CAPÍTULO 10

Winner of the Game

Mary Alice: As vitórias vêm com o tempo. Ao poucos, as pequenas glórias cotidianas vão se somando e solidificando em nossas vidas. Temos a casa dos sonhos, os filhos perfeitos e o casamento que sempre desejamos. Acima de tudo, temos a liberdade de escolher o que queremos para nós mesmos e buscar a felicidade.

A semana passou devagar, com dias lentos que pareciam se arrastar nos ponteiros dos relógios. Bree precisava de um tempo para si própria, ou foi isso que dissera às amigas. Encarregou Andrew e Katherine dos cuidados da empresa e tirou a semana de folga para resolver assuntos pessoais. Ajudou Orson a recolher os pertences para a mudança e reuniu-se com os advogados, acordando com o ex-marido, sem muito esforço, que cada um sairia do casamento com os mesmos bens que entrou e levando apenas o que construiu com esforços próprios. Ou seja, Bree, mais uma vez Van de Kamp, manteria sua empresa intacta. Orson era orgulhoso demais, então não aceitou receber pensão, além de largar o emprego com a ex-mulher.

Gabrielle esteve todo esse tempo inquieta. Quando Carlos estava no trabalho, ia ficar com as filhas, mas saia assim que ele chegava, sem desejar mais brigas, ainda ressentida pela última discussão. Imaginou que nunca dera o devido valor ao tempo com suas meninas, agora que lhe era escasso. Passava o resto do dia no shopping, olhando vitrines, mas estava tão abatida que não tinha sequer vontade, para não falar em dinheiro, para comprar. Ainda estava esperando os arranjos finais de seu divórcio para poder tocar em seus bens mais uma vez. Ás noites, ficava vagando pela casa de Susan sem conseguir dormir, um copo de bebida na mão, espiando pela janela a casa de Bree, enquanto esperava o momento em que a amada retornaria suas ligações.

A ruiva acabara de retornar a casa após a última reunião com os advogados, trazendo em mãos a cópia da certidão de divórcio. Viu-se sozinha dentro de um lugar grande demais, mas que ainda assim parecia sufocá-la. Pegou o celular e viu a quantidade de chamadas não atendidas, todas pertencentes ao mesmo número. Estava na hora de largar o luto de seu casamento fracassado e retornar ao convívio social. Discou o número de uma das amigas:

- Oi, Lynette, está ocupada? Que bom. Poderíamos adiantar o jogo de pôquer dessa semana? Hoje. Certo – e desligou.

Na casa quase defronte, Lynette Scavo pedia ao marido que tomasse conta das crianças enquanto ligava para Susan:

- Oi, Bree chamou para o pôquer hoje, o que acha?

- Ela tem estado tão sozinha ultimamente, cairia bem – respondeu a outra.

- Certo, vou ligar de volta avisando que nós vamos – Lynette desligou.

Enquanto isso, na casa de Susan, uma hóspede ouvia à conversa com os ouvidos atentos. Gabrielle desceu às escadas rapidamente em seus saltos altos, perguntando imediatamente:

- Quem era no telefone?

- Era Lynette – respondeu Susan enquanto procurava nos armários da cozinha por uma vasilha grande. – Bree nos convidou para jogar pôquer hoje – continuou enquanto pegava pipoca de microondas para preparar.

- E porque não me avisou? – Reclamou Gaby. – Não tenho o que vestir nem o que levar!

- Relaxe, não se preocupe com isso – disse a anfitriã. – Eu levo pipoca por nós duas.

A latina a olhou com ar de desdém. Sabia que não era adequado comparecer à casa de sua amada de mãos vazias, nem levando algo tão simples quanto pipoca. Começou a remexer nos armários da amiga à procura de algo útil.

- Gaby, o que está fazendo? – Ela perguntou.

- Isso – apareceu a outra com uma garrafa de vinho na mão -, isso vai servir.

Ignorando os olhares de reprovação, Gabrielle pegou a garrafa assim mesmo e, dentro de meia hora, rumavam as duas para a casa do outro lado da rua. Susan tocou a campainha olhando para a amiga nervosa ao seu lado. Gaby estava excessivamente arrumada em um Dior vermelho, com sapatos que combinavam e batiam a todo momento no chão. Quando a porta se abriu, esboçou um largo sorriso, incapaz de dizer uma única palavra, ou de ficar irritada por todos estes dias sem respostas aos seus telefonemas.

- Olá, garotas, entrem – convidou-as Bree.

A anfitriã lhes deixou passar e depois fechou a porta. Enquanto Susan ia até a sala de jantar colocar a vasilha com pipoca sobre a mesa e ajudar com as cartas e as fichas, Gabrielle permaneceu junto à entrada, aguardando.

- Oi – disse.

- Sei que te devo explicações... – Bree começou, mas a outra a interrompeu colocando a mão sobre sua boca.

- Deve, deve até demais – Gaby falou, depois soltou a amada e cruzou os braços. – Mas isso não interessa, não é mesmo? Não vamos brigar.

Com um sorriso, estendeu o braço para que a ruiva pegasse e a conduziu até a sala de jantar, onde Susan, Lynette, Katherine e Edie as esperavam com tudo pronto para o início do jogo. As quatro estavam muito quietas, tendo interrompido os cochichos assim que o casal adentrou. Observaram enquanto Bree e Gaby se sentavam lado a lado, e como claramente a morena mantinha uma mão sobre a perna da companheira, enquanto esta preferia apoiar os dois braços sobre a mesa como se nem percebesse.

O ambiente estava um pouco tenso e silencioso demais, ninguém parecia ousar dizer palavra sobre os últimos acontecimentos, ou sobre o desejo súbito de reunir o grupo para o pôquer. Ninguém, exceto Edie Williams:

- Então, como vão ficar as coisas agora que Carlos te abandonou, Gaby? Quer dizer, você dependia dele financeiramente – já procurava alfinetar a vizinha na primeira oportunidade.

- Primeiro, ele não me abandonou – respondeu Gabrielle com um sorriso cínico enquanto arrumava suas cartas na mão. – Segundo, eu não dependo dele, sei me virar, como sempre me virei.

- Ah, não se preocupe, isso vai ser fácil – disse Katherine rindo e aproveitando para ofender a chefa. – Bree tem a empresa de buffet e ela contrata qualquer um com quem esteja dormindo, não é mesmo, querida?

- Katherine! – A ruiva sentiu-se constrangida. – Sabe que contratei Orson porque ele me pediu. Se Gabrielle quiser trabalhar para mim será muito bem recebida. Pagarei o valor justo pelos serviços, como sempre fiz com todos meus funcionários.

- Uh – comentou Edie empertigando-se na cadeira -, já percebemos quem é o homem da relação.

Bree a olhou chocada com o comentário indiscreto, porém tanto Gabrielle quanto Katherine, Lynette e Edie riram. Depois de beber um gole do vinho que trouxera, Gaby respondeu:

- Isso só se for aqui, porque na cama não é bem assim não.

- Gaby! – Bree reclamou enquanto abaixava a cabeça e escondia o rosto atrás da mão, mortificada com a vergonha.

Ignorando completamente este desconforto e desejando provocar ainda mais, Katherine deu continuidade à brincadeira:

- Sério? Bree não tem cara de passiva.

Não querendo piorar a situação, Gabrielle aproveitou que sua companheira não a observava para responder com um olhar de claro significado "você quem pensa". Depois colocou a mão sobre os ombros da ruiva, acariciando-a para que se sentisse confortável de novo, ao que Bree levantou mais uma vez o rosto, tentando recompor sua postura.

- Da próxima vez, poderiam apenas esperar que nós saíssemos? – Pediu Lynette.

Todas riram, sentindo finalmente que a normalidade retornava ao ambiente de jogo, como não era visto há meses. As amigas sorriam e todas pareciam felizes, até Lynette relembrar de alguns detalhes:

- Gaby, conseguiu acordar os termos do divórcio?

- Ainda não – a outra respondeu. – Mas, se tudo correr bem, não vou precisar do emprego, pois vou ter todo o dinheiro da meação para gastar.

- Você pode fazer melhor do que isso e ficar com a casa, como vocês fizeram da outra vez – sugeriu Bree. – Assim você pode alugar a casa e garantir uma renda fixa.

- É uma ótima idéia, eu posso te ajudar com isso – disse Edie.

- Mas e onde eu vou morar? – Perguntou Gabrielle.

- Comigo, claro – a ruiva respondeu com total naturalidade, como se fosse a coisa mais simples e lógica do mundo, enquanto jogava suas fichas para apostar.

A companheira, por outro lado, deixou as próprias cartas caírem da mão, enquanto não só ela, como todas as amigas, olhavam para Bree espantadas com a rapidez do convite. Gaby deu um pulo de sua cadeira e abraçou sua amada com força, imensamente feliz.

- Calma, é só morar junto – disse a ruiva.

- Mas isso é diferente, vocês agora são um casal – disse Lynette. – Não é o mesmo que chamar uma amiga para morar.

- Não há nada de tão diferente – respondeu Bree. – Eu a amo, agora um pouco mais, já que tem benefícios. Não vou nem precisar arrumar o quarto de hóspedes.

- Você... – Gaby começou a falar e pulou de novo sobre a ruiva. – Você disse!

- É, eu disse – Bree finalmente se deu conta. – Eu te amo.

As duas se abraçaram com força, para alegria das amigas. No mais, deram continuidade ao jogo de pôquer, entre risos e festejando o amor e a felicidade do mais novo casal em Wisteria Lane. Quando o relógio acusou já ser tarde demais para manterem os maridos e namorados sozinhos, as amigas se despediram. Na varanda da casa, Gabrielle falava com Susan antes que esta fosse embora:

- Será que você poderia falar com Karl, já que ele é advogado de divórcio, e me conseguir uma consulta? Seria muito bom um advogado como ele para me ajudar contra Carlos.

- Eu não sei... – Disse Susan um pouco evasiva, coçando a cabeça.

- O que foi? – Gaby percebeu que havia algo de errado.

- Eu não sei se posso ajudar – respondeu a outra. – Assim, eu não vejo problemas em você ficar lá em casa, já que você precisa de um lugar pra ficar e só tenho eu e M.J.. Mas eu não quero me envolver mais do que isso, não quero que isso me atraia problemas, você entende?

- Entendo – respondeu Gabrielle com uma expressão fria, cruzando os braços. – Não se preocupe – e sorriu cinicamente -, estarei pegando minhas coisas amanhã. Não quero lhe trazer mais "problemas" – e colocou ênfase na última palavra enquanto dava as costas para retornar à casa.

- Hey, Gaby – Susan tentava retornar a conversar.

- Tchau, Susan – cortou qualquer chance de restabelecer diálogo.

Magoada e triste com o inesperado abandono da amiga, Gabrielle retornou para dentro da casa de Bree e trancou a porta. Andou lentamente pela sala, até a cozinha, encontrando a sua amada em pé diante da pia, lavando taças. Chegou por trás e a abraçou, depois beijou no pescoço.

- O que foi? – Perguntou a ruiva virando-se e encontrando um par de olhos tristes. – Algo de errado?

Este não era o momento de falar a verdade, pois Gaby sabia o quão devastador isto seria para sua amada. Então optou por omitir. Se esforçou para moldar o sorriso mais sincero possível, lembrando-se de todas as coisas boas que aconteceram durante o jogo, do convite para morar, da declaração, e de como todas as amigas as aceitavam naturalmente.

- Nada, meu amor – respondeu e beijou-a sobre os lábios. – Só estou feliz de te ter aqui comigo.

Mary Alice: As vitórias que conseguimos ao custo de sucessivas derrotas, perdas e sofrimentos são as mais preciosas. Por vezes é necessário perder a rica casa, o longo casamento, a guarda dos filhos. Mas e quando é necessário por a prova uma amizade? Devemos ter cuidado com o que desejamos fazer de nossa liberdade, pois podemos conseguir, a um preço que não sabemos, até o momento chegar, se estamos dispostos a pagar.

N.A.: Sabiam que é uma ótima idéia ficar no trabalho jogando RPG de DHW por e-mail? Ao menos dá uma finalidade útil às quatro horas que o governo me paga. Ah, só pra rir, ganhei elogios do meu sogro esses dias porque ele estava ouvindo umas das músicas de Madame Butterfly e eu disse que gostava. Engraçado é que eu conheci essa música em DHW, pois é a música que Orson escuta, e acabei me interessando por conhecê-la por completo (e é realmente LINDA). DHW é cultura!

N.A.(2): Só para deixar claro, divórcio nos EUA é feito por distrato, acordado entre as duas partes e de eficácia imediata, oponível entre ambos, não sendo necessária ratificação judicial, bastando as duas assinaturas (no caso consensual, que é o da fic). No Brasil é preciso recorrer à via judicial, ainda que consensual para a ratificação (o que faz levar de alguns meses a anos pra sair...).

N.A.(3): Essa "Susan" da fic realmente existiu, só que ela era a melhor amiga de "Gaby" e fez o desfavor de ser uma completa inútil, nos abandonando à própria sorte, quando poderia ter ajudado muito.

Beijos a todos! Aguardo reviews.