Tetsuna estava distraída na cozinha preparando o café-da-manhã quando Akashi apareceu e puxou uma cadeira para se sentar. A garota não reparou, assustando-se levemente ao vê-lo. No entanto, ela apenas colocou a comida sobre a mesa e se voltou para arrumar as coisas que tinha usado. O rapaz apenas observava em silêncio com um sorriso de canto no rosto. Já estavam naquilo há alguns dias e, mesmo que ele dissesse que era desnecessário, ela continuava a levantar mais cedo para preparar comida.
- Eu posso me acostumar a isso… – ele se levantou e foi até a garota, abraçando-a por trás.
Tetsuna levantou o olhar para o ruivo, sentindo o rosto ferver quando os lábios de Akashi lhe tocaram suavemente o pescoço. O rapaz não tinha feito mais do que roçar em sua pele, mas a garota sentia o coração batendo fortemente no peito. Naquele momento, ela se condenava mentalmente por ter deixado o cabelo preso em um rabo-de-cavalo e, consequentemente, tão exposto. "Mas por que Sei-kun tem que gostar tanto assim de me envergonhar…?!", ela fechou as mãos com certa força ao redor da borda do prato que segurava.
- Sei-kun. – apesar de se sentir alterada, ela tinha a voz saindo firme – Por favor, fique sentado quietinho enquanto eu termino de arrumar as coisas. Melhor que isso, por favor, comece a comer seu café-da-manhã.
Ele sorriu com satisfação.
- Qual o problema, Tetsuna? E eu já lhe disse que não precisa fazer tudo isso, essa é função dos empregados. – ele estendeu a mão calmamente para tomar o prato da garota, que sentiu um arrepio correr violentamente por suas costas ao ouvir a voz do outro saindo praticamente sussurrada em seu ouvido.
Antes que alguém pudesse fazer algo, o prato escorregou e caiu no chão, quebrando-se.
- Ah…! Desculpe por isso, Sei-kun…! – Tetsuna rapidamente se livrou do abraço e se virou para ir atrás de uma vassoura.
Seijuurou a segurou pelo pulso e tornou a puxá-la para si.
- Eu já lhe disse, Tetsuna, que essa é a função dos empregados. Então seja uma boa garota e sente-se comigo. – ele sorria para ela ao falar, divertindo-se ao ver que ela ainda estava corada por causa da provocação anterior.
A garota concordou em silêncio, permitindo-se ser guiada até a mesa pela mão. O rapaz tornou a falar tão logo Tetsuna tinha se sentado na cadeira que ele puxara ela. Seu tom era suave e cordial, como ela se lembrava de ser, e o ruivo sorria de canto o tempo todo, parecendo realmente se divertir com algo que ela desconhecia.
- Tetsuya me disse que você ia procurar uma hospedaria por aqui. – ele fez uma breve pausa, continuando quando seus olhares se cruzaram – Você não precisa fazer isso, Tetsuna. Você pode ficar aqui quando quiser, por todo o tempo que for necessário. Na verdade… – ele lhe tomou suavemente uma das mãos e lhe beijou antes de continuar – Eu prefiro que você não vá embora por causa do Campeonato de Inverno.
Tetsuna, já recomposta, olhou para Akashi com seu usual ar indiferente.
- Mas eu quero ver os jogos do Tetsu-nii-chan. Assim como os seus, Sei-kun. Eu preciso voltar para Tóquio quando começar o Campeonato.
O ruivo surpreendeu-se por um instante com a resposta, pensando que realmente tinha se desacostumado com aquilo. Mas logo ele ria e a garota tombou levemente a cabeça para o lado, sentindo-se confusa. Ele apenas disse que ela não se preocupasse e que eles começassem logo a comer antes que ele se atrasasse.
- O que vai fazer hoje pela manhã, Tetsuna?
- Terminar de preparar o almoço para poder levar para a Rakuzan, Sei-kun. Você sabe disso. – ela terminou de comer e agradeceu brevemente, levantando-se para por a louça na pia.
"E vou fazer você repetir todos os dias, minha querida Tetsuna", ele sorriu com satisfação. Então, ao ver que ela se dirigia para onde o prato ainda continuava quebrado, o rapaz rapidamente se levantou, mas não conseguiu chegar a tempo de afastar a garota, que, mesmo com todo o treinamento que tivera, acabou cortando o pé em um dos cacos. Akashi rapidamente chamou um empregado para limpar a cozinha e pegou Tetsuna no colo, levando-a até uma das cadeiras e colocando-a sentada.
- Sei-kun, não se preocupe com isso… Você vai se atrasar.
O rapaz apenas a ignorou, indo pegar o que precisava para cuidar do ferimento que, felizmente, tinha sido suficientemente superficial para que não sangrasse muito. A garota não protestou enquanto recebia os cuidados, que julgava excessivos, do outro e não pôde evitar sorrir discretamente enquanto o observava. "É como se… Estivéssemos de volta àquele tempo…", ela juntou as mãos no colo.
- Sei-kun.
Ele levantou o olhar ao ouvi-la chamando.
- Você se lembra daquele dia na roda gigante? – ela o fitou nos olhos – No parque de diversões.
- Como eu poderia esquecer? – ele respondia naturalmente e se levantou quando acabou o que fazia.
- Você se lembra… Do que eu lhe falei…?
- Perfeitamente. – ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar – Devíamos repetir a experiência.
- Acho que seria interessante se, dessa vez, fôssemos todos juntos. – ela aceitou a ajuda e olhou para o rapaz ao responder.
Ele concordou em silêncio.
Akashi agradeceu ao rapaz que lhe passou a toalha após o treino e apenas a deixou sobre a cabeça ao se retirar da academia. Tetsuna, que esperava pacientemente próxima ao equipamento que o rapaz usava, sentiu-se incomodada com aquilo. A vontade que tinha era de pegar a toalha e obrigar o ruivo a enxugar propriamente o suor que escorria antes de ir para o vestiário. Mas, por causa da boina que usava, sabia que chamaria a atenção dos demais presentes e que aquilo irritaria o amigo.
- Eu vou esperá-lo lá fora, Sei-kun.
O ruivo concordou com a cabeça antes de sair. Tetsuna olhou uma última vez o lugar antes de fazer o mesmo. Antes que a porta se fechasse, a garota ainda conseguiu ouvir alguém reclamando de como era injusto Akashi não apenas ser um gênio, mas também ter "uma garota bonitinha" o acompanhando. "Então é só isso que eles veem…?", ela fitou o céu. "Tão azul…", ela tornou a baixar o olhar e inconscientemente levou a mão à bochecha. "Azul como naquele dia…".
- Há alguma coisa errada, Tetsuna? – a voz de Akashi soou ao seu lado, fazendo-a levantar calmamente o olhar.
Apesar de ter perdido a noção do tempo, ela não estava tão distraída a ponto de não ter percebido a aproximação do ruivo. A garota apenas negou com a cabeça, abaixando a mão. Apesar de os dois saberem que aquela não era uma resposta verdadeira de todo, nenhum deles comentou qualquer coisa mais a respeito. Akashi então começou a andar e ela logo se apressou em acompanhá-lo.
- Você tem treinado bastante, Sei-kun. – ela tinha as mãos juntas diante das pernas – Isso é bom.
- Tetsuna, você não precisa me acompanhar todos os dias. Almoçarmos juntos é mais que o suficiente. Você pode sair para conhecer a cidade o quanto quiser, mesmo que eu tenha aula e treino. – ele tinha as mãos nos bolsos e falava como se aquilo não o afetasse.
Ela deu suavemente de ombros antes de responder.
- Eu não me importo, Sei-kun. Mas… Talvez eu faça isso. – ela olhou brevemente o rapaz antes de continuar – Por que não vamos juntos quando você não precisar treinar, Sei-kun?
Ele sorriu com a pergunta.
- Há algum lugar a que você gostaria de ir, Tetsuna?
Tetsuna abaixou os talheres inesperadamente, fazendo com que Akashi interrompesse o próprio jantar e levantasse os olhos para ela. Desde que voltaram à casa, a garota tinha estado estranhamente quieta, mas ele preferiu não forçá-la a falar. Sabia que, quando ela se sentisse confortável, acabaria se abrindo com ele. O ruivo a analisou calmamente, esperando que ela se manifestasse. Mas tudo que Tetsuna fazia era continuar a olhar para o prato, perdida em pensamentos. Então os orbes azuis o fitaram, mas o silêncio permaneceu intocado.
- Há algo errado, Tetsuna? – ele tinha o tom tranquilo, paciente.
- Sei-kun, como… – ela hesitou, fechando levemente mais forte as mãos ao redor dos talheres – Como você se sentiu quando soube que eu voltei?
- Ora, não sabia que você gostava de perguntar as coisas mesmo sabendo a resposta. – ele sorriu – Satisfeito por poder vê-la novamente, sem dúvidas.
Cada um deles estava em um lado da mesa, de forma que podiam se olhar frente a frente. Akashi se recusava a sentar na ponta, dizendo que ficariam muito distantes um do outro, então ficavam revezando entre os outros seis lugares. Por vezes, Tetsuna aceitava se sentar ao lado do rapaz, mas geralmente preferia ficar a sua frente. O ruivo não se incomodava, mas, naquele momento, o outro lado da mesa parecia muito mais distante que o normal.
- Por que está perguntando isso, Tetsuna? – ele continuou a falar quando percebeu que ela mergulharia em um silêncio profundo novamente.
"Mesmo com o que houve naquele dia… Sei-kun continuou me tratando igual. Ele continua sendo a mesma pessoa que eu conheci depois que Tetsu-chan ganhou o primeiro campeonato pela Teikou, então… Por que eu tenho sentido esse desconforto toda vez em que estou na Rakuzan?", ela sustentava o olhar, mas não respondeu. Akashi não a pressionou, muito menos voltou a comer. Sabia que, no momento em que desviasse sua atenção, o assunto morreria sem qualquer chance de retomada.
- O que você sente quando eu vou vê-lo treinando? – o tom dela não havia mudado, mas o rapaz sentiu que alguma coisa estava fora do lugar.
- Você sabe o quanto me alegra vê-la presente em meus treinos, Tetsuna. – ele manteve o sorriso e o tom calmo.
"Sei-kun nunca pareceu se preocupar em me apresentar seus colegas de time, mesmo na Teikou… Mesmo a Geração dos Milagres… Será por isso que eu…", a garota se assustou quando o ruivo se levantou de repente e contornou a mesa, indo até onde ela estava. Tetsuna o acompanhou com o olhar, parecendo não entender a expressão incomodada e preocupada que via no rosto do outro.
- Sei… Kun…?
Akashi apenas se abaixou diante dela e levou uma das mãos ao seu rosto, secando uma das lágrimas que havia começado a rolar pela bochecha da visitante. Tetsuna se assustou ao perceber que tinha começado a chorar. "Então é por isso que ele está tão preocupado…", ela gentilmente envolveu a mão do ruivo com as próprias e a aproximou do rosto, fechando os olhos. Sentir a mão do rapaz em sua bochecha lhe passava uma estranha tranquilidade e ela ficou daquele jeito por alguns segundos antes de tornar a fitar o anfitrião. O ruivo não tinha se movido nem um milímetro, ainda a olhando com preocupação.
- Tetsuna… O que houve…? – ele tinha o tom baixo ao falar e franziu o cenho.
- Desculpe por preocupá-lo, Sei-kun. – ela tinha o tom estranhamente calmo e sustentou o olhar do rapaz sem hesitação. "Eu sempre me perguntei se ele gostava de passear comigo apenas para exibir para os outros sua nova conquista… Porque ele nunca pareceu se preocupar em me apresentar seus colegas de time… Mas talvez ele só não goste da ideia de dividir a atenção de alguém com quem se importa… Não é…?", sem perceber, ela sorriu de canto.
Akashi pareceu aliviado com aquilo e soltou a mão apenas para se levantar e poder abraçá-la. Tetsuna se surpreendeu ao ser puxada para cima, mas não resistiu ao sentir os braços do outro em sua cintura. Ao contrário, ela apenas o abraçou de volta, escondendo o rosto em seu peito. "Eu fui… Idiota…", ela se sentia estranhamente tranquila. Não era a mesma tranquilidade que sentia com o irmão, mas era surpreendentemente parecida. Então a garota afastou levemente o rosto para poder fitar o rapaz nos olhos ao falar com seu tom e inexpressividade de sempre.
- Sei-kun, você dormiria comigo hoje?
Akashi franziu o cenho, rindo ao responder.
- Do que você está falando, idiota? Não faça essas perguntas assim, muito menos de repente desse jeito. As pessoas podem entender errado, sabia?
- Mas… Qual o problema, Sei-kun? – ela tombou levemente o rosto, parecendo confusa.
O ruivo sorriu com certa satisfação ao ver o cabelo curto da garota escorregar por seu pescoço, expondo-o ao cair para trás. Calmamente, Seijuurou se abaixou, beijando a pele clara da outra em perceptível provocação e rindo quando a ouviu tentar protestar, mas sem conseguir de fato reagir. "Continua sempre igual…", ele se levantou, olhando para o rosto vermelho da garota com divertimento.
- Algum problema, Tetsuna?
- Sei-kun, seu… Idiota…! – ela tornou a esconder o rosto no peito dele.
Akashi riu com certo gosto.
- idiota é você, que continua caindo nos mesmos truques mesmo depois de tanto tempo. – ele lhe afagou brevemente o cabelo antes de soltar o abraço e voltar para seu lugar à mesa – Vamos terminar de comer, está bem?
Tetsuna concordou em silêncio, sentando-se.
Kagami apenas caiu sobre a cama, permitindo-se afundar o rosto no travesseiro por um breve instante. Nos últimos dias, sempre que o treino acabava e ele voltava para casa, a mesma cena se repetia em sua mente. "Isso já está me enchendo o saco", ele suspirou. Mas, por mais que repetisse para si mesmo que não era nada importante, suas reações não mudavam. Naquele dia não foi diferente e ele logo virou o rosto, passando a fitar a parede.
- Bakagami, vá acordar o Kuroko! Nós temos que estar com tudo pronto o quanto antes para sair! – Riko apontou para o corredor ao falar com o mais novo com um ar determinado.
Kagami não protestou, pois sabia que seria inútil, e foi até o quarto do amigo. Ao colocar a mão na maçaneta, percebeu que a porta não estava trancada. "Que desleixo…!", ele riu consigo mesmo e entrou no cômodo. O que viu em seguida lhe surpreendeu, fazendo-o estagnar entre o corredor e o quarto. Tetsuna e Kuroko estavam dormindo abraçados no mesmo futon e tinham expressões extremamente relaxadas e tranquilas.
"Não, mas…! Mas…! Ela estava aqui…?! Droga…! Como a treinadora pode me mandar fazer uma cosias dessas?! Ela esqueceu que a Tetsuna estava dividindo o quarto com o Kuroko?!", ele olhou ao redor, tentando pensar no que fazer. No entanto, apenas duas coisas lhe ocorriam. "A treinadora fez isso de propósito! E por que diabos eu continuo aqui?!", ele recuou, batendo as costas na parede oposta do corredor.
Tetsuna acordou com o barulho e se levantou, ficando alarmada ao ver a porta aberta. Quando seus orbes azuis pousaram nos vermelhos, no entanto, ela pareceu relaxar. "POR QUE ELA PARECE NÃO VER PROBLEMA NENHUM NO QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!", Kagami sentiu o rosto esquentando. "Espera, espera, espera! Ela dorme de camisola?!", ele respirou fundo. "NÃO É ISSO QUE EU DEVIA ESTAR PENSANDO!", ele cobriu o rosto com uma das mãos, repreendendo-se.
- Algum problema, Kagami-kun? – Tetsuna parecia inabalada com o que estava acontecendo.
- Ah… A treinadora pediu para chamá-los. – ele se levantou, recompondo-se quase de imediato. Ainda sentia as bochechas levemente vermelhas, mas tentou ignorar – Ela disse que precisam deixar tudo pronto logo para quando for a hora de sair.
- Entendido. Vou acordar o Tetsu-nii-chan, não se preocupe. – a garota assentiu levemente e logo tinha fechado a porta.
Uma vez que estivesse sozinho, Kagami sentiu o rosto ferver novamente. "Por que… Ela tem que parecer tão… Estranha!? Que tipo de gente reagiria daquele jeito?! Ela estava de pijama!", ele cerrou os punhos. "Espera… Ela estava de… Camisola… Mas… Eu achei que ela usaria aquelas que vão até o pé…", ele ficou encarando a porta fechada do quarto sem saber o que fazer. "POR QUE EU REPAREI QUE A CAMISOLA DELA SÓ VAI ATÉ OS JOELHOS?!", o rapaz sentiu o corpo pesar e se permitiu cair ajoelhado no chão.
