar. Não importa o que aconteça.

Harry, que esperava qualquer reação estranha da garota não um discurso daqueles, ficou estático com uma expressão no rosto que ele tinha certeza estar muito idiota.

- Tem algo de errado nesse mundo – prosseguiu Francesca – eu sei que tem. E sei que de alguma forma só você pode consertar, então, antes de eu deixar você sair daqui, tem que me prometer que vai fazer tudo direito. Só assim eu conseguirei enfrentar minha detenção de maneira digna...

- Harry é um idiota por não gostar de você – falou Harry olhando-a francamente.

Francesca vacilou um instante, corando e rindo encabulada, mas depois se recompôs, acenando afirmativamente com a cabeça.

- Não pense que ele é uma pessoa ruim. No fundo, ele é como você: corajoso, nobre e gentil. Ele só é um pouco deslumbrado...

Os dois continuaram se olhando por alguns instantes, até que Harry tomou a iniciativa e abraçou Francesca forte.

- Não vou esquecer você.

E com isso saiu da sala correndo, o Mapa do Maroto firme na mão direita, a vassoura na esquerda, enquanto Francesca acenava para ele, sorrindo.