Conseqüências
Obs 1: Saint Seiya não me pertence, como todos devem saber. Por ser um fic de Universo Alternativo os personagens deverão sofrer algumas alterações em suas personalidades.
Obs 2: o nome Carlo designado a Máscara da Morte foi originalmente criado pela Pipe. Todos os créditos à ela.
Obs 3: Este é um fic dedicado especialmente à uma grande pessoa. À uma amiga de todas as horas, batalhadora, sincera e que sempre procura ajudar em todos o momentos. Acredito que não é necessário uma data comemorativa para dedicarmos algo feito de coração à uma pessoa especial. Valeu Nehe-chan \o/
Obs 4: O casal principal dessa história é Milo e Aiolia. Eu sei bem que existem leitores que simplesmente não aceitam o Milo com outro cavaleiro que não seja o Kamus. Mas, EU sou a favor dos casais alternativos e amo ver Milo e Aiolia juntos, principalmente porque na MINHA opinião, são os dois cavaleiros mais putos do santuário. Portanto, se você não gosta de ver o Milo com o outro, por favor não leia para depois ficar me enchendo a paciência. Agora se você está aberto a novas experiências, leia e comente. Sem flame! Obrigada! E boa leitura!
10
O intenso desejo surgiu em Aiolia, quente e voraz, correspondendo ao doce desafio que Milo lançava. Jamais se confrontara com alguém tão intrigante quanto ele.
Depois conversariam. Mais tarde, Aiolia pensaria em como reparar os danos que esse homem faria às suas defesas.
Após reprimir os instintos mais primitivos durante vários dias, seu autocontrole se dissolveu em segundos diante daquela tentadora sedução. Mas tinha um palpite de que não seria uma atitude muito inteligente acreditar apenas numa evidência circunstancial. Ou seria uma esperança? De qualquer modo, ainda existi a possibilidade de ele não ser o que aparentava.
Em que tipo de loucura estava se metendo, afinal? Não, não valia a pena pensar nisso. Agora queria apenas se concentrar em Milo. Não havia razão para recusar o que ele lhe oferecia, pois desejava-o com desespero. Mas teria de possuí-lo a seu modo.
Ainda precisou esperar alguns instantes para que o batimento cardíaco desacelerasse e a voz pudesse sair. – Lembra-se da outra condição, Milo?
- Eu lhe asseguro que não esqueci de nem um detalhe.
Aiolia deslizou as mãos entre os cabelos dourados, agarrando-os e fazendo-o prisioneiro. – Então diga – ordenou Aiolia, consciente da brutalidade de suas palavras. – Diga que me quer.
Havia confusão naqueles olhos verdes. Eram tão verdadeiros e límpidos que pareciam nunca ter visto a face negra da vida, ou guardado segredos obscuros.
- Ainda duvida de mim? – perguntou Milo.
- Diga-me as palavras certas.
- Quero você, Aiolia Leon. – Milo abraçou-o pela cintura e colou o tórax junto ao peito largo.
Mesmo através das roupas que vestiam, Aiolia pôde sentir os mamilos intumescidos. Milo passou a língua nos lábios, como se tivesse dificuldade em expressar o que queria. O gesto deixou-o exultante.
Inclinando a cabeça, Aiolia aproximou-se dos lábios úmidos.
- Quero que tudo seja real. Quero o Milo verdadeiro.
Nesse instante, Aiolia lembrou-se de que ele não lhe dissera o sobrenome. Sua mente sagaz suspeitou. Precisava obrigá-lo a contar tudo, sem omitir um só detalhe. Mas a vontade incontrolável de se apossar daquele corpo sedutor confundia-lhe o raciocínio.
"Mais tarde", pensava. Descobriria tudo o que precisasse saber...depois.
A sensação de ter as mãos fortes de Aiolia segurando-lhe a nuca transportava Milo a uma viagem inusitada. Ele sentia-se capaz de penetrar a alma de Aiolia de modo tão profundo a ponto de quase tocar a imensa solidão que o prendia. Aprendera a compreendê-lo da forma mais pura.
Se não fosse cuidadoso, revelaria facetas desse homem que nem ele mesmo saberia existir.
Estaria o loiro cometendo um erro? Conseguiria fazer amor com Aiolia e ainda proteger a parte mais vulnerável de si mesmo? Deixou as defesas de lado e rezou para não se ferir nessa aventura.
- Eu lhe darei tudo o que puder – prometeu Milo, desejando guardar na memória cada detalhe desse encontro com Aiolia Leon, por mais imprudente que fosse.
Sem poder suportar os impulsos, Aiolia tocou, de leve os lábios nos dele, dando-lhe a ultima oportunidade para desistir e implorando para que ele não o fizesse. Milo não o desapontou. Entregou-se às carícias com ardor.
Mesmo para um homem que se dissera experiente, o primeiro beijo, quente e úmido, mostrava uma desenvoltura impressionante. Aiolia tentava se convencer de que esse era o seu maior desejo nessa noite.
Quando afastou a cabeça para fitá-lo, deslizou a mão pelo pescoço de Milo até a tingir os lábios, agora inchados e rosados.
- Pretendo ir bem devagar – avisou Aiolia, ofegante. – Do contrário, tudo estará terminado antes que eu tenha a chance de conhecer você... e seu corpo. E quero conhecer ambos.
"Oh, Zeus", clamava Milo, desesperado. "O que vou fazer?". Rezava para que ele fosse rápido, assim não notaria sua falta de experiência e ele poderia esconder o quanto suas emoções estavam em jogo.
No passado, Milo costumava fazer comentários engraçados apenas para manter os homens a distância. Sempre funcionada, tanto no sentido profissional quando no social. Nunca se vira em situações íntimas nas quais não tivesse o controle absoluto. Até esse instante.
- Nada mais importa agora. Só você e eu fazendo amor. – Acariciando a pele delicada daquele belo rosto, os dedos de Aiolia desceram até o vale entre o tórax, massageando em seguida um dos mamilos com um dedo, por cima da camisa.
As batidas aceleradas do coração sob a palma de Milo tomaram-lhe os sentidos. Com apenas um toque sedutor, Aiolia derrubava suas defesas e rompia barreiras. Tudo o que ele podia fazer era entregar-se e torcer para não se afogar em tanto erotismo.
Aiolia tocou-lhe os lábios rubros mais uma vez. Porém de forma suave, lenta e terna, e o efeito foi devastador. Ele sentiu o pânico de Milo, mas não vacilou. Aprofundou o beijo, explorando a boca sedutora, experimentando-a, saboreando-a. Tomou-lhe o mamilo outra vez com o indicador e o dedão, beliscando-o sob o tecido da camiseta. Milo soltou um gemido abafado de prazer.
Inebriado pela carícia, o loiro se entregava ao ato sem se preocupar com as conseqüências. Isso foi para Aiolia tal qual uma droga afrodisíaca. Um poder, primitivo e voraz, como jamais experimentara antes, queimava-lhe o sangue.
Havia alto tentador em Milo, sobre como reagia ao beijo, pois parecia não saber de que maneira agradar Aiolia.
Afastando-se o suficiente para poder falar, Aiolia mantinha os olhos semicerrados.
- Desejo tudo, Milo. Apenas você e eu. Sem barreiras, sem pretensões.
As ultimas reservas de Milo se desmoronaram, e ele se deu em sua totalidade. Lembranças. Era o que desejava. Criar o máximo de recordações possível, depois pensaria nas conseqüências.
Percebendo a decisão, Aiolia ignorou as advertências de sua consciência puxou o outro. Levado por um impulso básico e poderoso, carregou-o pelas escadas até o pequeno quarto. Com o pé, empurrou a porta, caminhou em direção à cama e colocou-o no chão.
Escorregando devagar, Milo beijava o pescoço musculoso, ávido de paixão.
- Calma, querido. – Aiolia segurava-lhe as faces.
O loiro parecia tão... vulnerável. Prometeu a si mesmo que mostraria a Milo o outro lado do ato de amor. O lado espontâneo, possessivo e carinhoso.
Não se deu ao trabalho de analisar por que queria tornar essa experiência algo mais do que apenas sexo. Nunca se importara tanto com alguém. Prazer, para Aiolia, sempre representou a satisfação carnal e mútua entre dois adultos que compreendiam as regras do não envolvimento emocional. Aliás, em todas as ocasiões, deixara bem claro que não passaria disso.
No entanto, seu coração queria fazer desse encontro um momento especial para esse homem.
- Vamos fazer tudo devagar, meu querido. – Inclinou a cabeça, e os lábios delicados se entreabriram para recebê-lo.
O beijo mais quente, mais voluptuoso. Dando um passo atrás, Aiolia tirou a camiseta de Milo e atirou-a longe.
A respiração quase falhou ao se defrontar com aquela visão. O peito era mais definido do que pensara, os mamilos eram convidativos e o abdômen, perfeito.
- Você é lindo!
- Não – disse o loiro, colocando o dedo sobre os lábios de Aiolia. – Sem elogios.
Surpreso, o ruivo procurou os olhos cor de safira. – Por que não? Você deve saber que é o homem mais lindo do mundo.
- Mas não tenho nada a fazer com isso. É apenas uma combinação de genes. Esqueça quem sou ou o que possuo.
- Não, Milo. Sua beleza é parte de você – sussurrou Aiolia. – É a parte de um todo.
Com a ponta do polegar, ele acariciou um mamilo, depois o outro. A resposta foi imediata, e a satisfação invadiu-lhe o corpo. Abaixando-se, Aiolia contornou as curvas do tórax com a língua até alcançar os mamilos túmidos.
Soltando um gemido, Milo inclinou-se para trás, encorajando-o. O toque úmido em sua pele deixava-o extasiado.
O aroma do loiro prendia Aiolia, envolvendo-o, clamando por uma reação elementar do ruivo. Levantando a cabeça, Aiolia admirou a expressão de deleite no rosto de Milo.
- Adoro sua pele, seu aroma suave. – Mergulhando a face no pescoço do outro, ele aspirou. – Foi a primeira coisa que notei em você.
De novo, inspirou o aroma delicioso da superfície quente e macia. O perfume, a distinta essência do loiro, marcara sua memória desde o dia em que o viu naquela ruela escura. Uma natureza pura capaz de destruir a capacidade racional de qualquer ser humano. Bem no fundo, Aiolia sabia, essa essência estava impressa em seus sentidos. Jamais conseguiria apagá-la.
Abrindo os olhos, Milo fitou-o com ternura. – A primeira lembrança que tenho de você – dizia com dificuldade. – é o sentimento contraditório de perigo e segurança.
- E já descobriu qual deles prevalece?
- Confesso que não.
Murmurando algo indecifrável, Aiolia beijou um mamilo, depois sugando-o bem devagar. Milo deslizou as mãos nos cabelos ruivos e o abraçou.
Aiolia não se sentia próximo o suficiente. Queria-o sem roupas, nada que impedisse a união total. Tentou retirar a calça de Milo, mas não conseguiu. Engraçado, não se lembrava de ter ficado tão nervoso assim com alguém.
Quando o loiro se despiu, a respiração de Aiolia tornou-se ofegante. Não só porque aquele corpo sinuoso o excitasse, mas pela honestidade de Milo, o desejo sincero de mostrar-se por inteiro, sem restrições.
- Você é tão... inacreditavelmente lindo – murmurou ele, com a voz rouca, tentando controlar a violenta necessidade de tomá-lo.
Para evitar palavras que não queria ouvir, Milo tapou-lhe os lábios com os dedos, outra vez. Sentiu o enorme autocontrole de Aiolia e se indignou. Por que ele não se abalava com o caos emocional que também o envolvia?
Acariciou os músculos avantajados do tórax sob a camisa do ruivo. – Quero ver você, Olia. – Despiu-o e alcançou-lhe a cintura. Em poucas tentativas, conseguiu desabotoar a calça jeans.
Ao ser tocado na intimidade, Aiolia expressou um gemido. – Oh, Zeus, querido...
Impediu que a mão de Milo prosseguisse, sabendo estar chegando ao limite intolerável e sentindo-se, dessa forma, exposto.
Levando o loiro até a cama, Aiolia deitou-se sobre o corpo curvilíneo, apoderando-se da boca sensual. Com receio de machucá-lo, tentou amenizar o beijo. Porém Milo protestou, correspondendo à paixão em igual intensidade.
Era o desafio final. Nada mais valia a pena, a não ser possuir Milo. Mas seu caráter, nobre e virtuoso, dizia-lhe que precisavam proteger-se. Esticando o braço, Aiolia abriu a gaveta da cômoda e procurou um preservativo.
A necessidade urgente se apossou de sua alma. Nesse momento preciso, queria fundir-se a Milo; satisfazer a ânsia avassaladora por esse homem. Talvez isso fosse suficiente para aplacar o medo do envolvimento.
* * *
Deitado ao lado de Milo, Aiolia abraçava-o de forma possessiva, enquanto esperava que sua respiração voltasse ao normal. Porém nada mais seria normal a partir de então.
Distraído, acariciou a cintura delicada, e Milo arrepiou-se por inteiro.
- Vai me deixar ajudá-lo? – Aquelas palavras de Aiolia quebraram o silêncio do quarto.
Ainda extasiado pelo ato amoroso, Milo percebeu algo mais do que meras palavras. A voz de Aiolia transmitia carinho, conforto e um profundo afeto.
- Como assim? – perguntou o loiro, ouvindo as fortes batidas do coração do outro.
- Tenho muitos e bons contatos. Deixe-me ajudá-lo a ter respei... Um trabalho...
Não deveria tocar nesse assunto, e sim apenas deliciar-se com o corpo perfeito de Milo, esquecendo-se de todo o resto. Mas não era capaz de fazer calar a admiração pela orgulhosa independência que notou no loiro desde o primeiro encontro; a vulnerabilidade escondida atrás da coragem e determinação, fazendo renascer os instintos protetores de Aiolia.
Enfim, Leon atingira a parte mais conflitante de Milo. Por um lado, o loiro se comovia com aquela preocupação afetuosa; por outro, ofendia-se.
Após o que haviam partilhado, poderia Aiolia enxergar a verdadeira pessoa ao seu lado? Como tantos outros, o ruivo o julgava apenas pelas aparências?
Sabia o quanto estava sendo passional. Sentia-se arrasado. Na tentativa de convencê-lo de que era um prostituto, não lhe restou mais nada além da capacidade de ser um excelente ator. A oferta de Aiolia o feria mais do que podia imaginar. Depois de tudo, como ele tinha coragem de pensar assim?
Esforçando-se em conter as emoções, Milo expressou um sorriso sedutor. Ergueu-se e beijou o canto dos lábios de Aiolia – Podemos falar disso mais tarde? - pediu, alisando o peito musculoso, até chegar ao ponto crucial da sua masculinidade – No momento, existem coisas bem mais interessantes para fazer, não acha?
Rendendo-se àquela doce sedução, Aiolia respondeu à pergunta com um beijo ardente.
Mais tarde. Conversariam mais tarde.
* * *
Exausto, Milo adormeceu, colado ao corpo de Aiolia. Mas ele continuava acordado. Seus sentidos, ainda mobilizados pela união amorosa, impediam-no de dormir.
As feições de Milo estavam relaxadas. Esse pensamento o incomodou. Não queria confiar nele, No passado, não tivera muito sucesso em cuidar daqueles em quem confiava.
Contudo, precisava admitir que era gratificante sentir-se tão próximo a alguém, como havia anos não acontecia.
Fora Milo o primeiro homem capaz de fazê-lo perder o controle da situação. Planejara mostrar-lhe outro significado do ato de amor, uma faceta que ele jamais experimentara. Porém acabou virando o estudante, aprendendo aspectos da paixão que nunca pensou existir. Tornara-se prisioneiro de poderosos sentimentos.
Sempre mantivera-se distante de situações em que o envolvimento emocional era inevitável. Não queria lembranças, pois estas apareciam nas noites escutas e solitárias para atormentá-lo.
Anos atrás, Aiolia descobrira que capturar criminosos era menos perigoso e comprometedor do que entregar seu coração a alguém. Desse modo, a fragilidade da alma estaria protegida de ameaças arrasadoras.
Adotou a política feroz de não se apaixonar jamais. Não quando seu lar era uma zona de guerra, onde os habitantes temiam, de minuto a minuto, a possibilidade da morte a cada esquina. Onde aqueles a quem amava poderiam desaparecer, deixando apenas dor e sofrimento.
Ao se mover, ainda adormecido, Milo roçou o corpo nu no dele. Os sentimentos pelo loiro tornavam-se mais profundos. Mas Aiolia sempre fora de uma honestidade brutal consigo mesmo; então, não repudiaria a verdade. Seria capaz de aceitá-la, independente do quanto o ferisse.
As sensações eram tão fortes que tomava-lhe o corpo. Poderiam ter uma vida em comum? Não, constituir família não estava em seus planos, racionalizava ele. Tinha consciência daquilo que nunca poderia possuir.
Velando o sono tranqüilo de Milo, lembrou-se da entrega amorosa na união apaixonada. Ambos eram vítimas das vicissitudes da vida, sobreviventes em potencial. Possuíam aquela atração física, quente o bastante para derreter o aço. Mais do que muitos casais conseguiriam.
Talvez, apenas talvez, o destino lhes desse algo de novo.
Colou-se ao corpo de Milo e caiu num sono profundo.
* * *
Os primeiros raios de sol que penetraram pela janela do quarto despertaram Milo.
O calor do corpo de Aiolia aquecia-lhe as costas. O braço musculoso envolvia a cintura delicada, e a mão, pesada e forte, estava em seu peito. Era uma sensação tão deliciosa!
Bem devagar, ele tirou o braço, e Aiolia, resmungando um protesto, virou-se na cama. Milo gelou. Quando teve certeza de que ele não iria acordar, levantou-se sem fazer o menor ruído.
Durante alguns segundos, permitiu-se o luxo de admirar Aiolia, entregue ao sono profundo sob o lençol. Sentiu o rosto corar. Os cabelos negros estavam despenteados pelas inúmeras vezes em que ele os envolveu, exigindo beijos e carícias; o tórax revelava marcas consideráveis do ato desinibido e frenético de ambos. Fora um momento de rara beleza. Aiolia mostrou-se livre, abandonando as defesas.
Sorrindo, Milo absorveu todas as lembranças e emoções que lhe chegavam à memória. Depois de partir, poderia recordar cada detalhe íntimo daquele encontro tão especial.
Movendo-se de novo, Aiolia virou o rosto. Seu semblante estava tenso, como se ele já percebesse que havia algo errado.
Milo apressou-se. Tinha de sair antes que Aiolia acordasse e o pegasse em flagrante, esgueirando-se pela casa.
O interlúdio amoroso estava terminado. Era imperativo que Milo voltasse ao seu mundo, à realidade. Quanto mais se demorasse, mais correria o risco de ser desmascarado e de colocar em perigo os outros envolvidos.
Sentiu o coração se apertar. Deixava com Aiolia uma parte dele mesmo que jamais recuperaria. Resgatando a disciplina profissional, Milo recolheu seus pertences e saiu na ponta dos pés.
Na cozinha, encontrou um pedaço de papel e escreveu um bilhete. Em seguida, deu uma última olhada no local que havia lhe servido como refúgio. Caminhou até a porta da frente e foi embora.
* * *
Antes de abrir os olhos, Aiolia já sabia que Milo havia partido. O calor confortador do corpo do outro contra o dele agora não mais existia. Ainda de olhos fechados, passou a mão sobre o lugar que o loiro ocupara na cama. Os lençóis estavam frios.
A pequena casa estava silenciosa, tinha um vazio muito semelhante ao estranho sentimento comprimindo seu coração. Abriu os olhos e sentou-se. Através da luz que entrava pela janela, deduziu que o sol havia nascido havia horas. Precisou de um esforço sobre-humano para alcançar a calça jeans jogada no chão, vesti-la e levantar-se.
Relutante, dirigiu-se à cozinha. Não seria esse um dos primeiros lugares onde poderia se deparar com um bilhete de adeus? Não levou muito tempo para encontrá-lo. Como suspeitava, Milo deixara o papel sobre a mesa.
Surpreendeu-se ao ver o quanto suas mãos tremiam quando pegou o bilhete. Tentara se proteger de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Supusera poder evitar o envolvimento emocional, mas enganou-se.
Forçando o olhar sobre o papel, ele leu:
"Aiolia,
Sua oferta de ajuda foi comovente, mas não posso aceitá-la. Tenho que ser o que sou. Obrigada por tudo. Cuide-se.
Milo."
Uma dor que não sentia havia anos atravessou-lhe o peito como uma flecha certeira. Amassou o pedaço de papel e jogou-o no lixo.
Por um breve momento, Aiolia baixou a guarda e confiou. O fato de Milo ter ido embora às escondidas mostrava o quanto desprezara os frágeis sentimentos que o ruivo revelara. Sentira-se tão confortável com o loiro, tão seguro, que se permitiu até usufruir o sono dos justos. Ou dos tolos...
Para substituir o poder devastador do sofrimento, Aiolia evocou toda a raiva acumulada em sua vida. Não queria identificar a dor que o corroia. Como pôde ser tão estúpido? Deixou-o desaparecer sem ao menos descobrir quem era ele, de onde viera ou o que sabia. Essa falha colocou Shaka e sua casa em risco. No entanto, parte de Aiolia recusava-se a acreditar nessa possibilidade. No fundo, sabia que Milo não era um traidor. Ao menos não no aspecto físico.
Mas, afinal, conseguiu se livrar dele. Com certeza, não iria sentir falta. Por que haveria de ter saudade de um homem que, desde a chegada, só lhe causara problemas? Um estranho, que metera o nariz onde não fora chamado? Não precisava de ninguém como Milo por perto, desafiando-o, ameaçando devastar partes que ele guardara durante anos.
Contudo, tinha de admitir que ainda o desejava. Desde o início, tudo o que sentira por Milo era atração, intensificada pela excitação causada por uma situação de vida ou morte.
Levando a mão ao rosto, Aiolia esfregou os olhos e deixou escapar uma risada nervosa. Não havia dúvidas de que o ato não fora nada mais do que sexo.
O sentimento de abandono era insuportável. Aiolia só se sentira dessa maneira no dia em que enterrou o irmão no cemitério, alguns anos atrás.
Ora, a quem estava tentando enganar? Já começava a sentir saudade de Milo. E também podia visualizá-lo numa dúzia de encrencas e confusões. Por vias racionais, Aiolia queria com desespero ignorar o quanto seus sentimentos por Milo eram profundos. Profundos até demais.
Droga! Nesse momento, o que mais necessitava era um intenso exercício físico na Kido's Gym.
* * *
Assim que abriu a porta da academia, Aiolia sentiu o odor de couro velho indo do interior do local. A fumaça pairando no ar parecia ser perpétua. O ringue de boxe, que ocupava a maior parte do salão, estava vazio.
O lugar transmitia uma familiaridade aconchegante. Podia não ser bonito ou limpo, mas era um lar para Aiolia. Ali, ele aliviava suas frustrações.
Àquela hora da manhã, os freqüentadores ainda não haviam chegado. O velho Kido devia estar nos fundos, verificando as toalhas e os armários do vestiário. Ele podia deixar o ginásio, pois sabia não haver nada de valor para ser roubado.
Após tirar a camisa, Aiolia colocou um par de luvas de boxe e aproximou-se do saco de areia pendurado no teto. Depois de alguns golpes e socos preciosos, começou a relaxar.
A cada soco, sua mão tornava-se mais e mais leve. O objetivo era esvaziar a mente. Não queria pensar. Não desejava se lembrar da sensação de ter Milo deitado ao seu lado na cama. O calor do corpo sedutor, a pele acetinada deslizando sobre ele...
Um tremor suave percorreu-lhe a espinha, e seus músculos começaram a protestar. Não, precisava se concentrar no saco de areia.
Liberando outro golpe duro e certeiro, Aiolia notou que Seiya vinha em sua direção.
- Onde está Mac? – perguntou o adolescente, sem preâmbulos. Estava apreensivo. – Fui até a casa de Shaka, e não o encontrei.
- Ele se foi. – Aiolia deu um soco tão forte que quase rasgou o couro da luca. – E o nome dele não é Mac.
- Do que está falando?
Ofegante, Aiolia parou com os golpes e segurou o saco de areia. – Estou dizendo que o nome dele não é Mac. É Milo.
Notou o sorriso de compreensão no rosto de Seiya. – Ele se lembrou? Ei, isso é demais!
- É, fantástico. – Aiolia continuou os exercícios, agora com menos entusiasmo. – Logo você vai notar que Milo não está nas redondezas.
O sorriso de Seiya se desfez. – Ele mudou de profissão?
Pegando a toalha dentro da mochila, Aiolia enxugou o suor da testa. – Parece que sim.
Não queria confessar a Seiya que guardava consigo essa esperança. Porque o lado realista de Aiolia, aquele que aceitava a vinda de Milo como uma dádiva do destino, não acreditava nessa possibilidade.
- Para onde ele foi?
- Milo não se deu ao trabalho de me dizer.
- Ah, não! – A expressão de frustração e desapontamento congestionou a face de Seiya. – Ele não falou nada?
- Nada de importante. – Aiolia lembrou-se do resumido bilhete.
- Você não vai atrás dele?
- Não.
- Por que não? – Seiya parecia espantado.
Aiolia deu outro golpe no saco de areia, dessa vez mais forte. – Se ele estiver interessado, sabe onde nos encontrar.
- Não pode estar falando sério, Aiolia! Mac.. Milo precisa de nós dois. Pode se meter em problemas.
De repente, Aiolia sentiu um nó na garganta, mas tentou ignorar o fato de que tinha a mesma preocupação. – É melhor esquecê-lo, Seiya. – aconselhou, sem poder olhar para o garoto. – É o que estou tentando fazer.
Esquecê-lo...
Aiolia foi ao vestiário e entrou debaixo do chuveiro frio. Enquanto o jato de água gelada atingia o corpo suado, ele se deu conta de que mentira para Seiya. Para si mesmo, aliás. Não seria capaz de esquecer Milo por um longo tempo, longo tempo. Talvez nunca o tirasse da cabeça.
Todavia, o banho não apagou o medo. Lembrou-se de aiolos, imaginou-o sozinho, vagando por lugares obscuros, sem auxílio e assustado. Essa era a razão pela qual Aiolia se preocupava com Milo. Apenas essa.
Desligou o chuveiro e pegou a toalha. De alguma maneira, Aiolia sabia que seu instinto protetor o levaria a seguir os rastros de Milo a fim de ter certeza de que ele estava seguro.
Só que, dessa vez, Aiolia sentia-se mais apavorado que antes.
Continua...
Uau! Mais um capítulo enfim postado \o/. Bem, confesso-lhes que esse capítulo me foi muito difícil. E peço desculpas por pular o lemon, mas eu realmente não estava conseguindo escrever a união amorosa dos dois -_-
Mas agradeço a todos por estarem acompanhando o fic. Abraços a P-Shurete e agradecimento especial à Akane M.A.S.T pela betagem.
Beijos da Muk-chan \o/
