Quebrado - Ato 2
por Scila


O Beco Diagonal estava florescendo novamente, os meses negros com ataques de Comensais e desaparecimentos finalmente colocados para trás.

Famílias passeavam pela rua, olhando vitrines e dividindo sorvetes, casais andavam de mãos dadas e sorrisos nos lábios. Era um domingo ensolarado e especialmente bonito.

Havia vendedores de todo o tipo empurrando carrinhos com balões de vários formatos e doces exóticos e truques engraçados, atraindo compradores com promessas de preços espetaculares e diversão. Crianças puxavam as vestes dos pais, suplicando por uma guloseima e um balão colorido.

Próximo a livraria Floreios e Borrões, porém, estava atração mais chamativa. Um teatro de rua, com direito a música e aplausos animados dos que observavam a peça. Gina pegou o braço de Harry e o puxou até a multidão, buscando um lugar que lhe permitisse ver de perto o que estava acontecendo.

Um ator erguia uma espada, enquanto dois outros o atacavam, fantasiados de uma enorme serpente. Do lado do herói (ou assim Gina o nomeou), havia um duende vestido de chapéu, dois buracos para seus olhos.

- Use a espada, jovem Potter! Vença o Basilico com o poder da Grifinória – o duende gritou e a platéia aplaudiu, incentivando o herói.

Gina olhou para Harry, um meio sorriso no rosto, e viu que ele estava vermelho e incomodado. O rapaz que o interpretava era musculoso, olhos verdes reluzentes, porte de um verdadeiro cavaleiro medieval, nada similar ao menino de 12 anos com óculos e magricela que a salvou anos atrás.

- Rony pediu para eu comprar um presente para Hermione. Ele insiste que ela sabe ler a mente dele e quer fazer surpresa. Já volto – Harry disse, de repente, se desculpando e deixando-a sozinha.

Gina não tentou persuadi-lo a ficar e continuou observando o teatro, notando agora que uma atriz se jogava no herói, proclamando seu amor eterno e os dois se beijaram para a alegria de todos que assistiam.

A versão teatral de Gina definitivamente não era uma menina assustada de 11 anos. Usava uma peruca ruiva demais e um vestido apertado que realçava os já bem dotados seios que possuía. Gina tentou levar a aparência da moça como um elogio.

- Eu gosto da parte que o Basilico morde Potter.

Para sua surpresa, encontrou Draco Malfoy ao seu lado.

- Eu prefiro a parte que eles vivem felizes para sempre – ela respondeu, sorrindo.

- Vocês dois sempre foram um clichê ambulante.

- Como vai, Draco?

Com cuidado ele deslizou sua mão até achar a dela, segurando-a.

- O que está fazendo? – disse assustada com o gesto num lugar público.

- Correndo um risco – sussurrou no ouvido dela, sorrindo. – Você sumiu.

- Harry está de férias – retrucou nervosa. – Largue minha mão.

- Vai me dizer que não gosta de um pouco de risco?

- Não. Agora largue.

O sorriso desapareceu e ele largou a mão dela.

- Você devia ser atriz , combina perfeitamente com serpentes de papel e duendes vestidos de chapéu – sugeriu, voltando-se para a peça que quase terminava. – Como é viver no teatro que é a vida de Harry Potter?

Revirou os olhos. O coração dela estava batendo rápido, a peça estava no final, e em breve a multidão se dispersaria, deixando apenas os dois lado a lado e expostos para todo o mundo mágico observar e comentar.

- É melhor do que suportar o eterno show estrelando Draco Malfoy.

A platéia agora aplaudia enquanto os atores se curvavam em agradecimento. O duende tirara o chapéu que vestia e agora o oferecia para as pessoas, para que contribuíssem com dinheiro.

- Vamos sair daqui – ele sugeriu uma das mãos nas costas dela.

O contato bastou para arrepiá-la por inteiro. Fitou os olhos dele, percebendo a suplica que ele jamais admitiria em voz alta.

Gina procurou algum sinal de Harry, mas não encontrou.

- Para onde? – perguntou enojada consigo mesma, porém, também ansiosa.

Ele a pegou pelo braço e a puxou gentilmente para longe do teatro e da platéia, cada vez mais adentro da Travessa do Tranco e em direção a uma peça que Gina participara muitas vezes antes.

Trocavam insultos como seus papéis pediam. Ele era rude e pretensioso, ela cruel e fria. No entanto, no segundo que a cortina fechava, o roteiro era esquecido, saias eram levantadas e camisas jogadas longe.