A Substituta
Autora: Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 4
Quando Shaina chegou a sua casa, encontrou "Seika" sentada no parapeito da janela, imersa em seus pensamentos. Teve que chamá-la quatro vezes até que ela finalmente atendesse.
- O que houve? Estava tão distraída... - disse Shaina.
- Ah, sim, me desculpe. Mas o que era mesmo que você queria? - perguntou "Seika".
- Eu? Mas não era você quem tinha alguma coisa importante para me dizer? Pelo menos foi isso o que Ikki, Shun e Hyoga me disseram - respondeu Shaina.
- Ah, claro, já lembrei. Que estupidez a minha. É que Seiya... isto é, meu irmão, voltou - disse "Seika".
- O quê? - perguntou Shaina com os olhos esbugalhados. Se a ocasião não fosse tão séria, certamente "Seika" teria rido da expressão de Shaina, era quase cômica. Então, ela limitou-se a dizer:
- É isso mesmo que você ouviu. Ele está novamente entre nós.
- Mas eu não consigo compreender. Como? Isso não é possível - disse Shaina, ainda boquiaberta.
- Claro que é possível. Pois se eu estou dizendo... e eu nunca minto ("Só quando é necessário") - disse "Seika" impassível.
- Seika, você se sente bem? - perguntou Shaina aproximando-se da moça e pondo a mão em sua testa.
- É óbvio que me sinto bem. Por que a dúvida? - perguntou "Seika" um pouco enfadada.
- Bem, é que eu não sei por que você disso isso sobre o Seiya - respondeu Shaina.
- Porque é a verdade - disse "Seika" enquanto descia da janela e ia sentar-se em uma cadeira - Escute-me, Athena ressuscitou Seiya. Agora você entendeu?
- O quê? Quando?! - exclamou Shaina.
- Não sei, deve ter sido ainda há pouco. Mas isso é segredo. Isto é, Athena não quer que Seiya descubra que esteve morto, ele deve pensar que encontrava-se em "khoma". Pelo menos foi isto o que me disseram - explicou "Seika".
- Que curioso. Por que Athena não quer que ele saiba? - estranhou Shaina.
- Eu não sei dizer - respondeu "Seika".
- Há alguma coisa esquisita, algo que não entendo. O que está acontecendo? - perguntou Shaina mais para si mesma do que para "Seika". Ainda assim, esta respondeu:
- Quisera eu saber.
Como se só então se lembrasse de algo, Shaina virou-se para "Seika" e olhou-a fixamente :
- E você? Como sabe do khoma? Você não é amazona, nem sequer aprendiz. Como pôde saber?
- Aqueles cavaleiros... como se chamam mesmo? Hum... creio que Shun... Hyoga... e um outro... bem, foram eles que me contaram sobre o khoma - disse "Seika" tranqüilamente.
- Pois eu não sei por que eles falariam sobre isso com você - insistiu Shaina.
"Realmente ela é muito desconfiada. Mas eu não a culpo", pensou "Seika". E em voz alta:
- Porque eles me disseram que Athena falou que todos deveríamos fingir que ele estivera em khoma e que não morrera, e como eu não pertenço a esse mundo de lutas do qual você faz parte, é natural que eles tenham se preocupado em explicar-me o que é esse khoma, e que é diferente do coma comum que todos conhecemos.
- Ah... compreendo. E será que Marin já sabe que seu aluno está novamente conosco?
- Quem sabe? Mas não se preocupe. Aqueles cavaleiros... Hyoga e... bom, os outros dois... ah, sim, Shun... e o outro... bem, de fato não consigo lembrar o nome dele, mas não importa, o que quero dizer é que eles já foram contar a notícia às outras pessoas do Santuário - comentou "Seika".
Mas Shaina já não prestava atenção. Somente uma palavra, e tudo o que ela significava, dominava seus pensamentos: "vivo". Tão simples, tão rápido... havia morrido, havia voltado, outra vez veria os olhos e o sorriso daquele rapaz impetuoso e um pouco rebelde... mas os olhares não eram para ela, os sorrisos dele eram direcionados a outra pessoa. E no entanto, ela ainda recordava aquele dia em que o defendera do ataque de Aioria (ou melhor, ela protegera Seiya do equívoco do cavaleiro de ouro de Leão) e se declarara a ele, por um brevíssimo espaço de tempo estivera em seus braços e tivera todo o calor que sua alma sempre procurara sem sucesso. E depois... a luta contra Poseidon (outro equívoco?), e ela interferira e outra vez Seiya estivera tão perto... mas sempre tão longe. De repente, Shaina olhou para "Seika" pensativa e pôs em palavras algo que acabara de lembrar:
- Eu creio que você deveria estar com ele agora, ou estou errada?
- Sim, mas eu quis lhe dar a notícia antes. E de qualquer modo, esperarei que ele me procure.
Shaina não pôde deixar de notar o tom indiferente que a moça empregara. Mas não, devia ser apenas impressão, pois "Seika" era a irmã, obviamente deveria ser a pessoa mais feliz em todo o Santuário por saber que não havia perdido Seiya, finalmente eles estariam juntos novamente. Entretanto, Shaina não pôde distinguir nenhum vestígio de emoção na face de "Seika", sua expressão era vazia, excetuando-se seus olhos, pois havia uma certa frieza neles, e inexplicavelmente, Shaina sentiu medo ; a moça à sua frente parecia uma desconhecida absoluta. Porém, a amazona de Ofiúco tentou livrar-se dessa sensação, meditando que, afinal, fazia pouquíssimo tempo que ela procurara por "Seika" e a encontrara (com extrema dificuldade). A moça estivera desmemoriada e só voltara a si recentemente, ela e Shaina praticamente não sabiam coisa alguma uma da outra, então, era normal que "Seika" lhe parecesse enigmática.
E ainda assim, Shaina sentia um pânico irracional, como se a jovem à sua frente não fosse a garota singela que parecia , e sim alguém totalmente destituído de sentimento. De alguma forma, Shaina quase podia dizer que "Seika" seria uma inimiga impiedosa.
"Mas o que estou pensando? Devo estar muito sensível com todos esses acontecimentos, porque é ilógico que eu pense tantas incoerências sobre essa menina, afinal... bom, na realidade, ela é mais velha do que eu, não é? Seja como for, ela é tão somente uma moça comum, totalmente indefesa. Então por que sinto algo esquisito nela? Eu sempre possuí um instinto nato para o perigo, ao menos desde que comecei a treinar para tornar-me o que sou hoje. Só que nada disso faz sentido. Não entendo, não consigo me entender", pensou Shaina preocupada. E continuava olhando tão insistentemente para "Seika", que esta começou a sentir-se ligeiramente incomodada, mas não procurou disfarçar.
Olhando Shaina diretamente nos olhos, ela perguntou:
- Você tem algum problema? Está me observando de maneira inusitada.
Shaina sentiu um certo calafrio, mas tentando convencer a si mesma de que estava sendo irracional, forçou-se a responder à pergunta de "Seika":
- Não sei do que você está falando. Talvez se pudesse ser mais clara...
- Está preocupada com alguma coisa? - perguntou "Seika".
- Por quê? Eu deveria? - respondeu Shaina, desafiadoramente.
- O que há com você? Por que está se comportando dessa forma? Seja sincera.
Shaina ficou calada por um longo tempo, fazendo com que "Seika" pensasse que ela não escutara sua última pergunta. Ela já estava preparada para repeti-la, quando a amazona finalmente falou:
- Certas coisas estranhas e misteriosas já ocorreram neste Santuário. Você não imagina. E já que eu vivo em um mundo de lutas como você disse, é natural que eu tenha certas preocupações.
- Isso não esclarece nada. O modo como você está me olhando é intrigante.
- E como estou te olhando? - Shaina quis saber.
- Como se tivesse medo? - "Seika" não estava segura disso, apenas o dissera para testar Shaina.
A amazona de Ofiúco sobressaltou-se, mas em seguida demonstrou certa indignação, e falou:
- Eu jamais sinto medo. Menos ainda de uma pobre moça como você.
- Que bom. Porque realmente não há nada a temer. Na verdade, eu é quem deveria estar receosa por encontrar-me em um local tão temerário como este - disse "Seika" com serenidade, enquanto dizia para si mesma: "Se você soubesse... então talvez realmente tivesse motivos para sentir-se temerosa."
- Mas então, você não vai procurar Seiya? - perguntou Shaina, querendo mudar de assunto.
- Já disse que esperarei aqui até que ele venha. Francamente, nossa conversa me interessa muitíssimo mais. Isto e saber o que está pensando a meu respeito - disse "Seika" com um sorriso curioso.
- Creio que não tenho nada para pensar sobre você, já que mal nos conhecemos - disse Shaina com estudada indiferença.
- Tem razão, você não me conhece. Mas eu estou aprendendo a conhecer você - disse "Seika" , ainda com o mesmo sorriso misterioso de antes.
Shaina alarmou-se um pouco com as palavras da jovem:
- O que quer dizer com isso?
- Você é um pouco sensitiva, não? Pode sentir o perigo, embora não saiba de onde exatamente ele vem - disse "Seika" pensativa.
Shaina pestanejou:
- Como assim? Não estou conseguindo captar o sentido de suas palavras.
- E por que não? Pois se eu estou falando tão claramente...
- Para mim há algo oculto no que você está dizendo, está falando por enigmas - disse Shaina com firmeza.
- Não diga tolices - disse "Seika" , repreendendo-a como se falasse a uma criança, e não a uma mulher que, na verdade, era mais velha do que ela (ainda que Shaina não soubesse disso).
Shaina continuava pensando que qualquer coisa estranha, impossível de definir, estava acontecendo, e parecia estar relacionada a "Seika". Subitamente, Shaina ficou imaginando se cometera um erro, se em realidade aquela moça não era a irmã de Seiya, e sim uma impostora. Porém, isto era absurdo ; Shaina não sabia por que, de repente, aquela mulher lhe parecia uma estranha, capaz de representar alguma ameaça. Ainda que uma ignorasse o que a outra sentia ou pensava, certamente não existia nenhum motivo para que Shaina começasse a ter pensamentos tão estapafúrdios em relação a ela. A não ser... sim, aquela expressão indecifrável, o olhar repentinamente endurecido, e a conversa incompreensível que elas entabulavam... qual seria o significado de tudo isso?
"Provavelmente, tornei-me um pouco paranóica. Imagino que qualquer um sinta-se assim depois de viver por tanto tempo em um local sujeito a toda espécie de invasão como este" , refletiu Shaina, ainda que as dúvidas continuassem povoando a sua mente.
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Enquanto caminhava pelo Santuário, procurando por seus amigos (pois antes só encontrara pessoas com as quais não tinha praticamente nenhuma intimidade, como Geki, Ban, Ichi, Nachi e até mesmo "o insuportável do Jabu"), Seiya ainda pensava na conversa que tivera com Saori, concluindo como fora impulsivo e infantil. E de modo geral, ele quase sempre se prejudicava por seu comportamento impetuoso; decididamente, precisava aprender a se controlar.
Outrossim, Seiya realmente não poderia esclarecer nada com Saori enquanto não conversasse com Miho; sem dúvida ela merecia algumas explicações, e isto era tudo o que ele podia fazer por ela. No entanto, o cavaleiro de Pégasus não teve muito tempo para deter-se neste assunto, pois enfim avistara seus companheiros. Acenou-lhes com a mão e começou a correr em direção a eles, mas logo teve que parar porque novamente sentiu uma pontada no local onde Hades o havia ferido, e desta vez a dor foi mais intensa, quase impedindo-o de respirar. Contudo, em poucos segundos, Shun, Shiryu, Ikki e Hyoga aproximaram-se de Seiya e cada um (até mesmo Ikki) o abraçou. Isto foi um pouco penoso para Pégasus, devido às dores que sentia em seu peito; mas ocultando seu mal-estar, ele sorriu para seus parceiros e disse:
- Não imaginam como estou feliz por ver todos sãos e salvos. Pensei que jamais voltaríamos daquele lugar detestável.
- Todos nós pensamos - disse Shun, e o tom pesaroso de sua voz não passou despercebido a nenhum de seus amigos . Seiya olhou para Andrômeda afetuosamente e disse:
- Como se sente, Shun? Eu estava muito preocupado com você. Está bem, não é?
- Sim, claro, não se aflija - respondeu Shun com doçura.
- Vocês estão ... não sei... um pouco abatidos, talvez? - perguntou Seiya inquieto.
- Não é nada. Já vai passar - disse Ikki em tom monótono.
Seiya ficou observando seus companheiros por algum tempo, e notando que o silêncio estava persistindo além do normal, Shiryu falou:
- Bom, suponho que todos temos muitas coisas para falar. Você mesmo, Seiya. Já viu a sua irmã?
- Para ser sincero, ainda não. Aliás, eu estava mesmo procurando por ela e por vocês. Mas ainda não consegui encontrá-la. E também não vi a Marin.
- Sua irmã está na casa da Shaina - disse Shun.
- Da Shaina? - admirou-se Seiya.
- Sim. Foi ela quem a encontrou - disse Hyoga.
- É mesmo? Que estranho. Mas por que justamente a Shaina teria algum interesse em procurar minha irmã? - perguntou Seiya pasmado.
Ninguém disse nada, mas ficou evidente que todos pensavam a mesma coisa: Shaina amava Seiya, isto não era segredo para ninguém, então era óbvio que ela quisesse fazer algo que o deixasse feliz. E Pégasus também, claro, logo percebeu a resposta para sua pergunta:
- Ah... entendo. Bem, quando eu ainda estava no mundo dos mortos, e soube que Seika tinha sido encontrada... Bom, eu nem imaginei quem tinha feito isso. Na verdade, nem sei o que pensei em meio àquelas lutas.
- Mas você não vai vê-la, Seiya? - perguntou Hyoga.
- É claro que sim. Eu já disse que a estava procurando. Mas me esclareça uma dúvida: por que minha irmã está na casa de Shaina?
- Como eu disse agora há pouco, foi ela quem encontrou sua irmã. Neste caso, é lógico que Shaina esteja responsável por ela - disse Hyoga pacientemente.
- Deveria ser o contrário; creio que minha irmã é mais velha que Shaina. Bom, mas ela é uma amazona, então é claro que tem que proteger Seika - murmurou Seiya. E acrescentou: - Eu vou vê-la. Mas antes... têm certeza de que vocês estão bem?
- Sim, Seiya. Vá tranqüilo. Certamente sua irmã está ansiosa para te ver. Ela chorou muito quando te viu... desacordado em meus braços. Quero dizer... ela pensou... que você tinha morrido - disse Shiryu, mas ao dizer essas palavras, ele não estava olhando para Seiya, pois não gostava de mentir, menos ainda para um de seus melhores amigos. Na verdade, seu melhor amigo.
- Mas ninguém disse o que havia me acontecido? Que eu estava inconsciente, mas iria recuperar-me?
- Ah, claro. Claro que dissemos - mentiu Ikki.
- Alegro-me por saber disso. Mas se não há nenhum problema, então por que será que Saori não queria que eu saísse do salão do Mestre? Eu pensei que ocorrera algo grave e ela estivesse me escondendo. No entanto... se todos estão bem, não consigo compreender por que ela agiu dessa maneira - disse Seiya irresoluto.
- Mas ela não deu nenhuma justificativa? - sondou Shun.
- Ela só disse que preferia que todos soubessem antes que eu fora resgatado do khoma e que só depois eu saísse para ver vocês. Mas isso não faz sentido.
- Não mesmo - concordou Hyoga.
- Algo aconteceu. Mas o quê? - perguntou-se Seiya.
- Esqueça isso, Seiya, e vá ver sua irmã - insistiu Shiryu.
- O problema é que eu não sei onde fica a casa de Shaina - disse Seiya.
- Nós também não sabíamos, é claro. Tivemos que perguntar. Bem, eu quero dizer, Hyoga, meu irmão e eu fomos até lá porque naquela hora Shiryu ainda não estava conosco - disse Shun.
- É verdade, eu também não sei onde ela mora - disse Shiryu.
- Mas não importa. Seiya, vou te levar até lá - disse Shun. E assim, todos encaminharam-se à residência da amazona de Ofiúco.
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Shaina atendeu à porta e ficou muito surpresa ao ver os cinco amigos, sobretudo Seiya. Mas era normal que ele estivesse ali, pois certamente seus companheiros deveriam ter-lhe contado que "Seika" estava lá.
- Seiya, como está? - perguntou Shaina, com cautela.
- Bem, obrigado. E minha irmã? - perguntou Seiya, tentando olhar para dentro da casa de Shaina.
Mas não teve que esperar para obter uma resposta, pois rapidamente "Seika" apareceu, e como Shaina estava (involuntariamente) obstruindo a passagem dos cavaleiros para o interior de sua habitação, "Seika" quase a empurrou para falar com Seiya e atirou-se nos braços do "irmão".
Os dois começaram a chorar copiosamente, e Shiryu e os outros preferiram retirar-se para que os "irmãos" pudessem conversar a sós. Somente Shaina permaneceu, não porque fosse intrometida, e sim porque estava observando o comportamento de "Seika" , que, francamente, parecia-lhe cada vez mais intrigante. Ela já não se assemelhava àquela moça altiva e fria com quem Shaina tivera um diálogo singular havia pouco, agora voltara a ser uma jovem de aparência humilde e modesta. "Mas o que significa isto? Quem é essa mulher, na realidade? E não pode ser uma impostora, pois por mais emocionado que Seiya esteja, se ela não fosse sua irmã, inevitavelmente ele teria notado. Porém, a dúvida persiste: quem é ela realmente?" , pensou Shaina com ar intrigado.
Quando Seiya recuperou-se da emoção por estar outra vez, depois de anos, perto de sua "irmã", finalmente percebeu que Shaina continuava ali e, ainda com os olhos enevoados, disse:
- Shaina, te agradecerei até o fim da minha vida por ter encontrado minha irmã. Não sei como recompensar o seu gesto tão valioso, o que você fez não tem preço.
- Não se preocupe, estou feliz que você esteja novamente com sua irmã, você merece - mas ao dizer isso, Shaina não olhava para Seiya, e sim para "Seika". E sem conseguir conter-se, perguntou:
- E sua irmã é a mesma? Não mudou nem um pouco?
- Não, ela corresponde exatamente à imagem que eu sempre conservei em minha lembrança. Aliás, se é minha irmã, como eu poderia esquecê-la? - disse Seiya, sorrindo docemente para a "irmã". "Seika" também sorriu para ele, e mais ainda para Shaina, mas para esta seu sorriso era um pouco sarcástico.
E outra vez Shaina experimentou uma sensação desagradável, algo estava errado. "Entrementes, Seiya a reconheceu como sua irmã. Então não deveria haver problemas. Mas por que ela me olha como se estivesse me desafiando?" , Shaina continuava desconfiada.
- Irmãozinho, todos comportaram-se muito bem comigo, principalmente a Shaina. Ela foi muito boazinha, um verdadeiro anjo. E tornamo-nos boas amigas, não é verdade? - comentou "Seika".
- Ah, claro - concordou Shaina friamente. Em seguida, acrescentou: - Tenho que sair, mas fiquem à vontade. Com licença.
Seiya ficou observando a amazona afastar-se, depois virou-se para "Seika" e disse:
- Não sei por que, mas ela está um pouco esquisita. Não entendi a reação dela quando você falou que vocês duas tornaram-se boas amigas.
- Que reação? Não viu que ela concordou comigo? - disse "Seika" totalmente despreocupada com a desconfiança de Seiya.
- Sim, mas... a Shaina às vezes tem uns modos bruscos... será que ela não foi um pouco... rude, talvez?
- E por que seria? - disse "Seika", sempre sorrindo.
- Eu já disse, ela é um pouco... ríspida - disse Seiya enquanto acariciava a irmã.
- Ah, ela foi absolutamente encantadora comigo, querido. Ela é muito doce e meiga - disse "Seika", esforçando-se para não rir de seu próprio comentário.
- Doce? Meiga? A Shaina? - estranhou Seiya, lembrando-se das ocasiões em que a amazona de Ofiúco quis matá-lo. Claro, era verdade que depois ela desistira e dissera que o amava... e também tentara ajudá-lo na batalha de Poseidon. Mas apesar disso, Seiya jamais usaria semelhantes adjetivos para definir a personalidade de Shaina.
- Acredite-me, é verdade mesmo - afirmou "Seika".
- Se você diz... - disse Seiya ainda em tom de dúvida.
- Mas irmãozinho, por que não mudamos de assunto? Estou certa de que você tem muitas coisas para dizer-me. E temos que recuperar o tempo perdido, todo esse tempo que nos roubaram, você não concorda? - disse "Seika".
- Tem razão - Seiya sorriu e os "irmãos" voltaram a se abraçar. Seiya disse:
- Eu juro que agora ninguém nunca mais nos separará.
Ao ouvir essas palavras, "Seika" não pôde deixar de sentir compaixão por ele e um pouco de remorso por estar enganando uma pessoa carente do afeto de uma irmã perdida.
- Sempre estaremos juntos, não é verdade, Seika? - perguntou Seiya feliz, olhando diretamente nos olhos da suposta irmã.
Porém, a falsa Seika não conseguiu dizer nada, pois sentiu uma contrição na garganta, somente pôde concordar com ele com um aceno da cabeça, enquanto tentava convencer a si mesma de que seus objetivos eram mais valiosos que qualquer coisa no mundo ; ela nem mesmo conhecia esse cavaleiro, portanto, não era necessário importar-se com ele. Mas em seu interior, ela sentiu raiva de si mesma por ter uma alma tão fria, por ter que usá-lo daquela forma, o que originaria uma desilusão que ela não poderia reparar.
Entretanto, logo após refletir sobre isso, sua expressão endureceu-se: ela não tinha que sentir-se responsável, não havia nenhum laço entre eles mesmo, então, tudo o que ele dissesse ou sentisse não lhe importava. Aliás, não existia nem uma única pessoa em todo o mundo que realmente significasse algo para "Seika". Evidentemente, ela não queria machucar ninguém se pudesse evitá-lo, mas não tinha alternativa e seguiria seus propósitos até o fim.
Seiya percebeu a súbita mudança na expressão facial de "Seika", de terna passara a uma frieza surpreendente. Ele recuou um pouco e perguntou:
- O que houve, irmã? Por que me olha assim?
- Não, eu não estava olhando para você. Estava pensando em como sinto raiva da vida, do nosso destino, por terem nos separado - mentiu "Seika" e, logo após, seu semblante desanuviou-se.
- Eu entendo. Mas não se atormente mais, eu já disse que jamais voltaremos a nos separar - disse Seiya, enquanto abraçava a "irmã" e depositava-lhe um terno beijo na testa.
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- Acabo de ver o Seiya, Marin - disse Shaina.
- É mesmo? E onde você o encontrou? - perguntou a amazona de Águia.
- Ele está em minha casa conversando com a irmã - respondeu Shaina.
- Com a irmã? Sei... E como ele está? - quis saber Marin.
- Bem. Parece que nada aconteceu. E sabe o que ele me disse ?
- O quê? - perguntou Marin.
- Que agradeceria a mim até o fim de sua vida por eu ter encontrado sua irmã. Essa mesma vida que ele acabara de perder. E agora ele está outra vez conosco, sem nem mesmo ter a mais vaga suspeita do que lhe aconteceu. Não é irônico?
