CAPÍTULO IX
Quatro meses haviam se passado. Virgínia estava sentada diante do túmulo de Harry. Pensava sobre sua vida, desde a infância até agora. Não havia perdido Potterfild, mas não tinha mais recursos para se manter. Esperava que Neville voltasse da cidade, onde tinha ido vender suas ultimas jóias. Sentiu-se enjoada novamente e levantou-se, caminhando lentamente rumo a casa.
— Por onde esteve? Sabe que não é bom ficar andando por aí no seu estado.
— Por que não tia? Não estou doente!
— Eu sei que não, gravidez não é doença minha filha. Mas você tem andado tão fraca, tão abatida.
— Não se preocupe tia, estou bem. Quando não me sinto bem não saio, a senhora sabe disso. Neville já voltou?
— Não. Mas logo ele chegará, tenho certeza.
— Espero que ele tenha vendido todas as jóias tia, precisamos muito do dinheiro.
— Ele vendou sim, você vai ver!
— Estou tão cansada minha tia...
— Vai ficar tudo bem minha filha, não se preocupe.
Virgínia levantou-se e seguiu com a tia para a casa.
Draco estava em seu escritório em Wiltshire analisando alguns documentos quando o mordomo anunciou Blaise.
— Meu caro amigo, como tem passado? Todos estão sentindo sua falta em Londres.
— Tenho cuidado dos meus bens. Perdi uma grande quantia a alguns meses atrás. – Draco respondeu sem tirar os olhos dos documentos que examinava.
— Sim, sei disso. Londres sabe disso.
— O que Londres sabe? – Draco parou.
— Que pagou a dívida da viúva Potter...E outras coisas.
— Essa gente fala demais!
— Você sempre soube disso, sempre foi o assunto preferido de todos.
— Que falem!
Draco voltou a olhar os papéis que tinha nas mãos. Blaise ponderou sobre continuar falando ou não com o amigo. Tinha ouvido umas histórias em Londres que achava ser do interesse do visconde, mas não tinha certeza se devia falar.
— Diga Blaise!
— Dizer o que? – o amigo perguntou surpreso.
— O que tem a dizer... Conheço você, sem que quer falar algo. Vamos diga logo!
— Virgínia... Você... Vocês foram amantes enquanto ela esteve em Londres?
— Por que essa pergunta? É sobre isso que estão falando em Londres? Que eu e ela fomos amantes enquanto ela esteve aqui? Isso já falavam naquela época.
— Sim... Comentam que vocês foram amantes enquanto ela esteve aqui e...
— E o quê?
— Você sabia que ela vendeu todas as suas jóias? O criado dela veio até a cidade vendê-las porque ela não conseguiu vender em Godric Hallow.
— Não tinha quem comprasse por lá?
— Tinha, mas não quiseram comprar.
— Não é do meu interesse o que a viúva Potter vende ou deixa de vender.
— Dizem que ela não conseguiu vender porque as pessoas não falam mais com ele em Godric Hallow, desde que... Ela se vendeu pra pagar as dívidas.
— Os comentários maldosos estão incomodando-a até lá.
— Sim.
— Lamento isso, mas não posso fazer nada. Agora se me der licença, preciso terminar de analisar todos esses documentos que estão sobre minha mesa.
Draco tentou não pensar nas dificuldades que Virgínia podia estar passando. Não poderia ajudá-la, afinal, ele era o motivo de sua desgraça. Decidiu parar de se trancar em casa e voltar a sua vida de antes. Iria hoje mesmo a Londres beber um pouco e se divertir com alguma mulher. Na verdade, já até sabia que mulher, Luna.
Foi até a Waitie's e jogou um pouco de carta com Blaise e outro homens. Bebeu um pouco e saiu de lá pra ir ver Luna. Blaise o acompanharia até lá e depois seguiria para casa, não queria estar com nenhuma mulher, estava apaixonado.
— Não acredito que a Parkinson te dispensou! – Draco ria do amigo, estava um pouco bêbado.
— Pois é. Ela disse que eu era igual a você e que não queria que eu fizesse com ela o mesmo que você fez com a Virginia.
— A culpa é minha então? Era o que me faltava!
— Elas são amigas desde aquele tempo. Parece que a mãe de Pansy tentou impedí-la de falar com Virgínia quando soube da gravidez, mas Pansy não lhe deu ouvidos e continuou escrevendo pra ela.
— Gravidez? Que gravidez? Passei tanto tempo ausente que não sei mais o que se passa em Londres? Pansy está grávida? Você é o pai?
— Não Draco! Virgínia está grávida, e todos dizem que você é o pai!
Draco sentiu o sangue gelar. Sua cabeça rodou. Não podia ser.
— O que você está me dizendo? Enlouqueceu?
— Não! É a verdade! Tentei te falar hoje mais cedo, mas você estava muito ocupado. O que dizem por aqui é que ela está grávida. Alguém viajou até Godric Hallow e soube da historia, por isso não falam com ela, por isso não quiseram comprar as jóias, por isso Pansy não me quer.
Draco foi para casa. Atordoado com o que ouvira de Blaise, ele precisava saber a verdade. Não era possível que ele tenha desgraçado tanto assim. Grávida! Não podia ser. Um filho, um filho fruto da violência dele contra ela. Não queria, não podia. Iria até Potterfild encontrar Virgínia.
Cedrico apareceu em Godric Hallow naquela tarde para atormentar mais Virgínia.
— Estou cuidando dos interesses de sua tia. Ontem ela me entregou algumas jóias que desejava vender, e hoje trago a boa notícia: o Escudeiro Lennox está interessado em comprar o anel de diamante e esmeralda para sua esposa.
— Mas esse é o anel de noivado de minha tia!
— Eu não sabia… Mas de qualquer maneira sua tia concordou com a transação. Vejo que realmente sua breve temporada em Londres trouxe conseqüências. Admito que estou surpreso. Esperava que fosse devolvida, mas não tão depressa como foi, e nem que ficasse nesse estado. O visconde está se tornando uma lenda…
— Se já concluiu seu assunto com minha tia, Sr. Diggory, não quero tomar seu tempo.
— A sra. Sweeting me convidou para jantar. Ela quer celebrar a venda doanel. Mas se minha presença a incomoda…
Virgínia empalideceu, corou, respirou fundo e saiu da sala com passos furiosos. O que havia na cozinha era insuficiente para produzir uma refeição decente para a família, e agora tinha de ocupar-se com um convidado desprezível. Neville ainda não havia voltado de Londres. Não tinham recursos. Não queria compartilhar a comida com Diggory, mas também não queria dar a ele a satisfação de saber que não tinham meios de acomodar mais uma pessoa à mesa. Na cozinha, Virgínia encontrou Edith, a cozinheira.
— Por que o fogo ainda não está alto? Onde estão minha tia e Parvati?
— Estou aqui há horas esperando por Parvati. Pedi a ela que fosse buscar um peixe no lago ou uma galinha do prado, e essa foi a última vez em que a vi. O que devo fazer, senhora, caso ela não retorne com uma ave ou algumas trutas? A sra. Sweeting disse que temos um convidado, e sinto-me tentada a ir embora daqui e procurar emprego onde meu talento possa ser melhor aproveitado.
— Os vegetais já estão preparados?
— Sim, mas…
— Temos urna torta de frutas?
— Sim.
— Então, só precisamos da carne. Não temos nenhuma sobra?
— Sim, um pouco de carneiro, mas não sei se é o bastante e não tenho as ervas para temperá-lo e…
— Eu vou buscar as ervas. Acenda o fogo!
Virgínia tinha a sensação de estar enlouquecendo aos poucos. A cabeça latejava por conta da ressaca, o estômago ainda sentia os efeitos do confronto com Sr. Diggory, e ainda tinha de ocupar-se com a desobediência dos criados. Mesmo que tivessem consciência de sua pobreza e da vergonha a que fora submetida, não podiam ter adotado uma conduta desrespeitosa e desleal. Onde estavam todos? Em resposta à pergunta silenciosa, Parvati surgiu na escada dos fundos da casa.
— Estávamos procurando pela senhora! O Sr. Weasley caiu da cama e feriu gravemente a cabeça, mas sua tia conseguiu acalmá-lo, e agora ele dorme. Estou indo buscar o balde para ajudar na limpeza, porque houve outro pequeno acidente. Deve ter sido o choque, porque ultimamente ele tem tido um controle perfeito de suas… necessidades.
— Meu pai está ferido?
— Oh, não, senhora.
Virgínia respirou fundo, engolindo uma gargalhada histérica.
— Obrigada, Parvati. Pode ir cuidar do seu serviço, por favor.
Sozinha, incapaz de controlar o pranto, ela continuou colhendo as ervas para a cozinha. Não era uma boa juíza de caráter, afinal. Chegara a acreditar que Cedrico Diggory fosse um homem bom e decente, mas o único homem digno de tal elogio estava agora enterrado no cemitério ao lado da igreja, sem poder ajudá-la.
— Não tem um jardineiro, Gina?
A voz quase fez parar seu coração. Julgando-se vítima de uma alucinação, ela se virou e viu a figura atlética parada na alameda que ligava o canteiro à casa. Descontrolada, correu em sua direção e começou a agredí-lo com os punhos cerrados, chorando e gritando palavras desconexas.
— Vá embora! Vá embora! É o que sempre faz, não? Sempre acaba partindo e me deixando sozinha!
O abraço que a conteve era tão apertado que mal podia respirar. Certa de que seria inútil lutar, cedeu à pressão das emoções e escondeu o rosto no peito musculoso, soluçando como uma criança assustada. As mãos que afagavam suas costas e as palavras doces de consolo causaram uma reação inesperada. Como se tivessem vontade própria, os braços enlaçaram o pescoço forte, impedindo-o de desaparecer novamente.
— Presumo que tenha sentido minha falta, Gina. Se soubesse, juro que a teria levado comigo ou teria vindo pra cá. Pensei que ficaria melhor sem mim que já te fiz tanto mal.
Ela era incapaz de falar.
— O que aconteceu?
Ela soltou-se do abraço.
— Preciso levar estas ervas para Edith. Temos um convidado para o jantar e já estamos atrasadas.
— Um convidado? Eu?
— Não… Mas também é muito bem-vindo, se quiser ficar.
— Eu quero ficar Gina, mas não só hoje, não só para o jantar, quero ficar pra sempre... Ao seu lado.
— Pensei que você havia voltado para Londres, para as festas, a bebida, as mulheres…
— Depois de tudo o que eu fiz a você meu bem, naquela noite, você não queria que eu houvesse partido para sempre?
— É claro. Quero dizer, não. Na hora sim, não queria ser sua amante, queria ser sua esposa, de conveniência, mas sua esposa, fazer o que era certo. E você me desprezou por eu ser inexperiente, por eu ser virgem...E depois você me fez cumprir minha parte no acordo e me abandonou aqui, como um fardo...e eu descobri que estava grávida...e...
— Oh Meu bem, falaremos sobre isso mais tarde. — Ele segurou a mão dela para levá-la de volta à casa.
