Bella passou todo o dia cuidando das feridas e alegou que estava esgotada quando uma criada entrou no quarto para acompanhá-la ao salão para jantar. Sabia que pareceria uma covarde, mas a verdade é que estava tão furiosa com Edward e sua família que não confiava nela mesma se tivesse que compartilhar um jantar inteiro com eles.
Entretanto, ficar no quarto era muito chato, assim desceu sem que ninguém a visse e pegou o jornal do dia para revisar as páginas econômicas. Comprovou seus investimentos, como estava acostumada a fazer, mas então se deu conta de que não sabia em que situação estava sua economia. Edward já havia feito a transferência, como tinha prometido? Certamente não, disse a si mesma, tentando ser paciente. Só estavam casados há um dia. Embora tivesse que recordá-lo. Tinha lido um relatório favorável sobre uma fábrica de algodão nova em Derbyshire, e estava desejando investir uma parte de seu dinheiro.
Leu o jornal três vezes, ordenou os adornos da cômoda duas vezes e se passou uma hora olhando pela janela antes de deixar cair na cama com um grunhido. Estava aborrecida, faminta e só, e tudo era culpa de seu marido e sua maldita família. Ficaria encantada de estrangular todos.
E então, Alice bateu na porta.
Bella sorriu de seu pesar. Supôs que não estava furiosa com toda a família de seu marido. Afinal, era bastante difícil ficar zangada com uma menina de seis anos.
-Está doente? - Perguntou a pequena enquanto subia na cama de Bella.
-Não. Só cansada. - Alice franziu o cenho.
-Quando estou cansada, a senhorita Dobbin me tira da cama mesmo assim. Às vezes, põe-me um pedaço de pano molhado e frio no meu pescoço.
-E acredito que funciona.
A pequena assentiu, muito séria.
-Custa muito dormir com o pescoço molhado.
-Imagino.
-Mamãe disse que faria com que lhe trouxessem uma bandeja com o jantar.
-É muito amável.
-Tem fome?
Antes que pudesse responder, seu estômago grunhiu. Alice se pôs a rir.
-Tem fome!
-Creio que sim.
-Acho que gosto de você.
Bella sorriu, e se sentiu melhor que em todo o dia.
-Me alegro. Também gosto de você.
-Rosalie disse que você provocou um incêndio.
A jovem contou até três antes de responder.
-Houve um incêndio, mas foi um acidente. Eu não o provoquei.
Alice inclinou a cabeça como se estivesse refletindo sobre as palavras de Bella.
-Parece-me que vou acreditar em você. Rosalie se equivoca frequentemente, embora não gosta de admitir.
-Poucos gostam.
-Eu quase nunca me equivoco.
Bella sorriu e afastou o cabelo. Uma criada apareceu na porta com uma bandeja. Alice saltou da cama e disse:
-Será melhor que eu volte para o meu quarto. Se chegar tarde, a senhorita Dobbin comerá meu pudim.
-Isso seria terrível!
Alice fez uma careta.
-Come quando vou à cama.
Bella dobrou o dedo e sussurrou:
-Vêem aqui um instante.
Intrigada, Alice voltou a subir na cama e se aproximou do rosto de Bella.
-Na próxima vez que a senhora Dobbin comer seu pudim - sussurrou - me diga. Iremos à cozinha e procuraremos algo inclusive melhor.
Alice aplaudiu; seu rosto era o reflexo da felicidade.
-Milady, será a melhor prima do mundo!
-Como você - respondeu a jovem condessa, que notou como lhe umedeciam os olhos. - E me chame Bella. Agora somos família.
-Amanhã te mostrarei toda a casa - disse a pequena. - Conheço todos os passadiços secretos.
-Será um prazer. Mas será melhor que vá. Não queremos que a senhorita Dobbin coma seu pudim esta noite.
-Mas se disse...
-Sei, mas hoje a cozinha está inutilizável e seria muito difícil encontrar outra sobremesa.
-Ai! - Exclamou Alice, que empalideceu diante da idéia. - Adeus!
Bella a viu sair do quarto, em seguida se voltou para a bandeja e começou a comer.
Apesar da fome, Bella descobriu que seu apetite só lhe permitiu comer uma quarta parte do jantar. O estômago vazio não ajudou a acalmar os nervos e, mais adiante, quando ouviu como a porta do quarto de Edward se abria, quase saltou até o teto. Ouviu-o ir de um lado para o outro, certamente se preparava para deitar-se, e se amaldiçoou por conter o fôlego cada vez que ouvia que se aproximava da porta que comunicava os dois quarto.
Aquilo era uma loucura. Uma absoluta loucura.
-Teve um dia - murmurou. - Um dia para sentir lástima por ti mesma, mas depois tem que sair e fazer o melhor possível. Todos pensam que ateou fogo na cozinha? Bom, não é o pior que poderia ter acontecido.
Passou um minuto tentando pensar em algo pior. Não era fácil. Finalmente, agitou a mão no ar e, um pouco mais alto que antes, disse:
-Poderia ter matado alguém. Isso teria sido muito ruim. Muito, muito ruim.
Ouviu um ruído na porta. Bella se cobriu até o queixo apesar de saber que estava fechada.
-Sim? - Disse.
-Falava comigo? - Perguntou Edward do outro lado da porta.
-Não.
-E posso perguntar com quem falava. Acaso acreditava que estava falando com um moço?
-Falava sozinha! - E em seguida, murmurando, acrescentou: - Além de Alice, sou a melhor companhia que vou encontrar neste mausoléu.
-O quê?
-Nada!
-Não te ouvi.
-É que não falava contigo! - Exclamou ela.
Silêncio, e em seguida ouviu como seus passos se afastavam da porta. Relaxou um pouco e se aconchegou. Justo quando havia ficado cômoda, ouviu um suave e terrível ruído metálico e grunhiu, porque sabia o que ia encontrar quando abrisse os olhos.
A porta aberta. E Edward de pé na soleira.
-Disse - perguntou, arrastando as palavras, enquanto se apoiava casualmente no marco da porta - alguma vez como são incomodas estas portas?
-Me ocorrem ao menos três respostas - respondeu ela, - mas nenhuma é particularmente própria de uma dama.
Ele agitou a mão no ar, para subtrair importância do seu comentário.
-Asseguro que já faz tempo que deixei de esperar que se comportasse como uma dama. - Ela ficou boquiaberta. - Estava falando - Edward se encolheu de ombros. - Não podia te ouvir.
Bella precisou reunir toda sua força de vontade para apertar os dentes e conter-se, mas o fez.
-Creio que disse que não estava falando contigo - em seguida desenhou um lunático sorriso. - É que estou um pouco louca.
-É curioso que o diga porque juraria que estava falando de matar a alguém. - Edward avançou alguns passos e cruzou os braços. - A questão é: está muito louca?
Bella o olhou horrorizada. Não acreditava que fosse capaz de matar alguém, verdade? Se aquilo não era prova suficiente de que não conhecia esse homem o bastante para ter se casado com ele, não sabia que prova necessitava. Mas então viu rugas ao redor de seus olhos enquanto tentava não rir e respirou tranquila.
-Se quer saber - disse ela ao final, - estava tentando me consolar pelo terrível incidente desta manhã...
-O incêndio?
-Sim, esse - disse, embora não achou engraçada aquela zombadora interrupção. - Como dizia, tentava me consolar com uma lista de coisas que poderiam ter acontecido e que teriam sido piores.
Edward curvou a comissura dos lábios em um sorriso irônico.
-E matar a alguém é pior?
-Bom, depende de quem.
Ele soltou uma gargalhada.
-Mencionado, milady. Sabe como me fazer mal.
-Infelizmente, meus golpes não são letais - respondeu Bella, que não pôde evitar sorrir. O estava passando muito bem.
Produziu-se um agradável momento de silêncio e em seguida Edward disse:
-Eu faço o mesmo.
-Como diz?
-Tentar melhorar uma situação negativa imaginando todas as opções que poderiam ter sido piores.
-Ainda o faz? - Bella gostou muito que os dois enfrentassem da mesma forma à adversidade. Sentiu que, de alguma forma, encaixavam melhor.
-Hmm, sim. Deveria ter ouvido o que pensava no mês passado, quando estava convencido de que toda minha fortuna iria para meu odioso primo James.
-Pensava que seu odioso primo se chamava Laurent.
-Não, Laurent é o sapo. O odioso é James.
-Fez uma lista?
-Sempre faço listas - respondeu ele com leveza.
-Não - disse ela, rindo. – Referia-me se fez uma lista do que seria pior que perder sua fortuna.
-Na realidade, sim - disse com um sorriso. - E, agora que o diz, tenho ele no meu quarto. Quer ouvi-la?
-Por favor.
Edward desapareceu pela porta que conectava os dois quarto e, após alguns segundos, retornou com uma folha de papel. Antes que Bella soubesse o que ia fazer, ele saltou na cama e se deitou ao seu lado.
-Edward!
Ele a olhou de esguelha e sorriu.
-Necessito de um travesseiro para apoiar as costas.
-Saia da minha cama.
-Não estou dentro, só estou em cima - tirou um dos travesseiros de debaixo da cabeça e a afiançou. - Isto está muito melhor.
Bella, cuja cabeça agora pendurava de uma forma muito estranha, não pareceu que assim estivesse melhor e o fez saber. Edward a ignorou e perguntou:
-Quer que eu leia a lista pra ti ou não?
Ela aceitou agitando a mão no ar.
-Perfeito - elevou a nota até a altura dos olhos. Número Um... Ah, por certo, a lista se titula "O que de pior poderia me acontecer".
-Espero não estar nela - sussurrou Bella.
-Não seja boba. Você é o melhor que me ocorreu em meses.
Ela ruborizou ligeiramente e se zangou com ela mesma por reagir assim diante de suas palavras.
-Se não fosse por alguns terríveis maus hábitos, seria perfeita.
-Como diz?
Ele sorriu com picardia.
-Eu adoro quando me diz isso.
-Edward!
-Está bem. Creio que salvou minha fortuna, por isso devo ignorar alguns pequenos defeitos.
-Eu não tenho pequenos defeitos! - Exclamou ela.
-Tem razão - murmurou ele. - Só grandes.
-Não queria dizer isso, e sabe.
Ele cruzou os braços.
-Quer que eu leia a lista?
-Começo a pensar que não tem nenhuma lista. Jamais conheci alguém que mudasse tanto de assunto.
-E eu jamais conheci alguém que falasse tanto como você.
Bella sorriu.
-Pois terá que se acostumar com esta mulher faladora, porque se casou com ela.
Edward virou a cabeça para ela e a observou com atenção.
-Mulher faladora, é? A quem se refere?
Ela se separou dele até o ponto de que quase cai da cama.
-Nem pense em me beijar, Billington.
-Meu nome é Edward, e não tinha pensado em te beijar. Embora, agora que o diz, não é má idéia.
-Lê... a... lista.
Ele se encolheu de ombros.
-Se insiste.
Bella pensava que ia gritar.
-Vejamos - segurou a lista frente aos olhos e golpeou o papel para congregar toda a atenção. - Número um: Laurent poderia herdar a fortuna.
-Pensei que fosse Laurent a herdar a fortuna.
-Não, o herdeiro seria James. Laurent teria que matar os dois. Se não tivesse casado, só teria que ter matado James.
Bella o olhou boquiaberta.
-Diz como se realmente houvesse passado pela cabeça.
-Não o descartaria - respondeu Edward, encolhendo os ombros.
-Sigamos. Número dois: Inglaterra poderia estar anexada a França.
-Estava ébrio quando a fez?
-Tem que admitir que seria terrível. Pior que perder minha fortuna.
-É muito amável antepor o bem-estar da Inglaterra ao seu próprio - disse Bella, muito mordaz.
Ele suspirou e respondeu:
-Imagino que sou assim. Nobre e patriótico até a medula. Número três...
-Posso interromper?
Ele lançou um afligido olhar que claramente dizia: "Acaba de fazê-lo".
Bella pôs os olhos em branco.
-É que me perguntava se a lista segue alguma ordem de importância.
-Por que o pergunta?
-Se seguir uma ordem, significa que prefere que a França conquiste a Inglaterra a que Laurent herde sua fortuna.
Edward soltou o ar pela boca muito devagar.
-Não sei o que é pior. Custaria a me decidir.
-Sempre é tão frívolo?
-Só com as coisas importantes. Número três: o céu poderia cair sobre a terra.
-Isso é muito pior que o fato de Laurent herde sua fortuna! - Exclamou ela.
-Na realidade, não. Se o céu cair sobre a terra, Laurent estaria morto e não poderia desfrutar da fortuna.
-Nem você - respondeu Bella.
-Hmm. Tem razão. Terei que revisar a lista - voltou a lhe sorrir e seus olhos se encheram de calor, embora não de paixão, disse-se Bella.
O olhar de Edward parecia refletir algo mais parecido à amizade ou, ao menos, isso ela esperava. Respirou fundo e decidiu aproveitar daquele doce momento para dizer:
-Eu não provoquei o fogo, sabe? Não fui eu.
Ele suspirou.
-Bella, sei que nunca faria algo assim de propósito.
-É que eu não fiz nada - respondeu ela com secura. - Alguém moveu o ralo do forno depois de que eu o arrumei.
Edward tornou a soltar o ar. Desejava acreditar nela, mas porque alguém ia tocar no forno? As únicas pessoas que sabiam como funcionava eram os criados, e nenhum deles tinham motivos para querer fazer com que a nova condessa ficasse mal.
-Bella - disse, tentando acalmar os ânimos. - Possivelmente não sabe tanto sobre fornos como acreditava. - De repente, ela se tencionou. - Ou possivelmente este forno é distinto ao teu. - Relaxou um pouco a mandíbula, mas ainda estava muito zangada com ele. - Ou possivelmente - seguiu ele, com muita suavidade, enquanto elevava o braço e a segurava pela mão, - possivelmente sabe tanto como diz de fornos, mas cometeu um pequeno engano. O estado de recém casado pode chegar a distrair muito. - Pareceu que ela se suavizou um pouco com esse comentário e Edward acrescentou: - Deus sabe que eu estou distraído.
Para mudar de assunto, Bella assinalou uns rabiscos que havia na parte inferior da folha que ele tinha na mão.
-O que é isso? Outra lista?
Edward olhou, apressou-se a dobrar o papel e disse:
-Ah, não é nada.
-Tenho que lê-la - tirou o papel das mãos e, quando ele se estirou para recuperá-lo, Bella saltou da cama. – "As cinco qualidades mais importantes em uma esposa?" - leu incrédula.
Ele encolheu os ombros.
-Pareceu-me que valia a pena decidir de antemão o que necessitava.
-Quê? "Agora só sou um quê"?
-Não seja obtusa, Bella. É muito inteligente para fingir isso.
Aquilo era um elogio, mas ela não ia agradecer. Com uma gargalhada, começou a ler:
- "Número um: o suficientemente atraente para manter meu interesse." Esse é seu principal requisito?
Edward teve a decência de mostrar-se um pouco envergonhado.
-Se estiver à metade de zangada que aparenta, estou metido em uma boa confusão - sussurrou.
-Nem que o jure - clareou a garganta. - "Número dois: inteligente" - olhou-o com algumas reserva.
-Redimiu-se, embora só um pouco.
Ele estalou a língua e se reclinou no travesseiro da cama, com as mãos entrelaçadas detrás da cabeça.
-E se te dissesse que esta lista não segue nenhuma ordem de importância?
-Não acreditaria.
-Imaginava.
- "Número três: não deve me atormentar". Eu não te atormento.
Edward não disse nada.
-Não o faço.
-Agora mesmo, está fazendo.
Bella lhe lançou um olhar assassino e continuou com a lista.
- "Número quatro: habilidade para mover-se em meu círculo social com facilidade" - tossiu de incredulidade ao lê-lo. - Estou certa de que se dá conta de que não tenho nenhum tipo de experiência com a aristocracia.
-Seu cunhado é o conde de Macclesfield - assinalou Edward.
-Sim, mas é família. Com ele não tenho que me dar ares. Jamais estive em um baile de Londres nem em um salão literário, ou o que seja que os indolentes de sua classe fazem durante a temporada.
-Ignorarei seu gratuito insulto - disse Edward, com altivez que Bella sempre tinha esperado em um conde. - É uma mulher inteligente, não? Estou seguro de que aprenderá o que for necessário. Sabe dançar?
-Claro.
-Sabe conversar? - Agitou a mão. - Não, não diga nada. Já sei a resposta. Conversas muito e muito bem. Dar-se-á perfeitamente em Londres, Isabella.
-Edward, está começando a resultar muito irritante.
Ele se cruzou de braços e esperou que ela continuasse, porque tudo aquilo lhe começava a parecer muito cansativo. Tinha escrito a lista fazia mais de um mês e nunca tinha imaginado repassá-la com sua futura esposa. Inclusive tinha escrito...
De repente, recordou o quinto ponto. O sangue que tinha na cabeça, de repente lhe desceu até os pés. Viu, o quanto lentamente, Bella descia o olhar para a lista e a ouviu dizer:
- "Número cinco..."
Edward nem sequer teve tempo de pensar. Saltou da cama, emitiu um primitivo grito, equilibrou-se sobre ela e a levou ao chão.
-A lista! - Gritou. - Dê-me a lista.
-Que diabo faz? - Bella golpeou os braços para escapar dele. - Me solte, velhaco. Dê-me a lista.
Ela, que estava deitada no chão, elevou o braço por cima da cabeça.
-Me solte!
-A lista! - Exclamou ele.
Bella não pensou em outra alternativa. O golpeou no estômago com o joelho e escapou engatinhando. Levantou-se e leu o papel que tinha entre as mãos enquanto ele continha a respiração. Percorreu as linhas com os olhos e gritou:
-Seu desgraçado!
Edward grunhiu de dor, dobrado pela metade.
-Deveria ter golpeado mais em baixo - disse ela entre dentes.
-Não exagere Bella.
- "Número cinco - leu ela com voz afetada: - Deve ser o suficientemente sofisticada para passar por cima das minhas aventuras amorosas, e ela não terá nenhuma até que me tenha dado, ao menos, dois herdeiros."
Edward teve que admitir que, visto assim, parecia um pouco frio.
-Bella - disse em tom conciliador - sabe que o escrevi antes de te conhecer.
-E que diferença faz?
-Muita. É... eh... é...
-Tenho que acreditar que se apaixonou tão perdidamente por mim que, de repente, todas suas noções sobre o casamento mudaram?
Parecia que seus olhos de chocolate puro cuspiam fogo e gelo ao mesmo tempo, e Edward não sabia se devia sentir temor ou desejo. Expôs dizer uma tolice como «Fica preciosa quando se zanga». Com suas amantes sempre tinha funcionado às mil maravilhas, mas tinha o pressentimento de que com sua mulher não teria êxito.
Olhou-a dúbio. Estava de pé do outro lado do quarto, com a postura firme e os punhos fechados. A lista estava enrugada no chão. Quando viu que a olhava, olhou-o fixamente e Edward teria jurado que ouvia trovões.
Não havia dúvida; esta vez tinha metido o pé até o fundo. "Seu intelecto", pensou. Teria que apelar a seu intelecto e tentar raciocinar com ela. Sempre se orgulhava de sua sensibilidade e sensatez, não é certo?
-Bell - disse - Nunca tivemos a oportunidade de falar sobre o casamento.
-Não - respondeu ela, com um tom de voz cheio de amargura, - simplesmente nos casamos.
-Admito que o casamento foi um pouco precipitado, mas tínhamos bons motivos para atuar assim.
-Você tinha um bom motivo - ela respondeu.
-Não tente fingir que me aproveitei de ti - disse ele com impaciência na voz. - Necessitava deste casamento tanto quanto eu.
-Embora eu não ganhasse tanto com ele.
-Não tem nem idéia do que ganhou! Agora é condessa. Tem mais riquezas do que jamais tinha sonhado - olhou-a fixamente. - Não me insulte fingindo ser a vítima.
-Tenho um título. E tenho uma fortuna. E também tenho um marido diante de quem tenho que responder. Um marido que, pelo visto, não vê nada de errado em me tratar como a uma escrava.
-Isabella, está sendo pouco razoável. Não quero discutir contigo.
-Percebe que só me chama de Isabella quando fala como se eu fosse uma menina pequena?
Edward contou até três e disse:
-Os casamentos da aristocracia se apóiam na premissa de que ambas as partes são o suficientemente maduras para respeitar as escolhas do outro.
Ela o olhou boquiaberta.
-Sabe o que acaba de dizer?
-Bella...
-Acho que disse que, se quiser, eu também posso ser infiel.
-Não seja estúpida.
-Depois do herdeiro e do reposto, claro, como tão eloquentemente expressou por escrito - sentou-se em um divã e ficou perdida em seus pensamentos. - Liberdade para viver minha vida como eu escolher e com quem eu escolher. Que interessante.
Enquanto Edward ficava ali, observando como ela contemplava o adultério, seus anteriores pontos de vista sobre o casamento de repente lhe pareceram tão apetecíveis como o barro.
-Agora já não pode fazer nada a respeito - disse. - Fica muito mal visto ter uma aventura antes de ter um filho.
Ela se pôs a rir.
-O quarto ponto da lista adquiriu um novo significado. - Ele a olhou inexpressivamente.
-Queria alguém que pudesse mover-se com facilidade em seu círculo social. Vê que terei que dominar as complexidades do que fica bem visto e o que não. Vejamos... - Tamborilou os dedos na mandíbula e Edward teve vontades de afastar a mão, embora só fosse para apagar essa expressão sarcástica de seu rosto. - Não fica bem visto ter uma aventura a pouco tempo após casar-se – continuou, - mas fica mal visto ter mais de um amante de uma vez? Terei que investigar. - Ele notou como ia ruborizando e como o músculo da têmpora pulsava cada vez mais depressa. - Certamente fica mal visto ter uma aventura com teu amigo, mas e com um primo longínquo? - Edward começava a ver tudo através de um estranho halo vermelho. - Estou quase certa de que trazer um amante para casa fica mal visto - continuou ela, - mas não estou certa de onde...
Um som afogado, seco e a meio caminho entre o grito e o rugido saiu da garganta de Edward enquanto se equilibrava sobre ela.
-Basta! - Gritou. - Basta já.
-Edward! - Ela tratou de escapar de suas mãos, e conseguiu enlouquecê-lo ainda mais.
-Nenhuma palavra mais - ele disse, em um tom áspero e com os olhos saltados. - Se disser uma palavra mais, juro por Deus que não responderei meus atos.
-Mas eu...
Diante do som de sua voz, segurou-a com força pelos ombros. Agitou os músculos e exagerou a expressão selvagem dos olhos, como se já não soubesse ou importasse o que ela fosse fazer.
Bella o olhou com cautela.
-Edward – sussurrou. - Possivelmente não deveria...
-Possivelmente sim.
Ela abriu a boca para protestar, mas, antes de poder dizer algo, ele a devorou com um apaixonado beijo. Era como se sua boca estivesse em todas partes: em suas bochechas, em seu pescoço, em seus lábios. Percorreu-lhe o corpo com as mãos e se deteve para desfrutar da curva de seus quadris e a turgidez de seus seios.
Bella percebeu como a paixão crescia nele, e nela. Edward encostou seus quadris com as dele. Ela notava sua ereção enquanto ele a aprisionava ainda mais no divã, e demorou vários segundos para dar-se conta de que ela também estava balançando seu corpo ao ritmo de suas investidas.
Estava a seduzindo com sua raiva, e ela estava respondendo. Aquilo bastou para esfriar sua paixão; colocou as mãos em seus ombros e escorregou debaixo dele. Estava do outro lado do quarto antes que ele se levantasse.
-Como se atreve? - disse, ofegando. - Como se atreve?
Edward levantou um ombro em um gesto insolente.
-Era te beijar ou te matar. Parece que minha decisão foi correta - foi até a porta e colocou a mão na maçaneta - Demonstrou que não me equivoquei.
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Perdoem-me pela minha falta de atualização na semana passada aqui (tive/tenho minha razões por não ter podido atualizar), mas quero me redimir. Então vocês terão três capítulos seguidos... Boa leitura. Até mais... Ah não esqueçam de deixar suas reviews!
