Cap.8 – Surpresas e retornos
Sozinha, indefesa, encurrala por uma pessoa que eu acreditava ser meu amigo, não sei o que incomodava mais, saber que ia morrer ou ter sido feita de trouxa. Talvez nenhum dos dois se eu olhasse pelo lado que mortos não precisam de orgulho, mas eu não pensei por esse lado. Na verdade eu não estava pensando, ainda estava atordoada.
- Você fingiu isso?! – Eu perguntei incrédula. - Mas o telefone, você falou com Isaac, disse que Beatrice havia sido atacada!
Ele tirou o celular do bolso e apertou alguns botões, segundos mais tarde o celular começou a tocar e a vibrar como havia feito no carro. – O que?! Isaac?! Beatrice foi atacada?! – Ele repetiu as palavras parecendo tão desesperado como da vez dentro do carro, depois fechou o aparelho e me lançou um olhar debochado. – O celular estava no alarme. – Minha boca se abria e fechava como um peixe fora d'água em busca de palavras.
- Você me enganou, você mentiu pra mim!
- Ora, Bella. Não fique tão magoada, afinal de contas nem somos tão amigos assim...
- Se queria tanto me ver morta por que me salvou de Laurent?
- Não é uma questão de te ver morta ou não, é uma questão de te ter como minha presa ou não. Se Laurent tivesse te matado eu não ganharia o premio e se William tivesse tido o que queria eu não teria com quem competir. – Ele começou a caminhar lentamente na minha direção, eu não ia correr ele sabia. Já havia me conformado com minha morte eminente, mas isso não me impediu de sentir ódio por Vincent.
- O que William tem haver com isso?
- Estava esperando que perguntasse. É uma história muito bonita na verdade, ele se apaixonou por você, amor a primeira vista, parece até a novela das seis. – Ele sorriu malicioso com o meu misto de surpresa e ódio. Surpresa por William e ódio por ele, claro.
- Era tudo uma competição então?
- E o que achou que fosse? Bons modos? Não seja ingênua, Bella.
- Por que?
- Quando se vive eternamente, precisamos arrumar algum jeito de driblar o tédio.
- Beatrice estava certa sobre você. – Eu disse entre dentes.
- É claro que estava, Beatrice está sempre certa. Infelizmente você não vai mais ter a chance de constatar isso com seus próprios olhos. – Ele estava parado na minha frente, os olhos diabólicos se afundando nos meus, minha vontade era tentar machuca-lo da pior maneira possível, mas era inútil, mesmo se não fosse um vampiro ainda seria uma pessoa normal muito mais forte do que eu. Ele ergueu uma das mãos em um daqueles momentos impossíveis de se perceber e eu senti os dedos frios se fechando no meu pescoço e comprimindo minha pele. – O caminho pra você acaba aqui, Bella e eu prometo que não vou ser rápido. – Ele estava tão próximo de mim que eu podia sentir o hálito de gelo tocando a minha pele. Então era isso, eu ia morrer nas mãos do vampiro mais diabólico dos tempos, pensei em Edward e fechei os olhos. Busquei sua imagem em minhas memórias, seus olhos doces, seu sorriso torto, seus cabelos desalinhados, queria vê-lo mais uma vez antes de morrer, queria tanto...
Senti, de repente, meus pés vacilando sob um peso maior do que eu poderia agüentar e minha queda contra o tapete de grama veio acompanhado do som de inúmeras folhas secas sendo esmigalhadas. Antes mesmo que pudesse abrir os olhos uma mão segurou meu braço e me puxou para longe me libertando daquele peso inexplicável e foi então que eu entendi. O peso na verdade era Vincent, caído de cara contra a grama com uma das mãos sobre a nuca, mas ainda assim consciente e me arrastando para longe estava William. Ele me colocou próxima de uma grande pedra coberta de musgo e eu percebi que segurava um grande e pesado tronco.
- Você está bem?! – Ele me olhou quase em tanto desespero quanto eu. Ergueu meu queixo delicadamente para ver se eu não havia sido mordida. – Bella, está tudo bem?! – Eu não conseguia responder, não sei o que aconteceu comigo, minha língua travou, meu cérebro parou de funcionar, tudo estava rápido demais para mim. Foi então que vi Vincent se aproximando rapidamente de nós, William estava de costas não conseguiria ver.
- William!! – Foi a única coisa que consegui dizer antes que Vincent o pegasse pelas roupas e o arremessasse para o outro lado do nosso pequeno ringue de boxe. William bateu no chão com um baque surdo e antes que conseguisse levantar Vincent já estava sobre ele novamente, o segurando pela gola do casaco com uma das mãos em seu pescoço. Eu me encolhi dos rugidos e silvos que os dois soltavam e que gelava até meu sangue, mas ainda consegui ouvir a voz de Vincent.
- Grande erro. – E mais uma vez William foi arremessado através do campo e diretamente contra uma arvore gigantesca e antes que pudesse levantar Vincent já havia o alcançado e mais uma vez William estava voando pelo campo como um boneco de borracha.
Depois do terceiro arremesso ele veio parar próximo de onde eu estava sentada ainda em choque e eu pude ver o tamanho do estrago que Vincent estava proporcionando. William mal conseguia se colocar de pé, dois grandes arranhões estavam abertos em seu rosto angelical e suas roupas já estavam banhadas em sangue. Eu tive a certeza de que ele estava mais machucado do que eu imaginava quando vi uma pequena poça de sangue no lugar onde ele estivera deitado. Precisávamos de um plano, nunca iríamos conseguir vencer Vincent assim, ele era muito mais forte do que William e eu não representava ameaça alguma.
Naquele momento meus olhos se encontraram com os dele e eu pude ver que havia algo diferente neles, algo forte e foi então que William se levantou e atravessou aquele campo como um relâmpago diretamente na direção de Vincent. Os dois se engalfinharam e sumiram entre as arvores parecendo duas estrelas cadentes e, então, silencio. Quando me levantei conseguia até ouvir o rio correndo a vários metros dali e ainda nenhum sinal de William ou Vincent.
Uma pessoa normal teria fugido de volta a estrada para conseguir ajuda, mas eu não era uma pessoa normal e William não tinha tanto tempo assim então corri o mais rápido que pude para procura-los. Não conseguia ver nada, nenhum sinal dos dois alem do traço de destruição que haviam deixado, mas eu não podia parar, precisava achar William. Um galho quebrando. Eu me virei rapidamente. – William? – Outro galho. Meus joelhos começaram a tremer. – Por favor... – Implorei desesperadamente.
Duas mãos me seguraram pelos ombros e me viraram rapidamente, para o meu alivio eram as de William, mas para minha angústia ele parecia pior do que antes. Seu lábio inferior estava sangrando e os cabelos estavam emplastrados na testa em uma mistura de suor e sangue. - Você está bem?! – Ele me perguntou desesperado, eu apenas afirmei com a cabeça. – Precisamos sair daqui, não temos tempo. – Ele passou meus braços pelos ombros e saímos deslizando floresta adentro. Não tinha a mínima idéia para onde estávamos indo, mas também não estava me importando. Naquele momento William era a única pessoa em quem eu podia confiar e julgando pelo seu estado ele não devia estar mentindo.
Ele me soltou próximo a uma caverna natural feita inteiramente de pedra e me guiou entre os labirintos de galhos e arvores ao redor dela. Finalmente paramos, próximos de um barranco e William me ajudou a descer ate ficarmos protegidos embaixo do nodoso tronco que estava caído no chão.
– Bella, me desculpe. Me desculpe. Eu não queria. Não foi a minha intenção. – Ele começou a falar tão rápido que eu mal conseguia distinguir uma palavra da outra e seu desespero era tanto que me lembrou de Jasper no estacionamento do mercado. Eu abracei meus joelhos trêmulos enquanto ele tremia, ofegava e balançava a cabeça negativamente sem parar, nem parecia o mesmo que mal se movia e mal falava. – Eu não queria, Bella. Mas Vincent, ele...eu não consegui. Me desculpe.
- Você não podia ter feito nada. Eu devia ter escutado quando Beatrice me avisou. Não foi culpa sua. – Ele correu as mãos finas pelos cabelos bagunçados, seus dedos tremiam quando ele se abaixou ao meu lado.
- Não, Bella. A culpa foi minha, você não vê? Fui eu. Sua amiga não conseguiu ver isso acontecendo antes porque eu não deixei, seu namorado e Beatrice não leram a mente de Vincent antes porque eu estava lá. E se eu não tivesse demonstrado interesse por você antes Vincent teria simplesmente ignorado a sua presença. Tudo é minha culpa, Bella! – Aquilo estava ultrapassando meus dons de compreensão, mas eu não me atrevi a me aproximar.
- Como assim?
- Eu atrapalhei tudo, Bella. Eu tenho um dom, igual ao de Beatrice ou dos seus amigos. Eu posso anular o dom deles, como se fosse uma interferência de radio. Seus amigos não conseguia ler nossas mentes porque eu estava lá. Isso deu a Vincent a cobertura que ele precisava. Se eu não estivesse lá, eles teriam conseguido, sua amiga teria previsto isso antes. – Eu fiquei em silencio tentando absorver tudo aquilo. Tudo se encaixava, todas as vezes que Edward, Alice ou Jasper reclamaram que não tinham conseguido usar seus poderes foram vezes em que William estava lá.
- Mas Beatrice sabia sobre Vincent. Ela me avisou.
William se sentou sobre uma pedra próxima de nós. – Ela sabia porque conhece Vincent, não porque leu a mente dele. – Eu o observei por vários instantes, ele estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e os dedos entrelaçados atrás da cabeça. Eu me aproximei cautelosamente e estendi uma das mãos para tocar seus ombros que subiam e desciam em um ritmo frenético, mas antes de alcança-lo William já havia levantado a cabeça e estava me encarando com os olhos dourados. – Me desculpe, Bella. Eu sinto muito mesmo. Eu não queria...
- Tudo bem. – Estava tudo bem mesmo. Eu não estava sendo trouxa pela segunda vez, acreditava em William, para falar a verdade, duvido que alguém que estivesse na minha posição não acreditasse. – Você não quis isso. – Dei um sorriso tentando encoraja-lo. Ok, ele podia ter mais de duzentos anos de idade, mas parecia uma criança naquele momento e eu precisava ajuda-lo. – Agora vamos, temos que sair daqui e encontrar Isaac e Beatrice. – Ele retribuiu meu sorriso.
- Obrigado. – Ficamos daquele jeito durante alguns segundos até que algo chamasse a atenção de William. – Se esconda. – Ele sussurrou para mim e eu me encolhi rapidamente contra o tronco caído. Cheguei até a prender a respiração enquanto o observava, ele estava curvado sobre o chão, apoiado nos pés e nas mãos, sua barriga estava a centímetros do chão assim como seu rosto e ele encarava profundamente o vazio entre as folhas. Por um momento não nos movemos, não respiramos, sequer piscamos, ficamos ali suspensos como que por um fio de linha invisível. Até os pássaros e o vento pareceram respeitar nosso momento de tensão, a floresta estava totalmente silenciosa e eu gostaria muito de estar ouvindo o que quer que William estava.
Ele ergueu apenas a cabeça sem se mover. Eu engoli seco e mais um momento se passou sem que nada acontecesse, já até estava começando a relaxar quando vi pânico tomar conta das feições de William, meus músculos travaram. – Bella, corra! – William já estava no chão com Vincent por cima antes mesmo de terminar a frase, ele ia morrer. – Vai embora, Bella! Corre! – William gritou entre um soco e outro, Vincent ia mata-lo. – BELLA VAI! – E eu fui.
Corri o mais rápido que pude, corri sem rumo, sem direção. A única coisa em minha mente era a imagem de William sendo massacrado, segurando Vincent próximo para que eu pudesse fugir, se sacrificando por mim. Nesse ponto eu já não conseguia mais conter as lagrimas que corriam livremente pelo meu rosto. Eu queria voltar para ajuda-lo, queria fazer algo por ele, mas meus joelhos não me obedeceram, não pararam, apenas continuaram me levando para qualquer lugar.
Eu fechei os olhos tentando me livrar da imagem de William e foi quando me choquei com alguma coisa sólida que me lançou ao chão. Não queria abrir os olhos, tinha medo de quem podia encontrar, não queria ver o sorriso malévolo de Vincent brilhando em minha direção, não queria ver nada, só queria ficar ali deitada na grama até que tudo isso passasse. – Bella. – Eu abri os olhos rapidamente, conhecia aquela voz. – Bella, tudo bem?
- Isaac! – Eu precisava conter minhas lagrimas, precisava avisa-lo. William estava em perigo.
- Bella, acalme-se. – Ele me segurou pelos ombros. – O que aconteceu? Onde está Vincent?
- Ele me atacou, William apareceu e fugiu comigo, mas ele nos achou! Ele vai mata-lo, Isaac! Ele vai matar William!
- Acalme-se, Bella. Vai ficar tudo bem.
- Não, não vai! Vincent está matando William!
- Me mostre onde. – E nas costas de Isaac eu refiz o caminho até onde havia deixado William e Vincent, um alivio tomou conta de mim, iríamos conseguir, Isaac estava correndo inacreditavelmente rápido, iríamos salvar William. Mas bem no momento em que colocamos o pé naquele lugar minhas intuições se mostraram erradas, não havia mais duas pessoas ali, só havia uma e uma fogueira que ardia agressivamente. Vi Vincent de pé ao lado da fogueira e nenhum sinal de William, quis perguntar onde ele estava, mas era obvio. Ele estava logo ali ao nosso lado, alimentando as imensas labaredas laranja. William...
Vincent se virou lentamente e nos encarou, seu olhar negro passou por mim rapidamente antes de se deter em Isaac. Eu teria dado tudo para saber o que estava passando na mente dos dois naquela hora em que ficaram apenas se encarando. Os olhos de Isaac se desviaram até o fogo que dançava suavemente atrás de Vincent, ele também sabia o que estava lá.
- Chega, Vincent. – Isaac disse quase cansado.
- Não se meta nisso, Isaac. Não é problema seu.
- Você matou William! Você matou o seu irmão. Ele está queimando nessa fogueira atrás de você!
- E se não for embora, estará queimando ao lado dele. – Isaac encarou Vincent e eu senti o ar ao nosso redor ficando insuportavelmente denso.
- Você já foi longe demais.
- Não me obrigue a fazer isso, Isaac.
- Então pare. Isso é loucura, Vincent. – E então tudo ficou em silencio e o único som era o estalo vindo da grande fogueira a nossa frente. Eu, em minha estúpida inocência, realmente achei que Vincent mudaria de idéia, que pediria perdão e que tudo acabaria bem, mas como eu disse era apenas uma estúpida inocência.
- Não vou repetir...
- Bella, saia daqui. Volte por onde viemos e continue em linha reta, Beatrice e seus amigos estão te procurando. – Ele disse sem me olhar, continuava encarando Vincent. Eu não queria ir, tinha ido da primeira vez e agora William estava morto, não podia fazer o mesmo com Isaac. Sei que minha presença lá era totalmente inútil, mas eu queria ficar mesmo assim. – Vá embora, Bella. Não torne o sacrifício de William em vão. – Lancei um ultimo olhar a fogueira, Vincent e por ultimo a Isaac, e como se meus pés tivessem rodas e um controle remoto comecei a correr para longe dos dois, controlada pela vontade de Isaac. Meu segundo pensamento naquele momento foi que se encontrasse Beatrice ou os Cullen poderia leva-los de volta e salvar Isaac.
Quando já estava a alguns metros dos dois ouvi um rugido grave seguido de um baque e depois o som de folhas e do vento assoviando em meus ouvidos e então meus pés simplesmente pararam de me obedecer e se fincaram no chão com tal força que eu quase desequilibrei. Já havia deixado William e ele estava morto, não podia deixar o mesmo acontecer com Isaac. Dei meia volta nos calcanhar e comecei a correr de volta para os dois. As palavras de Isaac ainda ecoavam em meus ouvidos, mas eu precisava voltar, não tinha a mínima idéia do que faria quando alcançasse os dois, pensaria melhor quando estivesse lá.
Afastei os últimos galhos que me separavam dos barulhos assustadores que vinham da floresta e me deparei com aquele deja vu terrível. Vincent estava parado do outro lado do pequeno ringue improvisado e do outro lado à minha frente estava Isaac se levantando sacrificadamente. – Isaac!!! – Não consegui segurar meu desespero. Os dois me encararam, Isaac em um desespero igual ao meu e Vincent com aquele brilho sombrio nos olhos. Vi um sorriso se formar em seus lábios e senti meus joelhos cedendo, ele iria me matar.
- Bella, abaixe-se! – E por instinto eu obedeci. Mais rápido do que eu poderia perceber Isaac se levantou e se lançou em minha direção a tempo de interceptar a investida de Vincent. Caí pesadamente no chão tamanha era a força do ar que os dois deslocaram e, dessa vez, foi Vincent que havia sido arremessado contra uma pesada árvore. Isaac já havia o alcançado outra vez e agora estava prensando-o contra a mesma arvore com uma das mãos violentamente fechada contra o pescoço de Vincent com tanta força que seus pés mal tocavam o chão. Eu me encolhi contra o gramado e até tentei desviar meus olhos daquela cena horrível, mas não consegui. Era como um imã extremamente poderoso que continuava prendendo minha atenção e me impedindo de olhar para o outro lado.
Na minha frente Isaac e Vincent rugiam um para o outro raivosamente e teriam continuado para sempre se Isaac não tivesse dado fim aquela luta horrenda. Ele segurou no maxilar de Vincent com os dedos longos e o forçou para cima enquanto cravava os dentes na carne macia da garganta de Vincent. Logo filetes rubros começaram a brotar do local onde a boca de Isaac estava travada manchando as peles de porcelana dos dois.
Eu tampei a boca com as mãos tentando controlar a ânsia que tomava conta de mim diante daquela cena e o pior ainda estava por vir. Ainda com os dentes cravados fundo na garganta de Vincent, Isaac sacudiu a cabeça arrancando um grande pedaço de carne de seu pescoço e soltando-o logo em seguida.
Vincent caiu de joelhos no chão com o pescoço e as roupas banhadas em sangue. Eu tentei me arrastar para longe. Isaac se aproximou com o queixo inteiro manchado de vermelho. Eu não queria mais ver nada, queria fechar os olhos e sumir do mundo, queria estar no colo da minha mãe, queria estar nos braços de Edward, queria estar em qualquer lugar menos ali agora. Minhas vontades não foram atendidas, obviamente, e a próxima cena que ficaria em para sempre seria a de Isaac torcendo impiedosamente o pescoço ensangüentado de Vincent e ele caindo imóvel segundos depois.
Vincent estava morto, mas ainda não estava acabado. Ainda precisei assistir enquanto Isaac levantava o corpo sem vida de Vincent e o atirava na fogueira que o aceitou de bom grado. E então aquele era o fim. Vi Isaac limpar o queixo na manga da camisa que um dia havia sido branca e virar para mim. Meus olhos ardiam de tão arregalados que estavam e quando vi Isaac estender uma mão para mim ainda sentia pavor, pânico da cena que acabava de presenciar e que, com certeza, nunca mais sairia da minha mente. Aquele não era o mesmo Isaac que eu conhecia e gostava, também não era o Isaac sombrio que eu havia conhecido no estacionamento, era uma outra pessoa, alguém diferente que eu nunca havia visto antes.
- Eles estão aqui! – Olhei por entre as arvores, vi aquela forma loira já conhecida e tenho que admitir que nunca fiquei tão feliz em ver Rosalie. Logo outros rostos familiares apareceram entre as folhas. Carlisle, Esme, Beatrice, Emmet, Alice e Jasper, estavam todos lá, todos de que eu sentia mais falta do que tudo no mundo, todos que eram a minha família, mas dessa vez havia outra pessoa. Ele. Meu coração pulou do peito e me colocou de pé tão rápido que meus pés até vacilaram, mas eu não vacilei, corri em sua direção e joguei os braços envolta de seu pescoço. Edward me abraçou demoradamente e pela primeira vez desde que havia ido embora eu estava me sentido verdadeiramente segura, respirei profundamente seu perfume de inverno e afundei meu rosto em seu peito musculoso. Nada mais importava, eu só queria ficar ali em seus braços e esquecer do mundo. Deus, como havia sentido sua falta!
Depois de Edward a primeira a se aproximar foi Alice seguida de Jasper. Ele colocou uma das mãos em meus ombros e eu o encarei, aquele era o Jasper que eu conhecia, o Jasper calmo e sereno, controlado, nada parecido com o monstro que havia me atacado na noite do meu aniversario.
- Está tudo bem agora, Bella. Estamos aqui, vamos te proteger. – Eu senti meus medos se dissipando, sabia que era o dom de Jasper fazendo efeito, mas também sabia que era a confiança que via agora em seu olhar. Ele não me machucaria, nunca seria capaz.
Enquanto ia passando meus olhos pelos rostos preocupados, notei uma face que parecia tão angustiada quanto eu, mas ainda assim bela e perfeitamente impecável. Ergui meu rosto do abraço de pedra de Edward e admirei o perfil de Beatrice por alguns instantes. Ela não se deteve no grupo a minha volta, continuou deslizando pelo gramado até alcançar Isaac. Vi ela erguendo uma das mãos para tocar o rosto de Isaac enquanto ele abaixava a cabeça derrotado. Havia uma tristeza sobre os dois, algo que eu sabia que tinha causado e senti meu coração partir quando vi Beatrice passando os braços pelos ombros de Isaac e as lagrimas começarem a manchar as faces dele.
Voltei a esconder o rosto nos braços de Edward e me entreguei a seus braços novamente. Senti seus lábios depositarem um beijo no topo da minha testa e logo comecei a sentir a tensão daquele dia sumindo diante do toque de Jasper em meu ombro. A dor deu lugar ao cansaço, a tristeza ao sono e assim que meus joelhos começaram a ceder eu já estava adormecida nos braços do meu vampiro. Como havia sentido sua falta! Só agora tinha noção disso.
Não sei mais o que aconteceu depois desses acontecimentos, eu já não tinha mais consciencia de nada, mas consegui ouvir a voz distante de Carlisle anunciando serenamente. – Vamos para casa, conversaremos lá. – E então senti Edward me levantando do chão e minha cabeça se aninhar em seu pescoço de pedra.
