Ano 6 – parte 1

"Acorda!" Blaise Zabini chutou as pernas de Samuel Evans.

O pupilo deu um salto e depois resmungou. O relógio indicava que eram cinco e meia da manhã. Sinal de que fora da tenda ainda estaria escuro e frio. A cama da tenda era ruim, estreita e a coberta era fina e com cheiro de suor e sujeira. Samuel estava exausto. Havia um mês que ele e Zabini fugiram de Hogsmeade. Um mês em que o nome de Samuel Evans estava na lista de procurados pelo departamento auror britânico. Embora ninguém tivesse como acusar formalmente Blaise Zabini, ele era procurado pelas sociedades secretas de combate às trevas, como a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore. Quanto ao corpo de George Patton, este foi deixado cremado e os restos enterrados nas montanhas da encosta de Hogwarts. Ninguém sabia do paradeiro de Patton, muito menos que ele foi assassinado por Samuel. Para todos os efeitos, Patton era considerado um foragido, tal como o colega extremista.

Samuel tinha a menor ideia para onde ele e o mestre estavam indo. Desde que começaram a fugir, aparatavam em um determinado lugar isolado do resto do mundo. Samuel era instruído no treino das artes das trevas. Eram ensinamentos e mágicas que iam além das três maldições imperdoáveis. Tinha a ver com princípios, desejos, filosofia, ações, modo de vida: assuntos que o garoto jamais pensou a respeito. Mágica das trevas em Hogwarts era tratado como uma história para crianças. Que existiam pessoas más e megalomaníacas que precisavam ser combatidas. Zabini lhe mostrou outro lado dessa história.

Segundo a versão do mestre, bruxos e muggles conviviam no início dos tempos. Os bruxos tinham sempre uma posição de autoridade ou como mentores ou como líderes das tribos. Com o passar do tempo, os muggles foram se tornando maioria e passaram a requerer a posição de poder em relação aos bruxos. Por vezes eles os faziam por meio da criação de crenças religiosas e pelo medo e inveja por não terem a capacidade de fazer os que os bruxos faziam. Muitas vezes, a disputa era pelo puro e simples poder, como o súdito que envenena o rei para ocupar o trono.

Os bruxos sentiram que a convivência entre eles e muggles passava a ser mais e mais conflituosa e, por isso, começaram a separar os mundos e criar a própria organização. O estopim aconteceu durante as Cruzada. A verdadeira Primeira Guerra Mundial foi muito mais do que o embate dos cristãos combatendo islâmicos: foi o momento da história em que aconteceu a primeira grande dizimação da magia. Era a Igreja consolidando o poder político e social na Europa e atacando tudo que considerasse ameaça. Os bruxos, uma minoria na ainda reduzida população europeia à época (dizem que havia pouco mais de 200 bruxos em toda Europa, sendo que quase a metade nasceu na Grã-Bretanha), sentiram a necessidade de organizar essa comunidade em nome da sobrevivência.

Os quatro fundadores de Hogwarts se uniram neste contexto: quando a sociedade bruxo estava começando a se estruturar e eles sentiram a necessidade de formar uma escola. A função de Hogwarts não era para ser um lugar pedagógico, mas um centro estruturante da sociedade que se organizava. Salazar Slytherin acreditava na pureza da natureza da mágica. Rowena Ravenclaw vinha da tradição acadêmica da filosofia grega e era uma seguidora dos grandes mestres, como Platão, Pitágoras e Aristóteles. Por isso que ela prezava pela formação do intelecto e foi responsável pela estruturação pedagógica em Hogwarts. Godric Gryffindor era um duelista e um comandante de tropas, daí a predileção dele pelos "corajosos". Helga Hufflepuff tinha o espírito da coletividade e era a idealista que ainda acreditava na coexistência dos mundos.

Na visão de Zabini, as relações mundanas entre os co-fundadores, fonte de inspiração para os romancistas, foi dada importância maior do que a necessária. Sim, Salazar Slytherin e Godric Gryffindor discordavam ideologicamente e sim, ambos foram apaixonados por Rowena Ravenclaw. Há um historiador, Jove Grandblosson, que afirmou que Helena Ravenclaw era, na verdade, filha de Salazar. Mas tudo não passava de especulação para alimentar o imaginário a respeito dos quatro fundadores.

O que interessava para Zabini era que a escola era um refúgio, um lugar para se aprender e, ao mesmo tempo, um fórum de discussões sociais e políticas: a escola foi, na prática, a primeira Confederação Internacional de Bruxos e Ministério da Magia. Rowena e Salazar tinham visões em comum. Ambos acreditavam que bruxos e muggles não poderiam ficar juntos. A diferença era o como. Rowena considerava o conhecimento e não se importava com a origem dele. Ela própria pesquisou exaustivamente a ciência muggle num período em que os bruxos estavam mais avançados, tecnologicamente falando. Defendia, portanto a separação de mundos, mas nunca a separação de intercâmbio de conhecimento. Ela também era tolerante quanto a origem. Julgava que uma vez que alguém tinha sangue mágico, mesmo os nascidos muggles, deveria fazer parte da comunidade. Como Salazar defendia rupturas completas e definitivas, ele foi taxado de extremista e de radical.

Godric e Helga defendiam a coexistência por razões distintas. Helga porque era subserviente e seria capaz de aceitar que os bruxos se colocassem em posição servil se isso significasse paz. Contudo, o conceito de paz que ela entendia muitas vezes era sinônimo de emudecimento. Godric queria a integração por razões belicistas: os bruxos eram muito poucos à época para se aventurarem em campanhas de conquista. Ele precisava de muggles para fazer massa de manobra.

Assim, Zabini foi dando a Samuel uma outra visão de mundo mais flexível e aberta a interpretações do que a história idealizada ensinada em Hogwarts. Salazar não era um homem trevoso e ruim, mas alguém que vivia de acordo com as próprias convicções. E que honra poderia ter um homem que vivia para a guerra, como era o caso de Godric? Era como o venerado muggle estadunidense George Washington, um comandante e estadista que libertou os escravos de suas propriedades, mas só depois de sua morte, em um desejo em testamento. Ora, se esse era a sua vontade, por que não libertou seus escravos em vida e deu a eles a condição de trabalhadores assalariados? Isso se chamava hipocrisia. Zabini apontou a Samuel as hipocrisias (relevantes) que circundavam o mito dos fundadores.

"Mestre?" Samuel disse ainda se sentindo preguiçoso. "Qual é a agenda de hoje?"

"Um teste. Arrume a tenda."

Samuel primeiro arrumou a mochila com toques de varinha. Em seguida cuidou da estrutura da tenda, que magicamente dobrou-se. Tudo que precisou fazer foi terminar de enrolar o tecido e prendê-lo a mochila. Geralmente, quando o procedimento era desarmar a tenda, era sinal de que os dois aparatariam para outro lugar o caminhariam. Era também a oportunidade de Zabini ensinar ao discípulo a própria visão da história. Acampar significava treinamento prático, que Samuel apreciava muito mais.

Como o previsto, Zabine segurou no braço do pupilo e aparatou para outro lugar. Do alto de um dos alpes escandinavos, desaparataram em um vale, no meio de uma floresta de pinheiros que circundava um pequeno rio.

"Conte-me o que vê." Zabini ordenou.

"Mato!" Samuel disse quase impaciente. Saíram sem comer nada e o estômago dele reclamava.

"Moleque idiota!" Zabine deu um tapa forte atrás da cabeça do pupilo.

Samuel olhou com raiva para Zabini e depois suspirou. Olhou ao redor e tentou achar seja lá o que fosse que o mestre queria que ele identificasse. Adiantou-se alguns passos e procurou perceber o ambiente ao redor.

"Precisa se concentrar." Zabini instruiu. "Feche os olhos e sinta o fluxo energético ao seu redor. Use sua percepção diferenciada, sua capacidade para ver o que ordinário não podem."

Samuel procurou se concentrar e fazer exatamente o que o mestre lhe ordenou. Parecia coisa de treinamento como nos filmes de Star Wars, mas fazia todo sentido. Bruxos tinham percepção diferenciada dos muggles, eles conseguiam de fato sentir padrões energéticos distintos, em especial os mais densos. Bruxos conseguiam ver criaturas que apenas os muggles com percepção mais aguçada poderiam perceber, e mesmo assim, pensariam que foi coisa da própria imaginação. A concentração era a chave para perceber sutilidades que poderiam passar despercebidas até mesmo para os próprios bruxos, pois a magia e a natureza eram capazes de velar ainda mais coisas. São novas percepções que Samuel aprendia com Zabini: ensinamentos de as classes em Hogwarts ignoravam e que os burocratas pragmáticos do Ministério da Magia desprezavam.

"Há um portão ali adiante?" Samuel pareceu incerto.

"Há?" Zabini desafiou.

Samuel caminhou em direção do que parecia ser um portão grande em meio a um nevoeiro. A própria estrutura lhe parecia difusa, como se fosse uma ilusão. Estendeu a mão, fixou o olhar e conseguiu sentir a estrutura sólida.

"O que é esse lugar?" Samuel perguntou ao mestre que estava logo atrás dele.

"O teste. Há um portão a sua frente. Sabe como abri-lo?"

Samuel pegou a varinha, tentou visualizar a fechadura e começou por um simples alohomora. Nada aconteceu. Tentou novamente e nada. Afastou-se alguns passos e tentou Bombarda. Em seguida a versão de maior potência, mas o portão continuava sem apresentar nenhum arranhão.

"Que porra é essa?" Ele ficou extenuado. "Tem algum feitiço secreto que preciso saber para abrir essa merda?"

"Você é mesmo um idiota!" Zabini gargalhou com a falha do pupilo. "O portão não quer vulgaridade. Ele exige aquilo que te faz ser digno."

"Digno?"

"Sim, digno! Será que você não prestou atenção em uma só palavra que te disse? O que te faz digno, Evans? Se você não conseguir responder a essa questão, significa que é burro demais para que eu e o que você encontrar além deste portão possamos te ensinar."

Zabini virou as costas e aparatou para um lugar próximo em que pudesse observar Samuel. Viu o aprendiz andar de um lado a outro, esbravejar, xingar, segurar as barras do portão, sacudir, experimentar mais alguns feitiços explosivos. O mestre simplesmente revirou os olhos. Ele sabia que Samuel Evans não era inteligente. Por outro lado, ele era poderoso, a metade que mais lhe interessava da profecia que havia se tornado popular. Por tudo isso, Samuel Evans era a arma que ele e a sociedade a que pertencia estavam esperando há décadas.

Por outro lado, mesmo sendo uma arma, Zabini não poderia simplesmente dar-lhe as respostas e não fazê-lo pensar, mesmo que minimamente. Para a jornada que seria preciso fazer, Samuel deveria saber como proceder.

Samuel repetia incessantemente a palavra 'digno'. Sentou no chão, cruzou as pernas e ficou balançando o corpo para frente e para trás. O que o faz ser digno? Ele começou a bater a mão numa rocha. Golpeou por frustração uma, duas, três vezes. Feriu-se no quarto soco. Gritou de dor, fechou a mão, e depois analisou a contusão e chupou o sangue que saiu da ferida. Foi quando ele entendeu o que o tornava digno: sangue. O seu puro sangue. Sua linhagem sem mistura por gerações suficientes para ser considerada pura, ou suficientemente pura.

Pegou um canivete dentro da mochila jogada ao chão e abriu um corte na palma de sua mão, deixando o sangue escorrer livremente. Foi até ao portão quase translúcido e segurou a fechadura. De repente a fechadura se abriu, o portão ganhou materialidade e se abriu.

"Achei que você iria levar o dia inteiro." Zabini aparatou ao lado do pupilo.

"Que lugar é esse?"

Zabini pegou o canivete das mãos do pupilo e cortou a própria palma da mão. Estendeu o braço a frente do corpo e passou pelo portão.

"Todos precisam provar serem dignos para entrar neste lugar sagrado." Zabini explicou. "Mesmo os que já estiveram aqui antes. Agora pegue nossas coisas e entre, Evans."

Samuel pegou a mochila do chão e entrou portão a dentro. A caminhada pela mata fechada até enxergarem um pequeno castelo. A porta se abriu e de dentro saiu um homem alto, cabelos brancos, muito bem vestido. Ele abriu um sorriso quando viu Zabini e o abraçou.

"Finalmente!"

"Precisei de um tempo para ensinar alguns conceitos básicos ao garoto."

"Então este é o garoto..." O homem encarou Samuel e ofereceu a mão para cumprimenta-lo. "Prazer em conhece-lo..."

"Samuel Evans."

"Evans... é um prazer... meu nome é Antonin Dolohov e é uma honra tê-lo aqui."

...

"Acorda!" Sue Sylvester arrancou as cobertas de cima de Santana.

A escolhida deu um salto e depois resmungou. O relógio indicava cinco e meia da manhã. Sinal de que fora de casa ainda estaria escuro e frio. A cama de Santana estava muito boa naquele dia em particular. Ela havia demorado um bocado a dormir na noite anterior devido as dores no corpo. Quando finalmente conseguiu descansar, uma auror louca (palavras de Santana) a tirou do sossego. Santana viu Rachel resmungando na cama ao lado. Havia nada que ela pudesse fazer a respeito. Há um mês ela e a irmã voltaram para os Estados Unidos para ficarem em companhia da mãe, que não abriu mão de ficar com as filhas. Em vez Nova York, como era costumeiro, ou de se arriscarem num ambiente hostil em Ohio, as três viajaram para Kohadjo, Maine, região que ficava num vale aos pés dos montes Apalaches. Kohadjo era um dos maiores vilarejos exclusivamente bruxo dos Estados Unidos, com pouco mais de 400 habitantes. Era também a terra natal de Sue Sylvester e, segundo ela, o lugar mais seguro em todo os Estados Unidos para Santana.

A família havia chegado no vilarejo há uma semana afim de que Santana pudesse aproveitar o tempo longe de Hogwarts para praticar com um adulto por perto, só para variar. Os adultos decidiram que Santana não poderia tentar aprender tudo sozinha ou com a ajuda de pessoas tão jovens quanto ela. Shelby tirou licença do trabalho só para passar um mês fora acompanhando as filhas. Surpreendeu-se que, assim como em Londres, havia uma plataforma de embarque para um expresso que fazia a linha Nova York – Mount Greylock/Ilvermorny – Waterville – Kohadjo, cobrindo, assim, o principal cinturão de cidades do mundo bruxo da costa leste estadunidense.

Chegaram numa madrugada em Kohadjo, depois de uma viagem longa, de 16 horas. Desceram na pequena estação da cidade e foram direto a casa da família Sylvester. Shelby ficou surpresa ao ver que a casa era uma das maiores da cidade, com direito a três elfos domésticos que cuidavam da propriedade. As três mulheres foram acomodadas em dois quartos: um com duas camas para Santana e Rachel e um quarto de hóspede com cama de casal para Shelby. Na manhã seguinte, conheceram Doris e Robin Slylvester, além de Imelda, a babá de Robin. Doris foi uma auror famosa em seu tempo, conhecida por ser uma das maiores caçadoras de bruxos das trevas dos Estados Unidos. Ela tinha se aposentado. Não era uma pessoa particularmente agradável, mas as hóspedes não tiveram de lidar com ela por muito tempo, pois, no mesmo dia, ela partiu para uma conferência na Irlanda, onde ficaria por algumas semanas. Quando soube quem Santana era, olhou a garota de cima embaixo, disse que os britânicos eram moles demais, liberais demais, por isso tinham tantos problemas com bruxos das trevas. Nos Estados Unidos, a prática de maldições imperdoáveis era punida com a pena capital.

Robin era uma garota de nove anos com síndrome de down, o que limitava a capacidade dela de fazer mágica. Ela e a tia que havia morrido anos antes eram as únicas pessoas conhecidas com síndrome de down no mundo mágico. Robin era cuidada por Imelda na ausência de Sue. Tratava-se de uma segunda mãe que educava a garota da melhor forma que podia, uma vez que Sue passava muito tempo em Nova York.

Shelby achou que Kohadjo era o lugar do mundo bruxo mais civilizada que já visitou. A estrutura não era diferente das cidades pequenas estadunidenses, os bruxos não usavam roupas tão esquisitas e nem olhavam para ela com menosprezo. Em menos de um dia, a cidade toda soube das visitantes e que Shelby era uma "no-maj" com duas filhas bruxas. Muitas das mulheres foram simpáticas por sentirem pena. Na visão delas, Shelby era uma desafortunada por não conseguir fazer o que todos os outros podiam. Rachel achou o lugarejo adorável. Era maior do que Hogsmeade e ela rapidamente fez amizade com os gêmeos Mason e Madison, estudantes de Ilvermorny, que eram tão aficionados por Broadway quanto ela. Também se aproximou de Dani, garota que era muito musical e grande apreciadora do pop muggle.

Santana, por sua vez, treinava. Sue permitiu a ela um dia de turista antes de começar uma carga pesada de treinamento. Para a surpresa da jovem, nenhum dia envolveu treinamento de duelo, mas sim condicionamento físico. Santana passou os primeiros dias, correndo, fazendo polichinelos, levantando peso e outras atividades do gênero. Sue acreditava que um bom condicionamento físico ajudava a magia fluir melhor pelo corpo. Na opinião dela, treinar para quadribol era pouco.

"Por Merlin! Ainda posso ver o planeta Vênus no céu." Santana disse com mau-humor.

"Que bom que você prestou atenção nas aulas de Astronomia." Sue revirou os olhos. "Você tomou café da manhã?"

"Por um acaso você deixou?"

"Bom saber..."

Sue pegou no braço de Santana e aparatou. Desaparataram em cima de um dos montes, onde era possível ver Kohadjo ao longe. Santana não estava habituada ainda com o incômodo da aparatação, que considerava mais turbulento do que o teletransporte. Ela precisava fazer um enorme esforço para controlar o estômago. Sue não estava impressionada com a suposta resistência adquirida por Santana e resmungou.

"Você já deveria ter se acostumado. Crianças aqui aparatam com seus pais desde novas."

"Eu não tive esse hábito. Além disso, Dumbledore colocou um feitiço de proteção em mim que impedia que alguém aparatasse comigo... Merlin... isso é horrível. Mil vezes pior do que teletransporte." Santana buscou a garrafinha de água que estava dentro de sua mochila.

"Você conversa com o espírito de Dumbledore?" Sue ironizou.

"Abeforth Dumbledore! Não Albus Dumbledore..." Santana tomou um gole d'água e respirou fundo. "Queria que a proteção ainda estivesse funcionando..."

"Feitiços de proteção precisam ser refeitos de tempos em tempos. Nada é definitivo na natureza." Sue respirou fundo, sentindo a natureza. Ela fez um rápido alongamento enquanto era observada de perto por Santana.

"O que vai ser hoje? Corrida morro abaixo? Você vai provocar alguma avalanche enquanto eu estiver na metade do caminho igual ontem?"

"Eu quero que você sente e aprecie a vista."

"Apreciaria melhor se já tivesse amanhecido."

"Corte a atitude, Corcoran!"

"É Lopez..." Santana disse entre os dentes. "Eu não tenho o sobrenome da minha mãe."

"Isso te aborrece?"

"Não faz a menor diferença."

"Ok, vamos aos negócios. O que você sabe sobre leitura da mente?"

"Existem bruxos que são empatas e conseguem naturalmente ler a mente de outras pessoas, mas eles são muito raros. Pode ser feito por um feitiço complexo chamado Legilimens que poucos conseguem executar. É classificado como magia trevosa, mas dizem que Hermione Granger é mestre nesse tipo de feitiço."

"Quer dizer que a nova ministra da Magia esconde algumas cartas na manga?" Sue abriu um sorriso. "Bom saber que aquela sabichona arrogante pode jogar sujo."

"Você a conhece?"

"Sim... É uma história para outra hora. Agora, Lopez, você já deve ter entendido o que estamos fazendo aqui."

"Você vai me ensinar a ler mentes?"

"Não, vou treinar você a resistir ao procedimento."

"Já vi que isso vai doer..."

"Você está nas condições ideais, Lopez. Está fisicamente cansada, sonolenta, irritada... será justamente o que eles vão tentar fazer se colocarem as mãos em você."

"O que devo fazer?" Santana suspirou, já prevendo que aquilo iria doer.

"Se concentrar e não deixar que eu entre em sua mente."

"Ok... manda ver."

Sue apontou a varinha e rapidamente teve acesso a algumas lembranças de Santana, como a alegria dela ao ganhar jogos de quadribol por Slytherin. Eram as lembranças mais superficiais, mais fáceis de serem acessadas porque não envolviam nada que Santana quisesse esconder ou que ela considerasse precioso. Ainda assim, a experiência foi nada agradável para Santana. Era apenas quadribol, mas a sensação era como se Sylvester tivesse prensado o seu crânio contra uma parede invisível e o perfurado com uma broca.

"Você nem está tentando!" Slyvester reclamou.

"Eles não vão querer ler a minha mente! Eles vão querer me matar!" Santana reclamou. Esta tonta e com o estômago nauseado.

Havia sim lógica na reclamação de Santana, o que fez Sue Sylvester ponderar por um momento. Não é que Santana guardasse algum segredo importante. A ameaça maior sobre a escolhida era o poder simbólico que ela tinha, não o conhecimento dela. Sue então procurou lembrar-se do relatório que havia recebido de sua missão: a garota em sua frente. Ela era uma mulher que seguia planejamentos e o treino não seria diferente. Independente de Santana ter razão ou não, era o que Sue havia planejado fazer para aquela semana.

"Suas lembranças importam." Sylvester procurou argumentar. "Se eles não tiverem a oportunidade de te matar, vão querer te enfraquecer de todas as formas. Enviaram um boggart para você porque queriam saber os seus maiores medos. Foi por isso que os agentes do Ministério da Magia não permitiram você fazer o tal teste prático com um boggart na escola. Poderia haver infiltrados querendo conhecer o seu maior temor para explorar isso. Certas lembranças, por mais bobas que sejam, podem ser muito bem usadas por seus inimigos... ou amigos. Você precisa saber protege-las."

"Até concordo contigo, mas por favor, não hoje, não agora. Estou cansada! Eu deveria estar de férias com a minha namorada. Mas eu estou aqui, nessa cidade fora do meu país, com uma sádica me torturando."

"Desculpe, garota. Eu não estou nem aí. Legilimens."

Desta vez não foram apenas as superficiais vitórias no quadribol. Sylvester invadia mais e mais o íntimo de Santana. Era como se passasse diante dos seus olhos lembranças das classes, dos amigos, cenas com Rachel, com Shelby. A cada camada desvelada, mais agoniante era a dor e mais ela tentava resistir. Sylvester estava impiedosa e parecia não se importar com o sofrimento que infringia. Até que ela conseguiu alcançar memórias mais particulares de Santana com Brittany, do primeiro beijo dado numa noite de véspera de natal. Santana lutava e lutava, cerrando os dentes, os punhos, tentando lutar contra a dor física. Ela procurava mentalmente não dar acesso a Sylvester. Foi quando ela teve as lembranças de Lily acessadas. Mais especificamente do primeiro beijo de verdade que as duas compartilharam no campeonato escolar de quadribol. Mesmo com a dor insuportável, de jeito nenhum que ela iria deixar Sue Sylvester testemunhar tardiamente um dos melhores momentos da vida dela até então. Ela gritou. Alto. Tão alto que tinha certeza que a poderia ser ouvida em Kohadjo. Gesticulou com as mãos como se estivesse empurrando Sue. De fato, ela estava. Inconscientemente, Santana derrubou a mentora sem usar a varinha.

A sessão de tortura acabou, não sem consequências. A cabeça girava. A dor era desesperadora e Santana vomitou a biles que havia acumulado no estômago. Deitou-se no chão completamente exausta e à mercê de Sylvester.

"Levanta!" Sue ordenou.

"Eu preciso de um tempo."

"Você pode não ter tempo, Lopez. Olha o poder que você demonstrou agora. Precisa controlar isso."

"Por favor. Eu não sou Jean Grey. Eu não sou uma garota que vai ficar louca só porque tem algum poder em mãos. Eu só quero ir para casa e dormir. Por favor!"

"Levanta agora!"

"Vai pro inferno!" Mais uma vez Santana não usou a varinha e ainda assim foi capaz de derrubar a mentora.

Santana não se importou com a demonstração do próprio poder. Ela estava se lascando para isso. Tudo que queria era ficar bem longe de Sue Sylvester. Ela se levantou e começou a caminhar, mesmo que cambaleante e aos tropeços, morro abaixo.

"Para onde pensa que vai?" Sue alcançou Santana e segurou em seu ombro, mas foi rejeitada.

"Para longe de você."

"Seu treinamento não terminou."

"Sim, terminou!" Santana continuou a caminhar mesmo com dificuldades.

"Eu não vou te dar carona, Lopez. Você não sabe aparatar sozinha e são 20 quilômetros de caminhada até a vila. Se você não me obedecer, vai ter de ficar por conta."

"Ótimo!" Santana esbravejou. "Vai cuidar da sua vida."

Sylvester parou e observou Santana tropeçar e se levantar uma última vez antes de aparatar, deixando a pupila à própria sorte.

Santana levou uma manhã inteira para vencer os 20 quilômetros entre descer o morro, atravessar a pequena floresta e atingir os limites de Kohadjo. Observada com espanto pelos moradores, atravessou a praça central. Shelby estava ali por perto, comprando algumas frutas, completamente alheia do que havia se passado com a filha. Ela abandonou as negociações com a dona da quitanda e correu em direção de Santana assim que a viu suja, curvada, fadigada.

"Meu deus, o que houve contigo? Cadê Sue?" Shelby abraçou uma Santana exausta e a aninhou em seus braços.

"Mãe... vamos pra casa... por favor! Eu quero voltar para Nova York."

"Vamos sim, milha filha."

Santana deu um breve sorriso e desmaiou de exaustão nos braços de Shelby.

...

"O que pensa que está fazendo, Sue?" Shelby esbravejou quando se viu às sós com a auror no interior da casa da anfitriã. "Você deveria ajuda-la em desenvolver as habilidades, não tortura-la."

"Os inimigos que ela vai encontrar pelo caminho vão fazer muito pior."

"Por deus, minha filha só tem 15 anos! Ela é uma adolescente, uma pessoa. Não é uma arma que vocês vão utilizar para salvarem suas bundas! Santana deveria estar saindo com a namorada dela, com os amigos, indo ao cinema, às festas, e tentando fazer todas as cagadas que eu fazia quando tinha a idade dela."

"Infelizmente, ela não é uma adolescente comum. Nem mesmo para o nosso parâmetro."

"Ainda assim, ela é minha filha e eu não vou mais permitir que vocês a maltratem."

"Hum... é por isso que todos os heróis são órfãos..."

Shelby cerrou o olhar para cima da auror e tirou as próprias conclusões.

"Amanhã eu e minha filhas vamos arrumar nossas coisas e voltar a Nova York. Agradeço por sua proteção e hospitalidade aqui nesta vila, Sue, mas eu não posso ficar aqui e nem mesmo aceitar a sua presença em minha casa."

"Sabe o que é um boggart?" Sylvester tentou virar o jogo fazendo Shelby racionalizar sob outro ângulo.

"Não." A muggle estranhou a mudança súbita de assunto.

"É o que os muggles veem quando crianças e dizem ser o bicho-papão. É uma criatura mágica que consegue morfar em nossos piores medos. Sabe qual é o boggart da sua filha? Você, Rachel e o pai dela mortos. Se alguma coisa acontecer a vocês três, isso vai destruir Santana. Por isso, não seja ignorante e não vire as costas para nós."

Shelby sentou-se no sofá e procurou raciocinar um pouco. Ela era adulta e precisava falar pela filha. Entendia que Santana era diferente, mas mesmo ela merecia uma vida normal. Ela tinha de encontrar um meio termo.

"Ok... se é assim... eu aceito a sua presença... eu aceito ficar nessa cidade... com uma condição e ela não é negociável."

"Diga."

"Os treinos só continuam se ela quiser."

"Isso é ridículo, Corcoran."

"Eu fico sob a sua proteção, eu fico na sua casa, eu desisto temporariamente da minha carreira e fico nessa cidade estúpida se for necessário. Só não torture a minha filha. Ela precisa viver como uma adolescente. Rachel fez amigos aqui, enquanto Santana está sofrendo. Não é certo."

"Corcoran..." Sylvester tentou insistir para a necessidade de treinar Santana, mesmo que seus métodos sejam duros.

"E se fosse a sua filha? E se fosse Robin que tivesse chegado hoje arrastando os pés, com fome, com sede, imunda? E se fosse Robin que tivesse desmaiado em seus braços?"

Sylvester desviou o olhar de Shelby.

"Tenho certeza que podemos encontrar um meio-termo."

"Um meio-termo poderia ser aceitável."

...

Russell Fabray estava numa reunião extraordinária com os sócios. Tudo que tinha o rótulo de 'extraordinário' no código particular daquele grupo significava que os homens discutiriam alguns negócios com diversão incluída. Por diversão, entendia-se que os sócios se reuniriam na sede dos Arrows para discutir pequenos direcionamentos em relação ao clube e a campeonatos a base de bebidas destiladas de qualquer tipo e muggles prostituídas que seriam obliviadas ao fim das 'negociações'. Russell era o mestre de cerimônias das reuniões extraordinárias. Dizia que muggles é que deveriam pagá-los para ter "o sêmen puro e mágico dentro de si". Pouco se importava (e até preferia) se a tal muggle prostituída e supostamente privilegiada tinha apenas 13 anos de idade. Diante dos sócios, ele sorria enquanto se esfregava de forma lasciva na adolescente que escolheu: uma menina bonita de feições latino-americanas.

Mesmo que o lugar fosse basicamente uma orgia, Russell tinha algumas reservas para se expor. Ele levou para o seu escritório a menina que era mais jovem do que a própria filha caçula. Ordenou-lhe que tirasse a roupa para que ele pudesse se 'saciar' de forma apropriada. Ficou tão concentrado na prática do estupro de vulnerável que não percebeu o ruído que vinha de fora do escritório até ser 'tarde demais'.

"Russell Fabray!" A auror Athena Milles invadiu o quarto e o atacou, o paralisando. Ela chutou o corpo rígido do homem de meia idade, tirando-o de cima da adolescente. "Você está preso em nome do Ministério da Magia do Reino Unido sob a acusação de traição, conspiração, tráfico de influência, tortura e exploração da prostituição de menores de idade..."

Parou por um instante ao ver a adolescente nua encolhida no canto do sofá. Athena lamentou a cena, lamentou que a infância da menina tivesse sido roubada por pessoas repugnantes como Russell Fabray, que gostavam de explorar a situação frágil alheia para saciar as próprias vontades, impor as próprias verdades. A menina estava assustada, como não? Infelizmente, a auror não poderia fazer muito a respeito. O procedimento é que a menina seria ouvida, o depoimento seria gravado e depois ela seria obliviada e deixada sob tutela dos órgãos muggles responsáveis, como era o acordo feito com o governo britânico. O ministro da magia não respondia ao primeiro ministro e nem ao rei (sim, William I sabia da existência do Ministério da Magia), mas tinha o dever moral de comunicar sempre que ocorressem as chamadas "intransigências". Athena, com cautela, pegou as roupas da menina que estavam em cima de uma cadeira e as devolveu.

"Vista-se, querida. Esse pesadelo acabou."

A equipe de aurores foram bem-sucedidos ao cumprir a maior operação de caça a conspiradores já realizada na história recente. Tudo graças a Harry Potter e as colaborações da ministra da magia recém-eleita Hermione Granger. Ajudaram também os colaboradores, integrantes da Armada de Dumbledore, dos remanescentes da Ordem da Fênix e de colaborações especiais como a de Draco Malfoy. Foram presos 117 bruxos considerados participantes ativos do movimento conspiratório que tinha em vista apoiar a ascensão do novo bruxo supremo das trevas, preparando assim o cenário para que o escolhido pudesse prosperar. Esses bruxos estavam distribuídos em células de atuação que respondiam apenas a um comandante em comum que usava o codinome O Purificador. Infelizmente, este não foi pego. Em várias células foram encontros planos semelhantes. Alguns deles planejavam o assassinato puro e simples de Santana Lopez. Outros achavam que deveriam monitorá-la e enfraquece-la, pois a honra de mata-la deveria ser do Lorde das Trevas. Planos contra Harry Potter, Hermione Granger e todos os aliados de muggles, mestiços e sangues-imundos' também foram encontrados. Felizmente e diferente dos muggles, o processo jurídico bruxo era rápido e os 117 bruxos iriam para Azkaban até o final do verão.

...

Quinn Fabray leu as páginas do Profeta Diário com satisfação ímpar. Um lado seu achava que deveria sentir-se mal ao ver o próprio pai ser fotografado algemado ao lado de poderosos como Demetrius Wilde. Aliás, ela adoraria ver a cara do desafeto Kitty Wilde naquele momento. Era um momento histórico em que muitos até achavam que havia mudado a tal profecia. Que o novo lorde das trevas não teria mais como emergir e que a adolescente Santana Lopez estaria livre de suas responsabilidades, caso ela realmente fosse a escolhida.

Para Quinn, aquilo significava liberdade, mesmo que temporária. Ela fechou o jornal e foi até a janela do quarto no apartamento de Athena Milles. Espiou a paisagem do subúrbio de Grays, Londres, que ficavam próximo às margens do rio Tâmisa. Era um bairro de classe média baixa, com apartamentos muito estreitos e quartos mínimos. Era diferente da mansão dos Fabray em Tutshill, o que já era extraordinário por si só. Pela primeira vez em muito tempo, ela estava feliz: ajudou a colocar o próprio pai na cadeia.

"Fabray?" Quinn ouviu a auror chegar em casa.

"Aqui!" Ela respondeu do quarto e, em seguida, ouviu os passos em direção ao quarto.

"Com fome? Trouxe comida tailandesa."

"Tailandesa?"

"Tem bolinho de peixe e macarrão Chang mai."

Os pratos soaram alienígenas para a adolescente. Percebendo o estranhamento, Athena tentou encorajá-la.

"Comprei em um restaurante muito bom. Daqui mesmo da vizinhança. Conheço o gerente e garanto que a comida é deliciosa."

"Desculpe. É que ainda acho muito estranho toda essa integração com a cultura muggle."

"Entendo... seu pai é um purista e você foi criada sem contato com os muggles." Athena tentou disfarçar a expressão de nojo que passou a sentir do homem em questão desde o flagra no ato de prisão. Era em momentos assim que se orgulhava ao mesmo tempo que se arrependia em ter escolhido a profissão. "Conhecer outras coisas além do nosso mundinho não é ruim. É bem libertador, na verdade. Você pode experimentar outras culturas sem trair a sua própria. Além disso, não há nada de errado em provar uma comida diferente e saborosa."

Quinn olhou as embalagens e franziu a testa. Nunca em sua vida provou comida que vinha em sacos de papel. Ela podia ver a mancha de óleo escapando de uma das laterais e ficou seriamente desconfiada, tentada inclusive em fazer novamente em cozinhar dois ovos: única habilidade culinária que possuía. Athena começou a arrumar a refeição em cima da minúscula mesa para duas pessoas que ficava no canto da sala. Arrumou os pratos. Pegou duas garrafas de cerveja amanteigada e esperou a companhia da adolescente.

Quinn permitiu-se observar a auror por um segundo. Athena era a mais jovem da corporação. Era também uma das raras slytherins que se decidiu por tal carreira. Quinn lembrava dela ainda na escola: quando entrou em Hogwarts, Athena, no sétimo ano, foi a aluna que representou a escola no torneio escolar mundial de transfiguração realizado em Castelobruxo. Ficou em terceiro lugar, que era uma posição honrosa, exceto para um Slytherin. Lembrava-se por Athena ser uma garota que não gostava de chamar atenção para si. Era bonita, de ascendência indiana e caucasiana, com grandes olhos, cabelos negros e lisos, e a pele mais clara do que um indiano normalmente teria. Também era boa aluna com modesta popularidade. Tinha um namorado à época que Quinn sequer se lembrava do nome. As coisas não deram certo entre os dois, considerando que Athena aparentava ter uma vida solitária e quase espartana.

Aproximou-se da mesa e timidamente se serviu com dois bolinhos de uma porção com seis, e um terço do conteúdo do macarrão. Provou um pouco dos dois antes de devorar o conteúdo do próprio prato. Não que estivesse saboroso: Athena estava enganada porque a comida preparada no modo bruxo pelos elfos domésticos era muito mais saborosa. Era apenas uma questão de estar faminta.

"Eu li no jornal sobre a grande operação de ontem." Quinn comentou depois que limpou a boca com guardanapo.

"Como se sente a respeito?"

"Meu pai teve o que mereceu. Mas eu estou preocupada com a minha mãe. Ela não é uma pessoa ruim. Ela ficou meio ausente depois que a minha irmã morreu."

"Quantos anos você tinha quando Frannie morreu?"

"Tinha nove anos e Frannie tinha 13. Ela voltou para casa para as férias de verão e meu pai tinha essa tradição de sair para velejar conosco. Dizia que os Fabray era uma família de bruxos navegantes e que todas as gerações honravam essa tradição. Eu estava em terra fazendo companhia a minha mãe quando meu pai e minha irmã saíram para velejar. Quando voltaram, Frannie era só um corpo. Meu pai disse que uma onda forte a derrubou e que ela se afogou. Ninguém contestou."

"Você pensa que deveriam?"

"Meu pai fez coisas terríveis comigo... o que o impediria de ter feito coisas terríveis a minha irmã?"

"É uma pergunta que, infelizmente, não posso responder."

Quinn ficou pensativa por um momento. Frannie era um assunto que ela falava com ninguém. Nem com seus pais, nem com os amigos mais próximos. Na verdade, havia anos que ela sequer tocava no nome da irmã. Ela não se permitia pensar a respeito. Olhou para Athena e se questionou o que fez a auror para fazê-la lembrar de um assunto que ela procurava enterrar? Será que tinha alguma porção da verdade na cerveja? Não seria certo, porque Quinn colaborou com as investigações e ajudou a incriminar o próprio pai.

"O que vai acontecer com a minha mãe?"

"Não posso discutir essas coisas contigo, mas o procedimento é liberar aqueles que colaborarem com o departamento, caso não tenham faltas graves ou evidências contundentes de crimes. Se Judy estiver limpa, será solta em breve e você poderá morar com ela, se desejar."

Quinn acenou e terminou de tomar a cerveja. Olhou mais uma vez para o apartamento. Não tinha certeza se gostaria de deixar o lugar que lhe transmitia segurança tão logo, nem que fosse para ficar com a mãe. É que a ideia de voltar a mansão em Tutshill lhe causava arrepios.

"O que vai acontecer com Santana?"

"O que tem Santana?" Athena estranhou a pergunta.

"Ela é a escolhida e vocês a despacham para a América todos os anos em nome da segurança. E agora? Ela está segura?"

"Talvez."

"Talvez?"

"Ela não é um assunto da minha competência. O que posso dizer é que essa ação deixou nosso mundo um pouco mais seguro."

Quinn não ficou convencida, mas também não demonstrou o que sentia. Tinha ficado muito boa em esconder sentimentos.

...

"O segredo é manter-se nas sombras." Antonin Dolohov caminhava ao lado de Samuel, seguidos de perto por Blaise Zabini. "É como esse templo das artes das trevas manteve-se de pé até os dias de hoje. O templo por si só é capaz de nos ensinar muito."

"Qual é a idade deste templo?" Samuel perguntou.

"Dizem que foi construído por Salazar Slytherin em pessoa, depois que ele deixou Hogwarts. Outros dizem que quem construiu o templo foi o grande Sorzus, o primeiro que roubou a varinha das varinhas de Antioch Peverell. Outros dizem que a mansão foi construída a partir das ruínas do templo original, tão antigo quanto os primeiros astrônomos."

"Quem são esses, digo, claro que todos conhecem a história dos fundadores. Mas quem são Sorzus e Antioch Peverell?"

Dolohov sorriu brevemente para o jovem e continuou a caminhar pelos corredores limpos e arejados da mansão. Abriu uma porta pesada de madeira, que revelou ser uma biblioteca relativamente grande. Podia-se estimar que o cômodo abrigava mais de mil exemplares.

"Eu te faço uma pergunta e o senhor me mostra livros?" Samuel ficou incomodado.

"Eu te mostro poder." Dolohov explicou gesticulando graciosamente. "Rowena Ravenclaw sempre foi guiada pelo mote de que conhecimento é poder. Não conheço outra verdade. Isso aqui, meu jovem, não são livros. Isso daqui é o primeiro acesso ao verdadeiro poder. Morgana Le Fay em pessoa estudou nessa biblioteca, assim como os grandes mestres da magia das trevas." Girou a varinha e um dos livros saiu da prateleira direto para mesa redonda de estudos do cômodo. Outro giro da varinha e as páginas correram até a que Dolohov desejava mostrar. "Eu cometi um erro terrível ao devotar minha lealdade e energia a Lorde Voldemort. Ele que era um mestre ilegítimo cuja impureza no sangue jamais conseguiria abrir os portões deste solo sagrado. O poder começa pela pureza do sangue, e isso você tem, caro Evans, ou sequer teria entrado neste templo. O segundo passo do poder é a instrução e este livro será o seu ponto de partida."

"As crônicas do Palatino Wayland?" Samuel resmungou e levou um tapa no rosto tão bem aplicado por Dolohov que o adolescente se desequilibrou.

"As crônicas do Palatino Wayland." Dolohov leu o título em tom mais solene. "O primeiro que tentou alcançar o poder supremo. Você precisa ler, aprender o que ele tem a ensinar e também identificar suas falhas. Quando você conseguir compreender os ensinamentos, vai poder iniciar a terceira etapa."

"A prática?"

"Não, idiota. A busca."

Samuel resmungou frustrado. Os dois mestres viraram-lhe as costas e o deixaram na biblioteca. Pensou em algumas alternativas que não lhe eram atraentes ou proveitosas. Decidiu pela obediência. Sentou-se e puxou o livro para perto de si. "As crônicas do Paladino Wayland", leu novamente o título e passou o olho pela página sem ilustrações. Folheou o livro para conferir a extensão do texto: contou 23 páginas. Não era muito. Começou a ler.

"Marte reinava no céu. Sua marca vermelha deixava rastros pelo manto escuro da noite e também no solo. Manchas da pureza sobre a pedra clara eram evidências do ciúme dos discípulos que nada conseguiam fazer..."

...

Shelby recebeu a notícia com felicidade ímpar do próprio Juan. O medibruxo viajou para Kohadjo para reencontrar com a filha (e com a ex-namorada) porque queria contar a novidade em pessoa. Além disso, Kohadjo era considerado um lugar seguro para ficar. Juan chegou no habitual horário da madrugada (quando o expresso chegava a estação da cidade) e foi recebido por Shelby e Sue. Sem querer acordar as meninas, Juan aceitou uma xícara de chá e conversou sobre a operação realizada pelos aurores.

"Quer dizer que nossa filha está fora de perigo?" Shelby perguntou ainda sob o impacto das palavras de Juan.

"Quer dizer que ela está mais segura. Eu nunca vi tamanha dedicação de um governo para tentar impedir uma catástrofe anunciada. As pessoas querem mesmo invalidar a profecia."

"Isso é ótimo. A coisa que mais desejo nesse momento é que a gente possa voltar a ter uma vida normal. Eu quero voltar a trabalhar e quero que as minhas filhas possam ter a vida que elas supostamente deveriam ter na idade delas."

"Sem querer estragar a sua empolgação, Shelby..." Sue interrompeu. "Mas o tal garoto que rivaliza com Santana foi encontrado?"

"Não." Juan respondeu.

"Desculpe, mas sendo assim, é prudente que Santana continue a treinar aqui até poder embarcar de volta a Hogwarts."

"Não... eu vi aqui para podê-la leva-la de volta a Londres. É o que vou fazer."

"Faça como quiser, Lopez, você é o pai. Mas tenha em mente que sua filha pode até estar um pouco mais segura agora. Mas enquanto o outro garoto não for encontrado, isso será apenas provisório."

"Talvez o outro garoto não vai mais encontrar terreno fértil no meu país." Juan retrucou.

"É nesses momentos que mostram porque você é um medibruxo e porque eu sou uma auror." Sylvester respondeu revirando os olhos. "Você enxerga o mundo de acordo com os seus códigos fundamentalistas. Eu preciso ver além."

"Está sugerindo que eu deva deixar minha filha aqui contigo?" Juan fechou o cenho.

"Estou dizendo que prevenir não faz mal a ninguém. O outro garoto pode ter perdido base no Reino Unido. Isso não significa que ele precisa construir o reino dele em sua patética ilha. O mundo é muito maior. A única coisa certa é que ele verá a sua filha como um obstáculo para a autoafirmação, não importa se ela pouco se importe com ele. A profecia fez isso. Quando chegar a hora, peço ao bom deus que ela esteja preparada."

...

"Querida Lilian Luna Potter II,

Já te disse o quanto o seu nome exala prepotência? Hahaha.

Falando sério, fiquei muito feliz com as notícias. Nem acredito que podemos ter uma chance, nem que seja mínima, de nada dessa maldita profecia acontecer. Agradeça ao seu pai por todos os esforços que ele fez. De todo coração.

Aqui é o inferno sobre a terra. Ou pelo menos é o que a minha treinadora está empenhada em parecer. Rachel é a única pessoa que parece ter gostado dessa cidade. Ela encontrou um grupo de amantes da Broadway para chamar de seu. Nada além de dois irmãos gêmeos irritantes e a Dani, que é até simpática. Ainda ontem os quatro fizeram uma serenata para os meus pais. Isso é muito louco... nunca imaginei que a eminência de uma guerra pudesse uni-los novamente. Pelo menos eles estão se falando.

A boa notícia é que estou saindo desse inferno. Claro que ainda vou estar sob toda a proteção e yada yada yada, mas ao menos vou poder finalmente descansar o meu cérebro. A melhor coisa disso tudo é finalmente poder te ver. Piegas, não? Mas é verdade, Lily. Minha vida está uma loucura e você é uma das poucas coisas sãs. Eu tenho tanto a dizer, mas será em pessoa. Eu mal posso esperar por isso.

Por favor, me espere.

Com amor,

Santana."

Lily dobrou a carta da namorada que não via há meses. Não por vontade dela ou mesmo da própria Santana. A população mágica de Londres estava agitada nos últimos meses por causa da revelação dos personagens principais da profecia. Santana Lopez e Samuel Evans estamparam os jornais quase todos os dias, mesmo ambos estando ausentes. Rita Skeeter fazia especulações sobre as conexões amorosas de ambos, especialmente envolvendo Brittany Pierce e Quinn Fabray. Sem mencionar que o namoro de Lily e Santana havia se tornado público, graças a mesma colunista.

Lily amava Santana, mas a exposição era um fardo. Ela suportava isso sozinha. O consolo era saber que Santana não estava ao lado dela por uma necessidade. De certa forma, era até mesmo positivo. Lily desceu as escadas e encontrou o irmão na sala.

"Quando ela chega?" Albus perguntou.

"Em alguns dias, eu acho. As cartas que ela escreve não pode conter detalhes muito específicos..."

"Para em caso de serem interceptadas, eu sei."

"Isso é uma droga. O pior é que eu realmente sinto falta dela. Como isso é possível? Será a tal profecia?"

"Duvido!" Albus sorriu e jogou a goles para a irmã. "Pronta?"

"É sério! Nesse ano o título voltará para Gryffindor. Eu vou conquistar o título da copa mundial escolar. Mais do que isso, eu vou fazer a minha namorada pagar a melhor das apostas. Me aguarde!"

"Você está mesmo animada."

"Depois de passar o mês inteiro treinando defesa contra arte das trevas contigo, você nem imagina."

"Gostaria de estar lá para ver isso, Lil."

"Eu sei. Mas você ficará sabendo de tudo, Al. Vou enviar um monte de cartas enquanto você e Scorpius treinam para ser os melhores aurores da história."

"Obrigado, irmã. E você tem que prometer mais uma coisa."

"O quê?"

"Não interessa o quanto as coisas deem a impressão de que vão melhorar, você precisa fundar a Ordem do Hipogrifo, com ou sem Santana."

"Você acha mesmo que a profecia vai acontecer?"

"De um jeito ou de outro, esteja preparada. Ela vai precisar de você."

...

"A arte das trevas não visa a destruição, mas a liberdade." Antonin Dolohov explicava a Samuel enquanto os dois caminhavam pela área externa da mansão. "A liberdade é alcançada quando se está livre de amarras. É quando pode alcançar tudo aquilo que deseja. Você sabe o que deseja, caro Evans?"

"Eu não sei..."

"Eis o segundo passo que precisa ser feito ao lado da instrução: saber o que deseja e identificar os obstáculos, sejam eles físicos ou abstratos. Quando se recolher hoje, proponho que reflita bastante e faça uma lista do que deseja e do que precisa eliminar para chegar aonde quer."

"E se o que eu quero for muito pouco?"

"Não existe tamanho para aquilo do que se quer. Desejos são desejos não importa se eles são mundanos ou abstratos. Voldemort desejou a vida eterna, Morgana La Fey quis um reino, Salazar Slytherin desejou a pureza. Saber o que se deseja não é um caminho fácil. É uma busca, Evans, que por vezes pode levar uma vida inteira. Eu desejei ter um propósito. Achava que isso significava fazer parte de algo grande. Como acreditava nos ideais de Voldemort, eu o segui como um escravo. Fui seu maior carniceiro, aprendi muito com ele, vi o que era ter o poder pela força e pelo medo. Quando vi aquele que acreditava ser meu mestre morrer como um mundano imundo, entendi que estava enganando sobre o que eu era. Foi quando fugi da Grã Bretanha e encontrei o meu mentor, este templo e a Ordem. Só então entendi o que realmente desejava."

Observaram um pássaro que fez um escarcéu na copa de uma árvore, o que provocou uma pausa bem-vinda. Os bruxos se recolheram e para dentro da mansão. Jantaram, comera do bom e do melhor e, depois, cada um se recolheu ao seu respectivo aposento. Na luminosidade parca de seu quarto, Samuel pegou um pergaminho e uma caneta. Começou a listar aquilo que desejava, do mais mundano e imediato ao mais profundo.

— Liberdade dos meus pais e amigos;

— Possuir Quinn Fabray;

— Tirar os impuros do poder;

— Ter o poder para fazer as mudanças necessárias;

— Preservar a cultura bruxa.

Qual era a barreira que ele tinha para conseguir alcançar o que desejava? Era uma resposta difícil, mas ele tinha a imagem de uma pessoa que era um obstáculo simbólico devido a presença indireta constante que tinha em sua vida. Sem hesitar, escreveu.

— Santana Lopez.

...

Santana e Lily trocavam beijos apaixonados. Não se viam há quase três meses, perderam a melhor parte do verão, e não queriam ser interrompidas. Tinham apenas uma semana de férias antes das aulas em Hogwarts recomeçarem. Era pouco tempo para fazer todo roteiro de atividades que Santana vislumbrou. Ela queria mostrar a Londres que amava para a namorada, um lugar que ia muito além dos locais que os muggles não conseguiam enxergar. Londres tinha Camden, Borough – sendo que este último era o local que Santana dizia ser o único com comida decente na cidade. Queria andar de mãos dadas com Lily em Windsor, Greenwich, fingir ser turista e visitar o Big Ben. E no fim, como ninguém é de ferro, ficar em casa, assistir a um filme de comédia românica abraçadas no sofá.

Santana tinha até um roteiro, mas quando se reencontrou com Lily, ignorou todos os planos e pulou direto para a parte em que ficava em casa abraçadinha com a namorada. O retorno a casa dos Potters estava bem mais ameno do que na última vez. James estava fora de casa, o que diminuía as tensões de forma considerável. Albus havia sido aceito como auror e estava aguardando os últimos momentos de férias antes de ser submetido ao rígido treinamento de um ano para entrar como cadete na corporação. Lily estava ocupada com a edição do caderno de esportes do Profeta Diário, ao passo que Harry Potter estava ocupado demais para manter os extremistas presos. Considerando que Rachel foi para a casa dos Weasleys ficar com Hugo, havia muito espaço para as duas.

"San..." Lily rompeu o beijo. "Acho que o filme acabou..."

Santana olhou para a tela da televisão ainda analógica e para o velho aparelho de DVD que, por milagre, funcionava naquela casa. Na tela subiam os créditos de 'About Time', cujo protagonista, como foi bem observado por Lily, era a cara do tio Bill Weasley. Santana já tinha visto o filme em Nova York com a irmã e a mãe e chorou o tempo todo a partir da meia hora final. Não queria repetir a dose e, por isso, distraiu-se nos lábios de Lily.

"Sei que vocês querem tirar o atraso, mas tem gente em casa." Albus sentou-se no sofá ao lado do casal e estranhou o DVD. "Quando isso entrou aqui em casa?"

"Comprei por uma pechincha na loja de usados." Santana explicou. "Quem sabe assim os Potters podem finalmente se inteirarem com o mundo lá fora mesmo com uma década de atraso."

"Não vivemos num casulo, Lopez." Albus retrucou.

"Essa televisão é do século passado... quando foi a última vez que ela foi ligada?"

"Minha mãe assiste a jogos as vezes." Lily explicou. "Mamãe está preparando uma série sobre porque o futebol é o esporte muggle mais popular."

"Você diz sobre o esporte que tem 22 caras em campo e ainda assim uma partida pode terminar em zero a zero? Isso nem eu entendo!"

"Falou a especialista em muggles." Albus desdenhou.

"Conheço muito mais do que você." Santana retrucou franzindo a testa. "Pelo menos eu conheço todas as trilogias de Star Wars enquanto vocês ainda se perguntam se os muggles de fato chegaram a Lua."

"O que um filme tem a ver com muggles na Lua?" Lily estava confusa com o argumento da namorada.

"Tudo se passa no espaço."

"Eu ainda pergunto..." Lily revirou os olhos.

"Você sabia que o homem foi a Lua por causa do Flash Gordon?" Santana continuou para o desgosto de Lily, Albus, por outro lado, estava interessado aonde aquela conversa daria.

"O que é Flash Gordon?"

"É um personagem das tiras de quadrinhos. Na história, ele inventa um foguete para salvar a Terra de um asteroide... não tenho certeza, mas é algo assim. Interessante é que um engenheiro da Nasa começou a fazer foguetes porque gostava muito dessas histórias. De certa forma, o homem foi a Lua por causa do Flash Gordon."

"Isso não me parece lógico." Albus não conseguia entender a relação que Santana tentava explicar.

"A ficção é impulsora das inovações, entende? Coisas como o submarino e o carro... tudo foi imaginado antes por escritores de ficção científica como Julio Verne. Os muggles são motivados por essas coisas. Bem mais do que nós. Eles imaginam algo e desenvolvem uma tecnologia. Acho isso legal."

"Não é por causa disso que eles estão destruindo tudo?" Lily rebateu.

"Também. Apesar de que acho que isso tem mais a ver com o dinheiro do que com a tecnologia. Mas isso não é um defeito só deles."

"É por isso que você está se transformando no terror dos tradicionalistas, San." Albus sorriu. "Nem mesmo o meu avô defende tanto os muggles quanto você."

"Só gosto de apreciar o melhor dos dois mundos."

"Taí algo que não dá para contestar." Lily desvencilhou-se da namorada e se levantou. Fez um pequeno alongamento, esticando os braços acima da cabeça. "Estão com fome? Vou preparar uns sanduíches."

"Ok." Albus sorriu para a irmã caçula e a observou andar em direção a cozinha da casa. Então tocou no ombro da amiga. "Então? Como foi o seu treino nas férias?" Perguntou sussurrando.

"Um pesadelo." Santana respondeu também em tom baixo. "Pensei um milhão de vezes em fugir de Kohadjo. Nem a visita do meu pai melhorou a situação."

"Meu pai disse que teremos um ano seguro."

"Pode até ser, Al, mas até quando? O seu pai não sabe onde está Evans. Ninguém sabe o que aquele idiota está fazendo ou com quem ele está."

"Tudo indica que é com Blaise Zabini."

"Isso não faz diferença nenhuma." Santana se remexeu desconfortável. "Eu ainda tenho pesadelo por causa daquele dia. Evans poderia ter me matado ali."

"Esquece isso, San."

"Como?"

"Olha... você foi formidável naquele dia. Quem consegue lutar com um braço quebrado? E você fez muito. Deveria ficar orgulhosa."

"Orgulho não vai salvar ninguém."

"Você não precisa salvar o mundo." Albus segurou o braço de Santana, tentando assegurá-la.

"Eu não quero salvar o mundo. Só quero viver a minha vida em paz."

"Mas você e todo resto só terão paz se você ganhar."

"Acontece que eu não sei até quando isso é verdade."

Santana se levantou do sofá e encarou Albus com o cenho fechado. Ele era mais um a colocar peso em seus ombros, e Santana estava ficando cansada disso. Mais uma vez pensamentos sobre fugir para bem longe povoaram sua mente. Entrou na cozinha e observou Lily terminando de montar três sanduiches. Sorriu para a namorada, que resolveu apelar para a mágica para terminar logo com o lanche. Lily andou até Santana, passou os braços em sua cintura e a puxou para um breve beijo nos lábios.

"Que tal lanche e depois sofá só para ser igual aqueles casais grudentos?"

"É uma ótima ideia."

Lily puxou Santana para um beijo mais prolongado. Ela não era boba. Ouviu toda a conversa de Santana com Albus. Só que, diferente do irmão, ela faria o possível para amenizar do peso da responsabilidade que a namorada poderia sentir. Pensava que a melhor forma de fazer isso era sendo ela mesma. Lily não poderia estar mais certa.