Na manhã do dia seguinte, Lily foi, a pedido do secretário de James, até a biblioteca de uma cidade ali perto, pesquisar algumas estatísticas. Marlene, que precisava fazer algumas compras lá, levou-a de carro.

Quando passaram pela rua principal no carro vermelho de Marlene, várias pessoas viraram-se para olhá-las, pois a curiosidade do povo pela história de James e Lily ainda não tinha morrido. Como sempre, Marlene mostrava-se indiferente aos olhares que as seguiam. Era como se estivesse decidida a provar que não se importava com o falatório.

- E então? - Marlene perguntou, com sua voz fria. - A que conclusão chegou, a meu respeito?

Lily não pôde deixar de sorrir.

- Estou sendo tão evidente assim?

- Podemos dizer que você não é bem uma diplomata.

- Você gosta de fingimentos, então?

- Geralmente, eles são necessários. Nem sempre é bom dizer sobre o que estamos pensando. Às vezes, o único modo de sermos felizes é não encarar a realidade.

Esta era a frase mais longa que Marlene já tinha lhe dito, e Lily sentiu não poder concordar com ela.

- Se a gente não encarar a realidade, vai viver sempre uma mentira. E eu achei que você não tinha medo da verdade.

- Eu não estava falando sobre mim - Marlene disse, surpresa.

- Desculpe. Você falou com tanta sentimento, que pensei que estivesse falando de si mesma.

Continuaram por mais algum tempo em silêncio, até que Marlene falou, de novo:

- Acho que é compreensível sua curiosidade a meu respeito. Afinal, James me pediu em casamento...

- É - Lily respondeu com dignidade. - Gostaria de saber o que ele encontrou em você que não achou em mim.

- Eu estava aqui... e você não.

- Você também é muito bonita - Lily falou, com esforço.

Marlene fez um gesto de pouco caso.

- A minha aparência não tem nada a ver. Acho que James queria que seu segundo casamento exigisse menos dele.

- Nunca exigi nada dele - Lily disse com frieza.

- Acho que não me expliquei bem - Marlene falou, rapidamente. - Ele queria um casamento que exigisse menos dele emocionalmente. - Os olhos castanhos estavam pensativos. - Você não pode negar que é muito sentimental, Lily.

- Sinto as coisas intensamente - Lily concordou -, mas você também sente.

- Você gosta mesmo de analisar as pessoas, hein? Deve ser um hábito do seu povo.

Lily encarou essa frase de Marlene como um sinal para terminar com aquele tipo de conversa e ficou quieta. Só voltaram a conversar, quando a garota estacionou o carro em frente ao mercado da cidade.

- Quanto tempo vai ficar na biblioteca? - Marlene perguntou.

- Umas duas horas.

- Então vamos nos encontrar no Café Procters, mais ou menos às onze horas.

Lily sacudiu a cabeça.

- Posso suportar o clima da Inglaterra, mas o café que é servido nos restaurantes ingleses, nunca!

Marlene riu.

- Está bem, então, vamos nos encontrar aqui mesmo.


Já era meio-dia, quando elas começaram a viagem de volta, correndo tanto, que os campos se fundiam em um borrão verde. Era incrível como Marlene dirigia bem. Olhando para seu rosto sério, mais uma vez Lily suspeitou que a garota devia ter sentimentos mais profundos do que deixava transparecer.

- Não estou dirigindo muito depressa para você, estou? - Marlene perguntou.

- Não, não. Você é ótima motorista. Dirige como um homem.

- Espero que isso seja um elogio.

- É claro que é. Você faz bem tudo. Nunca permite que suas emoções a atrapalhem.

- É divertido quando... - Ela parou de falar, quando o carro deu um pulo, andou mais alguns metros e depois parou. Marlene tentou dar a partida várias vezes, mas o motor se recusou a pegar. Depois de alguns instantes, saiu do carro e foi dar uma olhada no motor.

Lily decidiu sair também e se juntou à outra.

- Sabe o que é que há de errado?

- Acho que não. - Marlene se debruçou mais sobre o motor. Quando endireitou o corpo, estava com uma mancha de óleo na ponta do nariz e os cabelos caídos sobre o rosto. - Não estou vendo nada solto, e os fios parecem em ordem.

- Talvez esteja sem gasolina.

- O tanque estava cheio, quando saí de casa. - Entrou de novo no carro e virou a chave, na ignição. - Você está certa. O ponteiro ainda está indicando que o tanque está cheio... o que é impossível. Nós já rodamos bastante. Parece que vamos ter que ficar aqui, se não arrumarmos mais gasolina. Vou andar até aquele posto lá atrás. Não é muito longe.

- Eu vou - Lily se ofereceu. - É melhor você ficar com o carro.

Depois que Lily saiu, Marlene fechou o capô e decidiu esperar do lado de fora do carro. Estava muito quente e ela levantou o rosto para o sol, de olhos fechados.

- Que lugar mais estranho, para alguém tirar uma soneca - uma voz disse, bem atrás dela.

Era a voz que a perseguia em seus sonhos. A garota se endireitou rapidamente e olhou para Sirius.

- Fiquei sem gasolina - disse com frieza, e esperou que ele começasse a rir. Mas em vez disso, ele a encarou com simpatia.

- O indicador de gasolina quebrou?

Grata pelo fato de Sirius não ter achado que ela esquecera de encher o tanque, que era o que a maioria dos homens teria pensado, Marlene concordou.

- Vou até um posto perto daqui, buscar um pouco - Sirius se ofereceu.

- Lily já foi.

- Neste caso, vou lhe fazer companhia, até ela voltar.

- Muito obrigada, mas não precisa se preocupar. Estou me sentindo muito bem, sozinha.

- Sozinha e intocável.

Furiosa, Marlene virou-lhe as costas. Mal tinha acabado de fazer isso, quando Sirius a agarrou e fez com que se virasse de novo para ele. A garota ficou surpresa, ao ver que o rapaz não estava zangado, apenas confuso.

- Por que estamos sempre brigando, Lene? Antigamente, não éramos assim!

- Quando nós éramos crianças você sempre foi educado.

- Não podia continuar um garoto perfeito para sempre - Sirius comentou com voz rouca, e brutalmente puxou-a de encontro ao peito, colando sua boca à dela.

Não havia ternura em seu beijo, só paixão, e ela lutou para se libertar. Mas ele a abraçou com mais força, tornando impossível o menor movimento.

- Não lute comigo - avisou com voz rouca. - Sou forte demais para você.

- É desse modo que trata as mulheres... à força?

- É o único jeito de tratar você. - Sua boca pressionou a dela, mais uma vez. - Se me beijar também, eu a soltarei - falou baixinho. - Até fazer isso, vai continuar minha prisioneira.

Sabendo que Sirius era bem capaz de fazer o que estava dizendo Marlene levantou a cabeça e fechou os olhos, mostrando claramente, com aquele gesto, que era melhor ele acabar de uma vez com aquilo.

- Ah, não. Assim, não. Quero que saiba exatamente quem a está beijando.

Marlene abriu os olhos.

- E acha que eu preciso estar de olhos abertos, para saber? - perguntou, com agressividade.

- Pode ser que não - ele disse, prendendo mais uma vez sua boca com a dele.

Porque tinha lhe prometido não resistir, Marlene ficou imóvel e a força com que ele a segurava, diminuiu. Uma de suas mãos deslizou gentilmente até a cintura da moça, enquanto a outra acariciava o início arredondado de seus seios. Marlene tremia, consciente que não era de repulsa. Seu corpo estava completamente fora de controle e os músculos se moviam como se tivessem vontade própria, correspondendo às exigências do corpo dele. Seus beijos se tornaram mais profundos, à medida que seu desejo aumentava. Até aquele momento, Marlene nunca soube o que era ser desejada com tanta violência e abandono, muito menos que pudesse se entregar a esse desejo com tanta selvageria. Ela enfiou as mãos por baixo da camisa dele, acariciando com as pontas dos dedos o peito de Sirius. O fato dela saber o quanto o excitava tornava seu desejo por ele ainda maior.

Foi o barulho de um carro se aproximando que fez com que voltassem à realidade, e Sirius separou seus lábios dos de Marlene, embora não fizesse nenhum gesto para soltá-la.

- Só quando conversamos é que irritamos um ao outro - ele sussurrou.

- Não enxergue mais do que existe. - A voz de Marlene estava fraca, mas ela se sentiu aliviada de, pelo menos, poder falar normalmente, quando cada molécula de seu corpo ainda desejava, insanamente, continuar nos braços dele. - Você é um homem atraente e eu...

- Não me diga que isso é tudo. Você não é do tipo que se excita com qualquer um. - Fez uma pausa, depois continuou: - Está querendo que EU faça amor com você. EU.

- Você se tem em alta conta, não é?

- Você também me tem.

Como resposta, ela ergueu a mão e o esbofeteou no rosto. O som do tapa foi cortante, mas não mais cortante do que o olhar que Sirius lhe lançou quando deu um passo para trás, com a marca de seus dedos na face.

- Você não me disse que esbofetear o rosto de um homem era coisa de novela barata?

- Talvez um homem à-toa só consiga entender um gesto barato - Marlene respondeu com voz gelada e, com o rosto sem expressão observou-o se afastar dali.

Tremendo, a garota entrou no carro e encostou a cabeça na direção. Ficou assim até ouvir os passos de Lily, que se aproximava.

Com um olhar para o rosto de Marlene, Lily percebeu que alguma coisa tinha acontecido à moça na sua ausência. Mas não precisou perguntar nada, pois tinha se encontrado com Sirius no caminho de volta e a boca do rapaz estava toda manchada de batom. Em silêncio Lily observou Marlene encher o tanque, dar a partida e sair na direção de Park Gates.

- Encontrei Sirius - Lily murmurou.

- Eu também. Ele... ele se ofereceu para ir buscar um pouco de gasolina.

Lily esperou, e como a outra continuou quieta, disse abruptamente:

- Sei que vai achar ruim que eu lhe faça esta pergunta, mas... você ama James?

Um bom tempo se passou, antes de Marlene responder, friamente.

- Claro que sim. Concordei em me casar com ele.

- Acho que eu devia ter usado a palavra paixão. Sente paixão por ele?

- Realmente, Lily! - Marlene não tentou esconder sua irritação. - Acho melhor pararmos com essa conversa. Afinal, você ainda é a esposa dele.

- Dentro de algumas semanas ele estará livre para se casar com você e...

- Por favor, não diga mais nada. - Um coelho atravessou correndo a estrada e a garota apertou o breque.

Lily tinha se esquecido de colocar o cinto de segurança, e por pouco não bateu a cabeça no vidro.

- Desculpe - Marlene disse rapidamente. - Eu tinha que evitar matar o coitadinho.

Continuaram a viagem em silêncio. Lily examinou, disfarçadamente, o cabelo despenteado e a boca trêmula da outra.

- Vou me intrometer de novo - murmurou -, mas acho que Sirius está apaixonado por você.

- Lily! - Marlene gritou. - Quer fazer o favor de ficar quieta? Sirius e eu não sentimos nada um pelo outro. Ele e James têm feito parte da minha vida desde que eu posso me lembrar, mas é com James que vou me casar. Agora, se não quer que eu pare o carro e a faça ir andando até Park Gates, é melhor mudar de assunto.

- Vamos falar sobre o tempo, então - Lily respondeu. - Acho que nisso não vamos poder discordar.


Nos dias que se seguiram, Marlene evitou ficar a sós com Lily, mas aos poucos sua amizade casual retornou. Como se quisesse mostrar que não estava ressentida, a garota inglesa falou muito sobre seu passado e ela mesma. Sua infância não tinha sido nada fácil, pois depois da morte da mãe foi mandada para um internato e só voltava para casa nas férias. Mesmo assim, ficava sempre com as governantas.

- Você recebeu muita atenção - Lily comentou um dia -, mas pouco afeto.

- Meu pai nunca foi um homem muito expansivo. Mas ele sente as coisas com intensidade. Tem muito orgulho de sua família e do que herdou. Até alguns anos atrás, ele costumava visitar todos os nossos parentes, não importa onde vivessem.

- Quem vai herdar o título dele?

- Um primo que mora na Escócia.

- Acho que ele não deve ter gostado muito do fato de você ser mulher.

- Eu também não gostava. - Pegou uma pilha de panfletos, que estavam em cima da escrivaninha. - Devo começar a angariar votos às cinco horas. É melhor eu ir andando.

Lily sabia que Marlene ainda tinha muito tempo, e só estava usando aquilo como desculpa, para acabar com a conversa.

- Que bom que não tenho que fazer isso. Eu detestaria falar com gente estranha.

- Falar com eles não é nada - a outra respondeu. - O duro é quando eles batem a porta na cara da gente.

Lily ainda estava rindo, quando Marlene saiu. Depois que ficou sozinha, começou a pensar na conversa que tiveram. Será que a garota realmente teve vontade de ter nascido homem e por isso escondia sua natureza terna sob uma aparência fria? Ela ainda não conhecia Lord McKinnon, mas já sabia que ele era um homem difícil de conviver, e que tinha piorado muito com sua doença.

Ainda estava pensando em Marlene, quando a Sra. Potter entrou.

- Ah, você está aí, Lily - a mulher disse, com tanta delicadeza, que Lily começou a pensar se ela também achava, como o filho, que não era má idéia levar o casamento para a frente. Pelo menos até a vida política de James se estabilizar. - Acabei de falar com Lord McKinnon - a Sra. Potter continuou. - Estava se tratando em Harrogate, e só voltou para casa ontem à noite. Ele nos convidou para jantar, amanhã.

Lily pensou um pouco.

- Eu também estou incluída no convite?

- Naturalmente. Você é a esposa de James.

- Acontece que Marlene é a noiva dele.

A Sra. Potter riu, ligeiramente embaraçada.

- No momento você é a esposa de James e nós todos... nós todos esperamos que seja tratada assim.

- Acho que eu não gostaria de jantar com Lord McKinnon.

- Não seja tola, menina. Ele é um homem importante e pelo bem de James você precisa...

- Está bem - Lily a interrompeu. - Eu vou.

- Use um dos seus vestidos longos, minha querida. E num daqueles tons claros, de que tanto gosta. Eles ficam muito bem em você.

- A senhora quer que Lord McKinnon veja que James sempre teve bom gosto? - Lily perguntou.

- Bem, ele sempre teve, não é? - E com isso, a Sra. Potter se retirou.

Lily esperava que James comentasse alguma coisa com ela, sobre o jantar na casa de Lord McKinnon. Mas, naquela noite, ele saiu cedo de casa, para falar em um comício em uma das cidades vizinhas. E no dia seguinte também não disse nada. Lily decidiu então que se ele não se sentia embaraçado de levar a esposa para jantar na casa do seu futuro sogro, ela é que não ia se sentir.

Naquela noite Lily se vestiu com muito cuidado e, quando se olhou no espelho, ficou mais do que satisfeita com sua aparência. Uma das primeiras coisas que James fez, logo depois de apresentá-la a todos como sua esposa, foi lhe dar dinheiro para aumentar seu guarda-roupa. Quando protestou contra o luxo e a quantidade de vestidos, a Sra. Potter fez com que se calasse rapidamente, dizendo que a esposa de James não podia continuar parecendo uma refugiada.

Bem, ninguém a tomaria por uma refugiada, agora. A saia rodada e esvoaçante, de seda cor de ametista, dava mais altura à sua figura esbelta, envolvendo sua cinturinha fina e caindo até o chão em pregas suaves. Uma blusa de organdi rosa, de decote baixo e mangas longas e cheias, completava sua toalete, numa mistura de inocência e sensualidade, que combinava com sua personalidade.

Não havia ninguém na sala de estar, quando Lily desceu, e ela resolveu ir até o jardim. Já ia saindo, quando viu James junto à escada e, antes que pudesse recuar, ele se virou e a viu.

- Que bom que desceu cedo! Eu queria mesmo falar com você. - Caminhou na direção dela, estreitando os olhos castanho esverdeados ao ver o lindo quadro que ela formava. - Você fica bem com esse vestido. Ainda não a tinha visto com ele.

- Sua mãe o comprou para mim, a semana passada.

- Você tem o tipo perfeito para usar essas saias esvoaçantes, de tecidos finos. Não deve nunca usar roupas pesadas.

- De qualquer modo, as roupas pesadas estão fora de moda - ela disse, recusando-se a tomar o comentário dele como um elogio.

- Uma mulher bonita pode fazer sua própria moda - James respondeu e, com as mãos nos bolsos do smoking, continuou a admirá-la.

Resolutamente, Lily se recusou a ficar emocionada com a expressão dos olhos dele. Mas embora continuasse olhando firmemente para o rosto do marido, estava tremendamente consciente dos ombros largos e dos quadris rijos dele; da inclinação altiva da cabeça suavizada pela curva sensível da boca; da linha rija do maxilar; das mãos finas e longas, que já tinham segurado e acariciado seu corpo. Mas era uma loucura pensar nele de um modo tão íntimo! Lily gostaria de poder controlar sua imaginação com tanta facilidade quanto controlava as palavras que dizia.

- Eu queria lhe falar sobre o pai de Marlene - James interrompeu seus pensamentos. - Ele sabe sobre nós dois...

- Se prefere que eu não vá com vocês, não me importo de ficar.

- É claro que deve vir conosco. Você é minha mulher.

- Não na realidade.

- Isso é outra coisa sobre a qual precisamos conversar. Já faz tempo que estou adiando essa conversa, mas...

Mas Lily nunca ficaria sabendo o que ele ia dizer, pois a Sra. Potter entrou na sala com pose de rainha, usando um vestido de brocado vermelho, seguida por Charlotte e Remus.

- Dez minutos depois, estavam na casa de Lord McKinnon, construída em estilo Rainha Anne, cuja aparência magnífica combinava com a mobília esplêndida. Olhando o hall decorado com lambris de madeira escura e a elegante sala de estar, Lily começou a entender um pouco mais a personalidade de Marlene. Como era verdadeira a frase que dizia que ninguém conhece uma pessoa até que a veja em sua própria casa, pensou, observando a garota, vestida elegantemente de preto, se adiantar para cumprimentá-los.

Mas se Marlene combinava com aquele ambiente, o mesmo não acontecia com seu pai, um homem grande e atarracado, com feições duras e rudes, que pareciam feitas a machadadas. Seus olhos eram da mesma cor dos da filha, mas muito mais penetrantes, e quando ele a olhou, Lily se sentiu como se ele estivesse enxergando seu próprio íntimo.

- Agora sei por que James se casou com você - ele disse. - É uma potranca muito bonita.

No silêncio embaraçado que se seguiu, e durante o qual ele era a única pessoa que estava à vontade, Lord McKinnon se ocupou com uma bandeja de aperitivos, murmurando zangado, quando não conseguiu achar o gelo.

- Juro que vou despedir Tompkins, se ele não melhorar. - Virou-se para a filha. - Peça gelo!

Rapidamente, Marlene saiu da sala. Lily olhou surpresa para seu anfitrião. Será que ele sempre falava com a filha assim? E a filha? Será que sempre obedecia com tanta docilidade? Ninguém parecia achar nada de estranho e ela começou a imaginar se não estava sendo muito sensível. Mas, com o correr da noite, decidiu que não estava, pois o homem continuou a tratar Marlene como se fosse uma criança. Não só deu ordens a torto e a direito para a filha, como a interrompeu várias vezes, quando ela estava falando. Uma vez, quando ela fez um gesto, como se fosse interrompê-lo, ele ergueu a mão e ordenou-lhe que se calasse.

Inevitavelmente, a eleição acabou como assunto da conversa.

- Não tem com que se preocupar, garoto - Lord McKinnon disse com sinceridade. - O povo do campo ainda tem bastante juízo para votar em você, e não naquele oportunista do Black.

Lily olhou rapidamente para Marlene, mas a garota continuou a comer, como se o pai não tivesse dito nada.

Mas a rovniana era feita de outro material e, pousando o garfo, disse para seu anfitrião:

- Por que chama o Sr. Black de oportunista?

- Porque ele é. A família Black inteira é. Corruptos. Gostaria de colocá-los para fora deste país, a pontapés.

Lily não conseguiu se controlar.

- Sirius abandou a mui antiga e nobre casa dos Black por não compartilhar das ideias corruptas do resto da família. E o senhor se esqueceu que o tio de Sirius lutou por este país e morreu na Irlanda? Ou isso não tem mais nenhum valor?

- É claro que tem. - Lord McKinnon continuou cortando a carne, imperturbável. - Eu não disse que eles são uma família de covardes, só que deviam ser expulsos do país.

- Só por que eles não pensam como o senhor?

Apenas nesse momento Lord McKinnon deu a impressão de notar o tipo de comentários que ela estava fazendo, e fixou-a com seu olhar duro.

- Você não devia sair por aí defendendo o rival do seu marido, moça. Não é bonito, sabe?

- No meu país, nós não consideramos bonito atacar um homem quando ele não está presente para se defender.

A Sra. Potter soltou uma exclamação abafada, e Charlotte e Marlene continuaram a olhar fixamente seus pratos. Só James olhou diretamente para Lily, segurando o pé do cálice com tanta força, que seus dedos estavam brancos. Mas, quando ele falou, sua voz era calma.

- Lord McKinnon não estava querendo dizer exatamente o que você ouviu. Quando o conhecer melhor, vai entender o que estou dizendo.

- James tem razão. - O velho Lord riu. - Sempre expresso minhas opiniões de um modo muito forte. É a única coisa em que consigo ser forte.

O momento embaraçoso passou e Lily jurou nunca mais agir impetuosamente.

Quando o jantar acabou, os homens permaneceram na mesa, com seus cálices de vinho do Porto. A Sra. Potter e Charlotte foram retocar a maquiagem, deixando Lily e Marlene sozinhas na sala de estar.

- Espero que não tenha ficado aborrecida com meu pai - Marlene murmurou.

- O que ele disse não me aborreceu tanto quanto o fato de você não ter defendido Sirius.

- E por que eu deveria defender Sirius? Ainda insiste naquela idéia ridícula de que eu o amo?

- Vamos deixar o amor fora disso. Só vamos nos lembrar que você é amiga dele.

- Sirius e eu não somos mais amigos - Marlene declarou, sem rodeios.

- É por isso que você permitiu que ele a beijasse, aquele dia em que o carro parou na estrada?

- Não pude evitar. Sirius me forçou. Ele está sempre fazendo coisas como essa.

- Então Sirius está sempre fazendo coisas como essa? E você ainda tem coragem de dizer que ele não a ama?

Por um instante Marlene ficou sem palavras, mas depois sua inteligência a ajudou.

- Você mesma disse que amor não tem nada a ver com paixão. E é isso que Sirius sente por mim. Paixão.

- E amor - Lily completou.

- Não! Sirius é um homem viril e se sente atração por uma garota ele...

- Que bobagem está dizendo? Não pode achar que Sirius sai por aí, beijando toda mulher atraente que ele vê. Não importa o que diga, você não é tão tola a ponto de pensar que isso seja verdade! Ou é tão esnobe, que não é capaz de admitir o que sente por ele?

- Eu não sinto nada por ele. – Marlene levantou-se de um salto da poltrona em que estava sentada e caminhou até o outro lado da sala. Fingiu arrumar umas almofadas, depois continuou: - Não sinto nada por Sirius, e gostaria que você parasse de falar nisso. Senão, vou começar a pensar que está tentando criar um romance entre nós de propósito, para ficar com James.

Lily estremeceu visivelmente, mas se recusou a admitir que estava errada.

- Eu nunca vou fazer nada para conquistar James de novo, e sustento tudo o que eu disse sobre Sirius. Pode ser que você não o ame... não vou mais discutir a esse respeito, mas ele a ama. Tenho certeza disso.

Marlene abriu a boca, mas antes que pudesse falar, a Sra. Potter e Charlotte entraram, seguidas pelos homens. Lord McKinnon estava de ótimo humor, e sugeriu um jogo de bridge.

- Você joga? - perguntou para Lily.

- Não.

- Então Marlene e eu jogaremos com James e a Sra. Potter. Charlotte e Remus são só principiantes.

- Prefiro não jogar esta noite - Marlene disse. - Estou com dor de cabeça.

- Vai lhe fazer bem jogar.

- Mas eu não quero.

Lord McKinnon corou, e Charlotte desviou a atenção dos outros arrumando as cadeiras em torno da mesa de bridge e se oferecendo para jogar no lugar de Marlene.

- Deixem-me jogar - pediu com vivacidade. - O meu bridge melhorou muito.

Logo o jogo começou e Marlene e Remus se sentaram com Lily do outro lado da sala, tentando ensiná-la a jogar buraco. Mas Lily não conseguia se concentrar nas cartas. Tinha notado a tentativa de Marlene resistir ao pai e, apesar da revolta ter sido fraca, gostaria de saber se tinha alguma razão oculta.

- Preste atenção no jogo, Lily - Remus disse. - Já perdeu duas canastras.

Sorrindo com ar culpado, Lily se concentrou nas cartas, mas logo seus pensamentos se desviaram de novo, desta vez para James. Como ele combinava bem com essa mansão grandiosa! Ele tratava Lord McKinnon com a mistura exata de respeito e bom humor, e sem dúvida seria um genro admirável. E Lord McKinnon, com sua imensa riqueza e nome ilustre, seria um ótimo sogro. É, James e Marlene estavam destinados a se casar, e nem ela, nem Sirius poderiam impedi-los.

Sentindo-se completamente infeliz, Lily decidiu se concentrar nas cartas que tinha na mão. Ficou maravilhada com a própria capacidade de fingir interesse no jogo, quando tudo que queria era fugir dali e se esconder.


Olá gente! Que jantar, hein? Marlene se recusa a ver o que está diante do seu nariz. Será que esse romance vai terminar antes de começar? Lady Miss Nothing querida, da uma angustia mesmo essa parte em que mocinha e mocinho sem amam, mas sofrem por não estarem juntos, mas a vida da um jeito nisso e logo o choro cessará e será só sorrisos. Darling Padfoot, infelizmente a tensão continuará um pouco, enquanto isso por favor não soque a tela do computador hehe ;) Joana Patricia você achou o ultimo jantar tenso, quem dirá esse então, nossa Lily mostrou que não é uma simples refugiada. Dafny querida nem em mil anos James e Marlene dariam certo, para James é e sempre será Lily.

Muito obrigada meninas pelo Feliz Natal e desejo a todos um Feliz e Abençoado Ano Novo, que 2014 seja maravilhoso :*