N/A: Ok, terminando a fic sem nenhum comentário. Difícil achar coisa mais desanimadora do que isso. Mas, já que eu comecei...
Legendas:
- Fala
Pensamento
Quimera...Utopia.
Projeto Quimera
- Capítulo 9 -
Os pássaros alçaram vôo, medo os levando para longe. O eco se perdeu na paisagem congelada, muito fraco para fazê-la desabar. Como poderia? Para a imponente e orgulhosa natureza, era apenas mais um som humano, desnecessário e sem significado tal qual todos os outros.
Para o lobo, porém, o som que se perdia era tudo.
Porque, parado sobre o que julgava as últimas pegadas do falcão, diante de uma grande e sombria fresta na rocha sólida, estava Tala. O vento cortava a face úmida, congelando lágrimas e suor, queimando a pele de alabastro. As safiras, arregaladas e feridas, estudavam a escuridão como se por um milagre fossem se acostumar, ou ainda ver a tão conhecida figura. O coração, dividido entre acelerar ainda mais e simplesmente parar de bater, só servia para lhe deixar ainda mais tonto, comprometendo o raciocínio de forma tão intensa que sequer conseguia sentir Cyber resmungando no fundo de sua mente.
Só havia Bryan.
Mas não podia, não agora. Não podia entrar, desafiando sombras e o que quer que elas escondessem apenas para abraçar o falcão uma última vez. Abraçar-lhe...ouvir seus últimos suspiros...
...olhar em seus olhos, sabendo que nunca se entregara...
Porém, se não agora, quando? Quanto tempo mais ainda teriam? O que o cruel destino teria lhes reservado desta vez?
O temível barulho ecoou mais uma vez, cortando o poderoso capitão com uma facilidade invejável e desumana. A dor se espalhou, tão intensa que, por um instante, seu corpo oscilou, ameaçando ir ao chão e nunca, mas nunca mais, se levantar. Porém, o som também condenou a razão, fraca demais para guiar seus próximos passos, abrindo caminho peito a dentro até liberar a última e mais pura forma de sobrevivência: instinto.
Mas Tala não percebeu nada disso.
Ele só sabia que estava correndo de novo.
-x-
O sangue escorria lentamente, misturando-se a terra com facilidade e a tornando cada vez mais escura. A pistola jazia abandonada em um canto qualquer, a fumaça se desfazendo aos poucos junto como o eco do disparo, deixando para trás apenas o leve odor de pólvora queimada.
Boris tentava manter o rosto impassível como sempre, ainda que seus dentes fortemente trincados lhe delatassem. Seu lado racional tentava desesperadamente armar um plano, buscando na memória qualquer migalha de informação que pudesse ser útil, ainda que fosse apenas para ganhar tempo – e abalar o falcão – até conseguir lembrar de algo realmente vantajoso. No entanto, não importava o quanto negasse, uma outra parte de si continuava insistindo que não havia saída.
Porque Bryan fora treinado para isso. Muito bem treinado. Depois de anos e mais anos de treinamento e confronto, não havia mais o que ser feito. O jogo finalmente chegara ao fim.
A grade questão era: quando seu oponente daria o xeque-mate?
Pensando nisso, Boris teve uma idéia. Uma tão absurda que, talvez, acabasse dando certo.
- Vai mesmo continuar com isso, Kusnetzov? – o homem perguntou, tentando se acomodar melhor sobre a pedra nua e não gemer por isso. Seu peito estava marcado com um rasgo de ponta a ponta, cortesia de seu pupilo.
O garoto não respondeu, preferindo usar o tempo para preparar outro ataque. Um de seus ombros poderia estar sangrando e queimando, perfurado pelo primeiro disparo que lhe pegara totalmente desprevenido mas isso não lhe deteria. Algo dentro de si – desejo? Prazer? – lhe instigava a cortar mais que roupa e pele, idéia por demais tentadora.
- Nem mesmo se eu... – Boris saboreou a pausa, buscando as palavras certas – ...reverter o projeto?
Bryan hesitou por um instante, apenas um. Sua mente poderia ainda estar enevoada, mas o instinto continuava lá. Não havia volta para ele, nunca houve. Era o que era, e jamais poderia mudar. Nem Boris, nem a Abadia. Chegaria ao ponto de duvidar que até mesmo Deus pudesse lhe trazer de volta – se é que existia um – se não estivesse atordoado demais para lembrar disso agora.
Não, Bryan só sabia que tinha de proteger Tala. E a única e verdadeira maneira de fazer isso era eliminando o ser a sua frente.
- Não? Meu caro Bryan, acha mesmo que nosso querido lobo vai querer uma aberração como você? – Boris praticamente cantava vitória, acreditando piamente que conseguira comprar o rapaz de volta. Se ao menos pudesse recuperar o controle sobre seu projeto, todo o resto fluiria normalmente.
Contudo, apesar dos desejos e planos, o falcão não fez nada que não lhe encarar com aquela estranha face vazia e sorrir triste.
- Não...nem eu nem você... – sussurrou inocente, sentindo o vento brincar entre seus dedos. Por um instante, teve a impressão de ouvir algo ecoando, perdido em algum lugar distante, mas ignorou, preferindo preparar seu próximo golpe. Porque era tudo de que precisava. Um simples golpe e a cabeça daquele demônio rolaria, libertando a todos.
Um golpe...e enfim poderia voar...nunca mais voltar...
Bryan ergueu a mão. Viu Boris tentar falar mais alguma coisa mas não ouviu. Naquele momento, o mundo simplesmente deixara de existir. Só havia o vento em sua mão, e a garganta poucos passos adiante, nada mais. Puro e doce nada.
O sorriso do falcão se tornou sereno...
Sangue tornou a manchar a pedra nua.
-x-
O corpo escorregou, deixando um rastro rubro pelo paredão de pedra antes de finalmente chegar ao solo num ruído abafado. A máscara se partiu, sua mística desfeita a tornando um pedaço de lixo qualquer. O eco se perdeu, carregando a mensagem para muito além dos presentes.
Bryan piscou, ciente que algo não encaixava. Não conseguia compreender o som, cada vez mais distorcido pelas intrincadas passagens, mas não atacara, sabia que não. Então o quê?
Incapaz de chegar à conclusão, o falcão recolheu o braço lentamente, deixando que o vento se dispersasse. Virou, de repente se sentindo inseguro e exposto, desejando que houvesse alguém atrás de si para lhe explicar.
Foi quando viu.
Era ele, não era? Aquele que tinha de proteger. O que falava do pedacinho de inocência. Aquele como branco...como limpo...como neve...
Mesmo com uma arma nas mãos, Tala ainda era tudo aquilo. Tala ainda era Tala, e isso era só o que precisava saber.
Olhos azuis lhe encaravam, preocupados. Logo braços gentis lhe envolviam, puxando-o contra um corpo quente e macio.
- Ele não vai te ferir de novo, Bryan.
Incapaz de não confiar naquelas palavras, o falcão fechou os olhos e se deixou levar.
