Recados da autora: Bem...Novamente, obrigada a todos que deixaram comentários e favoritaram a minha humilde estória. Um agradecimento especial para Ganimedes, que me deixou um comentário muito gentil e com vários apontamentos úteis. Espero que todos continuem gostando.
Capítulo IX
Shun sorriu e sacudiu a cabeça levemente, quase rindo de si mesmo...Aquilo fora um sonho. Um sonho bobo que terminara assim que ele, pateticamente, caíra no lago. Voltou seus olhos para o homem à sua frente, retribuindo seu sorriso formal. Siegfried pediu licença e os deixou para continuar circulando pela festa. Shun sentiu um calafrio. Perfeito, pensou ele, agora teria que conversar com um completo desconhecido...
-E quem seria o senhor, senhor Amamiya?- O russo perguntou, indicando a fantasia de Shun com um movimento de mão.
-Pode me chamar de Shun- respondeu o jovem; sempre se sentira esquisito quando as pessoas o chamava de "senhor", mal tinha dezoito anos, e sempre fora tratado como uma criança por todo mundo; ser subitamente tratado como um adulto era quase desconfortável.
-Muito bem...quem seria você...Shun?-
-Werther- Shun respondeu com uma risadinha nervosa, se sentindo meio ridículo.
-Um amante da literatura européia?
-Podemos dizer que sim...E o senhor?
-Dimitri...por favor...
-Dimitri...O príncipe desconhecido...de Turandot. Correto?
-Sim...também gosta de ópera pelo visto...
-De algumas...Turandot é uma delas...Apesar de nunca ter gostado muito do final...
-Por quê?
-Bem...eu sempre achei que Turandot não merecia ficar com o príncipe depois do que fez com Liu...
-Ah, sim... Liu...
Shun se lembrava vagamente da história em geral, mas uma coisa ficara gravada em sua memória: Liu. Um personagem secundário e sem muita importância, mas que chamara a atenção de Shun mais que qualquer outro. A jovem escrava do príncipe desconhecido, completamente apaixonada por seu senhor. Sabendo da promessa do amado para a cruel Turandot, ela tenta convencê-lo a não se sacrificar pelo amor da princesa, mas ele está cego de amor. Turandot captura a escrava e a tortura a fim de descobrir o nome do príncipe. Sabendo que revelar o nome significaria a morte do homem que ama, Liu se recusa a dizer, e é torturada até a morte... Shun se sentira terrivelmente mal quando no final da peça o príncipe simplesmente ignora o sacrifício de Liu e termina com a princesa...Ainda detestava o último ato daquela ópera...
-É um belo personagem...um grande exemplo do quanto o amor pode ser leal e estúpido...-Dimitri sorriu.
-Estúpido?...
-Pense bem...se Liu tivesse dito o nome, o príncipe seria morto...ela seria uma mulher livre para amar quem quisesse...
-Ela o amava demais para ser tão desleal...
-Não seria uma deslealdade...Ela estaria salvando a própria vida...pense bem...Turandot a torturou...e o príncipe não ligava mesmo para ela...Por quê ela deveria se preocupar com ele?
-A questão não é essa...ela o amava...se tivesse traído esse amor jamais se perdoaria...-Shun estava começando a ficar irritado com a empáfia do sujeito. Dimitri apenas sorriu como se estivesse tentando convencer uma criança de que Papai Noel não existia...
-Você é jovem, e romântico...Mas a verdade é que a maioria superestima o amor...Muitas vezes quando nos apaixonamos, acreditamos que esse amor é a coisa mais poderosa do mundo, que nada pode mudá-lo, que vai durar para sempre...Mas a verdade é que nós amadurecemos, alguns amores resistem ao passar do tempo, mas outros não foram feitos para durar...Liu deveria saber que seu amor por mais forte que fosse jamais sobreviveria sem retribuição...
Shun analisou a expressão debaixo da máscara. Era estranho mas a voz de Dimitri se tornara quase doce...
-Creio que me deixou sem argumentos...Mas o amor não é uma coisa lógica, não é?
Dimitri simplesmente fez que sim com a cabeça e pediu duas novas taças de champanhe sob o olhar mesmerizado do japonês.
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-Hyoga?...
O russo voltou-se para Flair e sorriu, sem muita animação.
-Qual o problema? Não está gostando da festa?
-Claro que estou...
A loira se aproximou dele e lhe acariciou o braço gentilmente:
-Não parece...Vamos dançar?
-Claro.
O casal caminhou até o centro do salão sob os olhares atentos dos outros convidados. A fascinação entre Hyoga e a princesa já não era novidade para a maioria das pessoas de Asgard. De fato muitos já antecipavam um casamento. Hyoga parecia o par perfeito para a princesa, um cavaleiro valoroso e bonito, servidor da deusa Atena, uma importante aliada de Asgard. Muitos desejavam um casamento, especialmente os conselheiros do palácio; seria uma manobra política das mais pertinentes.
Valsando sob a luz etérea dos candelabros de cristal, o casal ignorava todas as expectativas ao seu redor e se imergiam um no olhar do outro. Hyoga estava cada vez mais encantado pela princesa. A cada dia que passava se convencia mais de ela era a mulher certa para ele, meiga, gentil, bonita...Apesar de não gostar de admitir, Hyoga era um homem passional, um homem que gostava de cortejar as mulheres, ganhar sua atenção...Flair respondia a suas atenções de um jeito que fazia seu ego se inflar. Sentia-se forte e poderoso perto daquela boneca de louça tão frágil e doce.
Seus olhos vagaram pelo salão por um momento, enquanto ouvia Flair falar sobre a festa e a programação prevista. Num canto pôde ver Shun. Não tinha como não reconhecê-lo naquela fantasia. Estranhamente, Hagen não estava com ele. Era uma outra pessoa, alguém que Hyoga nunca vira antes. Um homem alto de cabelos escuros e gestos elegantes. Os dois pareciam absortos em alguma conversação muito interessante...
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-Então, você é um cavaleiro? Eu jamais adivinharia...
-Por quê não?
-Bem você não parece...
Shun apenas riu mansamente. Não deveria ter ficado tão tenso a respeito da festa, no fim das contas, encontrara uma companhia bastante agradável. O russo tinha vinte e nove anos, mais de dez a mais que Shun, tinha se formado em literatura, e era mais culto que a maioria das pessoas de sua idade. Tinham conversado sobre livros, filmes, música, e Shun estava encantado. Não se lembrava da última vez em que alguém conversara com ele assim. Mesmo Hilda, com quem trocava idéias constantemente, era meio condescendente, talvez por ser regente de um país inteiro, ele se sentia um moleque perto dela e não podia fazer muito além de aceitar respeitosamente seus conselhos e observações. Mas com Dimitri estava de fato conversando de igual para igual, sobre assuntos que lhe interessavam, podia ver que o russo o achava um interlocutor interessante e não agia como se estivesse falando com um adolescente. Nos poucos minutos de conversa Dimitri já tinha feito observações espirituosas que fariam Ikki ficar irritado. A verdade é que Shun era tímido, mas não era nenhum bebê como seu irmão e amigos pensavam. Era bom falar com alguém que não se censurava o tempo todo, achando que "certas coisas" não seriam para os seus ouvidos.
Dimitri lhe ofereceu uma nova taça.
-Acho melhor parar...Já estou meio tonto...
-Ora vamos...três taças não podem fazer tanto mal...
-Só se for a última...
-Prometido.
-Então, até quando fica em Asgard?
-Não sei, depende do meu amigo...-Shun fez uma pause, procurando as palavras- ele tem uns assuntos para resolver...E você?
-Devo ficar por um tempo. Meu tio me cedeu uma casa de campo perto de uma vila próxima, acho que vou aproveitar pelo menos umas duas semanas de descanso...Você deveria aparecer, é uma ótima casa, mais acolhedora que esse palácio medieval...Tenho certeza que não deve se sentir muito confortável por aqui...
-Bem eu não sei se será possível...Mas quem sabe?
Enquanto Dimitri buscava novas taças, Shun resolveu observar os casais que dançavam. Entre eles logo distinguiu Flair e Hyoga enlaçados, dançando graciosamente como um casal de contos de fadas. Hyoga sorria, aquele sorriso largo e galante que costumava fazer as mulheres caírem aos seus pés. Antes que Dimitri pudesse lhe entregar a taça de champanhe, Shun deu meia volta e procurou a primeira saída.
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Hyoga continuava a forçar o sorriso e fingir que estava tudo bem. Voltou seus olhos para Flair, para que ela não percebesse que ele estava olhando para outro lado sem ouvir uma palavra do que ela dizia. Quando voltou a olhar para o lado onde Shun se encontrava percebeu que ele ia saindo, o homem de cabelos negros o seguia.
Os dois chegaram até uma das portas laterais em arco que davam para o pátio interno do palácio. Hyoga seguiu-os com o olhar até que sumiram de seu raio de visão.
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-Shun?...-Dimitri chamou, sem resposta. Logo discerniu a silhueta de Shun por entre as sombras dos freixos. –O que houve?
O cavaleiro de Andrômeda baixou a cabeça e tirou a máscara que lhe escondia o rosto. A fantasia subitamente lhe parecia completamente ridícula
-Nada. Desculpe, Dimitri...será que você pode me deixar sozinho?
-Foi algo que eu fiz? Se eu o ofendi...
O russo parou de falar ao ver que os olhos verdes começavam a lacrimejar. Desatou a fita que mantinha sua própria máscara no lugar, retirando-a. Agora Shun podia ver o rosto do russo com clareza sob o luar gélido de Asgard. Sua pele era pálida, não de um pálido doentio, mas com um ligeiro tom de pêssego típico dos povos eslavos, a face era marcantemente masculina, com um nariz reto que lhe emprestava um ar de busto grego, uma boca larga de lábios finos e bem desenhados, o rosto tinha contornos fortes, másculos, com maxilares largos e testa alta, mas estava longe de ser grosseiro. Os olhos de um azul irreal, cortantes e agressivos eram evidenciados por sobrancelhas negras e elegantemente arqueadas, que davam ao rosto uma expressão principesca.
-Não...não foi você...
-Aquele homem...Dançando com a princesa Flair...Você pareceu perturbado com a presença dele...
-Dimitri...Por favor...-Shun escondeu o rosto numa das mãos, virando-se de costas.
-Acho que agora entendo...
-Sr. Beria...Eu não lhe dei permissão para fazer conjecturas ao meu respeito.- O rosto de Shun se fechou subitamente e ele se voltou a fim de retornar ao salão. No entanto o álcool já começara a fazer efeito: não se sentira bêbado até agora, mas ao dar meia volta bruscamente sentiu o chão sumir debaixo dos pés.Dimitri adiantou-se e o segurou antes de uma queda feia.
-O-obrigado...Pode me solta agora...-Shun murmurou, ainda zonzo. Mas o russo não o soltou. Os olhos gélidos passeavam por cada contorno de seu rosto até pararem sobre seus lábios. Ao ver que Dimitri olhava para seus lábios Shun ficou subitamente envergonhado e desconfortável. Sem perceber passou a língua sobre os lábios como sempre fazia quando estava tenso, sentindo-os secos. Apesar de tentar manter o controle, sua respiração estava errática. Sua cabeça ainda dava voltas, e a proximidade com o corpo do russo não ajudava muito. Antes que pudesse fazer qualquer coisa sentiu a boca de Dimitri sobre a sua, forçando seus lábios a se abrirem com uma ligeira pressão.
Sentiu o sangue subir para as bochechas, não sabia se de vergonha ou raiva...Talvez os dois. Apesar de se sentir fraco e tonto, conseguiu desvencilhar-se dos braços de Dimitri e, tropeçando, se afastou alguns passos. Voltou-se, ainda cambaleante e quase caiu nos braços de outra pessoa.
Voltou a ficar com raiva...Alguém presenciara aquela cena vergonhosa...Colocou-se de pé a custo e deu com um par de olhos azuis que o encaravam escancarados, com uma expressão dura e agressiva. Sentiu seu coração falhar uma batida:
-Hyoga...
