Botando pra fora

Ah. Ótimo. Por que a porcaria do despertador não tocou? É só isso que eu gostaria de saber, entende? Não, não dá pra entender. Eu o programei certinho, pra chegar na hora agá ele não tocar. Ui, que ódio.

Agora estou aqui. Sentada no pátio da escola durante MEIA HORA, até a aula começar. Sim, porque eu moro longe e tenho que vir de carro. E como minha irmã estava vindo, eu tive de vir com ela e agora vou ficar MEIA HORA esperando até o sinal da segunda aula bater.

Ótimo. Simplesmente fabuloso.

O jeito é ficar escutando o meu mp3. Tá tocando Equalize, da Pitty. Tá, a música é velha, mas mesmo assim eu gosto. Não tô nem aí.

Ah. Não. Sério. Não. Sério mesmo. Eu não mereço isso. Sirius Black está vindo em minha direção. Quais são as chances de ele ter chegado atrasado também? Várias. Quais são as chances de ele chegar atrasado justo no mesmo dia que eu? Eu sou muito azarada. Não. Fala sério. Ninguém merece isso.

- Oi. - NÃÃÃO! Sirius Black me dando oi? Já fazem dois meses que não nos falamos, e duas semanas que começam as aulas, e só agora que ele vem me dar um oi? Um simples e insignificante 'oi'? Ah, não. Fala sério.

- Oi. - Tá. Patético, mas não tem como não responder um oi desses... Um oi de Sirius Black me olhando com aquele jeito que só ele sabe olhar. Eu sou ridícula. Sério mesmo.

Silêncio constrangedor.

Às vezes se eu me distraio, se eu não me vigio um instante... Me transporto pra perto de você.

É. Isso nunca foi tão verdade. Fala sério. Por que ele tem que ser tão adoravelmente irritante?

Ele olha. Eu baixo o olhar. Minhas unhas, já descascando o esmalte rosa choque, me parecem muito mais interessantes no momento. Sirius senta do meu lado.

- Então...como anda a vida? - pergunta ele, com aquele sorriso de lado que faz o meu coração derreter e se partir em mil pedaços.

Sinceramente, eu não sei quem partiu meu coração. Se foi ele ou se fui eu mesma. Não tenho as respostas, e isso me deixa agoniada.

- Vai indo. - Sorrio. Lembrando que quando ele me abraça, o mundo gira devagar e me sinto a própria Pitty cantando Equalize. Por que as coisas são bem do jeito que são?

Eu só quero me jogar nos braços dele, e fingir que esses dois meses não aconteceram. Bom, só a parte do beijo e... Enfim. Todas as sensações que ele causou em mim estão gravadas aqui dentro, e tá difícil de tirar. Tá difícil mesmo. Por que as coisas têm que ser assim?

Por que eu continuo com um dos fones de ouvido? Acho que é pra dar um clima maior pra essa situação extremamente esquisita. Na verdade, eu não tenho forças pra tirar o outro fone do ouvido.

- E, então... Como foram as férias? - pergunto, meio sem jeito. A quem eu quero enganar? Esse papo furado não leva a nada. Tudo o que eu quero saber é qual foi a piranha que se jogou pra cima dele, e se ele aceitou ou não a proposta indecente de alguma vaca loira. É por essas e outras que eu nunca queria ter ido naquele cinema aquele dia. Mas, por outro lado, como eu ia saber que isso viria a acontecer?

- Foram legais... - murmura ele, com as mãos dentro dos bolsos da calça jeans surrada.

A mesma calça jeans que ele usou no dia que a gente foi no cinema. Credo, eu sou pior que a Emm e a Lice juntas! Como eu fui me tornar o tipo de garota que eu mais abomino?

Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar. Eu não quero me apaixonar.

Tá. Não vai adiantar nada eu ficar repetindo isso. Uma mentira contada 100 vezes se torna uma verdade. Mas, no meu caso, não vai se tornar uma verdade. Eu sou uma azarada. E no fundo, no fundo mesmo, eu quero me apaixonar. Porque, apesar de tudo, eu gosto de sentir minha cabeça zonza e as borboletas no estômago. Eu nunca senti isso antes, e por mais que eu tenha medo, eu gosto. É insanidade ou o quê?

- E as suas? - pergunta ele, olhando-me no fundo dos olhos.

Esse olhar me consome por dentro. Esse olhar praticamente domina minhas noites de insônia. Noites em claro durante as férias, e agora horas e horas a fio rolando na cama durante a noite. Por quê? Por quê? Por quê?

O sinal da segunda aula bateu.

Subimos em silêncio as escadas, e o momento de dizer tudo o que eu queria dizer foi perdido.

Segunda aula. Acabo de descobrir que nem mal começou as aulas e o horário foi trocado. A aula de redação vai ser a segunda, agora. O professor está querendo saber quem fez a tarefa que ele passou.

Ele tá sorteando pessoas para lerem.

A primeira vítima é...

Marlene McKinnon.

Sim, eu mesma. Não acredito que isso aconteceu. Por que eu não acordei mais tarde ainda, pra perder a segunda aula também? Não, porque sério mesmo. Eu não mereço isso. NÃO MEREÇO!

- Marlene, dá para você vir aqui em frente a classe? - pede o professor, com aquele sorriso inocente. Maldito seja. Ele pode até ser gato, mas deve estar louco pra ferrar comigo.

Tiro a folha do meu fichário, e vou hesitante até a frente da classe. Me encosto no quadro, e evito os olhares de Sirius (além do resto da galera) sobre mim. Isso é humilhante. Extremamente. Totalmente. Indubitavelmente... Humilhante.

Respiro fundo. Limpo a garganta. Olho para a minha caligrafia nada perfeita na folha vermelho vivo. Está tudo escrito em preto. Tudo o que eu estou prestes a falar vem do fundo do meu coração. É o que eu sinto. Somente o que eu sinto. É tudo o que tem bem dentro de mim, e até agora eu não falei pra ninguém. Muito menos para a pessoa a quem eu mais quero contar.

Sirius está olhando pra mim, eu sei que está.

Já não importa mais, que todos zoem da minha cara. Eu vou ler.

Eu sei que as coisas acontecem de um jeito ao qual não podemos opinar. No momento que antecede, poder antecipar ações, criar situações imaginárias na mente, e tentar pensar em um jeito melhor de realizar nossos sonhos. Sonhos são maravilhosos. E as coisas que acontecem tem todo um jeito de acontecer...

Será que isso tudo faz algum sentido? Eu não sei. O que eu tô tentando dizer é que a gente pode fazer de tudo para que as coisas aconteçam, mas depois de feitas... É difícil consertá-las.

Olhar pra ti todos os dias tão perto de mim. A frase clichê 'tão perto, mas ao menos tempo tão longe' faz algum sentido no momento. Faz todo o sentido, na verdade.

Chorando o gelo que você me deu? Não, eu não tô fazendo isso. Eu sei que não foi você, mas acho que também não fui eu. Eu não posso voltar no tempo, e tenho a sensação de que você já me esqueceu.

Essas são partes de uma música que não sai da minha cabeça, e é impossível não citá-la aqui, em meio aos meus próprios pensamentos.

Escrever trata-se de falar sobre o que a gente sente e pensa. Uma pessoa me disse pra esquecer sobre o que eu penso por um momento, que aí então as idéias iriam fluir e assim eu poderia pensar sobre elas.

Eu encaixei isso em outro setor da minha vida. Talvez eu tenha pensado demais. Eu te procuro até não poder mais, e isso me consome por dentro. É ridículo e eu sei.

Você mal me conhece. Eu mal te conheço. Mas de que serve dizer isso pro coração? O coração não pensa assim. A cabeça pensa assim. A única coisa que tem no meu coração agora são os batimentos descompassados, nada mais que isso.

Eu sempre pensei que conhecer uma pessoa fosse saber qual era a banda preferida dela, e a cor que as paredes do quarto dela tinham. Agora já penso diferente.

Conhecer é subjetivo.

Agora, pra mim... Conhecer é saber o jeito que as tuas mãos apertam a minha cintura; o jeito que você me olha quando está tirando com a minha cara; o jeito como você gosta de andar com as mãos nos bolsos, e como você mexe no meu cabelo.

Conhecer é sentir o outro presente dentro de nós.

Eu te conheço. E pela primeira vez na vida, eu sei exatamente o que eu quero: eu quero deixar você me conhecer também.

Lágrimas afloram em meus olhos. E por incrível que pareça, não estou me sentindo ridícula. Apenas aliviada. Extremamente aliviada.

Deixo a folha cair no chão, e saio correndo da sala. Isso sim fez com que eu me sentisse ridícula, mas não dava mais para segurar. Simplesmente não dava.

Banheiro feminino. O meu esconderijo. O reconfortante banheiro feminino.

Estou dentro do reservado, e perdi a terceira aula. Bateu o sinal do recreio, e eu continuo aqui dentro. Não tenho coragem de voltar pra aula depois de tudo isso. Não tenho MESMO!

Emm, Lice e Lilys estão do lado de fora. Não tem mais como fugir disso tudo.

Durante dois meses, eu fingi que tava tudo bem, sem nem cogitar a possibilidade de procurar um ombro amigo. Não dá mais. A terapia de diário é muito boa e tudo mais, só que às vezes a gente precisa de um abraço amigo e uma palavra reconfortante. Diário escuta, mas não responde.

Saio do reservado, e pela cara delas, eu sei que meus olhos estão vermelhos. Eu não agüento mais chorar. Chorei como não tinha me permitido chorar antes. Marlene McKinnon não é uma muralha, ela só aparenta ser. Essa é a verdade. Só que já não importa mais, chega dessa máscara, dessa barreira.

Tudo o que eu quero agora é ficar abraçada às minhas três melhores amigas, e deixar elas me reconfortarem com palavras que no fundo não significam nada, mas que no momento, são exatamente o que eu tô precisando ouvir.

Tudo vai ficar bem. E se elas me dizem isso, nada mais importa.

Não agora.