Just give me a second darling
To clear my head
Just put down those scissors baby, on this single bed
The sand in the hourglass is running low
I came through thunder, the cold wind
The rain, and the snow
To find you awake by your windowsill
A sight for sore eyes and a view to kill
Myrcella entregou a ela a pequena Joanna embrulhada em uma bela manta cor de marfim. Arya pegou a criança no colo, sem muita certeza se devia ou não fazer aquilo, mas recusar a oferta seria uma grosseria. A criança tinha a pele morena dos Martell e o cabelo aloirado, como o da mãe.
A esposa de Trystane havia se tornado sua única amiga nos dias que se seguiram ao desentendimento com Jon. Arya ainda não conseguia olhar para ele sem raiva e ressentimento, tão pouco ele conseguiu se aproximar dela sem parecer mortalmente constrangido. Sabia que ele estava arrependido, mas ainda não conseguia tolerar a ideia de ter sido tratada como um espólio de guerra. Príncipe ou não, marido dela ou não, Jon devia a ela o mínimo de respeito.
A pior parte era olhar para ele e ver em seu rosto severo um completo estranho. Ele não era mais aquela pessoa que ela tanto venerou em sua infância. Jon costumava ser a coisa mais importante do mundo, quase tanto sagrado quanto os deuses esculpidos em árvores e agora tudo o que ela conseguia ver nele era a imagem de um fardo que ela teria de carregar pelo resto da vida.
Se tivesse a chance, Arya enfiaria uma espada nas entranhas de Nymeria Sand por dois motivos muito simples. Não fosse por ela e sua falta de pudor e bom senso, aquele desentendimento jamais teria acontecido. Em segundo lugar, ainda que Arya estivesse furiosa e magoada, Jon ainda era dela e de ninguém mais. Se a filha de Oberyn se esquecesse disso mais uma vez, Arya não se preocuparia nem um pouco em causar um incidente diplomático ao estripá-la na frente de toda família Martell.
Myrcella acabou sabendo do acontecido, ou pelo menos em partes, e agora se esforçava para ajudar Arya a se animar um pouco. Mesmo com os conselhos da esposa de Trystane, a princesa de Dragonstone ainda não havia voltado a ocupar os mesmos aposentos que Jon, preferindo dormir em um quarto separado e distante na mesma ala em que ele estava hospedado. Por mais de uma vez, Jon tentou falar com ela, na esperança de que Arya voltasse para seus aposentos e sua cama, mas ela estava irredutível.
A pequena Joanna estava começando a adormecer no colo dela. Por algum motivo que Arya não sabia explicar, Joanna adorava dormir no colo dela e gargalhava quando Arya lhe contava histórias fazendo vozes engraçadas. Nenhuma das histórias era sobre cavaleiros em armaduras brilhantes, ou donzelas indefesas, para Jo ela sempre contava histórias de grandes aventuras, sobre o Norte e os Reis do Inverno.
Myrcella olhava para ela e Joanna com uma expressão satisfeita e ao mesmo tempo preocupada. Arya sabia exatamente o rumo que a conversa tomaria se Myrcella dissesse o que estava pensando e ela não estava disposta a ouvir naquele momento.
- Vossa Alteza tem muito jeito com crianças. – Myrcella disse – Joanna parece gostar mais de você do que de qualquer outra babá.
- Acho que nós duas nos entendemos bem. Ela tem todo jeito de que vai ser uma aventureira. – Arya disse tentando parecer animada.
- Sabe que não pode evitá-lo pra sempre, não sabe? – Myrcella finalmente disse o que estava perturbando seu semblante sereno e Arya deixou escapar um som de descontentamento.
- Então sugere que eu volte pra ele e faça de conta que nada aconteceu? Faça de conta que ele não me ofendeu e magoou ao me tratar daquela maneira? – Arya revidou mal humorada – Me desculpe, Myrcella. Eu posso ter nascido uma lady, mas os deuses sabem que nunca fui boa nisso, ou com qualquer atributo tipicamente feminino. Não sou propriedade de Jon e é melhor que ele enfie isso naquela cabeça dura e oca. Eu não vou ser tratada com um espólio de guerra ou um objeto, nem por ele, nem por ninguém. Eu sou Arya Stark de Winterfell, uma princesa do Norte do sangue dos Reis do Inverno e é melhor que ele se lembre de que o maldito cadeirão no qual ele se senta hoje pertenceu ao meu pai.
- Sabe, por mais que vocês briguem agora, ele vai continuar sendo seu marido e esse tipo de coisa dura por uma vida. Não seria melhor fazer as pazes e tentar viver bem? – Myrcella disse de forma conciliadora – Cedo ou tarde vocês voltarão para o Norte e vão ter que viver um com o outro até que um dos dois morra, não seria melhor conviver em harmonia? Vocês eram tão amigos, veneravam um ao outro, não é possível que não sinta o mínimo de carinho por ele.
- Jon tem dificultado muito a existência de qualquer carinho que eu pudesse sentir por ele. – Arya resmungou – Ele não tinha o direito! – Myrcella suspirou.
- Ele tinha. Você é esposa dele agora. Tem obrigações. – Myrcella disse – Eu entendo que ele foi muito mais bruto do que precisava e que não foi honrado tomá-la naquele momento, mas a lei permite que ele faça isso. Não pode fugir para sempre.
I broke down in horror at you standing there
The glow from the moon
Shone through cracks in your hair.
I shouted with passion,
"I love you so much"
But feeling my skin, it was cold to the touch.
You whispered, "Where are you?"
I questioned your doubt
But soon realized, you were talking to God now.
- Eu poderia se quisesse. Voltar para as Cidades Livres nem parece uma má ideia. – Arya disse de forma teimosa.
- Oh, senhora. Nada disso tornaria as coisas mais fáceis e ele iria atravessar o mar sobre um dragão para trazê-la de volta. – Myrcella disse – Onde quer que fosse o príncipe estaria a sua busca e levaria guerra, fogo e sangue para todos os cantos na esperança de reencontrá-la.
- Eu sei que não posso evitá-lo pra sempre, mas gostaria. – Arya respondeu desanimada – Deuses, ele faria Robert Baratheon parecer uma criança mimada se eu fugisse. Não seria uma guerra, seria um massacre.
- Volte pra ele então. – Myrcella disse – Tente ser carinhosa e pode acabar descobrindo um meio de dobrá-lo ao seu gosto. Bater de frente e ser teimosa não é o caminho para alcançar uma convivência harmoniosa. Por que não experimenta agradá-lo? Mesmo os homens mais temíveis não conseguem negar algo a uma mulher que os agrada.
- Como sugere que eu faça isso? Me deitando nua e de pernas abertas na cama e deixando que ele faça o que bem entender comigo? – Arya rosnou.
- Não. – Myrcella respondeu – Isso não teria graça nenhuma. Você teve uma crise de ciúmes por causa de Nymeria, e nem adianta dizer o contrário. Por que não experimenta provocá-lo como as mulheres dornianas provocam? Seda esvoaçante e vaporosa, decotes ousados, tecidos semitransparentes...
- Eu ficaria ridícula. – Arya revidou e Myrcella riu.
- Eu duvido muito, Alteza. – ela disse sorrindo – Seu corpo é jovem e belo, sua pele vistosa e seus olhos intensos. Ficaria linda vestida em algo de cor intensa, ou talvez a sutileza dos tons de azul realce seus olhos. Posso ajudá-la a escolher algumas roupas, ensiná-la a pintar os olhos e usar tudo isso em seu favor.
- Jon ficaria furioso se eu usasse roupas como as de Arianne e Nymeria. – Arya respondeu – Ele não gosta nem que eu me aproxime de Edric Dayne enquanto uso uma túnica longa e um véu, que dirá se eu andar pelo palácio usando nada além de um pedaço de seda transparente?
- Ouso dizer que ele não conseguiria ficar furioso por muito tempo. Provoque-o, torture um pouco, deixe que ele a veja e fique com vontade de correr atrás de você, desesperado para tê-la de volta e então você vai, mas vai ditando as regras desta vez. – Myrcella disse – Sabe, casamento não é uma tortura.
- Sério? Bem, acho que algumas pessoas se acostumam até mesmo à tortura. – Myrcella riu uma risada seu humor.
- Dê a você mesma uma chance, Alteza. Não duvido que se tentar, pode ofuscar até mesmo a beleza lendária de sua tia e fazer o príncipe se dobrar às suas vontades. Além disso, a vida entre quatro paredes pode se tornar muito mais divertida. Amanhã vamos ao mercado.
- Eu agradeço o que tem feito por mim, Myrcella, mas acho que meu casamento está além da salvação. – Arya fechou os olhos por um momento, ainda carregando Joanna em seus braços – O Jon que eu conheci morreu durante a guerra, na Muralha, e esperar que o senhor meu marido seja o mesmo rapaz que eu tanto adorava quando criança é inútil.
- Talvez este seja o problema, minha senhora. – Myrcella disse tomando Joanna em seus braços com um sorriso amável – A senhora está apaixonada por uma memória, pelo rapaz que se despediu da senhora em Winterfell. Talvez seja hora de abrir os olhos e descobrir o homem que este rapaz se tornou. Pode acabar percebendo que sua situação não é nem de longe tão ruim quanto pensa. Talvez se apaixone por este homem também.
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
But, you have blood on your hands
And I know it's mine
I just need more time
So get off your low and let's dance like we used to
And there's a light in the distance
Waiting for me, and I will wait for you
So get off your low and let's kiss like we used to
Arya ainda o evitava e aquilo o estava deixando louco. Já havia se passado quase uma semana desde o desentendimento dos dois e ela ainda não havia não havia retornado ao quarto que eles supostamente deveriam dividir, preferindo se esconder em um dos outros quartos da ala que ocupavam em Sunspear. Ele havia tentado se reaproximar dela. Tentou oferecer pequenos mimos a ela e iniciar uma conversa civilizada, mas nada conseguia fazer Arya voltar atrás, uma vez que ela estava decidida a fazer da vida dele um inferno.
Graças a isso, ele acabou passando muito mais tempo com Trystane Martell e Edric Dayne, que acabou se provando uma pessoa muito melhor do que Jon poderia supor. Não que ele fosse abrir seu coração para dois estranhos e contar a respeito de sua briga com Arya, até porque a forma como ele agiu num momento de raiva era no mínimo vergonhosa. Tudo culpa daqueles malditos dornianos que insistiam em fofocar como um bando de velhas desocupadas. Nada daquilo teria acontecido no Norte.
Em Winterfell eles estariam em casa e ela determinaria o funcionamento do castelo e os costumes, bem mais austeros e discretos, não ofereceriam um desafio a parte. Além disso, nenhuma mulher seria louca o bastante para desafiar Arya Stark. No Norte os dias seriam menos turbulentos e na familiaridade do lar eles poderiam pensar em começar uma família de verdade.
Trystane insistia em dizer que Water Gardens era um bom lugar para se refugiar das fofocas de Sunspear e fazer as pazes. Sinceramente, Jon não estava muito disposto a viajar mais uma vez, atravessando uma parte do deserto, mas ficar ali não traria benefício nenhum.
Era nisso que estava pensando quando Aegon quebrou sua linha de raciocínio, assustando-o. O irmão dele tinha um semblante grave e vestia roupas dornianas como se nunca tivesse usado qualquer coisa diferente.
- Sempre um prazer vê-lo, meu irmão. – Jon disse sem grande entusiasmo.
- Não que demonstre isso. – Aegon resmungou – Nem posso culpá-lo, não é mesmo? Eu também ficaria assim se minha esposa me banisse de sua cama.
- Não que isso lhe diga respeito. – Jon revidou sério.
- Não me diz respeito?! Ao contrário, irmão. É meu dever me preocupar com o que aquela selvagem faz, ou melhor, com o que ela não faz! Vocês tem uma obrigação a cumprir. Arianne já suspeita estar grávida, mas Arya não só não apresenta sintomas, quando ainda se recusa a voltar para o quarto. Como, eu me pergunto, uma mulher pode conceber, quando se recusa a cumprir seus deveres e seu marido simplesmente tolera isso! – Aegon disse de forma impertinente, mas antes que pudesse dizer mais uma palavra, Jon o agarrou pela gola e prensou contra a parede.
Aquilo poderia ser uma declaração de guerra. Daenerys poderia até mesmo excluí-lo da linha de sucessão se aquele incidente chegasse ao ouvidos da rainha, mas naquele momento Jon não estava raciocinando. Irmãos ou não, príncipes ou não, Aegon não falaria daquela maneira de Arya, ninguém falaria dela daquela maneira. Aegon travou o maxilar e tentou não arregalar os olhos.
- Fale de minha mulher assim outra vez e eu me esquecerei do amor que tenho a você, irmão. – Jon disse entre dentes – A contrário senso, nortenhos não tem temperamento tão frio quanto pensam e ainda que parte de mim não fosse do Norte e que a honra não fosse minha guia, eu tenho o sangue do dragão, como você. Pode acabar achando muito desagradável acordar o dragão.
- Você devia mostrar toda essa impetuosidade a sua mulher, ou pelo menos mostrar a ela quem é que manda, quem veste as calças! – Aegon revidou e o que recebeu em resposta foi um soco bem dado na mandíbula que lhe arrancou um filete de sangue da boca.
- Volte pra sua mulher do sul, revestida em seda e cheirando a perfume de flores. Gosto de minhas mulheres nortenhas, com cabelo coberto de neve e cheirando a pinho. Eu não quero um enfeite em Winterfell, eu quero uma companheira e se conhecesse Arya saberia que ela usa um par de calças com muito mais dignidade do que você. Mais uma vez, a minha vida com ela não lhe diz respeito e se você, ou qualquer dorniano nos importunar com fofocas e brincadeiras maldosas mais uma vez, pode acabar recebendo bem mais do que um soco. Fui claro?
- Cristalino. – Aegon respondeu enquanto tentava limpar o sangue que escorria pelo canto da boca – Pode me soltar agora, maninho?
Jon o largou sem qualquer gentileza e Aegon ficou em silêncio por um tempo. Jon virou as costas ao irmão, mas antes que pudesse dar um passo, a voz de Aegon soou mais uma vez.
- Essa mulher ainda vai ser o seu fim! Como sua mãe foi o fim do nosso pai! – Aegon gritou e outro soco o acertou sem que nem mesmo Jon conseguisse registrar. Devia saber que ele não estava com humor para aquele tipo de provocações.
- Agora já chega. – Jon resmungou enquanto massageava a mão – Eu e Arya vamos sair de Sunspear pela manhã e acompanhar Trystane e Myrcella até Water Gardens. Eu não quero nem você, nem Edric, nem qualquer uma das Sand Snakes por perto quando isso acontecer. De lá voltaremos para o Norte em uma semana. Eu estou farto disso aqui, das fofocas e comentários maldosos. Se os dornianos me enxergam como o inimigo, muito bem, eu não tenho o que fazer aqui, mas não vou deixar que arruínem meu casamento com Arya.
- Você poderia fazer um esforço para não parecer tão pateticamente apaixonado por essa menina. – Aegon disse num tom amargo – Ela é bonita, mas não justifica tudo isso.
- Ela justifica tudo. – Jon respondeu baixo, num tom quase sombrio e melancólico – Eu estava errado em tratá-la como tratei. Eu não devia. Ela é mais do que só uma mulher, ela é a minha esposa e antes disso...Antes de tudo, ela é tudo o que eu tenho do meu passado e a minha esperança de futuro. Por ela eu quebrei meus votos, eu declararia guerra, eu mataria você se fosse preciso, por isso não me teste. Pode não gostar do resultado.
- Céus, você está mesmo apaixonado por ela. – Aegon disse assombrado – Ela é sua mãe reencarnada. Ela é Lyanna arrastando correntes por toda parte e te deixando louco.
- Não que isso ajude muito. Arya não parece interessada naquilo que sinto por ela, tão pouco está disposta a acreditar que estou neste casamento por outro motivo que não obrigação. – Jon disse levando a mão ao rosto – Tudo o que eu quero é voltar pra casa junto com ela. Tentar fazê-la enxergar as vantagens disso tudo. Quem sabe um dia tenhamos filhos e isso nos aproxime. Os deuses sabem que o Norte pode ser frio e solitário de mais e nós dois poderíamos fazer bom uso de risos e brincadeiras de criança para espantar os fantasmas daquele lugar.
- Pro seu bem eu espero que esse plano funcione. Essa dinastia precisa de novos membros tanto quanto os Stark precisam. Sansa Aryn não para de dar cria no topo do Eyrie. Há rumores de que até mesmo Brandon Stark conseguiu emprenhar a filha de Howland Reed. Não é possível que só vocês dois não consigam. – Aegon disse sério – Talvez Dorne não tenha sido uma boa ideia a final, mas Myrcella e Trystane podem ser de mais ajuda do que eu, não é. Water Gardens parece uma boa opção e Nymeria Sand não estará por perto para olhá-lo como se fosse o novo brinquedinho dela. Só tente melhorar sua cara, essa noite há um banquete e haverá musica e dança. Seria bom que você e sua mulher parecessem menos miseráveis na presença do meu sogro e do meu cunhado.
Aegon se afastou de Jon e deixou o lugar por fim, sem mais nada a dizer em relação a vida do irmão. Jon, por sua vez, respirou fundo ao se lembrar daquele maldito banquete que os Martell haviam preparado para entreter seus convidados. Ele não queria ter de pisar naquele salão e correr o risco de ser emboscado por Nymeria Sanda. Tão pouco queria ter de expor Arya às fofocas dos dornianos mais uma vez. E por fim, ele não queria ter mais motivos para brigar com ela. Deuses, tudo o que ele queria era que Arya o perdoasse e voltasse para ele.
De qualquer modo, ele não poderia deixar de comparecer sem ofender os anfitriões, mas não tinha qualquer ilusão quanto ao humor terrível de Arya. Talvez pudesse mandar uma mensagem a ela, permitindo que ela ficasse no quarto pelo resto da noite, enquanto ele inventava uma desculpa qualquer para a ausência de sua esposa, mas isso poderia piorar a situação.
I looked in the mirror
Bust something was wrong.
I saw you behind but my reflection was gone.
There was smoke in the fireplace
As white as the snow.
A voice beckoned gently,
"Now it's time to go"
A requiem played as you begged for forgiveness
"Don't touch me," I screamed,
"I've got unfinished business!"
Ele deixou os corredores e foi para os aposentos destinados a ele em Sunspear. Um banho seria uma boa ideia, ou pelo menos parecia algo mais prático do que tentar se exercitar fora das paredes do palácio. Andar a cavalo e arrebentar escudeiros no pátio não o satisfaziam mais, tudo aquilo o fazia lembrar de como Arya gostaria de empunhar uma espada outra vez, ou cavalgar livremente pelos arredores, com cabelos soltos e usando calças surradas. Ele queria que houvesse algo em seu cotidiano que não o fizessem se lembrar dela. Algo que trouxesse o mínimo de paz a cabeça turbulenta dele.
Tomou um longo banho e se vestiu para aparecer diante dos Martell e toda corte de Dorne. O calor ainda era insistente e ele duvidava que um dia se acostumaria ao clima do Sul. Não sabia nem mesmo dizer se Arya estava apreciando o lugar, mesmo com o desentendimento entre eles. Não sabia se ela gostava do clima, da comida, ou de qualquer coisa naquele lugar tão diferente da casa deles, mas Arya já não sabia o que era ter uma casa a muito tempo.
Sua esperança de conquistá-la residia na familiaridade do Norte e nas memórias felizes que eles compartilharam naquele lugar. Sua esperança vivia no bosque sagrado, debaixo da arvore coração, onde ele se sentava para fazer suas preces, onde eles cresceram correndo e nadando nas fontes de água termal, onde ele a levaria quanto estivesse esperando o primeiro filho para pedir por um parto seguro.
Queria ouvir o riso dela novamente e era disso que ele mais sentia falta. Queria que ela corresse até ele com um sorriso, exatamente como fazia no passado. Sentir o abraço espontâneo dela e seus beijos entusiasmados sobre seu rosto e todo resto. Beber vinho quente após uma cavalgada na neve de verão, comer juntos no grande salão e dormir abraçados no frio da noite, com corações acelerados após esgotarem seus corpos e desejos.
Talvez no Norte ela o perdoasse. Talvez ela voltasse para ele como uma criança perdida que busca o caminho de casa e permitisse que ele cuidasse dela, como sempre deveria ter feito.
Ele deu ordens aos criados que embalassem tudo para a viagem até Water Gardens e depois para o Norte. Não ficariam mais do que alguns dias e os deuses eram testemunha de que Jon não aguentaria mais do que isso no Sul. Queria sua casa e queria o conforto das paredes de Winterfell. Depois disso ele foi para o salão principal, onde todos aguardavam a presença dele com certo interesse nos olhos e cochichavam como se houvesse algo de muito interessante nele.
Jon olhou ao seu redor e se perguntou se Arya demoraria a fazer sua aparição, já que não foi capaz nem mesmo de esperá-lo para conduzi-la ao salão, mas não conseguiu avistá-la em lugar algum. Ele olho para o lugar onde a princesa Myrcella estava sentada, junto de Trystane, que era o lugar normalmente destinado a ele e sua esposa, mas Arya não estava lá. Quem conversava com Myrcella era uma dorniana de pele clara e cabelos negros, vestindo seda num tom de azul pálido, bordada com cristais que cintilavam na luz.
Nunca havia visto aquela mulher na corte de Sunspear, mas ela lhe parecia extremamente familiar. As curvas sutis realçadas pelo tecido vaporoso a tornava uma figura que parecia saída de um sonho exótico. Joias feitas de prata cintilavam sobre ela, mas Jon só descobriu quem era aquela mulher quando ela se virou para encará-lo com seus olhos cinzentos realçados pelo kajal negro que ela usava para delineá-lo.
O ar desapareceu do mundo e foi como levar um soco na boca do estômago. Aquela não era Arya, não podia ser. Não usando aquelas roupas, e joias, e maquiagem. Aquilo era um sonho provocado pela ausência de intimidade com ela por vários dias. Era a única explicação plausível.
Ela estava linda e qualquer um com olhos poderia ver isso e era este o problema. Não havia um homem se quer que não estivesse com os olhos grudados nela, analisando cada curva com olhares de cobiça, fantasiando a sensação de ter aquela pele alva contra suas mãos afoitas.
E pela primeira vez Jon se viu diante de um conflito que ele não tinha condições de solucionar. Parte dele queria arrastar Arya de volta para o quarto e proibir que ela saísse vestida como uma dorniana, enquanto outra parte estava sem palavras para descrever o quanto ela estava linda e se controlava pra não despi-la ali mesmo e mostrar a todos que ela era a mulher dele, em toda extensão da palavra.
Ele engoliu seu ciúme e seu desejo como se fossem um remédio amargo, respirou fundo e caminhou até o lugar que devia ocupar, ao lado dela. Sentou-se em silêncio após saudar Myrcella e Trystane.
Arya não disse nada quando ele se sentou, continuou conversando com Myrcella sobre qualquer coisa que ele não sabia dizer o que era. Queria que ela reparasse nele, ao menos naquela hora, mas ela não o fez. Ao invés disso ela sorria para sua nova amiga e as vezes cochichava algo junto ao ouvido de Myrcella e as duas riam como se trocassem os segredos mais deliciosos.
Ele teve de conter sua mão para não deslizá-la pela perna de Arya e suspender a saia de seda fina e transparente. Queria senti-la arrepiada em resposta ao toque indiscreto dele e ouvir sua respiração descompassada enquanto chamava o nome dele.
- Há algo errado? – ela perguntou num tom de voz levemente aborrecido e impertinente.
- Não, de forma alguma. – ele respondeu sem saber o que mais poderia dizer a ela.
- Então pare de olhar pra mim como se uma segunda cabeça estivesse nascendo no meu pescoço, é constrangedor. – ela resmungou.
- Eu sinto muito. Não quis constrange-la. – ele disse tentando desviar os olhos – O que é isso que está usando?
- Achei que estivesse claro. São roupas dornianas. Afinal, você não pode ter uma esposa sem qualquer senso de moda e já que eu tenho de usar um vestido, ao menos este não me faz passar mal neste calor. – ela disse sem dar importância – Algum problema?
- Não são roupas adequadas a uma lady do Norte. – ele disse sério, pouco antes de esvaziar um cálice de vinho.
- E você sempre soube que eu não sou uma lady no sentido tradicional da palavra. – ela disse.
- Mas é minha esposa. Não devia se vestir dessa maneira. Todos os homens neste lugar não param de olhá-la de forma obscena. – ele resmungou num tom baixo.
- Que olhem. Não é como se eu fosse a única aqui vestida desta maneira. E eu não sou sua propriedade para que determine o que eu posso ou não fazer. – ela revidou – Eu gosto das novas roupas.
- Pode usá-las para mim, quando estivermos no quarto. – ele disse num tom sugestivo e Arya revirou os olhos.
- Uma pena que eu não vá voltar ao seu quarto tão cedo. – ela respondeu – Estou bem, dormindo sem seus roncos.
- Eu não ronco. – Jon se defendeu.
- Você obviamente não é quem fica acordado a noite toda por causa do barulho. – Arya revidou. Jon respirou fundo.
- Você devia voltar pra o nosso quarto. – ele disse – Não é correto ficar me evitando desta maneira. Até quando isso vai durar?
- Eu não sei, mas pra sempre parece um tempo adequado. – ela respondeu – E este não é o melhor lugar pra discutirmos isso.
- Por favor. – ele disse tentando segurar a mão dela – Eu sinto sua falta.
- Então talvez Nymeria Sand possa ajudá-lo com isso. – Arya disse, encerrando o assunto de vez.
But, you've got blood on your hands
And I know it's mine
I just need more time
So get off your low and let's dance like we used to
And there's a light in the distance
Waiting for me, and I will wait for you
So get off your low and let's kiss like we used to
Ele não conseguiu prestar atenção em nada durante o banquete que não fosse Arya e seu perfume intoxicante, ou nos homens que a olhavam sem qualquer respeito ou pudor. Ela evitava falar com ele tanto quanto possível e isso só conseguia deixá-lo mais irritado e louco para levá-la de volta ao quarto deles. Nymeria Sand estava em algum lugar do salão e tentou chamar a atenção dele algumas vezes, mas era inútil. Ela não era Arya e nunca seria.
Arya se levantou da mesa após a sobremesa, pedindo licença para se retirar. Ela desejou boa noite aos presentes e saiu. Antes que Jon percebesse já estava de pé, seguindo-a como se estivesse enfeitiçado.
Seus passos ecoavam pelos corredores de mármore e Arya aumentava a velocidade ao ouvi-lo se aproximar. Jon andava cada vez mais rápido para alcançá-la, perseguindo o rastro de tecido esvoaçante do vestido, como se ela fosse uma miragem e ele um viajante sedento. Não conseguiria dormir aquela noite sem ela, não conseguiria pensar sem ela.
Ela se escondia atrás de pilastras, tentando despistá-lo. Aos poucos aquela fuga se tornou uma caçada e Jon podia sentir a adrenalina pulsando em suas veias e sua boca salivando em antecipação, como se estivesse em um dos seus sonhos de lobo.
Arya era rápida como o diabo e esguia de mais para que ele pudesse capturá-la com facilidade. Por algumas vezes ele conseguiu chegar perto o bastante para sentir a seda entre seus dedos, chegou até mesmo a cantar vitória, para no instante seguinte Arya escapulir, rindo da raiva dele como um diabrete.
- Arya! – ele rosnou em frustração ao senti-la escapar entre seus dedos – Volte aqui!
E ela riu.
O coração dele falhou uma batida. Ela estava rindo. Estava brincando com ele como se fosse aquela criança que ele havia deixado em Winterfell. Uma travessura, uma piada, ela brincava com ele e o tinha nas palmas de suas mãos cruéis. Ela estava se divertindo e ele era o jogo que ela estava jogando.
Arya estava torturando-o e se divertindo com isso, mas Jon não sabia se devia ficar furioso, ou entrar no jogo e revertê-lo ao seu favor. Se ela estava disposta a brincar daquela maneira, talvez a presença dele não fosse de todo indesejada e aquela perseguição tornava tudo mais divertido.
A seda deixava muito pouco para a imaginação dele. Podia ver as pernas de Arya delineadas por debaixo da saia vaporosa, enquanto ela corria. Ele acelerou, levantando as mãos para alcançá-la. O corredor estava deserto e silencioso e a risada dela assombrava as galerias de mármores e a cabeça dele. Jon sentiu mais uma vez a seda em suas mãos, puxando com força uma das faixas do vestido e fazendo Arya se desequilibrar.
Num movimento rápido ele a amparou pela cintura e a empurrou até que as costas dela estivessem pressionadas contra a parede. Arya estava sem fôlego e o encarava com os olhos arregalados e brilhantes, como se temor e expectativa se misturassem dentro deles.
Jon sentia seu coração acelerado e a ereção já constrangedora entre suas pernas. A proximidade dos corpos, o suor e a respiração descompassada turvavam os sentidos dele. Queria beijá-la. Enfiar seus dedos nos cabelos dela e desfazer o penteado que ela usava. Podia notar a rigidez dos mamilos dela, cobertos por seda que pouco ou nada faziam para preservar uma imagem digna da Lady de Winterfell. Deuses, ele não estava nem mesmo se importando com aquilo. Tudo o que ele queria era ela exatamente daquele jeito, desalinhada e ofegante por ele.
- Você... – ele disse enquanto tentava recuperar o fôlego e se inclinava, permitindo que seus lábios quase tocassem os dela – Vai voltar para o nosso quarto essa noite.
Nos olhos dela brilhou a audácia, aquela mesma audácia da menina de nove anos que fugia das aulas de costura e vivia com o rosto sujo e cabelos desgrenhados. Era a Arya dele, aquela garota meio selvagem que o abraçava e beijava quando todo resto do mundo insistia em chamá-lo de bastardo.
- Por que eu deveria? – ela disse num tom grave. Jon se inclinou mais um pouco, sentindo o cheiro do perfume exótico dela. Um rosnado escapou do fundo de sua garganta e Jon a segurou em seus braços com mais força.
- Sete infernos! Eu sou a droga do seu marido, Arya. – ele disse num tom pouco usual a ele.
- Mas não é meu dono. – ela disse desafiando-o um pouco mais.
- Sou príncipe e possível herdeiro do trono. – ele disse insistindo.
- Achei que não quisesse ser rei. – ela disse. Jon se afastou só o bastante para poder encará-la diretamente nos olhos.
- Eu não quero. – ele disse sem fôlego – Mas seria, se isso pudesse fazer você voltar pra mim. Eu queria ter um terço desse poder que você tem sobre mim e não me sentir tão impotente toda vez que você decide que não me quer.
- Eu não tenho todo este poder que você diz. Eu não passo da Arya Cara de Cavalo. – ela disse – Uma esposa com uma boa linhagem e nada mais.
- Você é a minha Arya. – ele disse, beijando o rosto dela e sentindo-a arrepiar diante do toque – Você sempre fez o que quis de mim, sem esforço nenhum. E eu sinto sua falta, como um louco.
Podia sentir a pele dela arrepiada contra a palma de sua mão e os lábios entreabertos eram um convite silencioso. Uma parte dele sabia que ela não apresentaria resistência, mas não se sentia corajoso o bastante para arriscar. Pensar estava cada vez mais difícil e tudo o que ele poderia desejar naquele momento era que Arya lhe desse um sinal, por menor que fosse, de que não o rejeitaria outra vez.
Ela ficou em silêncio e tudo o que Jon conseguia ouvir era o som dos corações acelerados. Jon se inclinou mais um pouco, desta vez determinado a acabar com a distância entre eles e beijá-la, mas antes que tivesse a chance, Arya virou o rosto para escapar do beijo.
- Eu não disse que aceito suas ordens. – ela disse teimosa e Jon rosnou junto ao ouvido dela em raiva e frustração.
- Por favor. – ele estava quase implorando e seus antepassados deviam estar se revirando em suas covas diante de uma situação tão patética – Eu sinto muito por ter sido tão bruto com você. Eu entendi o recado. Até quando vai me punir desse jeito?
- Eu não sei. – ela respondeu fazendo pouco caso.
Jon rangeu os dentes e respirou fundo. Aquilo estava fazendo com que ele perdesse toda sua paciência, mas era isso o que Arya queria. Ela queria testar até onde ele se controlaria por ela.
- Muito bem. – ele concordou – Espero que sua bagagem esteja pronta. Nós partimos para Water Gardens amanhã bem cedo, descansamos alguns dias até providenciarmos um barco. Eu não ficarei em Dorne nem mais um minuto se puder evitar. Estou farto disso aqui, farto de ter de tolerar essas malditas fofocas e de você atrair os olhares de cada homem nesse maldito lugar. Nós vamos voltar pra casa, de onde não devíamos ter saído.
- Então é essa a solução que encontrou? Me arrastar de volta para o Norte e me trancar dentro de Winterfell? – ela o desafiou – Acha que fazendo isso eu voltarei atrás?
- Não acho, mas não pode me culpar por tentar, ou por querer voltar pro único lugar no mundo onde fomos felizes. Cedo ou tarde isso iria acontecer e por mais que use esse tom comigo...Você quer voltar, Arya. É o nosso lugar, nossa casa, e nós dois estamos cansados de ficar vagando sem rumo. – ele disse acariciando o rosto dela.
- E todos os fantasmas da cripta virão nos assombrar a noite, arrastando correntes e lembrando que este casamento nunca devia ter acontecido. Que tudo isso é errado. Verei meu pai nas sombras de cada corredor e sentirei sobre meus ombros o peso de sua reprovação. E quando me deitar com você na cama que pertenceu a ele e a minha mãe... Insistir nisso é loucura, não acha? Nós estamos condenados. – ela disse num tom baixo e amedrontado. Jon beijou o rosto dela.
- Prefiro crer que Ned Stark confiaria naquilo que me ensinou a vida toda. Eu jurei que faria o possível para fazê-la feliz e levá-la pra casa, diante dos deuses dele, dos deuses do Norte. – Jon disse com a voz pesada – Deixe que os mortos descansem em suas tumbas. Nós dois estamos vivos e temos uma vida inteira pela frente, que já terá problemas o suficiente sem que eles nos perturbem. Me dê uma chance, Arya.
- Por que eu deveria? – ela perguntou num tom pálido.
- Por que...- Jon respirou fundo e antes que pudesse dizer se afastou dela, libertando-a de seus braços insistentes. Ele a encarou como se fosse a primeira vez que a visse de verdade. Com admiração e receio. Com veneração e raiva. Arya o encarava de volta, respirando com dificuldade e com o rosto corado, sem saber o que esperar. – Por que eu te amo...Tudo o que eu quero é uma chance para tentar conquistá-la e, quem sabe assim, você possa sentir o mesmo por mim um dia.
Cause, you've got blood on your hands
And I know it's mine
I just need more time
So get off your low and let's dance like we used to
And there's a light in the distance
Waiting for me, and I will wait for you
So get off your low and let's kiss like we used to
Nota da autora: Pois é, a greve permanece. A Arya tá me irritando também com essa negação eterna. A questão é que ela já perdeu tudo o que amava uma vez e de certo modo passa a pensar como a Cersei, quando ela diz "Quanto mais pessoas você ama, mais você sofre". Ainda há o peso na consciência por causa do passado, em que ela e o Jon cresceram como irmãos. Além disso, há uma falha de comunicação do tamanho do mundo. Não é que ela não o ame, ou queria fazê-lo sofrer, o que está acontecendo é que os dois estão presos ao passado, só que a Arya de dez anos e o Jon que foi pra Muralha já não existem mais. Há um problema de adaptação e ambos têm dificuldades em aceitar que o que estão sentindo é maior do que saudade, carinho, ou atração. Espero que gostem do capítulo e comentem. Música Unfinished Business, do Mumford & Sons.
Bjux
Bee
