Reunião de Família


Primeira Parte - O Nascimento de uma Amizade


"Parabéns!" gritou Misato, ao ver o golpe desferido por Rei e Asuka no último Evangelion inimigo.

"Conseguimos..." murmurou Rei.

"Sim, conseguimos..." disse Asuka, como se quisesse convencer a si mesma de que aquilo não era um sonho.

Os cinco Evangelions estavam de pé, olhando uns para os outros.

Um turbilhão de emoções tomava conta de Shinji nesse momento. Eles tinham finalmente vencido seu maior desafio; mais que isso, ele próprio, Shinji, tinha conseguido vencer a si mesmo e finalmente lutara com todas as suas forças contra o inimigo.

Mas algo ainda perturbava Misato, no meio da comemoração pela vitória. Os Evangelions não tomaram a iniciativa para atacar. Em todas as ocasiões, quem tomou essa iniciativa foi um Eva da NERV.

'Isso não faz sentido...' pensava consigo mesma. 'Porquê eles estariam parados, se estavam bem na frente do alvo deles? Era como se eles estivessem esperando por alguma coisa...'

* * *

"Parabéns a todos", disse o Comandante, ao encontrar com os pilotos na área de lançamento dos Evas.

"Obrigado..." disse Shinji, encabulado.

"Ei, seu tonto... ele é seu pai, não é? Porquê você tá todo envergonhado??" perguntou Asuka.

"Porque... ainda não estou acostumado com esse tipo de coisa vindo dele..." disse Shinji, de modo que apenas Asuka pudesse ouvir.

Gendou percebeu esse pequeno diálogo entre os dois, e se aproximou.

"Asuka, porque você não vem jantar conosco hoje à noite?", convidou.

"Ahn... er... eu... adoraria..." disse Asuka, tão encabulada quanto Shinji.

O Comandante deixou sair um sorriso em seu rosto, e se afastou.

Misato, que estivera olhando a interação entre os três a alguma distância, não pôde deixar de sorrir também.

"Ei, vocês vão ficar aí o dia inteiro? Os outros já foram pro vestiário! Vamos, vocês dois, pra baixo do chuveiro também!", disse.

Ainda mais envergonhados, os dois seguiram para os vestiários.

* * *

Ao sair do vestiário, Shinji encontrou com Belldandy.

"Olá, Shinji-san!"

"Olá, Belldandy! Tudo bem?"

"Tudo bem. Meus parabéns, você lutou muito bem hoje."

"Ah... obrigado" disse Shinji, encabulado pelo cumprimento.

Belldandy notou, e preferiu mudar de assunto.

"Gostaria de jantar conosco lá em casa hoje?"

"Hoje...? Não vai dar... Asuka vai jantar lá em casa, meu pai a convidou agora há pouco..."

"Ah... que pena..." disse Belldandy, desapontada. "E que tal amanhã?"

"Amanhã... está bem, amanhã eu estarei lá", disse Shinji.

"Olá", disse Asuka, num tom desagradável, por trás de Shinji.

"Olá, Asuka-san", disse Belldandy, com um sorriso.

"Asuka... oi..." disse Shinji, tremendo.

"Sobre o quê vocês estavam falando?", perguntou Asuka.

"Ahn... nada demais... só estávamos falando sobre a batalha de hoje..." disse Shinji.

"Ah... sei..." disse Asuka, mudando de tom. "Obviamente vocês estavam falando de como eu me saí bem, certo Rei?"

"Com certeza", disse Rei, que chegava naquele instante. "Nossa performance foi inigualável", afirmou, com um sorriso no rosto.

"Vocês duas com certeza têm bastante auto-confiança..." disse Kaworu, chegando logo atrás. "Não acha, Major?" disse, dirigindo-se a Belldandy.

"S-sim, claro..." disse Belldandy, presa pelo olhar de Kaworu.

"Até logo", disse, começando a se afastar, em direção à saída.

"E-espere!" disse Shinji. "Nós vamos jantar juntos hoje, você não quer ir conosco?"

Kaworu se voltou, olhando para o grupo que deixara pra trás.

Shinji tinha um olhar de dúvida, olhando alternadamente para ele e para o chão. Parecfia mal saber por quê tinha feito aquele convite. Asuka lançava um olhar raivoso para Shinji, provavelmente contrariada com alguma coisa. Típico. Rei o observava com seus olhos vermelhos e perscrutadores. Hikari, alheia ao que se passava, ajeitava algumas dobras de seu uniforme de escola. Belldandy, estando atrás do grupo, era a única ali cujo olhar Kaworu não conseguia decifrar. Ele não conseguiria saber o que se passava na mente dela apenas com o olhar.

De qualquer forma, seu olhar era um tanto ameaçador. Ela não tinha a expressão fechada, mas seu olhar obviamente revelava uma certa hostilidade.

"Não, mas muito obrigado pelo convite", respondeu Kaworu. Sem dizer mais nada, virou-se e foi embora.

"Que idéia foi essa??" perguntou Asuka, revoltada, assim que ficou a sós com Shinji, no elevador.

"Como assim...?"

"Essa idéia maluca de convidar aquele cara pra jantar com a gente! E ainda por cima falar que era todo mundo!! O seu pai convidou apenas a mim, então só eu deveria ir!!"

"Calma Asuka..." disse Shinji, receoso. "É apenas um jantar... e depois, nós não estaríamos sozinhos mesmo... a Rei estaria conosco... ela mora lá em casa também, lembra?"

"Não interessa! Você poderia pelo menos ter perguntado pra mim!" exclamou Asuka, se afastando.

"Asuka! Espere!" disse Shinji, mas já era tarde demais. Asuka saíra do elevador e a porta se fechara.

* * *

Shinji passou o resto do dia em agonia, até a noite, quando foi para casa com seu pai e Rei.

"Asuka não viria conosco?", perguntou Rei.

"Não, ela vai aparecer depois lá em casa", respondeu Shinji, sem ter muita certeza se Asuka realmente apareceria.

"É bom ela aparecer, porque hoje eu vou cozinhar..." comentou Gendou.

"Você...? Cozinhar??" perguntou Shinji, descrente.

"Por quê... você duvida?"

"A comida do Comandante é excelente, Shinji. Creio que você vai gostar", disse Rei.

"Não é sempre que eu cozinho", disse Gendou. "Mas hoje é uma ocasião importante."

Shinji permaneceu calado, surpreso por saber que seu pai iria fazer a janta naquele dia. Mas o que realmente o perturbava era o fato de Asuka ter ficado irritada, por um motivo que ele ainda não sabia direito qual era.

Os três chegaram ao apartamento, depois de uma passada rápida num mercado. Rei foi para seu quarto, dizendo que ia estudar.

"Me chamem quando estiver pronto", disse.

Shinji e Gendou sentaram-se um pouco na sala. Shinji ia ligar a televisão, mas foi interrompido por Gendou.

"Shinji... está tudo bem?"

"Sim, claro... por quê?"

"Porque você está pensativo demais desde que deixamos o QG... o que houve?"

"Eu não sei..." disse Shinji, evasivo.

"Como assim?"

"Asuka ficou irritada comigo, mas eu não sei por quê..."

"Ah... entendo. Essas coisas acontecem... Veja, Shinji, quando nos relacionamos com uma mulher precisamos ser atentos a tudo... às vezes um pequeno detalhe no momento errado é suficiente para por tudo a perder..."

"Por quê elas têm que ser tão detalhistas?"

"Não sei, Shinji... elas apenas são assim e temos que aceitá-las do jeito que são... provavelmente Asuka estava com ciúmes de você... eu te vi conversando com a Major Belldandy quando você saiu do vestiário... provavelmente ela não gostou disso... e conhecendo Asuka, isso é bem possível..."

"É... tem razão..." disse Shinji, pensativo. "Agora que você falou, realmente a Asuka é um tanto possessiva..."

Os dois ficaram em silêncio por um momento.

"A minha mãe era assim também...?" perguntou Shinji.

"A sua mãe...? Não, ela tinha ciúmes às vezes, mas nunca foi tão possessiva... mas eu devo confessar que ela não gostava muito quando eu estava junto com Naoko, por exemplo..."

"Com quem...?" perguntou Shinji, confuso.

"Akagi Naoko. A mãe de Ritsuko. Ela trabalhou na NERV há vários anos atrás...", disse Gendou. Por um momento, sua expressão ficou sombria.

"A mãe da Dra. Ritsuko...?"

Pai e filho ficaram novamente quietos.

Gendou finalmente se levantou.

"Bem, é hora de começar a preparar as coisas. Asuka deve chegar logo..."

"Certo... mas você acha mesmo que ela vem? Ela ficou tão aborrecida hoje..." disse Shinji, em dúvida a respeito de Asuka.

"É claro que vem... não é uma coisa dessas que a impediria de vir... além disso, ela é orgulhosa demais para fugir assim de você..." disse Gendou, piscando um olho.

Shinji não pôde conter um sorriso ao pensar nesse traço da personalidade de Asuka. O orgulho dela de fato já havia sido fonte de situações bem engraçadas...

* * *

Asuka passou o resto do dia evitando Shinji. Assim que se separou dele no elevador, fora embora do QG e ainda estava em dúvida a respeito do que fazer. Não sabia se ia sua casa ou para a casa de Shinji, ou se ficava por ali mesmo.

Ela estivera andando por toda a tarde, a esmo por Tokyo-3. Naquele momento, o sol estava se pondo atrás do Monte Fuji, que aparecia ao longe no horizonte.

Uma noite de céu estrelado agora se colocava no lugar do azul que quase sempre dominava os céus daquela região.

Asuka estava, agora, no mirante onde, semanas antes, Belldandy encontrara suas irmãs.

Uma sirene tocou, sinalizando que os prédios estavam prestes a subir novamente para a superfície. O chão de Tokyo-3 se abriu em alguns pontos, e desses lugares começaram a emergir os altos prédios que compunham a cidade. `

Durante os minutos que se passaram enquanto os prédios iam se erguendo aos poucos, bloqueando parcialmente a vista do horizonte, Asuka ia repassando em sua mente tudo o que acontecera entre ela e Shinji.

A luta juntos, na Unidade 2, contra o Anjo, no meio do mar.

A semana que passaram trancados no mesmo quarto, obrigados por Misato a se sincronizar para derrotar outro Anjo.

A difícil separação quando houve aquele "incidente" com Belldandy.

Como ela se sentira sozinha quanto ficou longe dele.

Como ela ficara preocupada quando soubera que Shinji havia sido absorvido pela Unidade 1.

O alívio de ver Shinji vivo e bem.

A felicidade de finalmente saber que ele sentia por ela o mesmo que ela sentia por ele.

O sentimento amargo de ver como Shinji se dava bem com outras garotas.

Com Rei.

Com Belldandy.

Até mesmo com Hikari.

O ciúme.

No momento em que essa palavra passou pela sua mente, foi como se ela tivesse acordado de um sonho. Um sonho ruim. Ela arregalou os olhos, e olhou para trás.

"O que...?"

"Shinji e o Comandante estão preocupados com você", disse Rei, aproximando-se lentamente e se apoiando no pára-peito, ao lado dela.

"Como você sabia que eu estaria aqui?" pergundou Asuka.

"Não sei. Algo me disse que você estaria aqui, e que eu deveria vir te encontrar. Isso é tudo."

"Sei... típico de você... pra quê esse mistério todo?"

"Mistério...?"

"Claro... você nunca fala de si mesma, e ninguém sabe quase nada sobre você... você é uma incógnita, sabia?"

Rei pensou por um momento.

"Eu sou...? Porquê?"

"Mas é óbvio! É porque você não tem sentimentos! Ninguém nunca viu você sorrir ou chorar, é sempre essa máquina, sem mostrar emoção nenhuma..."

"Não tenho...?" disse Rei, hesitando por um momento. Sim, aquilo era verdade. Ela não tinha sentimentos. Afinal, Rei mal conhecia a sensação de rir ou chorar, ficar chateada ou com raiva. Por isso, era justo dizer que ela não tinha sentimentos.

Não era?

Não.

Isso era uma mentira. Asuka estava enganando a si mesma, e aos outros. Rei tinha sentimentos, mas eles jamais haviam despertado. Foram Shinji e Belldandy que mostraram isso a ela. Aos poucos, seus sentimentos vinham à tona, mostrando-lhe que a vida vale a pena ser vivida, não porque ela seja boa ou ruim, justa ou injusta. Mas porque só a experiência de viver como um ser humano já valia por si só mais que todos os tesouros do mundo.

E então, Rei conheceu mais um sentimento.

A Raiva.

Asuka já tinha esses sentimentos, mas não era capaz de entendê-los. Como ela podia escondê-los assim? Porquê ela tinha vergonha disso? Isso deveria ser motivo de orgulho!

E outro sentimento apareceu.

A Pena.

Asuka devia ter se machucado muito no passado, por causa desses sentimentos. E, por não saber lidar com isso, preferiu escondê-los atrás de uma carapaça que, julgara, seria intransponível.

Doce ilusão.

Essa era a sua maior mostra de fragilidade.

E, finalmente, um terceiro sentimento apareceu.

A Simpatia.

Asuka, apesar de tudo, também era humana. Afinal, qual pessoa que nunca escondera seus sentimentos pelo menos uma vez? Quem poderia julgar Asuka? Quem poderia acusá-la? Todos têm coisas que não querem mostrar às outras pessoas. Sentimentos, sensações, desejos.

Esconder isso é absolutamente normal.

Rei, então, finalmente entendeu o que Belldandy lhe explicara há tempos.

E abriu um sorriso reconfortante para Asuka.

Asuka, por sua vez, ficou espantada. Ela nunca vira Rei demonstrar qualquer sentimento antes e aquele sorriso era, no mínimo, perturbador.

Mas era, ao mesmo tempo, tranqüilo e acolhedor.

"Sim, Asuka... eu tenho sentimentos. Mas eles foram crescendo aos poucos, e hoje, finalmente, graças a você eu entendi o que eles significam para mim. Entendi porquê estou aqui. E eu quero que você entenda, assim como eu mesma preciso entender... mas isso é algo que você deve alcançar por si mesma.

O que eu posso dizer a você é que você não deve nunca fugir de si mesma, nem de seus sentimentos, porque eles nunca a abandonarão. Você não está sozinha, e seus sentimentos provam isso. Eles são sua ligação com as outras pessoas."

Asuka repentinamente se sentiu envergonhada pelo que disse. De fato, estava muito impressionada em ver Rei não apenas mostrando algum sentimento como também ensinando-lhe algo a respeito.

Um sorriso triste tomou seus lábios.

"Hmm... parece que sou eu que não entendo nada... sou eu a inútil aqui..."

"Asuka... não tente enganar a si mesma", disse Rei.

"Eu só estou dizendo a verdade... nem mesmo pilotar o Eva, algo que eu nasci pra fazer, eu consigo direito..." disse, com os olhos lacrimejando.

Rei deixou o sorriso sair de seu rosto, e adquiriu uma expressão séria. Avançou até Asuka e a encarou.

Mas Asuka desviava o olhar.

"Asuka... deixe disso..."

"É a pura verdade..." disse Asuka.

Rei permaneceu em silêncio, mas sua mão deixou uma marca vermelha no rosto de Asuka.

Asuka, espantada, levou a mão até a região que ficara vermelha, com a marca da mão de Rei.

Rei, por sua vez, encarava Asuka furiosamente.

"Olhe o que você está dizendo! Você acha que alguém vem para este mundo sem nenhum propósito? Isso é um absurdo. Tão absurdo quanto dizer que você nasceu para pilotar o Eva."

"Mas... então... por quê eu estou aqui?!" perguntou Asuka, cobrindo os olhos com as mãos. "Me diga! Porquê? Por quê?!"

Asuka agachara-se no chão, com as mãos cobrindo os olhos, tentando conter as lágrimas. Ela já não podia mais segurar a ansiedade que a perseguia há tanto tempo.

Quando acabassem os Anjos, e não houvesse mais necessidade do Eva, o que seria dela? Para onde ela iria? O que ela faria?

Rei agachou-se também, junto a Asuka.

"Asuka... não fique assim. Você não nasceu para pilotar o Eva... eu tenho certeza que há um propósito para você estar aqui. Você não deve temer o futuro... ele ainda não foi decidido. Pilotar o Evangelion é algo que você pode e deve fazer. Mas isso não deve se tornar tudo o que tem sentido em sua vida. Você não deve deixar que apenas isso signifique tudo para você. Há tantas outras coisas em que pensar! Você é super-dotada, já se formou na faculdade. É uma menina linda que tem o respeito de tanta gente... você sempre mostrou ser forte e decidida, pois mostre isso uma vez mais. Mostre que você não depende do Evangelion. Você tem pessoas em quem confiar."

"Não... eu não quero confiar em mais ninguém... eu não quero me machucar de novo..."

Rei abraçou Asuka, e deixou que ela chorasse até adormecer.

* * *

Asuka estava de pé, em algum lugar desconhecido. Havia tanta neblina que era impossível dizer onde ela estava.

Então, ela ouviu uma voz.

'Asu-chan, venha comigo!'

"Mamãe!" exclamou Asuka, voltando-se na direção da voz.

'Asu-chan... vamos juntas para um lugar melhor...'

"Mamãe! Onde você está?!"

'Asu-chan... seu pai não vai mais voltar a nos ver... ele nos abandonou... vamos mostrar a ele que ele não pode fazer isso com a gente...'

'Mamãe... eu não quero fazer isso... a gente pode viver sem ele... vamos embora!'

A silhueta de uma mulher numa cama, acompanhada de uma menina, formou-se lentamente na neblina.

'Asu-chan... vamos, isso será melhor para nós...'

'Não! Mamãe, não!'

A menina, com medo, sai correndo. A mãe a observa por alguns momentos. Depois, pega a boneca, que a menina deixara para trás.

'Isso mesmo, Asu-chan... seja uma boa menina...'

A silhueta some.

Outra aparece.

É novamente a menina, rodeada de outras pessoas. Todas elas usam jaleco, exceto uma, que está apoiada na parede. Ela tem uma forma bem definida, parece uma mulher muito bonita, de cabelos negros muito escuros, que davam a impressão de serem roxos.

A menina está rodeada de cientistas ao seu redor.

'Meus parabéns, Asuka-chan. Você foi escolhida para nos ajudar a salvar o mundo. Vê aquele robô ali? É você que vai pilotá-lo. Não é bom?'

'Você vai salvar o mundo...'

'Você nasceu para isso...'

'Parabéns...'

Em meio aos cumprimentos, a menina e todos os que estavam à sua volta desaparecem na neblina.

Asuka, confusa, olha em redor, procurando uma saída.

"O que está acontecendo...?"

"Você não se lembra?", pergunta uma voz de criança.

Asuka se volta para a origem da voz. A menina aparece, agora claramente. Ela segura uma pequena boneca de pano nas mãos.

"Você... sou eu?"

"Sim... e não. Sou você, esquecida há muitos anos atrás... por causa do que aconteceu conosco, você me fechou dentro de si mesma e se esqueceu de mim... foi muito solitário... e muito triste", disse a menina. "Desde então, nunca mais fomos as mesmas. Sempre tentamos afastar os outros, usando uma casca fingíamos ser impenetrável e perfeita. Mas essa casca era o nosso ponto fraco, e nos recusamos a perceber isso."

"Eu... eu nunca usei nenhuma casca! Eu não tenho nada a esconder!" disse Asuka, tentando afirmar isso para si mesma.

"Ah... não?" disse a menina. "Veremos."

Dizendo isso, ela desapareceu.

"Ei! Aonde você vai?!"

De repente, Asuka começou a notar que sua pele começava a se rachar, como se fosse um ovo. Mais e mais, pedaços de sua pela caíam no chão, e ela, desesperada, tentava recuperá-los, sem sucesso.

Então, tudo caiu. Toda a casca. E Asuka se viu novamente como uma menina de quatro anos de idade.

Então, seu pai veio falar com ela.

"Asuka-chan... eles escolheram você. A partir de hoje, você vai ter que treinar muito duro, porque a sua missão será salvar o mundo. É algo muito nobre, você não acha?"

"Papai..."

"Hein, Asuka-chan? Não é legal? Agora você poderá vir comigo todos os dias. Nunca mais vamos nos separar!"

Asuka sentiu-se feliz por aquilo. Ela não ia mais se separar de seu pai. Agora só faltava fazer com que ele e sua mãe se reconciliassem.

Ela não via a hora de contar isso para sua mãe.

E foi correndo para o quarto dela.

"Mamãe! Eu fui a escolhida! Eu vou ajudar a salvar o mundo! Eu vou pilotar o Evangelion! Agora vamos poder ficar todos juntos!"

Asuka correu para o quarto de sua mãe, para contar-lhe.

Mas, ao chegar lá, então aconteceu.

Asuka viu sua mãe pendurada, no teto, e sua boneca ao seu lado. Ambas enforcadas.

Sua mãe cometera suicídio, e tentara fazer o mesmo com ela.

* * *

"NÃÃÃOOOOO!!!!!!!" gritou Asuka, de repente.

Ela olhou em volta. Estava no seu quarto, no apartamento de Misato. Rei estava sentada ao seu lado, olhando para ela com um sorriso plácido.

"Está tudo bem, Asuka... está tudo bem agora..."

Asuka continuou chorando, e adormeceu novamente, no colo de Rei.

* * *

Novamente, o mesmo lugar desconhecido.

Asuka estava agora usando seu uniforme de escola normal.

À sua frente, apareceu novamente a Asuka criança.

"Você se lembra agora?", perguntou.

"Sim. Eu me lembro... mas porque a mamãe ficou daquele jeito?"

"Um experimento com o Eva falhou. Ela estava no cockpit, mas depois de sair de lá, teve de ser internada na ala psiquiátrica."

"Ela... enlouqueceu...?"

"Não exatamente... seria mais preciso dizer que ela perdeu sua alma para o Eva..."

"Perdeu a alma...?"

"Sim. O Eva absorveu a alma dela. O que significa que a consciência dela, o verdadeiro eu dela, ainda está no Eva."

"Então... aquela sensação esquisita que eu tenho quando estou no Eva..."

"Sim... é ela ali, junto conosco..."

Asuka arregalou os olhos.

"Então... ela nunca nos abandonou..." disse, com os olhos cheios de lágrimas.

"Sim..." disse a pequena Asuka, com os olhos igualmente lacrimejantes. "E nós culpamos o Papai por tantos anos por nada... nem pudemos dizer a ele o quanto o amávamos..." disse, andando na direção de Asuka.

Quanto mais ela se aproximava, mais parecidas as duas ficavam.

"Papai... por favor nos perdoe..." disse Asuka, deixando uma lágrima escorrer por seu rosto.

"Eu tenho certeza de que ele nos perdoará, quando nos encontrarmos novamente..."

"Você acha...?"

"Com certeza", disse, com um sorriso. Uma lágrima escorreu pelos seus rostos.

As duas se abraçaram, e uma luz muito brilhante cobriu tudo.

* * *

Asuka abriu os olhos novamente. A luz do sol entrava em seu quarto, banhando a cama com o calor da manhã.

Rei não estava mais ali.

Asuka levantou-se, e foi até a janela.

Um esplêndido dia de sol se espalhava por tudo, enquanto os prédios mais altos de Tokyo-3 eram recolhidos.

Asuka nunca se sentira tão bem como naquele dia.

Levantou-se e saiu do quarto, indo em direção ao banheiro para tomar uma ducha.

Convenientemente era sábado, de modo que ela não precisava se preocupar com o fato de que já eram cerca de nove e meia da manhã.

Misato não estava em casa; provavelmente, a essa hora ela estava na NERV, tomando providências para que o ataque da Série Evangelion fosse devidamente documentado e arquivado...

Terminou a ducha depois de um longo tempo relaxando sob o jato forte do chuveiro e resolveu comer alguma coisa.

Preparou um ovo frito, que comeu com torradas e um copo de suco de laranja.

Afora isso, Asuka não sabia preparar quase nada na cozinha, então estava satisfeita.

PenPen só acordou quando ouviu a porta bater, indicando que Asuka saíra.

* * *

Asuka tinha um destino certo ao sair do apartamento. Só não sabia se encontraria Rei sozinha no apartamento. Talvez Shinji estivesse com ela. Por enquanto, porém, ela esperava não encontrá-lo. Precisava conversar com Rei primeiro.

O que Asuka não sabia era que Rei já previra essa sua atitude, e por isso convencera Shinji a sair de casa bem cedo naquele dia. No momento em que Asuka entrou no prédio, Shinji estava indo com Kensuke e Touji acampar do outro lado do Lago Ashinoko.

Desse modo, quando Asuka, hesitante, tocou a campainha, não havia outra pessoa que poderia tê-la atendido, senão Rei.

"Olá... eu sabia que você viria."

"Sabia...? Como?" perguntou Asuka, confusa.

"Você não gosta de ficar sem explicações..."

Asuka encarou Rei por um instante.

"É... acho que você tem razão", disse, com um sorriso no rosto.

"...o que houve ontem à noite?" perguntou, finalmente, Asuka.

"Em que sentido?"

"O que aconteceu comigo..."

"Bem... eu não saberia dizer. Para ser sincera, eu mal sei dizer o que aconteceu comigo..."

"Como assim...?"

"Bem... até ontem à noite, eu ainda não sabia direito o que significava ter sentimentos verdadeiros. A nossa... conversa de ontem... acho que mexeu comigo de alguma forma... de tal modo que na última noite eu experimentei mais emoções que jamais havia sentido na vida... mal consegui dormir, para ser sincera..." disse Rei, enrubescida.

Asuka olhava espantada para essa transformação de Rei. A menina fria e objetiva que ela conhecera havia desaparecido completamente. Até o dia anterior, ela havia mudado consideravelmente, com certeza. Mas alguma mudança espetacular parecia ter ocorrido com ela na última noite.

De certa forma, Asuka acreditava que o mesmo havia acontecido com ela. Algo mudara profundamente dentro dela mesma. Aquele sonho aparentemente não havia sido apenas um sonho...

Ainda em dúvida, Asuka resolveu se abrir com Rei, e contou o que acontecera nos dois sonhos que tivera; como encontrara a si mesma ainda com quatro anos de idade e relembrara os momentos mais amargos de sua vida; como, ao acordar, encontrara Rei, ali, ao lado dela, e como ela lhe dera conforto quando precisara.

"Obrigada, Rei..." disse Asuka, ainda um pouco embaraçada por estar tendo essa conversa com alguém com quem mal se dava meses antes. "Nem acredito que estou te chamando pelo nome... antes eu te chamaria de Garota Maravilha e ficaria te ofendendo..."

"Não se preocupe com isso, Asuka... nós duas mudamos muito de lá para cá, e acredito que tenha sido para melhor."

"Sim... você está certa..."

Rei e Asuka ficaram conversando ali o resto do dia, sem serem perturbadas nem por Gendou, que estava no QG, nem por Shinji, que estava acampando com os amigos.

Fim da Primeira Parte


Segunda Parte – O Princípio do Fim


O fim de semana passou sem nenhum problema. Shinji estivera acampando com Kensuke e Touji, Gendou ficara no QG e Asuka e Rei permaneceram inseparáveis.

Belldandy passara o fim de semana junto com Keiichi e suas irmãs, em alerta contra aquele que elas acreditavam que seria o último Anjo, embora nada tenha acontecido.

Na segunda-feira pela manhã, Shinji acordou cedo e foi logo prepara o café da manhã. No entanto, alguém já havia feito isso antes.

"Bom dia", disse Gendou.

"B-bom dia..." disse Shinji, surpreso.

"Surpreso?"

"Ahn... sim... um pouco..."

"Por quê? Eu já cozinhei aqui antes."

"É... mas isso é diferente..." disse Shinji, vacilante.

"Só porque é café da manhã?"

"Bom dia", disse Rei, surpreendendo os dois. Desde sexta-feira, quando passara a noite na casa de Misato, ela andava... diferente. Ela estava com um brilho diferente no olhar, como se algo tivesse mudado radicalmente.

Ela andou até a mesa, colocou suco de laranja num copo e pegou algumas torradas com ovos mexidos.

"Shinji, é melhor você comer alguma coisa antes da gente sair, senão você vai ficar com fome até a hora do almoço..."

"S-sim, certo..." disse Shinji, indo até a mesa e pegando algo para comer também.

* * *

Asuka acordou sentindo-se muito bem naquela segunda-feira. Levantou-se cedo, tomou um banho e preparou o café da manhã, ao estilo alemão, como há muito tempo não fazia.

Misato levantou um pouco depois, quando Asuka já estava terminando de comer, da maneira usual: coçando a barriga e resmungando um 'bom dia'. Depois, pegou uma cerveja e acabou com ela em um gole só. Com o seu grito usual, disse:

"Ah... essa é a melhor maneira de se começar o dia!"

"Bom dia pra você também, Misato..." disse Asuka.

"Bom dia Asuka... quem preparou o café?"

"Fui eu", disse Asuka, triunfante.

"Você...?" perguntou Misato, descrente. "Duvido."

Inesperadamente, Asuka não respondeu como Misato esperava, isto é, esbravejando.

"Então tá...", disse Asuka, dando de ombros. Depois, pegou a louça e a lavou.

Misato observou tudo aquilo perplexa. O que poderia ter acontecido para que Asuka mudasse de forma tão brusca em tão pouco tempo? Há apenas alguns dias, Asuka tomava no máximo um suco de laranja no café da manhã e nem sequer lavava o copo. Agora, tomava suco espremido na hora, cozinhava o café e lavava a louça depois.

'O que diabos aconteceu com ela...?' perguntava Misato a si mesma.

Mais ou menos nesse momento, a campainha tocou, como se estivesse esperando Asuka terminar de lavar a louça.

"Já vou indo!" falou Asuka.

"Cuide-se!" respondeu Misato.

* * *

Nesse momento, Rei e Shinji estavam esperando na portaria do prédio. Logo a porta do elevador se abriu e Asuka saiu, indo ao encontro deles.

"Bom dia!", disse Asuka.

"Bom dia!", respondeu Rei.

Shinji ficou um pouco inseguro, pois não sabia como agir; Asuka estava tão furiosa da última vez que ele a vira que ele nem mesmo sabia como responder ao cumprimento.

No entanto, para sua surpresa, Asuka pegou em sua mão e os três começaram a andar, a caminho da escola.

"Anda logo, Shinji, senão você vai acabar atrasando a gente!"

"T-tá..."

Pouco depois, eles encontraram Touji e Kensuke, que os esperavam no lugar de sempre.

Shinji olhou em volta, para seus amigos, e imaginou se aquela era a vida que um adolescente normal levaria.

Mas ele sabia que isso não duraria muito tempo. Logo todos se separariam, logo tudo aquilo à sua volta seria destruído e todos voltariam a se machucar, pela distância, pela impossibilidade de estar com aqueles que amam...

Seus medos mais antigos ameaçavam novamente voltar a dominá-lo.

"Ei, presta atenção no que eu estou falando!!" berrou Asuka em seu ouvido, fazendo-o despertar.

Shinji olhou espantado e percebeu que eles já haviam chegado à escola. Olhou à sua volta e todos estavam olhando para ele.

"Desculpe..."

"Ah não... já vai começar de novo..." disse Asuka, num tom de zombaria.

"Ahn..."

Shinji não sabia o que falar; se ele se desculpasse de novo, com certeza absoluta Asuka aproveitaria a chance. Preferiu, portanto, ficar quieto.

"Hmm... acho que ele aprendeu..." disse Touji. Todos riram com o comentário.

Shinji, vermelho, apenas foi em direção à sala de aula.

Minutos depois, todos já estavam na sala de aula, com os outros alunos do 2-A.

Hikari, observando a maneira como Asuka tratava Shinji, resolveu conversar com Rei.

"Você não acha que a Asuka é meio... agressiva com o Ikari-kun?"

"Não. É a maneira deles se relacionarem", respondeu Rei.

"Você acha...? Eu não sei... se eu fosse ele, não sei se eu aceitaria ser tratada desse jeito..."

"Aquele é o jeito de Asuka mostrar o quanto se importa com ele... você não a vê fazendo isso com mais ninguém, vê?"

Hikari preferiu não falar mais nada. Reparando em Asuka e Shinji, ela chegou a ter mesmo a impressão de que eles gostavam que as coisas fosse como eram.

Mas Shinji estava com a cabeça longe dali. Algo o perturbava: Belldandy. Ela não vinha agindo como antes nos últimos dias, e ele desconfiava que isso tinha algo a ver com o novo piloto. Shinji sabia que Belldandy estava preocupada com a chegada de mais um Anjo, que segundo ela era quem estava por trás de tudo.

De fato, Belldandy sequer vinha aparecendo muito. Ele não a via já há alguns dias.

A aula começou, mas mesmo com o sono que ela proporcionava Shinji não conseguiu tirar da mente a preocupação; visto que as coisas tinham voltado ao normal com Asuka, sua mente se esforçava ao tentar entender o que tudo isso significava...

* * *

Nesse momento, Kaworu entrava no QG da NERV.

Caminhava com passos firmes através dos corredores e passava sem dificuldade pelos guardas, que não estranhavam a sua presença ali, devido ao fato de estarem acostumados a testes com os outros pilotos no horário de aulas. Por isso, nenhum deles pensou em perguntar o que o garoto fazia ali.

Se eles perguntassem, saberiam que a presença de Kaworu ali não era necessária naquele momento.

De fato, Kaworu não estava ali para fazer nenhum teste. Ele estava ali para finalmente executar o seu real propósito.

Foi quando ele passou pelo refeitório que Belldandy notou a sua presença ali. Ela não teve dúvidas: passou a segui-lo.

Ele estava indo ao Centro de Comando, pelo que indicava seu caminho. No entanto, antes de entrar na Ponte, onde estavam naquele momento os operadores, ele desviou e entrou num elevador. Belldandy esperou pacientemente até que o elevador voltasse e entrou, descobrindo sem nenhuma dificuldado o andar para onde ele ia: o andar do Comando Central, o escritório do Comandante.

Kaworu entrou no escritório, mas Belldandy preferiu esperar do lado de fora; ela poderia escutar a conversa sem problemas dali mesmo e assim não revelaria a sua presença.

Gendou olhou para kaworu, levantando uma sobrancelha.

"Então... finalmente nos conhecemos, Comandante Ikari."

"Olá... finalmente você resolveu aparecer", respondeu Gendou.

"Sim, é verdade... eu fiquei curioso para saber quem foi o traidor que Keel colocou como chefe da NERV..."

"Você não esperava por isso? A NERV foi criada para lutar contra vocês."

"Pelo contrário. Você superou todas as minhas expectativas. Derrotou muitos de nós até agora. Mas eu duvido que vocês vão sobreviver. Vocês com certeza são bem mais difíceis de destruir do que eu pensei a princípio; talvez eu tenha adiado isso por tempo demais. Cinqüenta anos atrás vocês não teriam chance nenhuma."

"Provavelmente. Mas hoje a situação é diferente. Você nos subestimou. Agora, nós temos o poder para impedi-lo."

"Duvido. Quero ver você me impedir."

"Eu não preciso. Outros farão isso."

Kaworu lançou um sorriso sarcástico para Gendou, que o encarou com a cara fechada.

Depois disso, ele saiu da sala.

Belldandy se escondeu como pode, e assim que foi possível foi atrás de Kaworu.

Kaworu estava voltando pelo caminho que fizera anteriormente quando, de repente, parou no meio do caminho.

"Até quando você vai se esconder, Belldandy?"

Percebendo que não havia escolha, Belldandy resolveu sair das sombras e aparecer na frente dele.

"Você realmente achou que eu não ia perceber você me seguindo?"

"Não... eu apenas queria ver até onde você pretende continuar com o seu erro."

"Erro? Eu não erro, minha cara deusa. Só há um que errou, e eu vou consertar o erro dele hoje."

Belldandy não conseguiu ficar passiva ao ouvir aquilo; ela deu um passo à frente e deu um tapa violento em Kaworu.

"Isso é jeito de falar do Criador?! Ele lhe deu uma missão, um propósito! Como você pode renegar o sentido da sua própria existência?!"

Kaworu finalmente adquiriu uma expressão fechada.

"Você diz isso porque tem um lar... você diz isso porque não precisa se preocupar em ter um lugar para onde voltar. Aliás, você é a última que poderia me repreender. Você não tem apenas o Céu, mas também quer a Terra. Belo exemplo!"

"Você não vai conseguir comigo o resultado que você consegue com os outros, falando essas mentiras. Meus motivos são completamente diferentes dos seus. Você tem sido egoísta e invejoso, e desconsiderou a sua missão! Você nem mesmo chegou a compreender a importância da sua tarefa!"

"Já chega. Não devo explicações a você. Eu sei muito bem o que faço, e estou apenas garantindo o que me foi negado."

Dizendo isso, Kaworu se voltou e foi andando na direção do elevador. Parou novamente, no meio do caminho, e disse:

"Só para garantir, vou arrumar uma distração para vocês", disse, e com isso fez um gesto com a mão.

Belldandy caiu desmaiada no chão ao mesmo tempo que as sirenes de Tokyo-3 começaram a tocar.

* * *

O Alarme despertou todos os que estavam na aula naquele momento; Shinji saiu de seu estado de pensamento e voltou à realidade, para encarar os companheiros e ouvir seus celulares tocarem imediatamente.

Eles nem sequer precisavam atender seus telefones para saber o que ouviriam; eram requisitados imediatamente no Geofront. Uma nova ameaça havia sido detectada.

Rapidamente a sala de aula foi evacuada, bem como o restante da escola; os estudantes, funcionários e professores, com exceção de Rei, Shinji, Asuka, Hikari e Kensuke foram direcionados para o abrigo.

* * *

Quando chegaram ao QG da NERV, Shinji e os outros encontraram uma situação completamente inesperada: não havia um Anjo atacando Tokyo-3; havia vários.

"Mais de 10 já foram confirmados", disse Misato. "E esse número não pára de aumentar."

Nada mais precisava ser dito; os Evangelions já estavam sendo preparados e deviam ser lançados imediatamente; todo o pessoal não essencial estava agora à procura da Quinta Criança, Kaworu, que estava desaparecido.

Assim que os Evangelions foram ficando prontos, bem como seus respectivos pilotos, eles foram sendo lançados; a primeira a ir à superfície foi Rei, seguida por Asuka, Shinji e Hikari.

A visão era assustadora; de todos os lados vinham seres gigantes de todo tipo de forma, aproximando-se da região central de Tokyo-3. Ao contrário dos Anjos anteriores, no entanto, esses agora procuravam destruir o máximo possível nos lugares onde passavam.

"Vamos detê-los antes que destruam a cidade inteira!" disse Rei.

"Certo!" responderam os outros.

* * *

Kaworu se movimentava lentamente e sem chamar a atenção, em direção ao subsolo do Quartel General. Nenhum dos membros da NERV que passava por ele o reconhecia, pois ele sabia que era procurado dentro do GQ e por isso estava disfarçado; olhos humanos não poderiam distingui-lo da parede, ou do teto; ele se camuflava como um camaleão, adaptando-se ao seu "ambiente" para evitar ser notado.

* * *

Urd e Skuld sentiram um sobressalto repentino, enquanto passeavam por Tokyo-3. No mesmo instante, as sirenes começaram a tocar; elas se entreolharam e, imediatamente, correram de volta para o apartamento. Encontraram Keiichi ali, igualmente preocupado.

"A Belldandy não está aqui??" perguntou Urd, já antevendo a resposta.

"Não... eu acho que ela está no QG..." disse Keiichi. "Temos que ir atrás dela. Eu acho que algo terrível está para acontecer!"

Os três se apressaram para chegar ao Quartel General, mesmo embora não soubessem direito onde ele se localizava. Tudo que sabiam era que ele era subterrâneo; Skuld levaria algum tempo até encontrar um meio de entrarem nele.

* * *

A batalha contra os Anjos estava ficando cada vez mais difícil; mesmo Asuka, a lutadora mais habilidosa entre os quatro pilotos, estava tendo dificuldades em combater os Anjos; estes, por sua vez, não paravam de surgir, chegando naquele momento a trinta; muitos já estavam jogados no chão, destruídos pelos quatro defensores.

"Misato! Quantos mais ainda tem?!" perguntou Shinji pelo intercomunicador.

"Eu... eu não sei! Aparecem mais que podemos contar, em toda a volta de Tokyo-3, e eles estão atacando e destruindo os radares!"

Misato não quis revelar a Shinji, mas os alarmes agora soavam dentro do próprio QG também; alguém tinha acessado seções secretas do Geofront e agora a própria base corria perigo; pior que isso, o Comandante havia desaparecido. O Sub-Comandante Fuyutsuki comandava as operações do Centro de Controle.

* * *

Urd, Skuld e Keiichi chegaram ao Geofront naquele momento; Skuld não teve muito trabalho para conseguir entrar, mas o que eles viram do lado de dentro não foi muito animador; monotrilho que usualmente levava passageiros na entrada do Geofront até o QG estava desativado,e a descida era longa e escura; Urd e Skuld decidiram então arriscar, e levaram Keiichi voando até o final do trilho, que ficava bem em frente à pirâmide, que era a entrada principal do Quartel.

Muitas pessoas corriam para todos os lados, todas com o uniforme da NERV; pareciam tão nervosas e atarefadas que mal notava a sua presença ali; de qualquer forma, eles preferiram se disfarçar e rapidamente conseguiram três uniformes daqueles; para Urd e Skuld não era muito difícil fazer isso, mas Keiichi teve que usar métodos tradicionais: nocauteou um membro da NERV que passava por ali e tirou-lhe o uniforme.

Feito isso, finalmente eles entraram no Quartel-General. Felizmente, Skuld estava preparada para algo assim, e Urd não teve que usar nenhum feitiço para localizar Belldandy; Skuld tinha trazido um "radar", sintonizado para encontrar Belldandy.

* * *

Gendou saíra de sua sala no mesmo instante que o alarme tocara; já não encontrou Kaworu ali, mas levantou Belldandy do chão e a colocou sobre o sofá.

"Saiba que eu não sou tão facilmente enganado, tenente... se é que você pode de fato ser chamada assim...", murmurou, e saiu.

Ele sabia muito bem qual o lugar para onde Kaworu se dirigia, e portanto tomou o mesmo caminho; ordenava a todos os membros que encontrava no caminho que ajudassem na batalha contra os Anjos.

* * *

Shinji e os outros não haviam parado ainda de combater os Anjos, que não deixavam de surgir.

"Que droga! Parece que todos os Anjos que existem resolveram atacar ao mesmo tempo! Desse jeito não vamos conseguir agüentar por muito mais tempo!" falava Asuka.

"Eu sei, mas não temos escolha! Temos que continuar lutando até que eles parem de chegar, senão tudo estará perdido!" retrucou Rei.

A essa altura, já havia se formado uma pilha com os corpos dos Anjos, na entrada da cidade; era quase do tamanho de uma montanha, e continuava crescendo; outra pilha, quase do mesmo tamanho, estava localizada diametralmente oposta, na outra entrada da cidade; em uma das pilhas, Shinji e Asuka lutavam; na frente da outra, Rei e Hikari.

Era compreensível porque esses Anjos estavam atacando juntos; a força deles isolados não era nem mesmo comparável à dos outros. No entanto, vinham em grande número, e isso dificultava muito o trabalho dos Evas. A maioria caía com um único golpe, mas atrá de um vinham dois; atrás de dois, vinham três.

Shinji, aos poucos, começava a sentir sua atenção atraída para outro lugar. Sua mente não conseguia mais se manter fixa ao combate; como se ele estivesse sendo chamado.

"Shinji! Presta atenção no que você tá fazendo!" gritou Asuka pelo intercomunicador. Shinji quase acertada a Unidade 02 com a faca progressiva.

* * *

Urd, Skuld e Keiichi finalmente encontraram Belldandy, na sala do Comandante.

"Belldandy! Belldandy! Acorde!" exclamou Keiichi, pegando em seus ombros.

Belldandy finalmente abriu os olhos, e reconheceu Keiichi, Urd e Skuld.

"Temos que impedi-lo! Temos que impedi-lo a qualquer custo!" exclamou, levantando-se rapidamente.

"Impedir quem, Belldandy?" perguntou Urd.

"Tabris! Ele foi atrás de Lilith!"

* * *

Agora apenas mais uma porta separava Kaworu de seu objetivo; com um movimento de seu Campo AT, ele abriu um buraco na porta e passou através dele.

Do outro lado, encontrou o que procurava; Lilith.

"Esqueça", disse uma voz atrás dele. "O que você procura não está aí!"

"Pelo contrário... está exatamente aqui..." disse Kaworu, sem desviar os olhos da máscara que cobria o rosto de Lilith.

"Este não é Adão, Tabris. É Lilith!"

"É justamente Lilith que eu procuro. É com ele que vou poder destruir vocês, Lilims, Gendou."

Gendou se surpreendeu ao ouvir aquilo; qual era então o propósito do Segunto Impacto?

"Eu cometi um erro da última vez. Achei que o poder de Adão seria suficiente para destruir a humanidade e criar um mundo para os Anjos. Mas não. É primeiro necessário abrir caminho. Foi por isso que o Segundo Impacto não teve sucesso. Eu fui apressado demais."

"O quê?!"

"Não se faça de bobo, Gendou. Você sempre soube qual era o meu objetivo: criar um mundo para os Anjos. Os Deuses são poderosos demais para serem desafiados, e Peorth é imbatível; portanto, tive que escolher os Lilims para aniquilar e criar o meu mundo perfeito..."

"Achei que para destruir a humanidade, bastaria tentar criar o meu próprio mundo, através de Adão; mas vocês, malditos Lilims, me impediram. Não vou deixar que isso aconteça de novo. Vou destruir todos vocês!"

Dizendo isso, Kaworu então seguiu e entrou em Lilith. O grande corpo branco que estava preso à cruz vermelha se contorceu e, aos poucos, começou a se transformar, tomando a forma de Kaworu.

* * *

Naquele momento, Belldandy, Urd e Skuld souberam que tudo estava por um fio.

"Keiichi-san, por favor fique aqui!" disse Belldandy. Na mesma hora, ela, Urd e Skuld saíram voando em direção àquilo que havia chamado a sua atenção.

* * *

No mesmo momento, Shinji parou de lutar. Algo dentro dele despertou; mais que isso, algo dentro do Evangelion despertou; todos os Anjos que os atacavam pararam imediatamente e, a um gesto da Unidade 01, se retiraram. Logo depois, Misato ouviu pelo intercomunicador:

"Misato, me leve até o último nível do Geofront", disse Shinji, numa voz igual à de quando seu pai fora seqüestrado.

"O elevador do Eva não vai tão fundo..." respondeu Ritsuko.

"Então me leve até onde puder. Agora!"

* * *

Tabris/Lilith agora começava a brilhar intensamente.

"Finalmente, é chegada a hora. Vou sair deste lugar profano, que vocês Lilims escavaram na Lua Vermelha, e vou usá-la para sacrificar todos os filhos de Lilith, para que os filhos de Adão possam finalmente tomar seu lugar!!"

"Ainda não!" disse Belldandy, seguida por Urd e Skuld, que chegou voando naquele momento.

"Ora, ora, ora... vejam só quem apareceu para presenciar o que estou prestes a fazer. Vocês três, Belldandy, Urd e Skuld, serão as testemunhas que vão contar aos outros o que estou prestes a realizar! Afastem-se e observem!"

"Nunca! Não permitiremos que você faça isso!" disse Belldandy. No momento seguinte, ela começou a retirar todos os seus brincos, pulseiras e colares. "Vocês duas, tomem muito cuidado", disse.

"Ah... que bonito! Vai querer se sacrificar por esses seres desprezíveis? Ora, por favor... nem perca seu tempo, tirando esses pobres limitadores; mesmo seu pleno poder não é capaz de me enfrentar!!!"'

"Como dizem... a esperança é a última que morre!" disse Gendou, ao notar, graças a um sinal luminoso, que o elevador estava descendo até o último nível do Geofront, o que significava que a Unidade 01 estava correspondendo às suas expectativas.

Belldandy, encorajada pela frase de Gendou, atacou Tabris/Lilith, mas foi rechaçada violentamente.

"Eu já disse que não adianta!! É tolice se sacrificar por esses pequenos desprezíveis!"

"Você está errado, Tabris... todos são iguais perante Ele! Você sabe disso! Mesmo que você consiga o que quer, você sabe que não passará muito tempo até que Seu julgamento caia sobre você!" disse Belldandy, deixando que Holy Bell se mostrasse em toda a sua glória.

Seguindo seu exemplo, Urd e Skuld fizeram o mesmo; logo, as três estavam atacando Tabris/Lilith pelo ar, incessantemente; enquanto ele tentava se livrar de uma, as outras duas conseguiam atacá-lo. No entanto, seus ataques não infligiam dano considerável a ele, exceto um ou outro ataque em que Belldandy usava grande parcela de seu poder; e isso a desgastava muito. Ela já sabia, no entanto, que Shinji e a Unidade 01 estavam a caminho; portanto, pretendia apenas ganhar tempo, até que a luta pudesse se equilibrar.

* * *

No Centro de Comando, ninguém sabia o que fazer. Os Anjos tinham repentinamente ido embora, e Shinji tinha descido até o último nível do Geofront. Tudo que eles podiam fazer era esperar.

Kaji, no entanto, tinha alguma idéia do que realmente estava acontecendo. Logo, pôs-se a caminho do Paraíso, como era conhecido o lugar onde Lilith repousava.

* * *

No campo de batalha, os três Evas restantes estavam apenas aguardando; não sabiam o que fazer.

"O que diabos está acontecendo, afinal?" perguntou Asuka.

"Não sei... nunca imaginei que esses Anjos pudessem fugir de uma luta", respondeu Hikari.

"Eles não fugiram. Eles obedeceram uma ordem', disse Rei.

"Ordem? De quem?" perguntou Asuka. "Do Shinji??"

"Não. De Adão."

* * *

"O que vocês pensam que estão fazendo?? Isso não vai me impedir e vocês sabem disso O que vocês pretendem? Ganhar tempo? Seus tolos! Não adianda adiar o inadiável!" exclamava Tabris/Lilith, enquanto lutava com Belldandy, Urd e Skuld.

"Sim, adianta, sim!" disse Skuld, finalmente percebendo que a Unidade 01 estava próxima.

"O quê?!" perguntou Tabris/Lilith, sem acreditar no que via.

"Já chega. Você já desrespeitou demais as suas origens. Você não deve continuar com isso."

"Adão...?" murmurou Tabris/Lilith. "Chegou tarde demais. Agora eu sou tão poderoso quanto você!"

"Seu tolo! Você acha que poder é tudo o que conta nisso?" retrucou Shinji/Adão. "Você precisa de muito mas que isso se quiser realmente realizar alguma coisa."

"Errado! Eu posso fazer o que eu bem quiser! Siga-me! Eu vou te mostrar!" disse Tabris/Lilith. A seguir, deu um salto, e atravessou o teto, indo em direção à superfície.

Shinji/Adão fez o mesmo, seguido por Belldandy, Urd e Skuld. Gendou, impotente, começou a retornar para o Centro de Comando, quando encontrou Kaji e Misato chegando ao local.

"Mas o quê diabos aconteceu aqui??" perguntou Misato.

"Tabris, o Anjo, fundiu-se a Lilith com o intuito de destruir a humanidade. Belldandy, Urd e Skuld, deusas, lutaram com ele até que a Unidade 01 chegasse aqui. Então, Adão, que esteve implantado em minha mão até ser absorvido pelo Evangelion, despertou, e Shinji fundiu-se com ele; agora, ambos seguiram em direção à superfície, onde o destino de tudo será decidido."

Fim da Segunda Parte


Terceira Parte – O Terceiro Impacto


Asuka, Rei e Hikari foram supreendidas pelo surgimento repentino de Tabris/Lilith na superfície.

"Mas o que...?" perguntou Asuka.

"Quem... o quê é isso?!" exclamou Hikari.

"Tabris... Lilith...?" murmurou Rei. "Então era por isso..."

"O que foi, Rei? Você sabe de alguma coisa??" perguntou Asuka.

"Este é Tabris/Lilith... Kaworu era na verdade Tabris, um Anjo, e se fundiu com Lilith..."

Logo depois, surgiu outra figura, semelhante a Tabris/Lilith, que as três reconheceram na mesma hora: Shinji/Adão.

"Shinji...?" murmurou Asuka.

"Mas como é possível...?"

"Shinji se fundiu a Adão... de alguma maneira, Adão estava na Unidade 01..."

Logo depois, surgiram Belldandy, Urd e Skuld, que foram impedidas por Shinji/Adão de avançar contra Tabris/Lilith.

"Por favor... não se esforcem mais... muito obrigado pela sua ajuda. Vocês conseguiram detê-lo até que eu pudesse despertar, e isso é bem mais que era esperado de vocês."

Belldandy, mesmo relutante, concordou, e Holy Bell voltou a se recolher. Urd e Skuld seguiram o exemplo da irmã, também a contragosto.

"Ora... querendo poupar suas amiguinhas? Não tem importância... a ajuda delas de nada significaria contra mim..." disse Tabris/Lilith.

"Não... elas já fizeram o que podiam... agora é minha vez", respondeu Shinji/Adão.

"E o que você vai fazer contra mim? Você sabe que nossos poderes são equivalentes."

"Isso é irrelevante; você não sairá vencedor nesta batalha."

"Veremos!"

Os dois gigantes, então, começaram a atacar um ao outro, tanto com golpes físicos quanto golpes à distância; eles eram capazes de "disparar" rajadas brancas que atravessariam o Campo AT dos Evangelions sem absolutamente nenhuma dificuldade.

A luta era feroz, e a paisagem estava literalmente sendo alterada; montanhas desapareciam com o impacto dos golpes.

"Você sozinho não pode me deter! Mesmo sendo Adão, você não pode me dominar!"

Shinji/Adão não falava nada, apenas continuava atacando.

Rei, assistindo àquela luta, sentia algo revirar-se dentro de si; ela começou a encarar o Evangelion como uma limitação, uma gaiola; não conseguia mais ficar ali dentro. Desativou o Eva e ejetou o plug.

"Rei! O que você tá fazendo?? Você não vai durar nem dois segundos fora do Eva!" gritou Asuka.

Rei não respondeu.

Nesse momento, Tabris/Lilith desvencilhou-se de Shinji/Adão e subiu a uma certa altura.

"Agora nada pode me deter!"

Dizendo isso, seu corpo começou a brilhar mais ainda, a ponto de não ser mais possível enxergar nada.

"Não! Não!!! Ele não pode fazer isso!!" exclamou Belldandy, presentindo o que estava a ponto de acontecer.

Quando o brilho atingiu sua intensidade máxima, Tabris/Lilith exclamou:

"Este é o momento! Adeus, insignificantes Lilims! Eis aqui o seu Terceiro Impacto!"

Uma explosão muito grande ocorreu; mas, imperceptível aos olhos humanos, um vulto pulou sobre Tabris/Lilith nesse exato momento, e tudo parou.

Tabris/Lilith e Shinji/Adão desapareceram, e todo o resto estava paralisado.

"O que aconteceu...?" perguntou Urd.

"Eu... não faço a menor idéia..." murmurou Belldandy.

"Tudo parou... é como se o tempo tivesse congelado!" disse Skuld. "Mas... como é que nós não estamos congeladas também?"

"Provavelmente só este mundo parou... como nós três viemos do Céu, não fomos afetadas por esse efeito... mas se isso durar muito tempo ou se Tabris for vitorioso..."

"O que você quer dizer, Belldandy?" perguntou Urd.

"Eu quero dizer que Tudo está em jogo."

De repente, Belldandy notou a ausência de mais alguém ali.

"Ayanami-san... também desapareceu!" exclamou.

"O que isso quer dizer??" perguntou Skuld.

"Será que ela é..." murmurou Urd.

"Sim... ", disse Belldandy. "Peorth."

* * *

O lugar era desconhecido.

Só havia Tabris/Lilith, Shinji/Adão e Rei/Peorth ali.

"...finalmente... despertei novamente..." disse Rei/Peorth.

"Não me recordo deste lugar..." disse Shinji/Adão.

"É porque nós não temos memória. São as memórias de Tabris, Shinji e Rei que surgem em nossa mente e se manifestam dessa maneira."

"Heheheh... consegui! Eis aqui, para meu deleite, o mundo virgem e pronto para ser habitado por nós!!" exclamou Tabris/Lilith, quando despertou.

"Tolo", disse Rei/Peorth.

"Peorth...?!" exclamou Tabris/Lilith. "Como?! Isso é impossível!"

"Eu estou aqui... eu sou Peorth, e ressurgi para fazer renascer a Suprema Tríade. Você, Tabris, Anjo, filho de Adão, foi além da ofensa mais terrível querendo dominar um de Nós, Três que somos Um, Um que somos Três. Você deve arrepender-se de seu mal e voltar ao que era no início."

"Nunca! Não agora que estou tão próximo de conseguir o que é meu de direito!!"

Repentinamente, Tabris se viu sozinho, cercado pelos três Seres; ele tinha sido expelido de Lilith. Da mesma maneira, Shinji e Rei não mais estavam unidos a Adão e Peorth, e estavam desacordados.

"E quem lhe deu esse direito? O Único?" perguntou Adão.

"É claro que não! Ele não soube reconhecer o que os Anjos mereciam!!" retrucou Tabris.

"Não seja insolente, Tabris...", disse Lilith. "Foi Adão que te criou, e somente a Ele e ao Único cabe decidir teu direito e teu destino."

Tabris percebeu, então, que não estava mais fundido com Lilith; seus planos haviam fracassado e ele havia sido vencido.

"Não... não pode ser... cheguei tão perto... tão perto... porquê?? Porquê??"

"Você nunca esteve perto de nada a não ser de seu próprio destino, Tabris", disseram Peorth, Adão e Lilith ao mesmo tempo, ressoando como uma única voz.

"O que você quer dizer com isso?!?!"

"Que teu destino sempre foi o de livrar a humanidade dos laços do Destino, e então reunir a Tríade novamente; tua missão foi cumprida, Filho de Adão. Volta agora à tua origem!" disseram os Três.

Então, uma luz começou a emanar de Tabris, e ele foi absorvido por Adão, de quem nasceu no Princípio. Rei e Shinji, então, sob o comando de Lilith, despertaram.

"Quanto a vocês, muito obrigado. Vocês cumpriram seu papel, e graças a vocês a Tríade pôde, mais uma vez, ser reunida. Voltem ao seu mundo, e sigam com suas vidas. Vocês fizeram parte de algo único, mas que estava traçado pelo Destino para vocês."

Uma luz começou a emanar dos três seres, e cresceu a tal ponto que Shinji e Rei não podiam ver mais nada. Quando a luz diminuiu novamente, eles estavam novamente em Tokyo-3, e Asuka, Hikari, Belldandy, Urd e Skuld corriam em sua direção.

* * *

Shinji e Rei não se lembravam do que havia acontecido no momento em que tudo congelou; Belldandy e suas irmãs também não comentaram esse fato com mais ninguém além deles dois.

"Onde está a Unidade 01?", perguntou Rei.

"Não sei... não faço idéia do que aconteceu com ela...", disse Shinji.

Repentinamente, suas atenções foram voltadas para o lago Ashinoko. A Unidade 01 estava ali, e naquele momento começava a brilhar. Aos poucos, o brilho foi ficando mais intenso até que eles não pudessem mais enxergar nada..

Apenas Belldandy, Urd e Skuld puderam ver o Evangelion diminuir de tamanho e assumir a forma de uma mulher. Logo depois, a luz cessou.

Assim que puderam enxergar novamente, foram imediatamente na direção do lago.

Ali, flutuando na água, eles viram o vulto de uma mulher, vestida com um plug suit.

O Evangelion acabara de se transformar num ser humano.

* * *

Gendou, que assistira à batalha, agora seguia para o lago, onde vira o Evangelion brilhar.

Para todas as pessoas, a explosão na qual haviam desaparecido Tabris/Lilith e Shinji/Adão não passara de um clarão; no momento seguinte, tudo parecia normal, com a exceção de que haviam aparecido Rei e Shinji, desacordados, no local onde ocorrera a explosão, e a Unidade 01, no lago.

* * *

Shinji e os outros chegaram ao lago em pouco tempo depois que viram o Evangelion brilhar; curiosamente, as outras Unidades ainda permaneciam as mesmas.

Assim que chegaram à borda do lago, viram a mulher que surgira ali se levantar; ela estava de costas para eles.

"Ahn... com licença... está tudo bem?", perguntou Shinji, imaginando quem seria aquela mulher.

"Sim, está tudo bem, obrigada..." disse, com uma voz idêntica à de Rei, ao se voltar. "Eu... conheço você de algum lugar?"