N/a: Olá! O último capítulo tinha ficado mais curto e esse ficou mais longo que o normal, mas foi a melhor forma que encontrei de dividí-los. Este é o capítulo final, mas vou postar um epílogo logo em seguida. Sem mais delongas, vamos pra história!
SOMBRA DO PASSADO
CAPÍTULO 9
-Terry Muller, amigo de longa de data de Gary. – disse ele, apontando o homem louro de pouco mais de trinta anos da foto. – Empresário em Nova York, confirmou que esteve com Gary no domingo, logo depois que ele voltou da Líbia. Entrei em contato com Terry, e ele me contou duas coisas muito interessantes.
Ele parou para olhar os amigos, apreciando o suspense.
-Primeiro, que Gary era casado e tinha um filho, mas perdeu a família em uma tragédia há dois anos atrás.
Já era de se esperar algo do tipo, desde que Cath encontrara os brinquedos e fotos na casa do homem.
-Eu perguntei sobre a profissão do amigo, e Terry se mostrou um pouco evasivo, disse que o homem teve uma fábrica de maquinário agrícola mas há algum tempo que havia fechado. Tive que insistir e pressioná-lo, Gary está morto, não havia por que não falar a verdade.
-Então ele disse o que deduzimos: Gary era um mercador de armas, estava no negócio há mais de cinco anos. E aí entra a segunda coisa interessante: ele viajou para a Líbia por causa de um negócio com um grupo guerrilheiro sudanês. Quando já estava na Líbia, outro grupo entrou em contato com ele, mas parece que Gary negou fazer negócios com eles por que não pagariam em dinheiro.
Algumas cabeças balançaram em acordo.
-Agora temos autores e motivo para o bilhete que encontramos. – disse Grissom.
-Existem muitos lugares manipulando vírus e bactérias na África. – concordou Warrick – Não seria muito difícil um grupo guerrilheiro ter acesso a isso.
-Mas como o teriam infectado? – perguntou Nick.
-Seringa. – respondeu Grissom, mostrando uma foto da autópsia.
-O homem não tinha histórico de drogas? – perguntou Warrick.
-Fizemos exames. – respondeu Greg – Ele estava limpo por três semanas, no mínimo.
Warrick asssentiu, e então recordou-se de algo.
-Lembram-se de uma chave, que eu e Cath encontramos na casa de Gary? – alguns menearam em acordo - Era de um depósito abandonado, antigo endereço da fábrica de maquinário agrícola de Gary, que faliu. Encontramos vários contâineres muito antigos, e em um deles? – Warrick olhou para Catherine.
-Armas. O suficiente pra armar um batalhão. Automáticas, rifles, pistolas russas... tudo que se pode imaginar. A polícia apreendeu tudo, vão precisar de uns três dias para removê-las.
-O que achei estranho. – disse Sara, ainda pensando na questão do vírus. – É que se o vírus foi injetado em Gary, seria impossível ele não ter percebido.
-Há várias formas de se distrair um homem. – disse Nick, um sorriso maroto.
-Eu acho – disse Grissom, ignorando o comentário de Nick – que ele só desconfiou de algo quando os sintomas começaram a piorar.
-Que foi quando chegou em Vegas.
-E correu para a casa da ex-namorada falando coisas sem nexo... – finalizou Catherine.
-E quanto a isso temos algumas coisas a acrescentar. – disse Warrick, referindo-se a ele e Cath.
Todos olharam para os dois, e Catherine fez um meneio.
-Realmente, quando estivemos na casa de Nicole para averiguar a tal fita, ela acrescentou alguns fatos que havia esquecido de contar na primeira versão.
-Que fatos?
-Que ela tem um namorado chamado Jimmy – falou Warrick – E que ele estava no apartamento de Nicole na noite que Gary foi até lá.
Grissom ergueu uma sobrancelha.
-E por que ela não havia mencionado isso?
-Parece que os dois não se davam muito bem e quando falamos que Gary estava morto, Nicole teve medo que Jimmy tivesse matado-o. – esclareceu Catherine.
-Por acaso os dois homens brigaram? – perguntou Nick, deduzindo o previsível e lembrando-se das marcas de agresão no corpo de Gary.
-Brigaram. – confirmou Cath. – E graças a isso Jimmy está internado agora.
Quando os olhares se tornaram surpresos, ela acrescentou rápido.
-Não por causa da briga em si... – ela tomou uma pausa – Sabe aquela mania idiota que os homens têm de cuspir no rosto de outra pessoa quando querem mostrar superioridade?
Ninguém deu mostras de responder, mas ela continuou.
-Parece que foi o que Gary fez. Cuspiu no rosto de Jimmy, pegando no olho.
-E ele foi infectado pelo vírus. – completou Grissom, entendendo.
-Por que eu tenho a impressão que não vamos ser deixados em paz tão cedo? – reclamou Brass, falando por todos.
-E onde está a tal fita? – perguntou Nick, curioso.
Cath mostrou um pacote plástico. Lá estava a fita de vídeo, em uma caixa branca com um recado rabiscado.
-" Para Nicole Gardman. Kevin, não se atreva a abrir, entregue à ela!" – Sara leu em voz alta e mirou Warrick e Catherine, à sua frente, esperando por um esclarecimento.
-Parece que Nicole tem o costume de alugar um filme toda quarta-feira. – começou Warrick – No caminho do trabalho para casa ela passa, toda semana, na mesma locadora.
-Essa semana o balconista, Kevin, disse para ela que havia encontrado essa fita na caixa de devolução 24 horas, na manhã de terça. – completou Catherine.
-Parece que Gary sabia deste hábito de Nicole. Deve ter deixado a fita depois da briga com Jimmy.
-Talvez ele soubesse que iria morrer, e quisesse contar algo a Nicole. – falou Greg.
-Por que não assistimos a fita de uma vez e tiramos a dúvida? – lançou Nick. Parecia que todos estavam apenas esperando que alguém mencionasse aquilo.
A imagem negra aos poucos foi substituída por um rosto, uma face contorcida. Gary Simielli, pelo horário do vídeo, poucas horas antes de morrer. Estava sentado no banco de motorista do carro, e do lado de fora podiam-se ver algumas placas iluminados de lojas fechadas.
Hey, Nikky.
O rosto de Gary se contorceu, impossível saber se era um sorriso ou uma expressão de dor. Haviam algumas marcas na face, e sangue seco no lábio. O suor gotejava da testa.
Você sabe que eu sempre confiei em você, menina. Queria poder ter conversado com você esta noite, só nos dois, como nos velhos tempos.
Outra torção, desta vez visivelmente de fúria. O momento foi rápido, o homem tomou o controle e falou em um tom baixo.
Não vamos nos perder em minúcias, até porque não tenho muito tempo. Nikky, se lembra de quando você me perguntava o porquê de eu comprar carrinhos e jogos de montar? Se lembra que eu tinha pesadelos e sonos agitados? Se lembra que eu sempre fui evasivo em relação ao meu passado?
Todos na sala prestavam a máxima atenção. Apesar da aparência de Gary estar terrível e ele parecer falar com dificuldade, seus pensamentos estavam incrivelmente sóbrios.
Eu sempre fui um garoto inteligente. Um garoto inteligente com pais medíocres. Você não tem idéia de quão difícil foi, sem o apoio deles. Na escola era isolado e em casa, meus pais me repreendiam por não me entreter com coisas de crianças normais. Decidi que iria provar a eles... Mas vamos pular essa parte.
Ele pareceu mirar algo no painel, limpou o suor da testa e continuou.
Até o dia em que conheci Samantha. Ela era perfeita, Nikky. Perfeita demais para mim. Depois de 6 anos vivendo com a mesma pessoa você passa a conhecer tudo dela. Ou não. Com Sam era assim. Escondi o que fazia e ela parecia consentir silenciosamente, se fazer de besta. Até o dia que realmente descobriu a verdade.
Ele parou novamente, umedecendo os lábios.
Queria tanto esquecer desse dia, Nikky. Mas é impossível, quanto mais tento, mais me lembro. A discussão. A briga. O remédio no copo. Ela bebendo. Eu devia sentir algo, mas não senti. Por Deus, era minha mulher! Mas pra quem financia carnificinas... Eu teria chamado a polícia, feito uma cara de vítima, falado que ela andava deprimida e o laudo seria suicídio. Não haviam vestígios da briga, que foi apenas verbal. Mas o destino não quis assim. Meu...
Neste ponto ele parou, e foi com dificuldade que continuou
Meu filho, Aaron tinha 6 anos. Ele tinha um sono pesado dos diabos, a gente podia derrubar a casa que ele não acordava. Mas naquele dia... ele estava na escada, assistindo a tudo. Ele ouviu a briga. E provavelmente me viu virar o pó do remédio no copo de Sam.
Gary limpou rápido uma lágrima eu escapou e continuou, os olhos marejados.
Eu vi medo nos olhos dele, Nikky. Algo que nenhum pai quer ver nos olhos de seu filho. O que ele pensou que faria com ele? Você pode pensar, por que se preocupar com o menino seu eu matara Sam tão voluntariamente? Sam... era o que eu não podia ser. Inocente, feliz, todos gostavam dela... disse que eu era um assassino, que ia me entregar à polícia... Mas o Aaron, ah o Aaaron. Era uma parte de mim que ainda podia ser diferente, talvez a única parte boa de mim que havia restado.
Mas antes que eu pudesse falar, ele correu. Correu para a porta dos fundos, para o quintal. Descalço e de pijamas. Correu para o limite do terreno e pulou a cerca. Em direção à área montanhosa atrás de nossa casa.
Agora o nervosismo do homem era visível. As lágrimas rolavam soltas, molhando a face que já estava úmida de suor.
Ele corria tanto, Nicole. Queria acalmá-lo, pegá-lo em meus braços e dizer que estava tudo bem. Mesmo que nunca estivesse, e nunca voltasse a estar. Por Deus, aquele garoto era tudo de bom que restara de mim...
O homem baixou a cabeça, numa tentativa visível de se acalmar para continuar. Alguns peritos trocaram olhares nos longos segundos que Gary levou para recuperar-se.
Eu tive que chamar a polícia. Morava em Boulder City, e toda a região que circunda a cidade é seca e montanhosa. Eles encontraram o Aaron dois dias depois...
O homem fixou o olhar como se visse algo. A voz parecia um eco distante.
Estatelado no fundo de um vale. Na corrida desenfreada, caiu de uma grande altura. O corpo tão frágil... o crânio rachado.
Por um momento, todos pensaram que ele iria perder o controle novamente. Mas então ele mirou a câmera, firme.
Disse à polícia que havia acordado e encontrado minha mulher caída sobre a mesa do café da manhã... segurei-a, tentando reavivá-la, quando meu filho apareceu na cozinha e entendeu tudo errado, saindo correndo pela porta dos fundos.
Nesse momento, a sombra de um sorriso surgiu na face do homem.
Era tudo óbvio demais, e eu estava arrasado. Acho que nem houve uma investigação para a morte de Sam, e se houve foi bem curta. Foi então que me mudei para Vegas, em uma tentativa de deixar esse passado para trás.
Gary parou, ofegante. Falar por tanto tempo parecia ter extinguido seu fôlego.
E acho que só sobrevivi nestes dois anos por causa de você, Nikky. Era a única que me fazia esquecer o passado, mesmo que por alguns segundos. Acho que nunca disse isso, mas obrigado.
A expressão de Gary era de profunda tristeza e então, quando os peritos imaginavam o que viria a seguir, a imagem se dissolveu.
Demorou um tempo para que alguém falasse algo. Sara pareceu se lembrar de algo.
-Aaron...
Todos a miraram curiosos.
-O dia que encontramos o corpo dele no deserto. – disse ela, olhando para Nick – Lembra da posição que estava? Tentando alcançar algo?
-Então o fantasma do filho veio assombrá-lo na hora do morte? – disse Greg, um tom impassível que não demonstrava a aversão que sentia por Gary.
-Eu acho que o fantasma de Aaron nunca deixou de assombrá-lo. – disse Grissom
Todos pararam para absorver a frase do homem. Brass se lembrou de um trecho da conversa que haviam tido com Nicole, naquele dia.
-Depois de tudo isso. – havia dito ao fim do relato dela – Depois de tudo que este homem lhe causou, continuava a encontrar-se com ele. Por quê?
Ela mantinha um sorriso, enquanto olhava para o próprio colo.
-Eu o amava. E achei que poderia salvá-lo. Mas acho que me enganei.
-Não havia como salvá-lo. – disse em voz alta, recebendo olhares interrogativos dos colegas. – Um homem que se aproveita de guerras para sobreviver, que se importa com o filho mas mata a mulher e não sente nada? Ele era desequilibrado.
-E então, o que acontece agora? – disse Nick, uma nota de indignação na voz. – O homem era culpado de dois homicídios, fora as vidas que tirou com as armas. E não foi punido por irresponsabilidade policial.
Alguns abaixaram a cabeça. Catherine falou, em voz baixa:
-A vida tratou de puní-lo.
N/a: Finished! Espero que tenham gostado da história. Minha intenção foi escrever uma case file de qualidade, seguindo as mesmas linhas do seriado. Obrigado a quem leu, obrigado a quem deixou review e até a próxima!
