CAPÍTULO X
Durante toda a manhã o humor de Edward balançou entre o entusiasmo porque iria ver Bella naquela tarde para comemorar sua "vitória" sobre o sanduíche, e o desespero por estar levando seu romance longe demais. Precisara cortar a conversa na véspera porque ela entrava em território perigoso.
As coisas estavam fugindo de seu controle, em especial devido a sua atração pela mulher. Esperando que Jake tivesse saído da cidade definitivamente, ele telefonara para o escritório do homem e soubera através da secretária eletrônica que ele voltaria a Port Angeles no domingo. Isso não explicava, contudo, por que motivo não se comunicara com Bella de onde estava. O ingrato!
Mas, enfim, a perda de Jake seria o ganho dele, ao menos até domingo. Durante os próximos dois dias, ele venceria Bella. Talvez descobrindo que Jake não era o homem com quem ela vinha falando, rompesse definitivamente com seu antigo namorado.
Ed coçou a cabeça com a chave de fenda que usava para instalar uma caixa de ar condicionado junto à janela de seu quarto. Por outro lado, seria esse o meio através do qual desejava conquistá-la?
Além disso, o que faria com Bella se ela descobrisse sua mentira? Ela apenas o tolerava. O que faria com ela? Isso era mau. Muito mau.
Felizmente, Bella não teria meios de ligar os telefonemas à pessoa dele, mesmo que descobrisse que estivera discando um número errado. Como oficial de polícia, seu número não constava da lista e era superprotegido. Apenas desfeita a ligação, não haveria possibilidade de se encontrar o nome da pessoa com quem ela falara.
De qualquer modo, estivera enganando alguém. Poderia se considerar feliz se ela não o processasse. Verdade seja dita, não quebrara nenhuma lei escrita, mas não precisava ser um gigante mental para reconhecer que desobedecera várias leis não escritas.
Céus, o que poderia fazer agora?
Poderia simplesmente esquecê-la, decidiu, vendo que ele não era tão importante para Bella, afinal. "Ele não é meu tipo", ela dissera. Se Bella ligasse de novo acidentalmente, ele poderia apenas dizer que era engano e desligar o telefone. E fim da história.
Passou a mão pelo rosto, procurando apagar a imagem do rosto de Bella sorrindo, caçoando dele na véspera, na fila dos doadores de sangue, mas mantendo a fachada severa. Seria ele o único homem a saber como ela podia ser desinibida?
De sua cama no chão, Crash latiu. Fez Edward se lembrar de que havia outros problemas no mundo além de seu namoro com a enfermeira Isabella Marie Swan. Como chegara bem mais cedo ao serviço naquela manhã, sairia cedo à tarde a fim de se preparar para seu encontro com ela. Combinaram se encontrar no parque Herrington às três e meia. Ele olhou o relógio. Faltava uma hora ainda.
— Que tal um pouco de ar fresco? — ele perguntou a Crash. O cachorro latiu duas vezes.
— Ok. — Ed trocou o curativo de Crash para que se apresentasse decente no encontro com Bella.
— Oh, que engraçadinho! — Bella sussurrou quando viu Edward vindo a seu encontro. Não ele, embora estivesse bem diferente do habitual e menos assustador de jeans e camiseta azul-marinho. O cachorro era o engraçadinho, vindo atrás num carrinho vermelho.
— Alô — Ed cumprimentou-a. — Espero que não se importe por eu ter trazido uma companhia.
— De forma alguma — Bella respondeu, abaixando-se para acariciar o cachorro. — Ele é bem simpático, não é?
— E está gostando muito de mim. — Ed sorriu. Bella também sorriu para ele, esforçando-se para resistir ao charme do galante oficial. Maldito homem! Enfraquecida por ter passado uma noite quase em claro, sentia-se muito vulnerável. Sua imunidade a Edward baixara, e isso a assustava. Adicione-se a isso o fato de Alice provocá-la o dia todo acerca do encontro no parque.
— Tive medo de que você mudasse de idéia — disse Edward. — Houve alguma emergência?
— Não, não houve emergência no hospital — Bella respondeu.
Bem que ela poderia ter inventado uma emergência, pois várias coisas aconteceram. Seus cabelos estavam horríveis, pois tivera de usar touca o dia todo. Sua maquiagem sumira e ela não trouxera nada para retoque e nem queria pedir emprestado a Alice. Levara um short caqui e sandálias para trocar, mas uma criança vomitara em sua blusa e ela tivera de comprar uma camisa na loja de presentes, que lhe custara vinte e quatro dólares.
— Deixe-me andar um pouco para aumentar meu apetite — ele pediu.
Bella imaginou que ele poderia comer uma dúzia de sanduíches. Um cachorro-quente? Não, impossível.
Ele pediu dois para si, cheio de pickles, e um simples para Crash. Bella encomendou um também com pickles para ela e ainda procurava o dinheiro na bolsa quando descobriu que Edward já havia pago por tudo, pelos sanduíches e pelos refrigerantes.
— O convite era meu — ela protestou.
— Não, era meu — ele disse, carregando as coisas para a mesa. — Você quer, por favor, puxar o carrinho de Crash?
Sentindo-se um tanto tola, puxou o carrinho e seguiu Edward a uma mesa de piquenique à sombra de uma árvore frondosa.
— Está bem aqui? — ele perguntou.
— Claro.
— Você é fotógrafa profissional também? — ele lhe perguntou, ao ver a câmera.
— Amadora apenas. — Bella corou. — É uma velha máquina manual de 35 milímetros, mas que tira fotos muito boas. Sempre quis tirar algumas fotografias deste parque.
Ela não acrescentou que uma foto faria aquele passeio parecer menos como um encontro de namorados.
— Quer tirar uma foto de Crash? — Ed lhe perguntou. — Eu terei mais facilidade em encontrar seu dono tendo uma fotografia nas mãos.
Bella hesitou, apenas porque isso perpetuaria os encontros.
— Terei muito prazer em lhe pagar por isso — Edward acrescentou.
— Bobagem. Terei muita satisfação em tirar uma ou duas fotos, se isso tiver como resultado uni-lo a seu dono.
O sorriso de Edward foi perigosamente prazeroso.
— Obrigado, madame — ele disse.
— Você não está trabalhando hoje? — ela lhe perguntou, apontando para as roupas que ele usava.
— Peguei o turno da manhã, e comecei bem cedo.
— Portanto deve estar cansado.
— Em geral durmo muito pouco. Sofro de insônia — ele explicou.
— Eu também.
— Provavelmente por causa de nossos trabalhos, horários irregulares, estresse. Você é uma enfermeira. O que faz para se divertir?
Bella engasgou com o refrigerante. Faço sexo por telefone com meu namorado. Uma semana atrás ela era uma quase-virgem frustrada, e agora, isso.
— Você tem problemas para adormecer? – ele perguntou.
— Geralmente não.
— E por que a insônia?
— Não sei. Quanto a você, tente não pensar nos problemas de sua vida, para evitar a insônia.
— Tento, mas parece não funcionar.
— E acerca… de seus relacionamentos pessoais, Edward?
— O que têm eles?
— Bem… você possui alguns?
— Se quer saber se tenho uma namorada, não, não tenho.
— Eu quis dizer amigos, companheiros de trabalho, vizinhos.
— Conheço muitas pessoas, mas não sei se as chamaria de amigas.
— Descobri! — ela exclamou. — Você me disse que era muito apegado a sua família. Mas agora estão todos longe. Você provavelmente tem necessidade de um companheirismo emocional. Como com Crash. Animais aliviam o estresse.
— É verdade — ele concordou. — É bom ter um animal em casa.
— Venho pensando em comprar um cachorro para mim. Como companhia.
— Não mora com seu namorado? — ele perguntou.
— Não! — Morava só, com um sofá duro como uma pedra.
— Quer dizer que você e Jake não têm um namoro sério?
— Não somos noivos, se é o que quer saber.
— Já se casou alguma vez, Bella?
— Não. E você?
— Absolutamente, não. Observo uma infinidade de situações domésticas em minha linha de trabalho. Garanto que você também — ele comentou. — Às vezes penso, com tanta gente no mundo, como pode uma pessoa saber quando encontra o par certo?
— Você… acaba sabendo, acho.
— Quer dizer que Jake é o homem certo para você?
Ela teve vontade de dizer a Edward Cullen que aquilo não era da conta dele. Porém os olhos do homem estavam tão cheios de calor humano que ela não teve coragem de ser grosseira.
— Acho que sim.
De todo modo, esse homem a deixava fora de si. E ela sentia que precisava escapar dali logo, ou faria uma loucura.
Bella levantou-se.
— Preciso ir — disse.
— Já?
— Sim. Obrigada por ter levado seus companheiros ao hospital para doar sangue. Muitos prometeram comparecer regularmente.
— Isso é bom — ele comentou. — Mas pensei que nós dois pudéssemos conversar mais tempo esta tarde.
— Sinto muito, porém ainda tenho de comprar um presente para o casamento amanhã.
— E as fotos?
Apressadamente, Bella pegou a câmera e tirou uma série de fotografias de Crash, em diferentes ângulos.
— Mandarei as fotos pelo correio — ela comunicou, enquanto guardava a câmera de novo.
— Pensei que fosse tirar algumas fotografias do parque.
— Mudei de idéia — disse Bella. — Obrigada pelo cachorro-quente.
— Que tal sobre jantar comigo um dia, Bella? Gostaria de conhecer você melhor.
— Não posso — ela respondeu. — Conforme já lhe disse, tenho Jake em minha vida.
— Você lhe disse ontem à noite, como pedi, que o considero um homem muito feliz?
— Disse.
— E o que ele respondeu?
— Perguntou-me se deveria ter ciúme.
— E o que você falou?
— Que não, porque…
— Por quê?
— Porque você não é meu tipo.
— Que tipo sou eu?
Ela não respondeu. E Edward insistiu, mais perto dela:
— Bella, que tipo sou eu?
O tipo de homem que faria meu mundo virar pelo avesso.
Os olhos de Edward procuraram os dela, e Bella teve medo do que viu. Quis se afastar, mas não conseguiu.
Bella entreabriu a boca para receber a dele, tocando com a ponta da língua os dentes muito brancos de Edward.
Depois deu um passo atrás, e cobriu sua boca com a mão. O que fizera?
— Bella?
Aquilo era loucura. O homem era um irresponsável, e ela caíra no jogo dele.
— Você é o tipo de homem… que beijaria uma mulher envolvida com outro homem. Não… gosto do modo como me faz sentir. Tento ser fiel, Edward, como espero que o homem com quem me encontro seja fiel comigo.
Ele não respondeu, apenas fitou-a.
— Talvez pense que esse meu modo de ver seja antiquado. Mas, acredite-me, é muito importante para mim. Adeus.
Bella apanhou a bolsa e a câmera e saiu correndo para o ponto do ônibus.
Jake. De repente o remorso apoderou-se dela. Passou pelo restaurante que ele gostava e comprou uma canja. Rumou para a casa de Jake. Ele adoraria a surpresa.
A casa de Jake ficava a quarenta minutos de distância do ponto do ônibus, mas Bella não se importou de andar. O tempo estava maravilhoso, embora quente, e Bella tinha muito em que pensar. O interesse de Edward por ela era visível, mas passageiro, disso tinha certeza. Sentia que ele a via apenas como uma conquista, um desafio. Jake, ao contrário, namorava-a havia muitos meses já. E finalmente agora progrediam no que dizia respeito a um relacionamento físico desejável. Seria louca se prejudicasse aquele amor.
Seu primeiro pensamento ao deparar com a linda casa de dois andares foi de que nunca vira o jardim tão maltratado. O segundo pensamento foi que Jake devia estar muito doente, pois ficara na cama enquanto a grama crescia desordenadamente, sem ser podada. Mas, ao ver os jornais no degrau da porta, alarmou-se. Isso significava que ele estava mais doente do que ela imaginara.
Tocou a campainha. Após alguns minutos sem resposta, tocou de novo, perplexa. Tirou então da bolsa a cópia da chave que ele lhe dera e destrancou a porta.
— Jake? — chamou-o, do sopé das escadas. — Entrou na sala e chamou-o mais uma vez: — Jake?
Preocupada agora, correu para o quarto. Não somente ele não estava na cama como também o enorme leito parecia não ter sido usado havia dias já. Tudo em perfeita ordem. Nem sinal de doença como caixas de remédios ou lenços de papel. Como sempre, o ambiente tinha aspecto impecável.
Bella verificou os outros quartos e desceu, mais uma vez chamando por ele. Verificou todas as salas do primeiro andar, depois foi ao porão que havia sido transformado em bar, e finalmente abriu a porta da garagem.
Sorriu então. Por que não fora lá antes de tudo? O carro preto havia desaparecido. Ele provavelmente fora ao escritório ou talvez comprar algum remédio. Aliviada, mas desapontada por não encontrá-lo, achou um pedaço de papel e uma caneta e escreveu:
Jake,
Trouxe uma canja para você. Que pena não o ter achado. Espero que isso signifique que você está melhor. Deixarei a canja na geladeira.
Mordeu o lábio, tentada a escrever algo mais provocante.
Respirou fundo. Depois de toda a experiência que passaram juntos, poderia ter mais paciência e esperar até a noite.
Telefone-me esta noite, se quiser conversar. Espero vê-lo amanhã no casamento.
Ela colocou o bilhete em cima do aparador da sala, recolheu os jornais, saiu e trancou a porta. De volta ao ponto do ônibus lembrou-se do delicioso cachorro-quente que comera com Edward Cullen. Sentiu remorsos. Tudo sobre aquele homem era uma inconveniência.
O rosto dele continuava perseguindo-a enquanto ela procurava na loja um presente de casamento para Rose.
Entre uma infinidade de louças, cristais, espelhos, prata, Bella escolheu um conjunto para licor em cristal bisotado. Lera em algum lugar que as pessoas sempre davam presentes que desejavam para si, o que era verdadeiro naquele caso, admitiu.
Já em casa, foi tomar um banho. Pegou a esponja de banho e despejou o sabonete líquido com aroma de morango e chantilly. Começou a se ensaboar. E enxergou a mão de um homem… a mão de um amante… A mão de Edward. Resistiu ao puxão dele, ao sorriso, ao corpo que parecia ter sido feito para atormentá-la. Ignorou os alarmes dados por seu cérebro. Talvez uma pequena fantasia a ajudasse a arrancá-lo de seus pensamentos. Ele lhe devia isso…
Bella inclinou-se então e começou a ensaboar os pés em círculos. Centímetro por centímetro esfregou os tornozelos, as pernas, as coxas, se perguntando se Edward tinha mão vagarosa ou se procuraria se apressar para lhe dar mais prazer.
Ele tinha aquela... pegada. Um homem definitivamente sintonizado com seu corpo. A boca… Que beijos maravilhosos, firmes, insistentes. Ela ergueu a cabeça e deixou que a água escorresse por sua boca. Retomou a massagem, metodicamente movimentando as mãos sobre as coxas, as nádegas, o ventre, fazendo círculos em volta do umbigo.
Ela fechou os olhos e imaginou-se representando um show só para ele. Ele estava fora do boxe do chuveiro, de farda, com a entrada barrada, capaz de observá-la apenas pelo vidro embaçado.
Com as luvas ela tocou os próprios seios, contornando-os, fazendo vagarosos e firmes círculos à volta.
Bella sorriu, com poder feminino. Um homem tão grande, tão possante, tão maleável em suas mãos!
Ela gemeu e deixou a esponja de lado. Depois ficou embaixo do chuveiro para remover toda a espuma bem devagar, e posicionando-se de sorte que pudesse dar a ele uma vista das nádegas.
Ela fechou a torneira, saiu do boxe e enrolou-se na toalha bem devagar para prolongar a tortura de Edward. Mas quando ergueu a cabeça, ele havia desaparecido.
Mas seu corpo ainda tremia pelo estímulo, e os seios doíam. Ela caiu na cama, estendendo as pernas e braços.
Fechou os olhos a fim de impedir que a fantasia brincasse atrás deles. Edward Cullen estivera por tanto tempo nessas fantasias só porque ela o vira demais nos últimos dias. Apenas precisaria ver Jake, nada mais. Precisava lembrar-se dos cabelos dele, da constituição esguia, das mãos delicadas e bem-feitas. Rolou na cama e olhou para o telefone.
Talvez ele houvesse lhe telefonado não tendo conseguido deixar recado na ridícula máquina.
Seu ventre tremia de desejo. Seria telefonar ou voar sozinha com o beijo de Edward em sua imaginação. Ela pegou o fone.
