"Creio que o primeiro passo é irmos até a cidadezinha e ver quem foi que morreu, sabe… Infelizmente, chegando perto do corpo pode ser que eu consiga alguma pista olfativa, ou que você tenha alguma intuição, sei lá. No meu modus operandi esse seria o primeiro passo. Topas?" - James completa, colocando a mão no meu ombro, já do meu lado na pia.
"Como eu não faço ideia de como agir, essa parece uma opção sensata" - e voltei o rosto, sorrindo abertamente, como eu sempre fazia com aqueles a quem considero. "Mas antes eu preciso me trocar, vamos voltar pra Pousada e, com certeza, "dar o que falar", né? Sumimos por quantas horas? Mas pode deixar que na primeira oportunidade eu nego qualquer relacionamento nosso, ok? Direi a verdade: somos amigos"
"Olha… Pode ser vantajoso se fingirmos ser um casal, não?"
"Vantajoso pra quem?!" - levantei uma sobrancelha. "Não gosto de mentiras, nem fingimentos, Jim. Comigo ou é, ou não é, tá bom?" - achando necessário esclarecer algumas coisinhas antes de prosseguirmos.
"Ei! Ok, ok… Não quis ofender e não sabia dessa sua moral também. 'tá certo, ficamos como amigos, 'tá perfeito pra mim também." - ele uniu as palavras às mãos altas, como alguém que é desarmado e não tem para onde fugir.
Chegamos e soubemos pelo sr. Crow que a excursão indo para outra parte das Rochosas já havia saído. James intercedeu, dizendo que ele mesmo já havia sido guia por aquelas regiões e, diante do ocorrido com o filho dele, achou melhor oferecer os serviços, era portanto desnecessário contar com os dois para continuar as excursões. O sr. Crow ficou desconfortável com a citação da atitude do filho e lançou um olhar malévolo na minha direção, indo para os fundos e fechando a divisória na nossa cara!
"Aliás, se quiser ficar na cabana, eu super topo… Poderíamos fazer daquele lugar nosso "QG", o que me diz? Durante a noite, você e a Rosie podem treinar e aí conseguimos mais "liberdade" pra agir nas redondezas." - ele disse isso, apoiado com os cotovelos no balcão de atendimento e com a perna direita apoiando na parede deste balcão.
"Mesmo? Eu não sei se a pousada reembolsa… Meu dinheiro está justo para as férias, James. Não sei…" - acabei parando na frente dele e coloquei a mão direita na queixo.
"E quem falou em dinheiro? Nossos colaboradores não precisam gastar pra ajudar. Uma pena que eu ainda não tenha pra te pagar - e riu - mas ao menos não terá que se preocupar com nada durante nossa "caçada", valeu? Se tu tiver de acordo, subimos agora e pegamos nossas coisas, deixamos no carro e vamos bater perna por aí, investigando um pouco." - e agiu como se eu já tivesse concordado.
Sem nem responder, acabei subindo atrás dele as escadas e me despedindo mentalmente daquele lugar que me aturou por um dia e me trouxe tantas possibilidades! Boas e ruins…
Rapidamente refiz as malas e James me ajudou a descer as escadas. Fazendo chistes sobre eu ser a mulher mais prática que ele já conheceu, por estar levando pouca bagagem e arrematou "e sem muitos cosméticos ou maquiagens, hein?" - dando uma respirada sonora. Tive que sorrir e aproveitei para explicar que achava perda de tempo passar maquiagem, ou tingir o cabelo, ou se depilar constantemente. Como ele era casado e não tinha demonstrado nada de "sacana", ao contrário, afirmou que era diferente de Logan por não ser "pegador" eu passei a considerá-lo um irmão mais velho e, portanto, eu poderia conversar sobre qualquer coisa com ele, certo? E eu não tinha paciência para determinadas coisas! Excesso de cuidados era uma delas.
"É que tu não precisa, né, guria?! Esses cabelos grisalhos aí dão até um charme" - ele rematou, arrastando a mala para fora e não me esperando responder.
Como sabia que ele ouviria, soltei um "muito obrigada" e fui para o balcão fazer meu check-out. Toquei a campainha e o sr. Crow apareceu de muito mal humor.
"Vim fazer meu check-out, sr… Preciso assinar alguma coisa?" - tentei expressar algum agradecimento na minha voz.
"'cê sabe que não tem reembolso, né?" - soltou bruscamente.
"Não me lembro de ter pedido um, sr." - arrematei, sem deixar minha indignação transparecer na voz.
"Pff… Vou pegar a papelada, aguente aí" - e entrou novamente, voltando em alguns minutos. Estendeu alguns papéis na minha direção e disse que deveria esperar pela checagem do quarto. Ao que eu retruquei que se houvesse algum problema, o restante do dinheiro serviria para isso "Passar bem, sr.!"
Ao sair percebi que James havia rido um bocado da minha conversa com o sr. Crow e eu avisei que o seguiria com meu trailer alugado, ele respondeu afirmativamente com a cabeça, entrando no fora de estrada e acelerando a caminho da cidadezinha. O necrotério ficava lá e ele pretendia chegar o mais perto possível do corpo da noite anterior para conseguir alguma pista.
Ao dirigir por alguns quilômetros sozinha pude repensar aquelas férias e nas pessoas que havia encontrado na Pousada. Fiquei pensando o que poderia ter sido falado para eles sobre mim e, depois me peguei rindo de mim mesma, pois nunca me importei muito com a opinião das pessoas que não analisam os fatos e confiam em depoimentos de terceiros. É tão obtuso conhecer apenas um lado da verdade…
"Concordo plenamente" - disse aquela voz "quente" de mulher na minha cabeça.
Sorri e pensei o quanto os quadrinhos tinham "dedos" quanto à invasão do pensamento das pessoas e o quanto isso não acontecia na vida real. Sabia que Rosie tinha consciência desse pensamento e ela retrucou:
"É um pouco mais complicado que isso, mas eu não tenho o direito de falar, apenas James pode se pronunciar, se e quando quiser, Liura. Mas se eu te incomodo…" - aí eu tive que cortar com um sonoro "Não!", explicando que era mesmo a falta de costume, só isso. Aproveitei para questionar o quanto ela sabia de mim, ao que ela respondeu "praticamente tudo…" e isso me frustrou um pouco, fiquei pensando se James também tinha esse acesso, e a ruiva retrucou que não, mas que não faria mal algum, pois tudo era tão genuíno e singelo. Agradeci, mas também questionei o quanto essas palavras não classificavam "monótono", afinal, eu era uma pessoa normal, tendo uma vida normal, até aquelas férias.
"Pessoas normais não se apaixonam por personagens de HQs, Liura… E, ao menos as que eu conheço, não resolvem viver uma vida sem buscar, muitas vezes incessantemente, a sua outra metade! Sabe, eu poderia contar numa mão aquelas pessoas que se sentem completas consigo. E isso é tudo, menos normal, minha cara…"
Fiquei meio emburrada, era complexo ser analisada por alguém que não estava na minha frente e que expunha partes da minha vida assim. Mas realmente, ela não disse nada que não fosse real e, depois de uns minutos em silêncio, somente consegui pensar: "Escolhas, não? Cada ser faz a sua… Nos falamos mais à noite, Rosie. James estacionou o carro."
A placa de "necrotério" estava meio desbotada e, pensando que o lado de fora estava assim o que dizer de dentro da construção. Nem bem desceu do carro, James colocou a mão no nariz e fez uma careta, até pra quem não tinha sentidos aguçados, aquele odor de morte era quase palpável!
"Achei que o lugar estaria vazio, Li. Mas ao que parece eles recebem corpos de muitas cidadelas ao redor… Meu! Que fedor!" - e forçando o corpo a entrar, começou a caminhar para a recepção do lugar.
Um simpático atendente, com algumas olheiras, nos cumprimentou e James já foi dizendo a que veio: "Oi, boa tarde pra você também. Eu e minha amiga queremos saber se poderíamos ver o corpo de quem morreu nesta madrugada, perto da pousada Crow. Parece que foi ataque de algum animal, 'tô certo?" - e apoiou os cotovelos no balcão, rematando com um sorriso e encarando o atendente olho no olho.
"De-desculpe, senhor… Mas somente os familiares podem vir reconhecer o corpo. O senhor e sua amiga são familiares?" - mexendo nervosamente na gola da camiseta sob o avental branco.
James coloca a mão no bolso de trás e solta: "Eu, minha amiga e Benjamim -referindo-se a uma nota de cem dólares- somos familiares sim…" - fiquei chocada com a rapidez com que ele arquitetou tudo. Já devia estar acostumado a isso, pois o rapaz olhou para a nota com olhar cobiçador e arrematou: "Nada de fotos, ok?" e James entregou a nota, acenando positivamente com a cabeça: "Fica tranquilo, nada de fotos".
Virando-se para mim ele remata: "Se não quiser ver, pode ficar na porta esperando, valeu? Quando eles comentam sobre fotos é porque o estado do corpo merece uma manchete…" - e voltou a seguir o atendente que ia à frente a passos largos.
A última coisa que eu precisava ver era um corpo irreconhecível, portanto, deixei James entrar e fiquei do lado de fora do grande freezer do necrotério. Ele disse que não demoraria e, realmente, dentro de 5 minutos já estava saindo, entregando um cartão para o atendente e dizendo que ele e o Ben tinham muito interesse em casos como aquele, para dar uma ligada caso algum outro acontecesse.
Meu olhar inquirente só queria uma coisa: saber se ele havia tido uma pista. As leves rugas em seus olhos brilhantes me diziam que sim, como se seus olhos sorrissem porque agora ele podia impedir novas mortes. Continuou andando pro carro, sem dizer palavra e, quando estávamos no estacionamento ele soltou:
"Peguei um cheiro, resta saber se é dele…" - sentindo-se vitorioso.
"E agora, qual o próximo passo?" - nervosamente eu perguntava.
