X.
Charlie era o mais ativo de todos. Montou logo as barracas que serviriam de alojamento temporário para o grupo; deu andamento na refeição da noite. Contribuiu também com ideias proveitosas para os irmãos Debuisson sobre a arrumação das mercadorias trazidas – uma infinidade de unguentos, elixires, xaropes e outras especialidades com fins medicinais.
Olivia estava encantada e assustada, ao mesmo tempo, com o movimento da feira. Tudo parecia barulhento colorido. Estava ansiosa para entrar na catedral, mas tinha receio de fazê-lo sozinha. Conservou-se, pois, bem perto de Charlie, aguardando que ele se desocupasse. Peter ajudava Raoul, mas não perdia o irmão mais velho de vista. O rapaz não se aproximou de Olivia, ocupado em inventariar tudo o que haviam trazido.
Quando anoiteceu, Charlie serviu a comida e finalmente se sentou para descansar. Olivia arriscou, timidamente:
-Charlie...
-Sim, Livia.
-Está muito cansado?
-Só um pouco. Por quê?
-Eu ...bem, eu pensei em visitar a catedral. Ver como ela é por dentro, sabe?
-Não pode ser amanhã? Queria dormir logo, assim acordo novo em folha.
Foi quando Bernard Debuisson falou:
-Se me permite, Francis, posso acompanhá-la. Se ela aceitar, é claro.
Peter ergueu a cabeça com vivacidade, mas nada disse. Olivia olhou direto para ele. Como ele se mantinha atento, porém calado, ela respondeu ao outro rapaz.
-Fico agradecida.
Charlie assentiu.
-Mas tome conta dela, Debuisson.
-Com certeza.
Olivia se pôs de pé e olhou ao redor, procurando uma velha manta que ela usava à guisa de xale. Bernard se acercou, galantemente, já segurando o agasalho. Abriu-o, para que ela o acomodasse nos ombros. Os olhos de Peter faiscaram. Raoul sorriu, disfarçadamente. Só Charlie manteve a cara séria, impassível.
A catedral de Arras era uma bela construção. E naquela noite estava lotada de fiéis, devotos da Virgem Maria, a quem ela havia sido dedicada. Olivia olhava tudo ao seu redor, espantada. Todas aquelas pessoas, o brilho dos incontáveis círios acesos no templo.
Bernard a acompanhava de forma respeitosa. De vez em quando apontava para algum detalhe da construção .
-...de dia os vitrais são mais bonitos. A luz revela o colorido que não podemos ver à noite.
-Amanhã poderemos vir novamente?
-Claro, Olivia. Será um prazer.
Peter daria tudo para ouvir a conversa. Saíra quase que imediatamente no encalço dos dois e apesar de se sentir um pouco ridículo, de não saber ao certo a razão de estar fazendo aquilo, fazia mesmo assim.
No acampamento, Raoul e Charlie haviam presenciado a sua saída. O primeiro não maliciara, mas a cara descontente de Peter havia sido notada por Charlie Francis.
-Vamos ter problemas em breve.
-Como assim, Charlie?
-Escute o que eu estou dizendo. Vamos ter aborrecimentos.
-Mas por quê?
Raoul encarava o amigo mais velho com um ar surpreso. Charlie se limitou a balançar a cabeça.
-Ele não se conhece, Raoul.
-Mas ele não é namorado dela. Nem nunca demonstrou que queria ser. Já o meu irmão... Bem, ele gostou de Olivia desde a primeira vez que a viu. Parece um bobo, fala nela a todo momento. Até meu pai já percebeu.
- Peter diz que não gosta dela, mas o fato é que está com ciúmes.
-Só se for ciúme de amigo.
-Eu sou amigo de Olivia e não me importo se ela arranjar um namorado . É claro que terá que ser alguém muito bom para merecê-la.
Raoul bocejou. Achava os assuntos de amor muito cansativos.
Quando saíram da catedral, ouviram um som agradável de música. Alguns jovens dançavam numa roda animada.
-Quer dançar, Olivia?
-Não. Eu não sei.
-Eu ensino. Não é difícil.
Ela morreria de vergonha de tomar um lugar naquele círculo alegre. A ideia era atraente, mas ela não se sentia preparada. Não sabia sequer se um dia estaria.
-Uma outra vez, hoje não.
Bernard parara perto dela, com um olhar suplicante. De repente, como que saído do nada, Peter se interpôs entre ambos.
-Quer ir embora, Livia?
O jovem Debuisson não pareceu gostar da intromissão. Franziu o cenho e continuou olhando para ele. Ela fitou um, depois o outro, depois falou de modo apaziguador:
-É melhor regressarmos todos. Charlie deve estar preocupado com a nossa ausência.
Os três se puserm em marcha de volta ao acampamento. Ao chegar, Bernard Debuisson foi se deitar na outra barraca, junto ao irmão, com o semblante emburrado. Peter não pareceu se incomodar.
Contemplava Olivia tirar o xale, em seguida o vestido cinzento pela cabeça. Vestida só com uma velha camisola de linho surrada, ela se estendeu nas proximidades de Charlie. Peter se deitou, completamente vestido a seu lado.
-Eu atrapalhei alguma coisa?
-Não.
A resposta lacônica o exasperou. Apoiou-se sobre o braço, para tentar ver seu rosto na escuridão. Sentia sua respiração suave, bem próxima. Guiado por ela, chegou bem perto. Finalmente encontrou seus lábios. Eram macios. O beijo foi profundo e quente. E agora tudo era inciativa dele. Ela sentiu uma das mãos dele acariciar seu ombro. Sentiu uma sensação inédita. Seu corpo parecia estranhamente desperto. Fechou os olhos; poderia morrer naquele instante.
-Olivia?
Era a voz de Charlie. Peter parou o beijo e ficou deitado, silencioso, perto dela.
-O que foi, Charlie?
-Nada, era só para saber se já havia voltado.
O silêncio tornou a cair, mas tanto Peter quanto Olivia custaram a dormir.
