Capítulo 10

Nos dias seguintes, não consegui mais tocar no assunto com meu pai. Sempre que eu chegava em um ambiente ele não demorava muito a sair e nunca ficava sozinho comigo.

Minha mãe, pelo contrário, sempre procurava oportunidades de conversar comigo sobre Suzannah. E a cada dia ela ficava mais questionadora, fazendo perguntas que eu nem sempre gostaria de responder.

- Vocês já transaram? – ela me perguntou certo dia enquanto víamos televisão na sala.

- O quê?! – dei um pulo de susto no sofá com a pergunta inusitada.

- É, Jesse, transaram ou não?

- Mãe, isso é pergunta que se faça?

- Claro que é, eu sou sua mãe!

- Mas isso não lhe dá o direito de fazer esse tipo de pergunta!

- Você vai me responder ou eu...

Antes que ela tivesse oportunidade de completar a pergunta, meu celular tocou com a música que eu havia designado para Suzannah. Corri até o quarto agradecendo aos céus por aquilo.

- Alô?

- Por que você demorou? – já está assim?

- Estava na sala e o celular aqui no quarto.

- Hum... Tá. Escuta, sábado é aniversário do meu irmão mais velho. Vai ter uma festa a noite aqui e minha mãe me deixou convidar alguns amigos, então eu... – ela parou no meio da frase, parecendo insegura.

- Vai me apresentar à sua família, Suzannah?

- Não! Quer dizer, sim! Ou melhor, mais ou menos. – ela parecia extremamente confusa com a pergunta e eu ri silenciosamente desse embaraço. – Só pensei que talvez você quisesse vir, afinal, você já até conhece o Jake.

- Ok, não precisa se explicar. Eu vou sim.

- Ah, se quiser pode trazer uma de suas irmãs também.

- Obrigado... – já até sabia quem levaria. Bianca não perdia uma festa.

Ficamos conversando ainda por alguns minutos, até que ouvi a voz da mãe dela do outro lado da linha chamando-a para o jantar. Eu sabia como o jantar era sagrado na casa dos Ackerman, então me despedi rapidamente dela.

-Ah, Suzannah?

- Hum?

- Estou com saudades...

- Hum... er... Boa noite, Jesse.

É ainda havia isso. Suzannah, apesar de nos falarmos com muita freqüência e sairmos às vezes nos finais de semana, ainda não admitia que gostava de mim ou que sentia minha falta.

Deixei o celular sobre a escrivaninha e fui até o quarto de Bianca avisá-la da festa.

Ao chegar perto da porta, ouvi um barulho estranho lá dentro. Seria possível que aquilo fosse música? Bati três vezes e não obtive resposta. Chamei o nome dela e mais uma vez sem resposta.

Gritei ainda mais forte, batendo, ou melhor, quase derrubando a porta em seguida. A música parou e alguns segundos depois Bianca escancarou a porta.

- Por que você quer derrubar minha porta?!

- Eu bati várias vezes! Precisa mesmo ouvir isso tão alto?

- Claro! Qual é a graça de ouvir baixinho?

- Afinal, o que é isso? Música?

- Hahahá, muito engraçado.

- Se continuar respondendo torto, vai perder a festa... – eu sabia que isso ia desarmá-la de qualquer resposta afiada.

- Opa! Desculpa, maninho – ela apressou-se a responder em uma voz melosa. – Sim, isso é música e o nome da banda é Nickelback.

- Nossa... Preciso te ensinar a ter gosto musical...

- Você é que precisa aprender. – Apenas olhei-a e ela logo entendeu. – Quer dizer... Sim, maninho, eu quero muito aprender a ter gosto musical.

- Hum... Agora sim.

- Então, quando é a festa?

- Sábado... Aniversário do irmão mais velho de Suzannah.

- Irmão é? – ela parecia interessada demais pro meu gosto. – E que horas é a tal festa?

- À noite... Vai querer ir? – por que será que eu já sabia a resposta?

- Claro! Obrigada, mano! Às vezes você sabe ser legal! – ela se pendurou no meu pescoço e me deu um beijo no rosto. Puxa-saco.

Eu havia combinado com Suzannah que ela me encontraria um pouco antes de chegar à casa dos Ackerman, em um posto de gasolina. Apesar de já conhecer os outros irmãos, eu não me sentia muito a vontade em chegar sozinho com Bianca, mesmo sabendo que os outros não sabiam de nada do que havia acontecido entre mim e Suzannah.

- Já está pronta, Bianca? – gritei da sala. O sábado enfim chegara e eu já estava pronto, só esperando por ela.

- Espera só mais um pouquinho! – ela gritou de volta do quarto.

- Vamos nos atrasar!

Mesmo morando com seis mulheres, eu acho que nunca seria capaz de entender por que elas levam tanto tempo para ficarem prontas. Eu apenas havia escolhido uma camisa vermelha e uma calça jeans preta, em menos de uma hora fiquei pronto.

Enquanto Bianca havia tirado metade das roupas do guarda-roupa e levou quase uma hora apenas para decidir o que usar. E depois mais uma hora para terminar toda a produção.

- Bianca, não é uma festa de gala! É só uma festinha de aniversário, vamos!

Ouvi passos apressados no corredor e logo em seguida ela apareceu na sala.

- Pronto! Já podemos ir!

Ela usava um vestido azul, solto, com mangas curtas e um pequeno decote. O problema é que ele mal cobria até a metade de suas coxas. Ela estava brincando se achava que eu a deixaria sair daquele jeito.

- Cadê o resto da sua roupa?

- Que resto? Não tem resto!

- Assim você não vai!

- Qual o problema com a minha roupa?

- Todos!

- Jesse – minha mãe chamou -, não há nada de errado com a roupa dela. Deixa de ser ciumento e vai logo.

- É, Jesse, vamos, não quero me atrasar! – Bianca falou e saiu andando em direção ao meu carro.

Mesmo contrariado, entrei no carro e segui para o posto de gasolina para encontrar Suzannah. Pode até parecer besteira para elas, mas eu sempre tive muito ciúme das minhas irmãs, afinal, eu sei melhor do que elas o que se passa na cabeça de um homem.

- Não acredito que você levou uma eternidade para escolher esse pedacinho de pano – comentei com Bianca, já dentro do carro.

- Desencana, Jesse... Se preocupe com a sua namorada, de mim cuido eu.

- Ela não é minha namorada.

- Ah não? É o que então? – por que as pessoas sempre me fazem essa pergunta difícil?

- Estamos apenas ficando.

- Só se vocês mudaram o conceito de ficar! Que eu saiba, quando a gente fica com alguém, não fica o tempo todo falando da pessoa, ligando para ela ou apresentando a família.

Eu sabia que ela estava certa, mas quem poderia enfiar isso na cabeça de Suzannah?

- É complicado, Bia... Suzannah é uma pessoa um tanto difícil.

- Bem, quem sabe eu possa ajudar?

- Como assim?

- Não quero que você sofra, Jesse. Eu sei que você gosta dela. Quem sabe eu converso com a Suze e ela muda de idéia?

- Acho difícil... Mas faça como quiser.

Chegamos ao posto de gasolina onde Suzannah esperava encostada em sua moto. Pela cara que ela fazia, já deveria estar esperando há um bom tempo.

- Olá, Suze! – Bia a cumprimentou alegremente.

- Oi, Bia! – Suzannah sorriu um pouco para ela, se voltando para mim depois. – Por que vocês demoraram tanto? Já estava criando raízes aqui!

- Oi, hermosa – Peguei-a pela cintura e beijei sua boca com delicadeza, apenas para aproveitar aquele gosto.

Soltei-a e ela cambaleou um pouco, ainda de olhos fechados.

- Olá, Jesse – ela respondeu, piscando muitas vezes e corando.

- Você está linda.

- Obrigada.

Ela usava uma calça jeans preta colada ao corpo e uma blusa verde que combinava com seus olhos. Ficamos um tempo nos encarando, como eu sentia falta daquela mulher, daquele corpo...

- Er... Não quero atrapalhar o casal, mas acho que já está na hora de irmos, né? – Bianca disse.

- Está sim – Suzannah foi quem respondeu, pois eu me limitei a olhar feio para Bianca por ter interrompido o momento. Ela não disse que queria ajudar?

- Uau... Essa moto é sua? – Bianca babava na moto de Suzannah.

- É sim...

- Que linda! Sou apaixonada por motos...

- Sabe pilotar?

- Ainda não...

- Te ensino qualquer dia desses.

- Sério?! Valeu, Suze! – Bia dava pulos de alegria, fazendo Suzannah rir.

Minha mãe com certeza não ia gostar nada dessa história de Bianca pilotar uma moto, mas eu não quis estragar a felicidade da minha irmã.