CAPÍTULO 10 – VOZES

Ren não conseguiria se lembrar como chegara ao carro e começara o trajeto até o restaurante nem se sua vida dependesse disso. Agira como um autômato. Em sua mente, uma tempestade de vozes e pensamentos deixava sua respiração curta. Quando estava prestes a invadir um cruzamento no sinal vermelho e provocar um grave acidente, um grito de alerta – que curiosamente soava como Kyoko – reverberou em sua cabeça, alto o suficiente para calar todo o resto. E bem a tempo de fazê-lo frear e impedir o pior.

Era engraçado como a parte pura e limpa de sua consciência tinha a voz dela.

Foi o suficiente para que Ren finalmente olhasse para si mesmo: ofegante, trêmulo e instável. Parou o carro no acostamento e pensou que não se sentia exatamente como Kuon quando caçava; também não era exatamente como se sentiu quando Rick morreu. Talvez uma mistura dos dois? Não congelara, pelo contrário, agira automaticamente. Mas também perdera a consciência. "Medo", alguém falava. Só que ainda não conseguia identificar quem.

Demorariam alguns meses para Ren compreender a profunda transformação que uma pessoa pode sofrer simplesmente por aceitar ajuda. No caso dele, tudo começou timidamente, quando escolhera Kyoko sobre Rick. O segundo passo ocorreu quando admitiu a si mesmo que não se sentia merecedor dela, e o terceiro, apenas por finalmente se convencer a procurar a doutora Hamada. Meses, até Ren constatar que a voz desconhecida que falava agora em sua cabeça, e falaria muitas vezes mais no futuro, era sua própria voz, e não ecos de um personagem ou fragmentos de sua personalidade dilacerada.

No momento, Ren se contentava por haver chegado à conclusão de que estava apavorado. Sentia que havia negligenciado a possibilidade de algum homem escapar ao alcance de seu radar no que dizia respeito a Kyoko. Com ameaças conhecidas ele poderia lidar, como havia lidado com Kijima e Reino, e já bastava a dor de cabeça que tinha com Sho e Taira, idiotas persistentes que eram. Ren descobriria em breve o idiota persistente que ele próprio era.

Apenas admitia estar frustrado consigo mesmo. Yashiro o avisara, "mulheres amadurecem rápido, e mais ainda no show business" e "Kyoko atrairá mais e mais admiradores". Ao invés de considerar os avisos com seriedade, Ren se convencera de que, estando por perto e dando orientações absurdas como "proteja sua castidade" e "nunca aceite roupas de um homem", ela estaria disponível para quando ele finalmente estendesse a mão para toca-la. Ficaria, até lá, a uma distância segura: não perto o bastante para revelar prematuramente suas intenções e acabar por assusta-la, nem longe o suficiente para permitir que outro homem invadisse seu perímetro.

Sentiu-se arrogante e envergonhou-se. "Talvez eu tenha deixado o título de 'solteiro mais cobiçado' me subir à cabeça, afinal". Porque parte de si acreditava que a Kyoko real, sem os adereços de suas personagens, dificilmente atrairia a atenção masculina. E mesmo que atraísse, ela era tão avessa ao amor que logo provaria ser difícil demais. E no último caso de nada disso funcionar, ele entraria em cena para deixar claro que teriam que concorrer com ele, como fizera com Kijima.

Também se sentia queimar de ciúmes. Se Kyoko era Bo, ela sabia que ele estava apaixonado por ela. E se adiou o encontro deles para estar com Hikaru, a escolha dela estava feita. Aos poucos, a tristeza por ter sido rejeitado crescia em seu peito. Pegou o celular no bolso da calça e abriu novamente as fotos. Enquanto observava a expressão de um para o outro e pensava que ele não era o único homem da face da Terra capaz de identificar uma joia, afinal, permitiu-se chorar. Ren poderia ser um veterano nas conquistas, mas era a primeira vez que seu coração partia.

"Você vai deixa-la partir? " (voz estranha).

"Ela fez a escolha dela" (Ren).

"Você nem se declarou! " (voz estranha).

"ELA FEZ A ESCOLHA DELA! " (Ren).

"Covarde! Você não merece Setsu! " (Cain).

"ÓTIMO, EU NUNCA QUIS SETSUKA HEEL!". Com esta admissão, Ren calou permanentemente Cain. O personagem somente apareceria enquanto fosse atuado, não mais se infiltrando em sua mente.

"Você está sendo patético. O 'não' você já tem, e agora está desistindo do 'sim'. Se ela está mesmo com Hikaru, então de alguma forma ela superou a aversão ao amor" (voz estranha).

"Esse cara está certo. Vamos rouba-la! " (Kuon).

Talvez tivesse tomado uma decisão, talvez apenas quisesse fugir dos próprios pensamentos. O importante é que Ren religou o carro e retomou o caminho do restaurante. Ao chegar, foi direto à sala reservada e se decepcionou ao ver que não estavam mais lá.

"Posso ajuda-lo, senhor? ", perguntou o garçom, com os olhos reluzindo e mal se contendo que estivesse falando com Tsuruga Ren. "Infelizmente não, eu vim encontrar meus amigos que estavam aqui comemorando, mas pelo visto cheguei tarde", respondeu decepcionado.

Ávido para cair nas boas graças da maior celebridade do Japão, o garçom foi rápido em revelar. "Na verdade, não, senhor! O casal que estava aqui foi há pouco tempo para nossa sala de reuniões! Parece que o rapaz queria conversar em particular com a moça", disse o desavisado garçom, em tom conspiratório. "Oh? Então, por favor, leve-me até lá! ", respondeu com seu melhor sorriso falso, que escondia a intenção assassina que crescia dentro de si. Ren conhecia bem a sala de reuniões do restaurante por já ter estado lá várias vezes, assinando contratos com produtores na hora do almoço. Também já ouvira os rumores de que o lugar era usado para certas atividades libidinosas, pois a sala era à prova de som e conferia total privacidade.

Encantado por estar recebendo um sorriso tão brilhante, o ingênuo garçom praticamente flutuou com Ren até o início de um corredor, indicando a segunda porta à direita. Agradecendo, o ator seguiu até a porta indicada, controlando-se primeiro para caminhar, e não correr, e segundo para bater na porta, e não simplesmente derruba-la a pontapés.

A porta se abriu enquanto sua mão estava ainda no ar, e seus olhos caíram imediatamente nos grandes olhos espantados de Kyoko.