Cap. 10

Kanon mal ouviu ou sentiu o que havia em volta do ambiente; simplesmente sentou-se na cadeira e tentou respirar. Seu coração batia rapidamente; ele não sabia como se sentir.

No meio de sua angústia, ele ainda conseguiu ouvir Juliana dizer, entre soluços e prantos:

- Vinte e seis anos, e viúva! Para quê? Namorar oito anos, casar e perder o marido antes dos trinta!! Oh, é um inferno!!
O sangue de Kanon gelou. Viúva... então Giovanni morrera? E Saga? Por um acaso estaria vivo?!

A muito custo, ele se levantou e foi até a antiga amiga da escola. Mal conseguia sentir as próprias pernas.

- Ju... Juliana... você... disse que... é viúva agora?!

Um dos seus acompanhantes, percebendo o terror e a apreensão nos olhos de Kanon, decidiu tranqüiliza-lo.

- Eles não morreram. Foram internados na unidade de terapia intensiva. Juliana está sendo pessimista; tenha esperança! Eles sobreviverão e ficarão bem.

O caçula de Saga ainda estava tonto, pêgo de surpresa pela notícia. Sentou-se novamente e tomou um pouco de água com açúcar que lhe ofereceram. Ainda apresentava tremor nas mãos e palidez no rosto após o choque da notícia.

Após tentar estabilizar-se emocionalmente, embora não com muito sucesso, Kanon tentou obter informações de como havia sido o acidente. O mesmo amigo lhe respondera que em breve iriam ao hospital ver como estavam e falar com os médicos.

Kanon quase desmaiou. Dividia-se entre a grande vontade de cair num pranto convulsivo e bater na pessoa que lhe negava os detalhes do ocorrido. Lutando contra a inconsciência e o torpor que queriam lhe tomar, Kanon esperou pacientemente pela caravana, a qual se juntou e organizou para irem todos juntos ao hospital, dado que eram todos amigos ou conhecidos de Giovanni.

Enquanto o ônibus partia ao local, Juliana chorava desconsolada, sem parar, enquanto Kanon, a despeito da tristeza, permanecia lugubremente quieto,, em seu íntimo desejando afastar-se de Juliana, despeitado por ela fazer tanto escândalo e ele não. "Deve ser por conta de seu próprio temperamento", pensava, tentando assim acalmar seus próprios ânimos.

Chegaram. Após alguma burocracia e muita frieza e tratamento quase brusco da parte dos médicos e enfermeiros, apesar de o estabelecimento ser particular, enfim entraram na sala onde estavam internados ambos. A enfermeira-chefe deu enfim uma explicação do ocorrido: uma batida frontal com um motorista alcoolizado, o qual morreu na hora. Quanto a Saga e Giovanni, sofreram traumatismo craniano. Os dois estavam inconscientes e em estado grave, porém os sinais vitais eram regulares.

Kanon sentou-se na sala de espera, não sendo capaz de sentir nem tristeza, nem alegria, nem dor, nem alívio. Apenas vazio.

Ainda com o rosto vermelho e inchado, Juliana sentou-se a seu lado.

- Você tem alguma esperança, Kanon?

O irmão de Saga acenou negativamente com a cabeça, embora não quisesse dizer com aquilo que acreditasse na morte certa dos acidentados. Apenas não tinha mais o que dizer ou expressar.

- Já pensou seriamente na morte alguma vez, Kanon?

A voz embargada da italiana vinha soar em seus ouvidos novamente. Com esforço, ele respondeu:

- Quem é que pensa seriamente na morte aos vinte e seis anos, sendo saudável física e psicologicamente falando, jamais tendo perdido alguém muito próximo? Quando tudo acontece dessa maneira, apenas "os outros" parecem ser capazes de morrer.

- Pois eu já havia pensado. Sabe, de qualquer maneira não sei se, pra eles, seria melhor morrer agora. Foi repentino, eles não estavam pensando em morrer, portanto não passaram por período de ansiedade... não precisariam passar por uma doença prolongada ou ainda pela velhice.

Kanon pôs-se finalmente a pensar na morte, levado pelas palavras de Juliana. No final das contas, não havia nenhum desfecho diferente... todos morriam de um jeito ou de outro. Jovens ou velhos, doentes ou sãos, belos ou feios, de repente ou devagar. Não havia escapatória...

E ele, naquela sua vida aparentemente perfeita, vivendo um amor já duradouro, com seu negócio, formado na universidade, fazendo as coisas que normalmente pessoas de sua idade faziam... e eis que toda esta "realização" não passava de uma maneira de distrair sua mente do destino final não só de todos os homens e mulheres, mas sim de todos os seres vivos.

Uma tristeza infindável, não somente por seu irmão mas por tudo que respirava no mundo, tomou o coração de Kanon e ele se pôs, finalmente, a chorar. Juliana o abraçou em sinal de condolência.

Kanon levantou-se, foi lavar o rosto e lembrou de seus pais. E até de seus avós. Seu avô por parte de pai já havia morrido, mas os outros três eram vivos. Para eles, as gerações mais velhas, certamente seria pior saber o que havia acontecido...

Pegou o celular e ensaiou digitar o número da casa de seus pais. Não teve coragem na primeira vez. Imaginava como sua mãe ficaria... e não conseguiu ligar. Foi andar pelos corredores do hospital, não agüentando aquele clima pesado de doenças, de pessoas tristes. Sentiu um ímpeto quase infantil de esconder-se, fugir a um mundo seguro, um lugar onde fosse impossível morrer ou sofrer dano. E constatou ser impossível fazê-lo.

Questionou a natureza. Perguntou-se do porquê de as estruturas orgânicas não serem feitas de aço ou metal inoxidável, para que não morressem.

"Mas enfim... quem se importa... quem... quem se importa com a vida ou a morte de quem quer que seja? Apenas com a sua própria e daqueles que lhe são próximos..."

Aquilo lhe deixou triste. A despeito do intelecto humano, do conhecimento, de tudo que tentavam realizar, nada adiantava... e de repente percebeu que naquela ânsia de sua mãe em ter netos havia uma medo intrínseco de morrer. Pobre mulher, já não era tão nova... e desejava netos para em seu desespero saber que algo seu havia ficado...

"Que condição nojenta!", pensava consigo mesmo, mal contendo a expressão de asco em seu rosto.

Após algum tempo, conseguiu ligar a sua mãe e lhe explicar o que acontecera. A mulher ficou desesperada, o choro transparecendo por sua voz.

O caçula, ao desligar o telefone, sentiu-se tão impotente e fraco perante a dor de sua mãe, que teve de ir mais uma vez ao banheiro lavar o rosto.

Quando seus pais chegaram, Kanon abraçou-os, porém sentiu-se pior. Se eles, que sempre haviam sido uma grande referência a si, estavam abalados daquela maneira, que se diria de si, perdendo alguém que sempre fora a si não apenas um irmão, mas o centro de sua vida...?

Não teve coragem de ir até a sala e ver seu irmão entubado, talvez até mesmo desfigurado. Não; queria preservar a imagem corriqueira que tinha de seu irmão alegre, saudável, vivaz...

Sua mãe disse a ele que era realmente uma tragédia o marido de Juliana sofrer com isto junto de Saga. Ambos tão jovens, com família... e ao pensar nestas fatalidades, Kanon só se sentiu pior.

Passaram a noite no hospital. Os médicos não interferiram, porém pensavam no porquê de aquelas pessoas fazerem "peregrinação" num hospital, sendo que o quadro dos doentes era estável. Tão acostumados com a doença e a morte estavam, que não conseguiam depreender a dor dos que ali estavam.

Com o tempo, as pessoas da excursão foram embora; e apesar de nada dizerem aos outros, agradeciam ao Acaso ou a Deus por não ter sido com eles ou com sua família, ignorando momentaneamente que cedo ou tarde morreriam também.

De manhã, sem melhoras no quadro de Saga e Giovanni, porém numa constante estabilidade, já não havia o que fazer para ajudá-los. E enfim, eles tinham que forçosamente tocar suas vidas, as quais continuavam.

- Filho... - disse ainda chorosa a mãe de Kanon Não quer passar uns dias lá em casa, para não se sentir tão sozinho naquele apartamento?

O caçula não soube o que responder. Não queria voltar para casa, mas também não queria ir "atormentar" os pais. Até porque, com o acidente de Saga, eles lhe cobrariam um filho mais do que nunca.

Decidiu enfim ir para o apartamento que dividia com Saga, dado que de qualquer forma, morando nele ou não, teria de pagar as contas para mantê-lo. E também, já não sabia se enfim a internação de Saga demoraria tanto. E um laivo de otimismo lhe veio, revelando que desejava Saga logo curado, ali ao seu lado em casa e na loja...

Porém, aquela onda de esperança logo se desfez. Parecia que nada, enfim, era seguro... afinal, haviam apenas ido acampar e Saga voltava com um traumatismo craniano... e por ironia do destino, tal ferimento nada tinha que ver com trilhas e selvas, mas com um carro. Um caro, que poderia estar sendo dirigido em qualquer rua.

As estatísticas de acidentes de trânsito, assassinatos, assaltos e até mesmo de acidentes domésticos saltavam diante de seus pensamentos. Era impressionante em como no jornal elas eram insignificantes, para si meros números declarando algo. E agora... Saga, seu irmão, entrava nelas. E isto mudava toda a sua via, ao menos por enquanto.

Tentou não pensar mais. Quis colocar em sua mente que seu irmão se curaria e não sofreria grandes seqüelas.

E realmente dormiu logo, dado que na noite anterior havia passado-a toda em claro no hospital... porém não conseguiu afastar os pensamentos ruins.

To be continued

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