X.

Eles começaram a fazer parte da rotina um do outro. Rachel havia voltado para Nova Iorque. Pouco antes da partida, retomara o jeito simpático da primeira vez em que a encontrara.

Ollie estava mais segura a cada dia que passava. Comia melhor, dormia melhor. Perdera aquela aparência esquálida e todos reconheciam que ela nunca tinha estado tão bonita. Passadas três semanas, os namorados estavam caminhando para um impasse. Ficavam juntos quase todas as noites. Mas nada ainda havia acontecido.

Assistiam televisão ou filmes no dvd. Ela adorava filmes antigos. Era algo que eles compartilhavam .Ela conseguira que ele assistisse Casablanca, a começo meio contrariado. Peter acabara tão entretido nela, sobretudo no modo como ela chorava ao ver Humphrey Bogart e Ingrid Bergman separados no final, que pouco se lembrara do lamentável engano com a Olivia de seu próprio universo.

Ela visitou o seu apartamento. Inicialmente, Peter hesitara em razão do pouco conforto que tinha a oferecer, mas ela fez questão. E foi depois do jantar, enquanto ele arrumava a minúscula cozinha, que as coisas saíram do controle.

Ele havia servido uma lasanha, agora lavava a louça.

-Tem certeza que não quer que eu enxugue?

-Tenho, querida. Já estou quase terminando.

Era verdade. Tinha só duas peças de cada utensílio. Até então, não recebia visitas .

Ela ficou quieta por alguns instantes, depois foi para a sala. Algum tempo depois ele foi ao seu encontro. Ela estava perto da janela sentindo um vento fresco em seu rosto. Os cabelos louros se agitavam, mas ela não parecia se importar. Ele abraçou-a por trás, sentindo o cheiro doce de seus cabelos. Ela segurou suas mãos, mas elas se libertaram para percorrer, ansiosas, o corpo dela.

Peter sorriu. Ela ainda era magra, mas não era mais aquela criaturinha frágil, a pastora de porcelana de Sèvres. Ela girou a cabeça para que ele pudesse alcançar seus lábios. Ela sentia como que uma vertigem deliciosa. Ele girou-a, lentamente. Eles continuavam no beijo. Sentiam o desejo um do outro como uma coisa palpável, concreta. Nenhum dos dois soube como foram parar perto da mesa. Ele segurou-a pela cintura, e ela acabou sentada, com as pernas passadas em torno dele.

Quando ele começou a desabotoar sua blusa com as mãos desajeitadas, ela sorriu, e acabou ela mesma se livrando da roupa. No exato momento em que ele estava tirando a camiseta pela cabeça, o telefone tocou. Ela sussurrou com uma voz ofegante.

-Peter... não vai atender?

-Só você e a Senhora Calrson têm o meu telefone...-ele falou sem parar o que estava fazendo. Estava soltando a fivela do cinto. Mas, de repente, afastou-se dela e pegou o fone. Era mesmo a patroa.

-Knight?

-Sim, Senhora Carlson.

-Pode chegar uma hora mais cedo amanhã? Alfred vai precisar resolver um assunto no banco.

-Tudo bem.

Notou o tom lacônico e perguntou, sem cerimônia:

-Atrapalhei alguma coisa?

-Bem, Ollie está aqui comigo...

-Oh... sinto muito.

-Boa noite, senhora.

-Boa noite, Knight.

Ollie estava sorrindo. Acariciava o peito dele, lentamente.

-Peter Knight, o que fazer se as mulheres não vivem sem você?

-Não tem graça.

Ele se fez de sério, mas começou a dar beijos suaves no ombro dela, que gemeu baixinho.

-Por favor, não pare. Isso ...é muito bom.

Peter riu. Colocou a blusa em suas mãos.

-Vista, Ollie. Vou levá-la para casa.

-Pensei que poderia dormir aqui.

-A única cama é de solteiro. Iríamos acordar quebrados.

Ela parecia amuada. Desceu da mesa.

-Onde está minha bengala?

-Você está chateada?

-Não, você está certo. Nós dois trabalhamos amanhã.

Ela estava cabisbaixa. Peter segurou seu queixo.

-Ei, olhe para mim...

-Sabe que eu nunca vou poder olhar de verdade para você.

-Pare com isso, Ollie. Foi melhor assim. Queria que a nossa primeira vez fosse em cima de uma mesa de um apartamento medíocre?

-Não estou reclamando de nada. Pode me dar a bengala?

-Você não vai para casa enquanto não me disser o que houve. Por que está tão chateada?

O silêncio permaneceu, ela era obstinada. Ao que tudo indicava, passariam a noite ali.

Ele não aguentou muito tempo, abraçou-a e voltou a beijá-la. De repente sentiu que o rosto dela estava molhado.

-Sou louco por você, Ollie. Será que não percebe? Você deu sentido à minha vida.

-Ainda gosta dela, não? Da tal Olivia?

A alusão doeu como uma bofetada.

-Pare com isso, quer estragar tudo?

-Desculpe, Peter. Eu sinto ciúmes. Morro de ciúmes. Sabe, eu nunca dei sorte com namorados. Quero muito... Preciso muito que dê certo.

-Já está dando, não seja boba.

Ela pousou a cabeça no ombro dele e as dúvidas foram esquecidas, pelo menos por enquanto.