Capítulo 9 – 5° Ano – Parte 1 de 2
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Agosto de 2021. 4ª semana.
"Wow!" Harry exclamou ao ver Rose descarregar sua arma em Scorpius, cobrindo-o de manchas de tinta de diversas cores.
"É, ela me assusta também, às vezes" Ron concordou e pôs as mãos em concha para gritar para a filha. "Rose, um tiro teria bastado!"
"Ah... me desculpa Scorpius" a voz dela chegou abafada até eles por causa da máscara, seguida de um grito agudo. Albus tinha acabado de acertar uma bolinha de tinta logo abaixo de suas costelas, o que fazia com que ambos os times perdessem um jogador. "Eu tenho que fingir que estou morta?"
"Saia do caminho, Rose!" gritou Hugo, detrás da cerca viva.
Scorpius e Rose saíram da linha de tiro dos demais, indo se sentar num canto descoberto e, portanto, desocupado. Scorpius deixou Rose seguir mais à frente e descarregou sua arma nas costas da garota, que correu atrás dele.
Ron meneou a cabeça, incrédulo, enquanto Harry não conseguia conter um sorriso.
"Eu não acreditaria se não visse com meus próprios olhos, sabe?" disse Ron. "Ele realmente parece estar se divertindo".
"Sim, Scorpius é um bom garoto" Harry repetiu o que já dissera várias vezes a Ron. Mas Ron precisou ver com seus próprios olhos.
"Quero dizer, ele nem parece estar cheirando bosta de dragão o tempo todo, nem olha as pessoas de cima ou faz piadinhas idiotas! Só falta você me dizer agora que ele faz Estudo dos Trouxas e não os chama por nomes feios".
"Nós fomos jantar fora ontem" Harry contou. "Ele pareceu bastante à vontade em meio aos trouxas. Um pouco impressionado, até".
Harry se recordou de como o garoto havia exclamado exultante ao apontar para um casal fazendo cooper usando tênis que acendiam luzes nos calcanhares e roupas refletoras. 'Agora, aquilo é magia!' ele dissera triunfante. Mas logo se decepcionara quando James explicou a tecnologia por trás até das coisas mais simples.
Ron balançou a cabeça novamente.
"Como pode um filho ser tão diferente do pai?"
Harry ia responder quando James apareceu de trás de um arbusto, sacudindo as mãos no ar.
"Hey caras!" James gritou, chamando a atenção de todos, então tirou a própria máscara e soltou um arroto grave e longo, se escondendo diante da saraivada de tiros que se seguiu.
"Ah, esqueça que eu fiz essa pergunta" Ron falou e os dois riram. Os dois estavam debruçados na janela da sala, observando as 'crianças' brincarem de Paintball. O jogo fora presente de Teddy que aliás, estava logo atrás de uma árvore aproveitando a distração causada por James para roubar a bandeira* com a cobertura de Fred.
Seguiu-se uma algazarra quando Teddy levantou a bandeira, com um urro de vitória. Albus, Lily e Hugo atiraram ao mesmo tempo, cobrindo-o de tinta. Fred foi o próximo a ser bombardeado. Ambos revidaram e logo o único a ter as roupas limpas era James, que ria de se acabar. No instante seguinte sua risada cessou ao ter sete canos de arma apontados em sua direção e o fato de que as armas se recarregavam automaticamente não ajudava.
Com um "CRACK" James desaparatou e com outro "CRACK" aparatou dentro da sala, sorrindo de orelha a orelha enquanto os outros atiravam no local onde ele estivera segundos atrás.
"James, seu covarde! Volte aqui!" gritavam eles.
"Shh!" ele pediu ao pai e ao tio antes de espiar para fora.
O que se seguiu fez seus olhos azuis se arregalarem. Albus havia pegado com a ponta dos dedos um trapo que se parecia muito com uma cueca. Todos explodiram em risadas.
"Droga" James exclamou, espiando para dentro da própria calça.
"Anime-se Jimmy" Harry deu um tapinha nas costas do filho. "Pelo menos foi só a roupa de baixo dessa vez".
"O que eles estão fazendo?" James torceu o nariz ao ver todos se curvando para esconder sua cueca enquanto Fred sacava a varinha.
"Não sei, mas se fosse você, ou tomava aquela cueca de volta agora ou nunca mais me atreveria a usá-la" aconselhou Ron.
James sacou a varinha e desaparatou novamente, aparatando logo atrás de Fred. Fez com que este virasse de cabeça para baixo com um aceno de varinha, suspenso no ar.
"Hey, eu não me lembro de ter ensinado esse feitiço para meus filhos!" Harry exclamou espantado.
Ron limpou a garganta, culpado, e mudou de assunto rapidamente.
"Então... Ginny comentou que você está ensinando duelo e defesa pessoal aos garotos".
Teddy havia derrubado James com um golpe de Judô e este lutava desesperadamente para se soltar, a varinha finalmente esquecida. Desde que completara dezessete anos, James usava magia até mesmo para coçar o próprio cabelo.
"Sim. Minhas férias foram bastante produtivas" Harry sorriu.
O treinamento de Auror incluía não apenas duelo, como também luta corporal. Um Auror devia saber se defender sem uma varinha para uma eventualidade, e Harry gostara tanto do esporte que ensinara algumas técnicas a Teddy, o incentivando a praticar também, e ansiara pelo momento de poder ensinar aos filhos. Até mesmo Lily havia demonstrado bastante interesse e habilidade.
"E Scorpius? Também está participando?" Ron perguntou.
"Sim. Mas Albus é quem está se encarregando de ensiná-lo".
"Façam suas apostas!" Fred conjurou um chapéu e começou a passar de expectador em expectador.
Eles assistiram novamente enquanto o campo de batalha de Paintball se convertia em um ringue de combate de Judô, com os combatentes cobertos de tinta. Enquanto Teddy e James partiam para o terceiro round, Albus parecia ensinar algumas técnicas para Hugo, demonstrando com Scorpius.
"E se eles começarem a namorar?" Ron perguntou, de repente.
Harry encarou o amigo em uma pergunta muda e Ron acenou com a cabeça para Albus e Scorpius, que estavam meio embolados no chão. Ron continuou, "Quero dizer, eu sei que eles são melhores amigos, e tal. Mas existe a possibilidade, certo?"
Harry já havia pensado a respeito em várias ocasiões. Afinal, era impossível não cogitar. Eles estavam sempre em sintonia, conversando, rindo e se divertindo. Ou por vezes sérios e compenetrados, como quando estavam praticando duelo ou artes marciais. Até mesmo Ginny se demorara pensando se devia ou não preparar a cama de Scorpius no quarto de Albus, como fizera quando eles eram mais novos.
Depois de muito pensar a respeito, Harry já tinha a resposta para a pergunta de Ron.
"Eu não me importaria" Harry deu de ombros.
Ron levantou as sobrancelhas, mas não fez nenhum comentário.
"E Ginny?" ele perguntou.
Harry riu ao se lembrar que, por fim, a esposa tinha chegado à conclusão que eles eram garotos e dividiam o mesmo quarto em Hogwarts durante anos, além de que, seria rude mudá-lo de quarto agora que eles sabiam sua opção sexual.
"Ela também não. Na verdade, ela até gosta do garoto. Ele é tão polido..."
Ginny realmente ficara impressionada com as boas maneiras de Scorpius. Lily adorava jogar xadrez com ele e poderia jurar que o garoto era um doce, além de muito inteligente. E James o adotara como irmão, reservando para ele o mesmo tratamento de Albus: adorava pregar peças em ambos, importuná-los e dar chutes em seus traseiros.
"E Draco? Você o tem visto?" Ron continuou com seu interrogatório.
"Muito pouco. Ele apareceu pontualmente pelo Flu apenas para deixar Scorpius. Não o vejo no Ministério, já que ele trabalha do Departamento de Mistérios e parece não deixar a própria sala por nada".
"O que me faz pensar..." Ron franziu as sobrancelhas. "Como foi que ele conseguiu um cargo desses afinal?" o ruivo perguntou a ninguém em especial, mas acabou lançando um olhar desconfiado na direção de Harry.
Harry suspirou, derrotado. Hermione já sabia, é claro. Mas Harry tinha esperanças que Ron sequer chegasse a desconfiar que havia dedo seu naquela história.
"Eu fiz o que estava em minhas mãos" Harry admitiu. "Croaker precisava de alguém com uma boa experiência em Feitiços e Poções. Conversou com Slughorn, que despejou elogios sobre as minhas habilidades com Poções no sexto ano, você sabe... Então Croaker veio falar comigo. É claro que eu não tinha intenção de deixar o meu posto de auror. Então indiquei quem eu achei que seria ideal. Quero dizer, Draco era afilhado de Snape. Isso tinha que significar alguma coisa".
Harry sabia também que naquela época Draco estava desempregado desde que deixara Hogwarts, mas achou desnecessário – além de constrangedor – admitir que procurara saber sobre a vida do ex-comensal.
"E Croaker não ficou desconfiado?" Ron questionou.
"Claro que ficou. Mas acabou concordando em chamar Malfoy para uma entrevista. Encontrei com ele alguns dias mais tarde e ele estava empolgado. Disse que as habilidades de Malfoy eram justamente o que ele precisava. Pediu que eu o acompanhasse na iniciação dele, com os juramentos e tudo mais. Mas eu sugeri que chamasse outro auror e foi o que ele fez. Parece que não se decepcionou".
Ron suspirou.
"É... ele parece ter mudado mesmo. Nada vai mudar a doninha esnobe que ele foi no passado e eu nunca vou perdoá-lo pelas coisas que ele disse a Hermione. Mas, ele amadureceu. Nós todos, aliás. E, quem diria? Soube educar um filho, mesmo morando sob o mesmo teto de Lucius!"
"É..." Harry concordou, vagamente.
O moreno desejava poder apagar o passado, porém era realmente difícil, como Ron mencionara. Provavelmente Draco nunca chegaria a ser seu amigo, coisa que de certo modo desapontava Albus. Este nunca falara abertamente, mas se ressentia por não poder visitar o melhor amigo, como James visitava Wilbur.
Naquele momento, eles ouviram o barulho do Flu e se viraram para ver Hannah Longbotton surgir na sala, parecendo desbalanceada com sua barriga de oito meses de gravidez. Neville apareceu logo em seguida, bem em tempo de segurar a esposa.
"Hannah!" Neville se apavorou.
"Wow... foi só uma tontura, querido" ela o assegurou e Harry indicou o sofá.
No momento seguinte Hermione e Ginny apareceram da cozinha e todos começaram a falar ao mesmo tempo.
"Eu estou grávida, não estou doente!" Hannah gritou, fazendo com que todos se calassem. "A propósito, olá, todos vocês".
Harry sorriu para Hannah, que parecia esgotada. Aquele seria o primeiro filho deles depois de muitos tratamentos para que Hannah engravidasse e ela já não era tão jovem para ter o primeiro filho. Devia estar realmente cansada de toda aquela preocupação.
Depois do jantar, Harry se juntou a Ron e Neville, que observavam as crianças interagirem na sala. Eles jogavam algum jogo de cartas.
"Observem Albus" Harry deu a dica bem no momento em que Albus espiava furtivamente as cartas de James, depois fazia uma série de sinais discretos para Scorpius. Este passou os dedos pelas cartas pensativamente antes de jogar uma na mesa. Lily cobriu a cabeça com as mãos e James atirou as próprias cartas longe antes de ambos darem lugar a Hugo e Teddy.
"Ele realmente é um Sonserino, não é?" Ron falou, num tom brando que impressionou Harry. Albus não estava fazendo sua mágica apenas em Hogwarts, ao que parecia. Não lhe admiraria se os pais já não aconselhassem tanto os filhos a fugirem e temerem a Sonserina, depois de o filho de Harry Potter ter caído nela.
"Neville, Ron não quer acreditar em mim quando eu falo sobre a Sonserina e a Grifinória se ajudando nas aulas. Conte para ele. Quem sabe ele não acredita em você".
Neville tomou um gole de suco, balançando a cabeça afirmativamente.
"Mas Rose com certeza já lhe disse" ele falou.
"Sim, mas ela adora Albus. A opinião dela não conta. Mas, bem, digamos que a sua seja um tanto suspeita também..." Ron observou, também se servindo de suco.
Neville riu.
"Albus é uma figura! É impossível não gostar dele. E ele tem essa liderança nata que herdou do Harry, claro".
"Bobagem" Harry dispensou o comentário com um aceno de mão. "Ele tem mais mérito do que eu. Minha liderança era questionável, com toda aquela fama em torno da profecia".
"Realmente, ser líder em meio aos sonserinos não deve ser nada fácil" Hermione havia se juntado a eles sem que os homens percebessem, passando uma mão pela cintura do marido. "Mas ele herdou esse carisma de você sim, Harry".
Harry não discordou, sabendo ser inútil argumentar com a amiga.
"Exatamente!" Neville concordou, entusiasticamente. "Essa é a palavra. Carisma. Albus conquista as pessoas. E o fato de que ele está diminuindo a animosidade entre ambas as casas, é... bem, um fato. Não me pergunte como ele consegue agradar gregos e troianos, mas ele o faz".
"Garanto que é por causa de status" Ron apontou. "Ele não seria líder se não tivesse, além do sobrenome de peso, conquistado algum status entre eles. Com o quadribol, por exemplo. E garanto como ele foi escolhido para monitor esse ano".
"Não" Harry informou. "Foi Scorpius".
Ron levantou as sobrancelhas.
"Para não sobrecarregá-lo, garanto" Ron falou, se referindo a quando ele próprio fora nomeado monitor para supostamente poupar Harry de mais uma obrigação.
"Mas não é só isso, Ron. Albus é inteligente" Hermione comentou. "Rose é bastante perspicaz e já percebeu o jogo dele. Ele usa o que as pessoas priorizam para convencê-las. Fazer os grifinórios serem amigáveis é fácil. É só apelar para o senso de justiça deles. Agora fazer os sonserinos serem justos, só mostrando as vantagens que obteriam para eles mesmos. Albus está levantando a moral dos sonserinos, tornando-os menos agressivos e colocando-os na linha. Pela primeira vez, acredito, a Sonserina está merecendo suas conquistas. Não apenas trapaceando seu caminho para o pódio".
"É isso!" Neville concordou. "Eu sempre soube que Albus tinha algum motivo para ter caído na Sonserina. É quase como se ele tivesse escolhido ser o intermediador".
"Vocês sabiam que até o Profeta Diário tem dado alguns sinais sutis de que a Sonserina já não é mais uma opção tão assombrosa para as nossas crianças?" Hermione falou, adivinhando que ninguém teria notado.
A conversa continuou. Mas, mesmo se tivesse parado por aí, Harry já teria muito no que pensar. Também acreditava que seu filho tinha um papel a cumprir na Sonserina. No entanto algo lhe dizia que sua missão ainda estava longe de terminar. Talvez ele estivesse apenas oferecendo um começo, uma esperança. As pessoas teriam que dar continuidade a esse esforço depois dele, antes de a Sonserina finalmente se livrar daquela má fama.
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"Scorpie" Albus chamou pela terceira vez, sacudindo levemente o ombro do amigo.
Scorpius grunhiu, abriu os olhos e tornou a fechá-los.
"O que é?"
"Você estava tendo um pesadelo" Albus informou, se sentando na própria cama. Já era dia e o quarto fora invadido pelo cheiro de brownies. Albus se admirava como Scorpius conseguia dormir de barriga para cima, pois sempre tinha pesadelos quando tentava dormir assim.
"Albus, eu vou matar você" Scorpius esfregou os olhos e puxou uma almofada sobre os quadris. "Eu não estava tendo um pesadelo".
"Oh?" o sentido daquela afirmação demorou a penetrar na cabeça de Albus, mas enfim ele entendeu e sentiu as bochechas esquentarem. Sentiu-se idiota por não ter pensado nessa possibilidade ao ver o amigo gemendo durante o sono. "Oh! Sinto muito!"
"É bom que sinta mesmo" Scorpius falou, se sentando sem desalojar a almofada.
"Hmm... pode usar o último banheiro do corredor. Ninguém vai atrapalhar você lá" Albus recomendou, se ocupando com as próprias roupas enquanto falava.
"É isso que você faz quando tem... pesadelos?" Scorpius provocou, com um meio sorriso.
"Ah, cale a boca".
Houve duas batidas suaves na porta e Teddy espiou para dentro, os cabelos num tom vermelho goiaba.
"Hey, caras".
"Oi Teddy! Dormiu por aqui?" Albus se animou, o convidando para entrar com um aceno.
"Não. Vovó saiu cedo e me mandou vir tomar café aqui. Quer dizer, ela até deixou umas bolachinhas em cima da mesa, mas elas não fizeram nem cócegas no meu estômago. Então, o que acham de um passeio de moto hoje?"
Os olhos de Albus se arregalaram e sua boca se escancarou em espanto.
"Jura?"
Teddy deu de ombros.
"Jimmy pediu que eu o ensinasse a guiar. Seu pai deixou, com a condição que eu levasse vocês também para passear. Um de cada vez – ele repetiu isso umas quinhentas vezes, além de várias outras recomendações. Já andou de moto, Scorpius?"
"O que é isso? É algum parente de unicórnio?" Scorpius perguntou, levemente constrangido, provavelmente por não ter tido tempo de pentear os cabelos antes que Teddy o visse.
"Não" Teddy riu. "Você vai ver. Mas, mesmo que você conhecesse o que é uma motocicleta, você nunca teria visto uma igual a de Harry".
"Você vai adorar, Scorpius. É quase melhor do que uma vassoura!"
Scorpius ergueu uma sobrancelha, incrédulo. Ele pegou suas roupas e se demorou um pouco no banheiro dos fundos. No entanto, quando saiu estava impecavelmente vestido e penteado. Eles tomaram café e seguiram com Teddy até a garagem, abrindo um compartimento secreto. Scorpius arregalou os olhos para a motocicleta gigantesca.
"Você está dizendo que isso pode voar?" o loiro exclamou, depois de analisar atentamente os mecanismos do veículo trouxa modificado que um dia pertencera ao padrinho de Harry.
"Jimmy, você se importa se eu levar Scorpius primeiro?" Teddy perguntou diante do deslumbramento do garoto.
"Sem problemas. Só não vá despentear o cabelo do pobre garoto" James recomendou, com uma piscadela. "E mantenha as mãos de Scorpius onde você possa vê-las. Scorpius, Teddy é praticamente um homem casado agora".
Scorpius fez um gesto rude para James, que mostrou a língua em resposta.
Teddy não deu ouvidos aos comentários de James, apesar de exibir um sorriso de divertimento no rosto para o desconforto de Scorpius. Ele e Victorie haviam noivado no início do verão e se casariam dentro de um ano. Teddy pediu que Scorpius montasse primeiro e se sentou logo atrás, aproveitando para mostrar a James como fazer a moto funcionar. O ronco do motor fez todos pularem de susto. Parecia que uma tempestade estava sobre eles, o ruído insuportável dentro das paredes da garagem.
Scorpius tinha os olhos arregalados quando Teddy acelerou, deslizando um pouco no chão antes de decolar. Quando voltaram a tocar o chão, dez intermináveis minutos depois, seus cabelos loiros estavam mais bagunçados que Albus teria achado possível e havia um sorriso de orelha a orelha em seu rosto.
"Ele me deixou guiar!" Scorpius se admirou, descendo da moto e Albus o amparou quando suas pernas bambearam.
"Isso, fale mais alto!" Teddy o repreendeu. "Lily, você é a próxima?"
Lily saltitou até a moto, tomando o lugar de Scorpius.
"Foi incrível!" Scorpius parecia assombrado ao se sentar. Ele abriu bem a boca para normalizar a pressão dos ouvidos quando o ronco da motocicleta ficou mais fraco à distância. "Mas acho que perdi parte da minha audição. Por que você nunca me contou sobre isso antes?"
Albus deu de ombros.
"Porque contar não seria suficiente. Então, deu para tirar uma casquinha de Teddy? Vai precisar usar o banheiro do final do corredor de novo?" Albus provocou e teve que se desviar do soco que Scorpius mirou em suas costelas.
"Arrependido por ter vindo?" Albus perguntou, depois de alguns minutos. Scorpius tinha se mostrado um pouco relutante em ir para sua casa naquelas férias. Dissera algo sobre seu pai estar pensando em levá-lo para Roma, mas Albus insistiu até conseguir convencê-lo. O moreno imaginava que havia algum outro motivo para tanta relutância, mas Scorpius lhe diria quando se sentisse mais a vontade. "Não que Roma não seja melhor do que treinar duelos e lutas trouxas ou voar numa motocicleta, mas..."
Scorpius suspirou.
"Eu menti sobre Roma. Meu pai pensou em nos levar mesmo, mas não conseguiu tirar férias esse verão".
"Foi ele quem não queria deixar você vir, então?"
"Não é isso. Ele não fez objeção nenhuma" Scorpius assegurou, mas também não quis dizer o motivo.
"Então foi porque meus pais não me deixam ir à sua casa, não é?"
Scorpius abriu a boca para dizer algo, mas mudou de idéia. Suspirou e saiu da garagem. Albus o acompanhou. O loiro estava olhando para o céu, as mãos nos bolsos da calça. James tinha se afastado, olhando também para o alto e batendo o pé na grama impacientemente.
Mesmo que Scorpius não admitisse, Albus achava que aquele era o motivo. Não conseguia pensar em outra razão.
"E se o seu pai convidasse o meu nas próximas férias? Então eu poderia ir, nem que fosse apenas para conhecer a sua casa".
Scorpius o encarou em silêncio por um momento, antes de dar de ombros. A resposta dele quase foi encoberta pelo ronco da moto e Scorpius teve que se aproximar bastante de seu ouvido para se fazer ouvir.
"Pode ser que funcione. Vou conversar com meu pai. Mas não me entenda mal, eu gosto de vir aqui Al. Eu gosto de ter você por perto".
Albus acenou com a cabeça. Se ele, que tinha uma família numerosa e a casa sempre cheia, sentia falta da companhia do amigo no verão, imaginava que seria bem mais difícil para Scorpius.
Lily desmontou, dando pulinhos de excitamento. James mandou que Albus fosse rápido, pois já não agüentava mais de ansiedade para aprender a dirigir a moto.
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Setembro de 2021. Dia 1º.
Draco deu um meio abraço no filho, que pareceu um pouco constrangido.
"Pai..." Scorpius falou, num tom reprovador, olhando ao redor.
"Qual é o problema? Faz uma semana que não o vejo".
"Nós nos falamos pelo Flu" ele rolou os olhos.
"Sua mãe acabou de lhe dar um abraço e você não reclamou" Draco apontou, tentando não parecer tão magoado quanto se sentia. Mas talvez ele devesse entender o comportamento do filho. Scorpius tinha quinze anos, estava quase da sua altura e queria ser tratado como um adulto. Bem, adultos também se abraçavam.
"Olá, prazer em conhecê-la, Sra. Malfoy" Potter apertou a mão de Astoria calorosamente. "Essa é minha esposa, Ginny".
As mulheres trocaram cumprimentos corteses.
"Como vai, Draco?" Potter apertou sua mão, seguido da esposa.
Só faltava agora eles marcarem onde iriam tomar o chá das cinco, Draco pensou, sarcasticamente. Como se eles realmente fossem amigos...
"Olá, Sr. Malfoy" Albus Potter o cumprimentou, acanhado. Draco não pôde deixar de admirar mais uma vez, enquanto lhe apertava a mão, o quanto Albus se parecia com o pai. O garoto era... encantador**. Por mais que Scorpius nunca tivesse dispensado um elogio para a aparência de Albus, Draco duvidava que o filho era imune ao jeitinho inocente e tímido do melhor amigo.
Se pelo menos Scorpius estivesse conversando decentemente com o pai...
"Seu filho é um doce" disse a Sra. Potter, sorrindo para Scorpius.
"Obrigada" Astoria respondeu, também risonha, apesar de muito menos efusiva.
"Por que você não apareceu para levar Scorpius junto com Draco?" Ginny Potter perguntou para Astoria, que inventou uma desculpa com naturalidade.
"Eu estava com visitas, me desculpe. Mas vocês deveriam aparecer na Mansão um dia desses, para tomar chá, não é mesmo, querido?"
"Claro" Draco não tentou exatamente esconder seu sarcasmo, mas não era como se os Potter estivessem levando o convite a sério.
"Sim, quem sabe algum dia..." concordou a ruiva, distraidamente.
"Oh, lá está Daphne! Me desculpem, minha irmã está me procurando, com licença" Astoria saiu de encontro à irmã, cujo filho entraria para Hogwarts naquele ano.
"Eu deveria ir procurar James, também. Está tudo muito calmo" a ruiva trocou um olhar significativo com Potter antes de se afastar.
"Hmm..." Potter passou a mão pelos cabelos. "Eu devo ir também. Vocês querem que eu leve seus malões para o trem?" ele se ofereceu e achou alguma dificuldade em empurrar todas as malas e gaiolas. "Até mais, Draco, Scorpius. Albus, não embarque antes de dar um abraço na sua mãe".
Potter lhes deu as costas. Mal deu dois passos e derrubou alguma coisa no chão, felizmente do malão de Albus. Ele se abaixou para pegar e Draco aproveitou para apreciar a vista.
"Você está olhando para o traseiro do meu pai?" Draco ouviu Albus chiar por entre os dentes e por um instante se sentiu uma criança surpreendida numa travessura, mas então, quando olhou para o lado percebeu que Albus se dirigira a Scorpius.
"Claro que não" Scorpius deu de ombros, mas tinha as bochechas levemente rosadas.
'Claro que não, quando acontece de ele poder olhar o seu traseiro a qualquer momento, Albus' Draco pensou. Limpou a garganta, incerto sobre se também não teria corado.
"Então, como foi o passeio?"
"Foi ok" Scorpius falou. "Hey, Albus, vamos sair daqui antes que meu primo apareça".
"Hey, eu estou falando com você, Scorpius!" Draco se irritou.
"O quê? Já disse que foi legal!" Scorpius teimou, mal-educado.
Draco tinha uma repreensão na ponta da língua, mas hesitou ao ver o olhar constrangido de Albus e no momento seguinte era tarde demais. Ethan apareceu, dando puxões irritantes em sua calça.
"Oi tio Draco! Oi Scorpius! Quem é você?" o garoto ergueu uma sobrancelha para Albus.
"Este é Albus Potter. Albus, este é meu primo, Ethan Ruffian" Scorpius fez as honras, visivelmente contrariado.
"Ouvi dizer que você é capitão do time da Sonserina" Ethan falou, cheio de si. "Fique sabendo que eu sou um ótimo apanhador, não é mesmo, Scorpius?"
"A mãe dele com certeza vive falando isso" Scorpius falou, sarcástico.
"Scorpius, comporte-se" Draco avisou, mas Ethan parecia não ter notado a maldade na declaração do primo e estufara ainda mais o peito.
"Minha mãe vem vindo, você pode perguntar diretamente para ela" ele falou.
"Ah, que pena, Ethan, parece que os pais de Albus o estão chamando" Draco ofereceu o escape, observando o horror estampado na face do garoto.
"Hmm... sim, eu tenho que ir. Até mais, Scorpius".
"Scorpius, você fica" Draco ordenou, quando percebeu o olhar comprido que o filho lançou por cima do ombro em direção ao amigo.
Scorpius praguejou alguma coisa baixo demais para que Draco escutasse.
Astoria voltou para junto deles, acompanhada da irmã e do cunhado. Scorpius voltou a ser o menino educado de sempre e Draco suspirou. Teria sido assim tão complicado em sua adolescência? Talvez estivesse mesmo falhando na educação do filho, como Lucius não perdia oportunidade para jogar na sua cara.
Lucius dizia que tratar um filho como um amigo só fazia com que este perdesse o respeito pelo pai. Segundo ele, um filho devia ser tratado com pulso firme. Mas Draco recebera esse tratamento e não desejava que Scorpius se ressentisse com ele da maneira como Draco se ressentia com Lucius.
Draco empurrou suas dúvidas para um canto de sua mente quando percebeu que Ruffian lhe perguntava algo.
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Setembro de 2021. 3ª semana.
Scorpius não sabia quem os estava perseguindo, nem de qual lado do corredor vinham as vozes. Elas pareciam vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Eles estavam encurralados.
De repente Albus agarrou seu ombro.
"Por aqui!"
Albus o puxou para uma passagem secreta que Scorpius desconhecia. A passagem dava para um armário de vassouras amplo e entulhado. Albus fechou uma porta que Scorpius não reparara que existia e colou o ouvido nela. Eles ainda podiam ouvir as vozes do lado de fora. Albus abriu uma fresta da porta para espiar o corredor.
"Eles estão acabando com o queijo!" Albus exclamou e aquilo podia não fazer o menor sentido, mas Scorpius não se deu conta naquele momento, pois o armário já não era mais tão grande e havia alguma coisa empurrando seu corpo para frente.
Scorpius queria dizer que não estava conseguindo respirar direito, mas as palavras não saíam de sua boca. Devia ter dito alguma coisa, pois Albus se virou e pôs um dedo sobre os lábios do loiro, pedindo silêncio. Os lábios de Albus estavam tão próximos do rosto de Scorpius que quase esbarraram em sua bochecha.
Scorpius gemeu quando percebeu que o armário diminuíra tanto que ele estava espremido entre a parede e as costas de Albus.
Desesperado, o loiro tentou se afastar, mas isso só fez com que seus corpos se esfregassem e a qualquer momento Albus perceberia a reação de seu corpo ao contato. Então ele se enfureceria e lhe lançaria um olhar reprovador. Scorpius não queria desapontá-lo. Não queria que Albus descobrisse como Scorpius se sentia perto dele. Não daquele jeito. Não tão cedo.
Mas Albus mudou de posição, desconfortável. Ele se virou para interrogá-lo com um simples olhar, seu rosto tão próximo que Scorpius não suportaria encará-lo nos olhos e ver uma acusação silenciosa neles...
Scorpius arregalou os olhos, despertando de seu sonho angustiante.
O loiro encarou ofegante o interior das cortinas de sua cama de dossel. Alívio correu pelas suas veias, primeiro ao constatar que tudo não passara de um sonho sem sentido, segundo porque estava em Hogwarts, na privacidade de sua cama.
Ainda era noite e o silêncio tornava possível escutar o ruído de seu próprio sangue correndo em seus ouvidos. Tateou o criado-mudo em busca da varinha e lançou um feitiço "Tempus", constatando que eram 03:17 da manhã. Enquanto acalmava a própria respiração, Scorpius avaliou o que faria em seguida. Ele estava excitado. E não seria a primeira vez que cederia à tentação.
Com um frio na barriga de antecipação, ele fechou os olhos, mergulhou a mão por dentro do pijama e deixou a própria mente livre para fantasiar. Nas imagens que criava, era Albus quem o tocava. Com a mão esquerda. Scorpius visualizou seu olhar lânguido, os lábios partidos e úmidos e conteve um gemido diante do silêncio que reinava no quarto. Deslizou as costas da outra mão pelo próprio pescoço e se arrepiou ao imaginar que eram os lábios de Albus que corriam por seu pescoço e tórax.
Daquela vez o Albus de sua imaginação o surpreendeu, retirando a parte de baixo do seu pijama e umedecendo um dedo com saliva. Scorpius afastou os tornozelos, permitindo que seu Albus imaginário o acariciasse devagar sem deixar de estimulá-lo.
Surpreso e deliciado, Scorpius se conduziu lentamente a uma finalização silenciosa. Então, exausto, ele lançou um "Scourgify" em si mesmo e tornou a se vestir antes de mergulhar num sono sem sonhos, reconfortado pelo fato de que não havia como Albus saber. Scorpius não se sentiria envergonhado ao encará-lo no dia seguinte, simplesmente porque não tinha do que se envergonhar. Nada do que fizera deixaria marcas aparentes, apenas permaneceria em sua lembrança e cravaria mais alguns espinhos incômodos em seu coração.
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"Mas tem que haver alguma coisa que você possa fazer" insistiu Ethan, teimosamente.
Albus passou uma mão pelos cabelos, irritado.
"Eu sinto muito" ele falou por entre os dentes. "Já disse que não são aceitos jogadores abaixo do segundo ano".
"Mas o seu pai foi apanhador logo no primeiro ano" Ethan falou desafiador.
"Então talvez você deva conversar com a diretora. Foi ela quem autorizou na época".
"Não, você é quem deveria conversar com ela. Você é o capitão do time".
Albus lançou um olhar de súplica a Scorpius, que suspirou. Ethan sabia ser um pé nos lugares mais incômodos.
"Ethan, mexa-se. Se você estivesse no quinto ano saberia como nós estamos sem tempo para esse tipo de discussão. Albus fez tudo ao alcance dele, deixe-nos em paz agora".
"Ele não fez tudo ao seu alcance. Ele não foi falar com a diretora" Ethan cruzou os braços.
"Ah, ele foi sim! E eu estava junto, na condição de monitor. Pena que McGonagall foi tão taxativa" Scorpius mentiu descaradamente. "E não é só porque você é do primeiro ano. Não existem vagas no time no momento, se você ainda não percebeu".
Ethan lhe lançou um olhar desconfiado antes de descruzar os braços.
"Certo. Então acho que terei que esperar até o ano que vem".
'Como todo mundo' Scorpius pensou, mas achou melhor não esticar o assunto, uma vez que Ethan já havia se afastado.
"Droga. Algo me diz que nós só adiamos o problema" Albus resmungou enquanto finalmente depositava a mochila numa mesa vazia da biblioteca e vasculhava os bolsos em busca dos óculos. "Como nós fomos esquecer esse dever?"
"Treino de quadribol" Scorpius respondeu, também deixando sua mochila na mesa. "Eu vou pegar o livro".
Scorpius caminhou por entre as prateleiras, torcendo para haver algum exemplar disponível. Eles haviam engolido o almoço e corrido para a Biblioteca uma vez que Karen os lembrara do dever de Defesa Contra as Artes das Trevas. Eles teriam que entregar um ensaio sobre Patronos na próxima aula, que seria dali a quarenta minutos. Felizmente o tema era fácil. E, por sorte, havia ainda um exemplar do livro de Feitiços Defensivos indicado pela Profª. Bones. Um único exemplar.
Assim que pegou o livro, Scorpius ouviu um choramingo ao seu lado e se virou para ver uma corvinal loira que ele não sabia o nome, mas sabia ser de seu ano. A garota tinha olhos azuis muito claros e havia algo nela que a deixava com uma aparência triste. Talvez o formato de suas sobrancelhas. Mas naquele momento ela parecia prestes a chorar, olhando de Scorpius para o livro em suas mãos.
"Hey, não me olhe assim. Eu tenho que entregar um ensaio em quarenta minutos" Scorpius falou, ciente de que a garota provavelmente teria mais tempo, pois eles dividiam as aulas de DCAT com a Grifinória.
"Ah..." A garota piscou e abaixou o rosto. "A minha lição é só para amanhã, mas eu ainda tenho outras para fazer. Então... posso fazer com vocês?" ela o encarou esperançosa.
Scorpius abriu a boca para negar, mas a garota fungou e ele deixou os ombros caírem aborrecido.
"Tanto faz" ele falou e se virou. Quando chegou à mesa, viu que a garota o havia seguido.
"Er... olá, Albus" ela cumprimentou Albus, que tinha a cabeça enfiada na mochila de Scorpius. Ele levantou o rosto e franziu a sobrancelha para a garota. "Posso chamar você assim?"
"Hmm... claro, hum... Corner, certo?"
"Lindsay Corner. Pode me chamar de Lindy, todo mundo me chama assim" a garota parecia definitivamente mais animada, mas continuava nervosamente em pé.
"Certo" Albus ajeitou os óculos no rosto e lançou um olhar questionador de Scorpius para a garota.
"Ela vai fazer a lição conosco" Scorpius informou, se sentando ao seu lado.
"Vocês também terão que escrever sobre Patronos, não é mesmo?" a garota se sentou do outro lado de Albus.
"Sim" Albus concordou e terminou o que estava fazendo, puxando pergaminho, pena e tinteiro da mochila de Scorpius enquanto este folheava o livro e abria na página indicada no índice.
Eles passaram os próximos trinta minutos lendo, escrevendo e debatendo o assunto. Pelo menos a garota era inteligente, ao que parecia. Mas Scorpius não falhou em notar como ela olhava timidamente para Albus, seus olhos não o encarando por mais do que meros segundos. Em determinado momento, suas mãos se esbarraram e Scorpius percebeu um leve rubor nas bochechas de ambos. Rolou os olhos.
"Mas é definitiva, essa forma?" a garota perguntou.
"Não, ela pode mudar no decorrer da vida da pessoa. Meu pai disse que a forma de um Patrono diz muito sobre alguém, e como as pessoas mudam constantemente seus patronos podem mudar também. Ele disse que isso pode acontecer depois de um acontecimento traumático, ou até mesmo quando uma pessoa se apaixona. Hmm... é isso".
Albus desviou os olhos depois de dizer aquilo e a garota fez o mesmo.
'Ah, ótimo' pensou Scorpius, preferindo também desviar os olhos da cena. Scorpius já havia terminado seu ensaio. Albus também, mas ele estava ajudando Corner a finalizar o dela. Os olhos de Scorpius imediatamente foram atraídos por um grupo de garotas que olhava em sua direção. Elas disfarçaram imediatamente. Scorpius estreitou os olhos ao reconhecê-las. Elas eram do quinto ano da Corvinal também e tinham um exemplar do mesmo livro que eles estavam usando.
Scorpius deixou o queixo pender ao somar dois e dois. Ele havia sido enganado! Corner tinha planejado aquilo para se aproximar de Albus e o havia usado! O loiro estreitou os olhos para a garota que ainda perguntava algo para Albus, e este explicava solicitamente. Ela provavelmente já conhecia aquele assunto de cabo a rabo e só estava se fazendo de desentendida para fazê-lo falar.
E o pior de tudo era que Albus estava caindo direitinho.
"Meu pai conhece o seu" ela falou, com sua falsa falta de jeito. De repente, tudo nela parecia ser falso. "Ele me disse que aprendeu a conjurar um Patrono por intermédio do seu pai. Você sabia que seu pai dava aulas de Defesa, não sabia?"
"Sim" Albus admitiu, acanhado.
"É por isso que você sabe tanto sobre o assunto, certo? Aposto como você já conjurou um Patrono. Qual é a forma dele?" a garota perguntou ansiosa, mas Albus balançou a cabeça.
"Não, eu nunca tentei" Albus admitiu, sorrindo para a garota.
E Scorpius achou que já bastava daquilo. Limpou a garganta.
"Está quase na hora, Al" disse, arrumando suas coisas.
"Hmm... melhor nós irmos" Albus concordou. "Você acha que já está bom?"
"Sim, eu vou deixar para revisar hoje à noite" a garota concordou, também juntando seus pertences. "Obrigada, garotos. Não sei o que seria de mim sem vocês".
"Imagine... Sempre que precisar, Lindy" Albus ofereceu outro sorriso à garota, que desviou os olhos para os próprios pés.
Apesar de estar incluso no agradecimento, Scorpius não se deu ao trabalho de responder, uma vez que Corner só tinha olhos para Albus.
Quando eles já tinham se afastado o bastante da biblioteca, Scorpius falou carrancudo, "Albus, você tem baba no canto da boca".
Albus levou a mão automaticamente à boca antes de entender e começou a rir. Aproveitou para tirar os óculos e guardá-los no bolso.
"Ela é uma graça, não é?" ele falou, pegando Scorpius desprevenido.
"Claro. Uma fofura. Aposto como o Patrono dela seria um filhotinho de cachorro" falou, arqueando os cantos da boca depreciativamente, mas Albus não percebeu seu sarcasmo.
"Verdade. Ou um gatinho" Albus comentou animado.
Scorpius se calou. Não era bem isso que ele pretendia. Ele pretendia alertar Albus sobre o plano da garota. Mas de repente não se achou no direito. Talvez Albus nem se importasse, se soubesse. As intenções de Corner poderiam ser boas. E Albus parecia ter cedido aos seus encantos, afinal.
O que ele diria? 'Oh, não dê atenção aos seus olhinhos tristes, Albus. É tudo um plano para fazer você cair em seus encantos. Ela não é tão adorável quanto parece. Olhe para mim, eu tenho sido adorável e você nunca me olhou desse jeito'.
Com um suspiro amargurado, Scorpius engoliu seus ciúmes.
A Profª. Susan Bones recolheu as lições de casa antes de começar a aula.
"Bem, crianças, agora que vocês certamente já conhecem a teoria por trás de um Patrono, nós iremos partir para a prática. Mas antes disso eu gostaria de saber se alguém aqui já conjurou um Patrono alguma vez na vida?" ela perguntou, olhando diretamente nos olhos de Albus, que mudou o peso do corpo de um pé para o outro. "Albus?"
"Não senhora".
A professora pareceu levemente desapontada, mas continuou a circular Albus enquanto falava, fazendo-o corar profusamente.
"Foi o pai de Albus quem me ensinou a conjurar um Patrono. E, devo lhes dizer, é muito fácil fazer isso quando se está rodeado de amigos numa sala de aula, em tempos pacíficos como agora. Quando vocês precisarem conjurar um, se vocês precisarem algum dia pode ser que não lhes ocorra pensamentos felizes o suficiente. Você gostaria de tentar, Albus?"
Albus deu de ombros. A professora escolheu encarar aquilo como um sim.
"Então, lá vamos nós. Feche os olhos e se concentre nas lembranças mais felizes que conseguir reunir".
Albus obedeceu e toda a sala o encarou, observando um leve sorriso cruzar seu rosto enquanto ele se concentrava. Scorpius se perguntou se estaria em tais pensamentos. Ou se Corner estaria.
"Aposto como ele está pensando em voar" Rose havia se aproximado sem que o loiro percebesse.
Scorpius olhou para a garota e voltou a olhar para Albus, percebendo que ela tinha razão. Albus tinha o queixo levantado e aspirava como se sentisse o vento batendo em seus cabelos.
"Agora diga o encantamento" disse Bones, bem próximo ao seu ouvido, como se não quisesse atrapalhar seus pensamentos.
"Expecto Patronum!" Albus falou, com determinação. Um fiapo de fumaça saiu de sua varinha, tomando forma. Algo grande se materializou à sua frente, como se caminhasse em pleno ar, uma forma felina, sem dúvida. Os alunos se afastaram, dando espaço para o animal de fumaça pálida e exclamaram, fazendo Albus abrir os olhos. No momento seguinte o Patrono se desfez em pleno ar e todos se viram encarando o lugar em que ele estivera.
"Era um leão?" alguém exclamou.
"Não, não tinha juba" disse outra pessoa.
"Eu tenho quase certeza que era um puma" disse a professora, batendo palmas. "Mas vai ficar mais definido à medida que você praticar, Albus. Muito bem! A maioria das pessoas não consegue uma forma definida na primeira tentativa".
Albus voltou para junto de Scorpius e Rose. A professora instruiu que todos tentassem.
"Eu não vi" Albus falou, desanimado.
"Eu também acho que era um puma" falou Rose, dando um tapinha em suas costas. "Tente novamente".
Albus acenou afirmativamente e começou a se concentrar mais uma vez. Scorpius fez o mesmo.
O loiro pensou primeiro em quadribol, seu pai lhe ensinando a voar, depois pensou no passeio de motocicleta com Teddy. Mas então seus pensamentos se voltaram para Albus. Albus sorrindo; passando um braço ao redor de seus ombros; lhe estendendo a mão num cômodo mal iluminado; ajeitando os óculos. Seu rosto relaxado dormindo, a textura de seus cabelos, o cheiro de menta. Albus em suas mais tórridas fantasias...
Scorpius quase se esqueceu do propósito daquilo tudo, mas acabou dizendo o encantamento em voz alta e abriu os olhos para ver uma forma bem menor deixar a ponta de sua varinha, fluindo em direção a Albus. Scorpius só viu a cauda. Uma cauda de leão.
"Lynx!" Albus exclamou, dando espaço para o amasso de fumaça passear a sua frente, indo se enroscar nas pernas de um felino muito maior.
"Definitivamente um puma" Scorpius falou e eles sorriram um para o outro.
Um guaxinim se juntou a ambos os patronos, e Rose deu uma risadinha.
"Ele não é fofo? Scorpius, esse amasso é seu?"
"É o que parece" Scorpius deu de ombros, observando seu patrono dar uma última abanada de cauda antes de se desfazer.
"Como foi que eu não pensei nisso antes?" Rose falou, o encarando com os olhos estreitos. "Você só falta arrepiar os cabelos quando alguém se aproxima muito de Albus".
"Ah me poupe" Scorpius torceu o nariz, sentindo as bochechas queimarem, mas ela e Albus estavam rindo.
xXxXxXx
Outubro de 2021. 4ª semana.
Albus achou ter ouvido seu nome, mas quando levantou os olhos do livro, Scorpius estava compenetrado escrevendo, e não havia ninguém próximo a eles. O moreno baixou os olhos novamente, mas ouviu seu nome mais uma vez. Scorpius também pareceu ter ouvido, já que examinou ao redor.
"O que foi isso?" ele perguntou.
"Não sei... ah!" Albus de repente se lembrou e procurou dentro da mochila até puxar o espelho de duas faces. "James?"
"Pensei que você estava me ignorando" James reclamou, olhando ao redor ansiosamente.
"Shh! Eu estou na biblioteca" Albus avisou, pedindo que o irmão falasse mais baixo. Eles tinham uma aula vaga antes do jantar, tempo que preferiram ocupar estudando Aritmancia. "Você não devia estar tendo aula?"
"Eu estou" James apontou para um arbusto próximo. "Herbologia. Albus, socorro. Eu acho... eu acho que Davis está me encarando" ele falou conspiratoriamente. "Quero dizer, ela me cumprimentou uma vez no almoço, mas eu achei que tinha ouvido coisas. Agora ela está ali me olhando. O que eu faço?"
James parecia assombrado e excitado ao mesmo tempo. Albus conteve a vontade de rir.
"Não sei Jimmy. Converse com ela. Ela é legal. Hmm... só evite falar de quadribol" Albus aconselhou, relanceando um olhar para Scorpius, que acenou em concordância.
"E sobre o que mais eu falaria?" James arregalou os olhos. "'Ah, olá, Davis, seus olhos estão muito bonitos hoje, isso no seu cabelo é um besouro?'. Esqueça. Onde está Scorpius? Ele deve saber como funciona a cabeça de uma garota".
"Hey, eu não faço idéia do que se passa na cabeça de uma garota!" Scorpius se indignou. "Por que todo mundo usa essa lógica quando é exatamente o contrário? Garotos são tão menos complicados!"
"Certo. Então, Albus somos só você e eu. O que eu faço? Será que roubo um beijo? Cada vez que penso nisso, posso sentir um soco vindo em minha direção. Ela é tão..."
"Intimidante?" Albus ofereceu.
"Eu ia dizer sonserina, mas intimidante deve servir. Então?"
"Eu acho que seria arriscado roubar um beijo dela" Albus ponderou. "Hmm... mas não seria ruim se você falasse sobre os olhos dela..."
Scorpius rolou os olhos impacientemente e tomou o espelho da mão de Albus.
"Ouça, por que você não a convida para ir a Hogsmeade? Deixe que ela escolha aonde ir e sobre o que falar. Se ela quiser beijar você, tenho certeza que vai ser ela a tomar a decisão. Conheço Shannon, e não excluo a possibilidade do soco, então faça isso".
"Oh... obrigado, Scorpius!" James agradeceu surpreso. "Eu o beijaria se você não estivesse tão longe, graças a Deus! Tchau!"
Scorpius devolveu o espelho, meneando a cabeça.
"Albus, você é sem noção. Mas seu irmão consegue ser pior".
"Hey, eu não sou sem noção" Albus protestou. "Mas já que você parece saber tanto sobre garotas, você acha que Lindy iria comigo a Hogsmeade?"
Scorpius o encarou demoradamente antes de responder.
"Albus, ela praticamente implora todos os dias para que você a beije. É claro que ela aceitaria".
"Oh..." Albus levantou as sobrancelhas. "Você acha?"
"Eu não acho, eu tenho certeza. Vê, essa é a diferença entre Davis e Corner. Shannon é o tipo de garota que vai atrás do que quer e toma o que é dela. Corner morreria antes de tomar alguma iniciativa. E isso é tão... gritante! Não preciso saber como a cabeça de uma garota funciona para saber isso. Você é sem noção, Albus. Só perde para seu irmão".
Albus suspirou. Teria argumentado se não suspeitasse que Scorpius tinha razão.
"Você realmente está interessado?" Scorpius perguntou, depois de encará-lo por longos segundos.
"Não sei" Albus coçou os olhos por trás dos óculos. "Quero dizer, ela é bonita e inteligente e..."
"Ela faz o seu coração bater mais rápido?"
"De certa forma" Albus falou, se remexendo na cadeira.
"Suas mãos suam quando você está perto dela? Você dorme e acorda pensando nela?"
"Não é bem assim..."
"Bem, se você dissesse que sim, eu desconfiaria que ela tinha lhe dado alguma maldita poção do amor" Scorpius desdenhou. "Porque você não me parecia apaixonado até alguns minutos atrás, Al. Aliás, ainda não me convenceu".
"É, mas... olhe talvez eu esteja carente, ok?" Albus admitiu. Lindy era bonita e certamente despertava alguma coisa dentro dele com seu jeito tímido e gentil. Tinha se tornado um hábito que ela se juntasse a eles para estudar e Albus gostava de tê-la por perto. Por outro lado, não sentia falta dela quando ela não estava por perto, mas talvez aquilo viesse com o tempo.
"E os seus sonhos, Albus? E toda aquela história de 'ter que significar alguma coisa'?"
Albus se irritou com a pergunta.
"Eram apenas sonhos, Scorpius. E de qualquer forma já foram para o ralo. Não era você quem dizia que romantismo era perda de tempo?"
"Eu nunca disse isso!" Scorpius se inclinou para trás, como se Albus tivesse lhe dado um soco.
Albus suspirou novamente. Era verdade. Scorpius havia brincado uma vez sobre o assunto, mas admitira que admirava a maneira de Albus pensar. Não havia sentido em descontar sua frustração em Scorpius. Muito menos quando este parecia ter levado tão a sério suas palavras que nunca mais se envolvera com ninguém depois de Roy. Talvez ele também estivesse esperando por algo especial, quando Albus já tinha se cansado da espera.
"Olá, garotos. Posso me juntar a vocês?" Lindsay tinha acabado de surgir, arrancando Albus de seus pensamentos.
"Claro" Albus abriu lugar para ela ao seu lado. Podia sentir o olhar de Scorpius sobre si, mas não teve coragem de encará-lo de volta. Albus sentia que estava prestes a decepcioná-lo ainda mais.
O que não tardou a acontecer. Eles estudaram e fizeram deveres por cerca de quarenta minutos, o que já ajudava, mas havia ainda tanto a fazer! Os professores estavam jogando matéria em cima de matéria para cumprir a programação até os NOM's. Albus se espreguiçou e sentiu o estômago reclamar. Já era quase hora do jantar e as pessoas começavam a deixar a biblioteca. Scorpius batia a pena sobre as próprias anotações, uma ruga de concentração na testa. Ele passou a mão pelo estômago distraidamente e Albus sorriu. Aparentemente, ele não era o único faminto.
Albus deixou os olhos vagarem então até pousá-los sobre os cabelos de Lindsay. Eram loiros, mas em nada se pareciam com os de Scorpius. Eram mais dourados beirando o acobreado, longos e um pouco volumosos. Lindsay, que estivera debruçada sobre as anotações de Albus, levantou a cabeça abruptamente, surpreendendo seu olhar.
Ela sorriu e desviou os olhos para o pergaminho novamente.
"Isso é um 'm'?" ela perguntou, apontando para as anotações.
"Hmm..." Albus se sentiu envergonhado de sua própria letra e examinou o local onde ela apontava um dedo delicado. "Sim, é um 'm'. Me desculpe. Se você acha isso ruim, devia ver a minha letra com a mão direita..."
"Não, sua letra é fácil de entender. É só que esse pedaço está um pouco borrado" ela o tranqüilizou e, quando levantou os olhos, eles estavam muito próximos.
Albus conteve o impulso de se afastar, baixando os olhos para os lábios rosados e brilhantes da garota. Ela não parecia estar usando batom, mas alguma coisa fazia seus lábios brilharem. E cheiravam a chicletes. Lindsay tinha fechado os olhos.
Albus agiu sem pensar. Ele não tinha planejado nada daquilo. Queria chamá-la para sair e não fazia idéia de como a beijaria, mas lá estava ele se inclinando de encontro aos lábios da garota até tocá-los com os seus suavemente. Depois se afastou para encará-la nos olhos.
As pestanas da garota tremularam antes de se abrirem lentamente e Albus admirou mais uma vez seus olhos de um azul cristalino, umedecendo os próprios lábios, sentindo o sabor de chicletes. Lindsay era, sem dúvida, linda. Seu ar melancólico só fazia aumentar sua doçura. Ela lhe sorriu e colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha timidamente, antes de tirar os óculos de Albus com delicadeza.
Albus sorriu de volta e fez a única coisa que achou certa. Beijou-a novamente.
Foi um beijo doce, literalmente. Delicado e infantil, também. E, apesar de ter sido muito bom, Albus sentiu um leve desapontamento num canto de sua mente. Talvez seu erro tivesse sido mesmo idealizar tanto, sonhar tanto sobre algo que era tão simples.
Quando se afastou mais uma vez, Albus procurou automaticamente o olhar de Scorpius, mas ele não estava mais lá.
xXxXxXx
Albus acenou um adeus para Lindsay, que se juntou a suas amigas na mesa da Corvinal. Então começou a procurar por Scorpius na mesa da Sonserina. Localizou-o conversando com Myrtes e Karen, coisa que se tornara bastante freqüente naquele ano. Myrtes também fora nomeada monitora, o que significava que eles tinham que fazer rondas pelo castelo juntos e surpreendentemente Scorpius não se queixara uma única vez. Pelo contrário, ele parecia mais à vontade com ambas as garotas. E com Rose. E Lily.
Bem, quem diria que Scorpius teria tantas amigas até o quinto ano! Ele realmente tinha se tornado mais tolerante, ao que parecia.
Scorpius levantou os olhos para ele quando Albus tomou o lugar ao seu lado, mas não fez nenhum comentário voltando a atenção para seu jantar. A conversa, entretanto, morreu e Albus imaginou que já sabia qual era o assunto.
"Então..." Myrtes quebrou o silêncio, confirmando suas suspeitas. "Fiquei sabendo que você tem uma namorada".
Albus fingiu que não ouviu se servindo de bolo de carne e cenouras.
"Lyndy Corner é legal" falou Karen. "Pena que anda sempre com Genoom. Chambers até que é legal, mas Genoom é metida".
"E exibida" concordou Myrtes.
"Genoom é aquela garota que foi ao baile com Lyan?" Scorpius perguntou interessado.
"Essa mesma. A de nariz arrebitado" concordou Myrtes. "Ela acha que ninguém na escola é mais esperto que ela. Sua prima Rose já teve uma discussão feia com ela, Al".
Albus deu de ombros. Ele não tinha beijado Genoom.
"O que diabos foi aquilo?" Myrtes apontou para a porta do grande salão.
Albus levantou os olhos para ver James levantando o polegar com o sorriso mais bobo que já vira. E, caminhando em direção a mesa da Sonserina, estava Shannon. Ela não arreganhava os dentes como James, mas parecia sorrir também.
"Ah, acho que eles vão à Hogsmeade juntos, então" Albus adivinhou. "E ele deve isso a Scorpius".
Scorpius resmungou alguma coisa antes de tomar um gole de suco.
"Você virou alguma espécie de conselheiro amoroso, Scorpius? Um guru, talvez?"
"Se você repetir isso eu vou azarar o seu traseiro, Buckingham" Scorpius rosnou mau-humorado.
"Também adoro você, Scorpie" a garota sorriu, então soltou uma exclamação quando um aviãozinho encantado quase trombou em seu nariz. "Opa, ganhei uma mensagem!"
Ela deu um toque com a ponta da varinha na dobradura encantada e o pergaminho se desdobrou. Uma ruga se formou em sua testa conforme ela lia. Ela olhou para trás por alguns segundos antes de se virar, com um olhar sombrio.
"Scorpius. Você devia ler isso" ela estendeu o bilhete para o loiro, que limpou a boca num guardanapo antes de aceitar, e começar a ler também com a testa franzida.
Incapaz de conter sua curiosidade, Albus espiou por cima do ombro do amigo. Havia duas únicas frases escritas numa caligrafia apressada e provavelmente masculina.
'Me encontre no banheiro do segundo andar ao toque de recolher. Você não vai me evitar para sempre. Jeff Dokmos.'
"Dokmos?" Albus estranhou e Scorpius deu um pulo colocando o bilhete contra o peito, mesmo já sendo tarde demais. "O que ele iria querer com você?"
Albus lançou um olhar para a mesa da Lufa-Lufa. Jeff Dokmos estava olhando na direção deles com interesse dissimulado enquanto conversava com outros garotos do sétimo ano. Ele era monitor-chefe, capitão do time de sua casa e batedor, posto que ganhou por causa do porte musculoso, ou vice-versa.
"Eu não me lembro de você ter pedido para ler também, Albus" Scorpius falou, amassando o papel antes de incinerá-lo com um aceno da varinha.
"Eu tenho um palpite" Myrtes falou, estreitando os olhos. "Você o tem evitado, é?"
"Também não é da sua conta, Myrtes" Scorpius respondeu para ela, voltando a atenção para seu jantar.
"O que é, Myrtes?" Albus perguntou e a garota não pareceu intimidada pelo olhar que recebeu do loiro, uma vez que respondeu.
"Bem, ele não é exatamente discreto, não é mesmo? É do tipo que você chamaria enrustido. Sangue-ru... Nascido trouxa e tal..."
"Eu não entendi" Albus falou, honestamente.
"Ele gosta de garotos, apesar de ter uma namorada" Karen explicou. "Trouxas têm um preconceito exagerado sobre homossexualidade".
"Como uma pessoa pode ser preconceituosa sobre si mesma?" Albus perguntou confuso.
"Eu também não entendo" Karen deu de ombros. "Mas parece que ele pôs os olhos em Scorpius agora".
"Você não acabou de dizer que ele tem uma namorada?"
"Albus, isso não é impedimento para todo mundo" Myrtes rolou os olhos. "Além do mais, ele mantém a namorada como fachada, só isso".
Albus olhou novamente para a mesa da Lufa-Lufa e subitamente o olhar interessado de Dokmos pareceu cheio de malícia.
"Você não está planejando ir, não é mesmo?" Albus perguntou, sentindo um nó nas entranhas só de pensar na possibilidade. E, para seu desespero, Scorpius deu de ombros.
"Como ele mesmo disse, eu não posso fugir para sempre. Além do mais, ele é atraente".
"Ah, isso ele é" Myrtes se abanou.
"Mas tem uma namorada!" Albus exclamou desesperado para trazer o juízo de volta ao amigo.
"O problema é dele. Eu estou livre".
"Scorpius, ele é do sétimo ano!"
"E o que há de errado nisso? Isso não faz dele um trasgo, faz?"
"Ouça Scorpie" Albus não desistiu de sua argumentação, mas baixou o tom de voz para que só ele escutasse. "Eu não sou tão sem noção assim, tá legal? Um garoto como ele certamente vai querer... não vai querer ficar só nos beijos e amassos, vai?"
Albus se sentiu corar levemente e Scorpius estreitou os olhos.
"Você já parou para pensar que talvez eu também não queira ficar só nisso?"
O queixo de Albus caiu ao mesmo tempo em que seu rosto parecia prestes a entrar em combustão.
"M-mas você nem o conhece!"
"Talvez eu esteja carente" Scorpius falou sem entonação, mantendo o olhar fixo no seu, como se o desafiasse a continuar.
Albus deixou os ombros caírem, derrotado. Então era isso. Scorpius estava retribuindo seu desapontamento com ele.
"Isso não está certo" Albus resmungou e meneou a cabeça, voltando a encarar seu prato. Tinha perdido o apetite. "Não é a mesma coisa, Scorpie. Nem de longe".
Myrtes limpou a garganta.
"Scorpius, você está lembrado que nós temos que fazer a patrulha hoje, não?"
"Você cobriria para mim? Eu faço seu dever de Adivinhação" Scorpius ofereceu.
Albus balançou a cabeça silenciosamente para Myrtes, mesmo sabendo ser em vão. A oferta era realmente tentadora demais para ela declinar.
"Fechado. Mas eu deixo bem claro que concordo plenamente com Albus".
Depois de brincar um pouco com a própria comida, Albus levantou os olhos a esmo, surpreso ao captar o olhar de Lindsay. Ele retribuiu o sorriso da garota e se sentiu culpado por ter se esquecido completamente dela.
xXxXxXx
"Scorpius?" Myrtes entrou no dormitório masculino, causando os protestos de Lyan e Juniper, que vestiam seus pijamas. "Já estamos atrasados".
Scorpius marcou a página do livro e se levantou. No fundo, ele se sentiu satisfeito quando Albus o segurou pelo cotovelo, mas lhe lançou o olhar mais indiferente possível. Então viu a culpa nos olhos do amigo e sua satisfação caiu pela metade.
"Scorpie... Por favor..."
"Eu não sou sua irmãzinha para você defender a minha honra, Albus" Scorpius falou assim que recuperou sua determinação.
Albus desviou os olhos e soltou seu cotovelo.
"Eu sei. Só não faça... hmm... nada que você vá se arrepender depois. Eu... queria que você levasse isso".
Albus estendeu um pergaminho velho e gasto e Scorpius sentiu o estômago afundar e a garganta arder. O loiro quase desistiu. Quase.
"Obrigado" ele aceitou e saiu sem olhar para trás.
"Qual é o plano?" Myrtes perguntou quando eles subiam o primeiro lance de escadas sem nenhuma pressa. "Quero dizer, você não vai levar isso adiante depois daquilo, vai?" ela apontou para o pergaminho que Scorpius ainda segurava firmemente. "Aliás, eu me pergunto se você realmente pensou em levar isso adiante em algum momento ou se foi só para provocar Albus. Porque, deixe-me dizer, você conseguiu. Não sei o quê, exatamente, mas conseguiu".
Scorpius alisou o Mapa do Maroto antes de enfiá-lo no bolso. Myrtes certamente desconfiava do que se tratava, mas não precisava saber também como ativá-lo.
"Não que seja da sua conta, mas eu ainda não sei o que vou fazer" Scorpius mentiu.
Myrtes não estava totalmente certa. Ele tinha pensado em sair com Dokmos só para dar o troco em Albus. Assistir Albus beijando Corner havia causado uma sensação quase física de raiva e dor. Ele tinha se afastado o mais rápido possível para só então poder respirar fundo e engolir o grito que ameaçava escapar de sua garganta.
Mas a raiva havia passado um pouco e ele já não se sentia tão tentado a se vingar. Quem ele queria enganar, afinal? Nunca teria levado aquilo adiante. Mais cedo ou mais tarde ele teria se acovardado. Dokmos era um completo estranho, além de um pouco intimidante com todos aqueles músculos.
"Bom, melhor decidir logo, então" Myrtes parou logo que eles atingiram o segundo andar.
Scorpius apertou os dentes em determinação.
"Até mais" ele falou e se dirigiu para o banheiro masculino sem olhar para trás.
"Não pense que eu não vou cobrar o dever de Adivinhação!" Myrtes falou e seguiu para o lado oposto.
Scorpius parou assim que Myrtes sumiu na outra ponta do corredor e examinou o Mapa do Maroto, constatando que Dokmos já estava no banheiro, andando de um lado para o outro. O primeiro convite que recebera fora quando 'acidentalmente' trombara com o capitão da Lufa-Lufa num corredor e descobrira que ele tinha enfiado um pedaço de pergaminho rabiscado no meio de seus livros. A segunda vez fora na biblioteca, enquanto Albus discutia algum assunto de Transfiguração com Corner. Ambas as vezes, o lufa-lufa marcara encontros que Scorpius simplesmente ignorara.
Scorpius já tinha planejado tudo dessa vez. Entraria, diria para Dokmos deixá-lo em paz, o mandaria para um lugar não muito agradável e sairia sem nem ter que sacar a varinha. Afinal, lufa-lufas não deveriam ser violentos ou rancorosos.
Mas lufa-lufas também não deveriam trair a namorada com outros caras, Scorpius se lembrou. Ele tornou a guardar o mapa e respirou fundo duas vezes antes de entrar.
Dokmos estacou assim que o viu, um sorriso cruzando seu rosto. Um sorriso atravessado, ou seria somente sua imaginação?
"Ora, ora! Eu sabia que uma hora ou outra você iria aparecer" o garoto acenou a varinha e fechou a porta.
Dokmos se aproximou rapidamente e Scorpius sentiu um arrepio de medo. O batedor era realmente forte. E uma cabeça mais alto que ele.
"E-eu..." sem que percebesse, Scorpius deu dois passos para trás e colidiu com a porta. Dokmos estava bem em cima dele, os braços esticados de ambos os lados de seu corpo.
"Você está atrasado" Dokmos falou, olhando para baixo diretamente nos olhos de Scorpius. "Muito ocupado se fazendo de difícil, hein?"
Quando a mão de Dokmos veio em sua direção, Scorpius deu um pulo de susto, fazendo o garoto mantê-la suspensa no ar e a centímetros de seu rosto.
"Hey, calma!" o lufa-lufa falou antes de continuar, colocando alguns fios de seus cabelos atrás da orelha. "Você é muito bonito. Scorpion, não é?"
"É Scorpius. Mas você pode me chamar de Malfoy" falou, tentando parecer desafiador apesar de suas pernas estarem ligeiramente bambas.
"Que gracinha" Dokmos arreganhou os dentes, então voltou a ficar sério. "Ouça, eu adoraria perder tempo com você, mas estou sem tempo para preliminares agora. Então vamos acabar logo com isso?"
Scorpius ia protestar, mas foi impedido quando o garoto o beijou, pressionando seu corpo contra o dele. Um beijo exigente e bruto. Quando Dokmos se afastou, foi para puxar a gravata de Scorpius e continuar a falar, distraidamente.
"Você não sabe como foi difícil ficar inventando desculpas para Courtney todas essas vezes. Eu devia estar fazendo a ronda agora junto com os quintanistas, então tenho que estar de volta em, no máximo, vinte minutos. Você realmente não devia ter me deixado esperando tanto".
Scorpius ainda não tinha se recuperado do primeiro beijo quando veio o segundo. Dokmos havia desabotoado seu cinto e sua camisa fora retirada de dentro da calça para dar acesso às mãos enormes do batedor.
Quando ele se afastou para mexer no próprio cinto, Scorpius teve sua chance. O loiro nem sequer pensou no que fazia ao aplicar um golpe de Judô. Provavelmente só funcionou porque o monitor-chefe realmente não esperava nada do tipo. No instante seguinte o lufa-lufa estava esparramado no chão, a calça abaixada até os joelhos com a ponta da varinha de Scorpius quase tocando a ponte de seu nariz.
"Confundus!" Scorpius lançou o primeiro feitiço que lhe veio à mente. Pensando sobre o assunto algum tempo depois, Scorpius poderia ter sido mais criativo, mas ele realmente não tinha planejado nada daquilo.
O setimanista despencou totalmente no chão, sua cabeça causando um baque surdo ao bater no piso tal a intensidade do feitiço. Ele parecia desacordado. Scorpius aproveitou para respirar fundo, se apoiando na parede e começou a pensar no que faria em seguida.
Quando Dokmos começou a se mexer, Scorpius já tinha uma idéia que, com um pouco de sorte, faria o lufa-lufa nunca mais querer olhar para ele. Começou a arrumar a camisa dentro da calça calmamente enquanto Dokmos se sentava no chão, alisando o cocuruto.
"O que aconteceu?" Dokmos perguntou, o feitiço ainda fazendo efeito a julgar por seus olhos desfocados.
"Eu é que pergunto o que aconteceu" Scorpius se aproximou do espelho para arrumar a própria gravata, lançando um olhar desaprovador na direção do batedor. "Quando você disse que precisava ser rápido eu não imaginei que você quisesse dizer tão rápido assim".
"Oh..." Dokmos pareceu confuso ao espiar as horas no relógio de pulso, então, para espanto de Scorpius, ele corou. "Ohh... me desculpe!"
Scorpius levantou uma sobrancelha para ele. Com a calma, veio a realização de que o lufa-lufa não era tão assustador nem tão grande quanto parecia. Ele era patético, na verdade. Dokmos se levantou desajeitadamente, erguendo as próprias calças. Scorpius girou para encará-lo.
"Pense pelo lado positivo, agora pelo menos você pode caminhar calmamente até a sua namorada. Até nunca mais".
"Não, espere!" o garoto o alcançou antes que Scorpius pudesse escapar. "Eu sinto muito mesmo, é que faz tanto tempo que eu quero você..."
Scorpius rolou os olhos.
"Ora, me poupe das suas explicações".
"Mas eu quero compensar para você" Dokmos falou, alisando o braço do loiro. "Ninguém nunca me deixou tão... nocauteado".
'Ah, droga' Scorpius pensou, ao assistir seu plano falhar. Em vez de afastá-lo, Scorpius havia feito com que Dokmos se arrastasse aos seus pés. Mas era nisso que dava achar que lufa-lufas tinham orgulho.
"Que pena que eu não estou nem um pouco interessado" Scorpius falou,se livrando da mão do batedor e rapidamente saindo de seu alcance.
"Eu não vou desistir tão fácil" Dokmos falou e sua voz reverberou pelo corredor vazio.
Após virar uma esquina, Scorpius sacou o novamente o Mapa do Maroto. Dokmos estava se afastando rumo às escadas. Scorpius precisava desesperadamente de um banho. O Banheiro dos Monitores, como já suspeitava, estava desocupado.
xXxXxXx
N.A.: * "O Paintball é um esporte radical que consiste em um jogo onde duas ou mais equipes competem entre si, usando carregadores de bolas que soltam tinta ao atingirem o adversário. O objetivo é apanhar a bandeira do outro grupo, na forma mais popular do jogo, e quanto mais adversários forem eliminados mais fácil fica de completar o objetivo." (Fonte: Wikipédia)
** Porque eu me recuso a aceitar que Harry estaria tão envelhecido quanto estão querendo pintar no filme. Pelo menos nessa fic ele ainda arranca muitos suspiros. Principalmente do Draco xD. E vamos combinar que Malfoys e barbichas não combinam, certo?
Trecho da entrevista da J.K. Rowling para Bloomsbury, em 30 de Julho de 2007.
"Emzzy: o Sr Weasley conseguiu consertar a moto do Sirius?
JK: Claro, e ela acabou se tornando posse do Harry."
Durante sua entrevista no Carnegie Hall em Nova York em 19 de outubro de 2007, J.K. Rolling revelou que algum tempo depois da Segunda Guerra do Mundo Bruxo, Hannah Abbott casou-se com o ex-colega Neville Longbottom. Ela se tornou a dona do Caldeirão Furado, substituindo Tom, e o casal vive acima do pub (Fonte: The Leaky Cauldron).
N.B.: Então pessoas, perdoem-me, mas RL sucks. Vocês já começaram a ver uma pinta de NC. Pena que o Al tem a sensibilidade na profundidade de uma colher de chá, como diria Mione. But fear not. Scorpie é absoluto 3 Espero que tenham gostado da brechinha Shanon/James.
Thats all folks ;D
tata
