A chave quase cai de minhas mãos, porém seguro-as firmemente para impedir que assistam a minha fragilidade. Fecho a porta e não digo nada, apenas coloco as chaves no chaveiro e passo direto para meu quarto, sem fazer questão de cumprimenta-los. Pude ver a garota morena, de cabelos curtos e magrela me espiando com cara feia enquanto Peeta me assistia atravessar o espaço muito confuso. O sorriso no rosto dele também havia sumido quando seus olhos caíram sobre mim. Bato a porta do quarto para demonstrar que não estou feliz e jogo minha bolsa em um canto qualquer do quarto, para em seguida cair sobre a cama com a cara no travesseiro.

Primeiro dia na faculdade? Ótimo.

Minhas boas intenções com Peeta... Ele acabou com tudo. Eu acabei com tudo. Como sempre.

Não demora nem um minuto para a porta do meu quarto ser aberta.

- Katniss?

- Vai embora!

Grito quando a voz dele ecoa no ambiente e vibra através de mim. Meu grito parece superar qualquer som, o que o surpreende. Viro a cara para o outro lado, impedindo Peeta de ver meu rosto. Porque diabos estou chorando? Porque diabos me sinto ridícula por ter cogitado me aproximar dele? Tento aquietar a respiração.

- Você está bem? – sua voz é hesitante. Pelo menos sabe que fez porcaria. Sento-me na cama e o encaro firmemente. Pela primeira vez vejo em seus olhos uma culpa que carrega há tantos anos. Pela primeira vez não quero insultá-lo ou bater boca, somente... Ser eu mesma.

- Eu pareço bem? – choramingo. Viro o rosto e seco as lágrimas com as costas das mãos. O peso sobre meu coração me estraçalha... Quase tanto quanto o olhar doce e arrependido de meu querido antigo amante – vá embora ok? Deixe-me sozinha... Por favor.

Fico de pé e vou até ele com a intenção de meter a porta em sua cara, porém a única coisa que Peeta faz é agarrar meu pulso e chegar mais perto. Paraliso. Olho para sua mão em mim e para ele novamente. Tento puxar o pulso, mas sou menos forte do que ele.

- Não estrague tudo... – implora.

- Você começou estragando... Eu apenas continuei – puxei o pulso e fechei a porta com força em sua cara. Ele não tentou me incomodar novamente.

Lavei o rosto, coloquei um pijama e arrumei todo meu uniforme de trabalho. Não ouvi sequer um pio na sala durante todo esse tempo. Resolvi espiar para ver se acontecia algo e me dei conta que estava sozinha no apartamento. Peeta saíra com a biscate para algum lugar. Suspirei e me arrastei até a cozinha. O relógio já marcava quase meia-noite. Bebi um copo de leite com a imagem de Peeta e daquela garota se atracando na mente, mas fui forte o suficiente para afastá-la e voltar a meu quarto... Quer dizer... Ao quarto do meio. Assim que passei em frente à porta do mesmo visualizei aquela noite em que dormi nos braços de Peeta. Aquela noite calma e tranquila, o melhor sonho que já passei. Deslizei para dentro do quarto sem perceber e acabei me deitando na cama. Estiquei as costas no colchão confortável sentindo o corpo todo relaxando... Isso é o céu. Encolho-me nos lençóis que ainda trazer o cheiro de Peeta misturado ao meu e fecho os olhos, viajando no tempo, lembrando-se de outra noite que passei ao lado dele... Há muito tempo.

Eu e ele... Na casa de madrinha... Sozinhos.

Blanca, nossa madrinha, pedira permissão há nossos pais para ter uma noite com nós dois em sua casa. Ela queria nos reunir antes que a família de Peeta fosse embora, fato que nos colocava em polvorosa. Simplesmente não conseguíamos cogitar a ideia de ficar um longe do outro depois de nosso verão romântico. Porém madrinha teve que sair... Algo me dizia que ela sabia da história minha e de Peeta, por isso quis nos reunir aqui. Algo me dizia que o maior sonho de madrinha era ver seus dois afilhados juntos.

Nosso plano para ficarmos juntos era simples... Peeta iria pedir para os pais o deixarem viver um ano com nossa madrinha, que já tinha os filhos casados e era muito sozinha. Michel e sua esposa já estavam quase convencidos a deixar Peeta por aqui, uma vez que em sua casa em Londres era muito sozinho por ser o único garoto e sua conduta na escola era meio duvidosa... Mudar-se para um local pacato e sem graça seria, talvez, uma solução para o mau comportamento do garoto nos estudos. Blanca parecia ser a pessoa certa para por o afilhado na linha.

- E se o seu pai não deixar você ficar? – sussurro para ele. Estávamos no escuro. No quarto. Madrinha havia dito que iria chegar tarde, por isso apostamos que poderíamos ficar um pouco mais juntos.

- Ele deixa. O problema é minha mãe... Porém acredito que ela não se importe. Blanca é a melhor amiga dela, as duas são carne e unha – olho para seu rosto de baixo. Estou deitada sobre seu peito – pode se acostumar com minha companhia, princesa, vou ficar com você pode bastante tempo.

Recebo um beijo na testa e sorrio sem pensar. Mal sabe ele como é o que mais quero... Ficar com ele para sempre.

- Então você vai dançar comigo na minha feste de quinze anos mês que vem? – seu sorriso se alarga.

- Claro... Mas acho que Gale não vai gostar disso – ironiza. Eu gargalho.

- Gale? Ele também terá sua dança... – pisco para ele despreocupadamente.

- Não gostei disso... – torce os lábios. Ergo-me e o beijo delicadamente – ele vai ter um beijo também?

- Nãos seja idiota. Nem todos tem sua sorte – sorrindo, Peeta me vira e fica por cima de mim.

Seus lábios cobrem os meus e sua língua busca minha boca. Beijo-o de volta, enrolando meus dedos em sua camisa xadrez. Sua boca é cálida e quente, receptiva a meus beijos e ativa contra meus lábios. A pressão que seu corpo faz sobre o meu é até então desconhecida, porém tentadora e surpreendentemente agradável. Como posso descrever tudo isso? A sensação nova de sentir o corpo dele tão próximo do meu... Sinto-me frágil. Sinto-me estranha... Dominada por outro tipo de desejo. Paro de me mover quando sinto a mão dele subindo por minha cintura. Seus dedos quentes correndo em minha barriga até roçarem delicadamente sobre meu sutiã. Empurro-o quase repentinamente. Peeta se afasta e me encara de cima. Sua respiração é ofegante, o cabelo caindo em sua testa bagunçado... Seus lábios úmidos e vermelhos. Eu também me sinto quente, mas isso é estranho...

Então ouvimos um barulho e nos separamos mais rapidamente do que nos unimos.

De repente desperto sentindo um peso diferente se acomodando ao meu lado no colchão macio. Não me arrisco a abrir completamente os olhos, porém não é preciso ser muito esperta para saber de quem se trata. Ele é a única pessoa com chave para entrar aqui no apartamento. Viro-me para sua direção e me deparo com Peeta deitado ao meu lado, olhando fixamente. Parece pensativo e lívido... O que me confunde.

- O que está... ? – começo com a voz arrastada. Tudo isso parece um sonho, nada soa realístico demais. É como se a figura dele flutuasse a meu redor numa nuvem obscura.

- Por favor, não diz nada... – pede num sussurro perdido em meio ao silêncio que antes dominava.

A surpresa me domina quando Peeta me empurra delicadamente contra o colchão, me fazendo deitar virada para cima. Em segundos seu corpo acolhedores está sobre o meu, seus olhos presos nos meus olhos... Aquilo é nostálgico. Como há muito tempo, posso visualizar perfeitamente seu cabelo bagunçado, seus olhos brilhando, sua doce respiração descompassada... Posso sentir seu coração batendo junto ao meu.

- Mas e ela?

Refiro-me a garota que estava com ele no sofá. Nem mesmo essa cena toda ao meu redor pode me fazer esquecer. Nada pode apagar de minha mente que ele estava com outro agora mesmo. Os dedos quentes de Peeta roçam minha bochecha delicadamente... O jeito tranquilo e doce como me encara demonstra um sentimento além de minha compreensão. Ou talvez inteiramente de minha compreensão, apenas oculto por um coração empedrado. Estremeço diante de seu toque, principalmente quando seus dedos hesitantes deslizam por meus lábios em um toque gentil e devoto.

- Ela... Michelle... Tiffany... Nenhuma delas é nada comparadas a você.

Aquilo me desnorteia, porém a sensação de tontura não perdura por muito tempo. Envolvidos pela escuridão do quarto do meio, Peeta une seus lábios aos meus em uma caricia gentil e apaixonada. Meu coração dispara no mesmo momento e posso sentir o sangue pulsando forte em minhas veias. O corpo todo formiga ao passo em que sinto novamente... Amor. Senti por todo esse tempo, desde que o reencontrei, mas somente agora tudo aquilo dentro de mim se materializou em um beijo inesperado. Minhas mãos correm por seu ombro e se enroscam em sua camisa xadrez, a mesma que usava mais tarde, porém que não trás nenhum cheiro de mulher. Somente o meu. Perco-me em sua boca quente, me perco nos gemidos doces que exalamos através do beijo... É como se isso fosse uma coisa da qual necessitássemos, porém fomos privados por muitos anos. Não sei explicar qualquer coisa, somente sei que me sinto exatamente como naquele verão... Como se meus desejos de verão estivessem, finalmente, se realizando.

Eu não o paro, porém Peeta cai de costas ao meu lado e ficamos os dois olhando para o teto sem dizer nada, somente respirando rapidamente. Quando conseguimos respirar como antes, nossos olhares se reencontram e no mesmo segundo minhas mãos buscam seu corpo. Nossos lábios se entrelaçam, nossas mãos se perdem num toque sem fim... O único ruído que preenche o quarto é aquele que escapa do encontro de nossos lábios sôfregos. A única coisa que ocupa meu coração é aquele velho sentimento... E sei que o homem que me beija sente o mesmo. Talvez por isso deixei ser beijada. Talvez por isso não me importei com mais nada, pude esquecer qualquer coisa. Talvez por isso Peeta me observara dormir depois sem exigir ou cobrar qualquer coisa além de um velho sentimento... Um desejo de verão.

A xicara de café está fumegando em meus dedos. Faltam dez minutos para eu sair para o trabalho e esse tempo não passa nem de brincadeira. Suspiro pesadamente sentindo um alivio antes desconhecido me assolar o corpo. A noite foi... Ótima. Nós dormimos juntos. Dormir de dormir, nada mais, porém nos beijamos e a situação vai ser estranha. Como vou encarar Peeta depois disso? Depois de toda aquela fragilidade que demonstrei em seus braços? Bebo mais um gole de café imaginando que poderia ter sido pior. Poderíamos ter feito sexo e ai sim o clima seria terrível... Aliás, como ele conseguiu não fazer nada comigo naquela cama? Para ser sincera também não pensei muito nisso... Concentrei-me no fato de estar com ele e apenas isso me bastava.

Um barulho se fez na sala e ergui os olhos. Da cozinha, onde estou encostada ao alto balcão, posso ver Peeta se aproximando com a chave do carro rodando nos dedos. Está usando calça e blusa social aliado a uma gravata azul. Também está muito bem penteado. Seu perfume gostoso entra por todos os lados por onde ele passa e posso ver aquele colar bonito marcando em sua camisa. Parece lívido, sem qualquer questionamento ou cobrança em sua face.

- Bom dia – diz enquanto pega uma xicara no escorredor e a enche de café morno. Para a minha frente, do outro lado do balcão, e beberica o café com cuidado.

- Bom dia... Aonde vai desse jeito? – continuo bebendo meu café para não precisa ficar olhando para ele.

- Que jeito?

- Parecendo gente... – refiro-me a roupa social e a arrumação exacerbada. Peeta é obrigado a rir por trás de sua xicara e a abaixa quando responde minha pergunta.

- É meu primeiro dia de trabalho. Ir parecendo gente faz parte das exigências de meu tio Josh – dá de ombros. Levanto-me para lavar minha xicara e coloca-la de volta no escorredor de louça.

- Uau. Boa sorte com isso.

- Valeu. Quer uma carona até o trabalho? – seco minhas mãos no pano de prato e apanho minha bolsa que estava sobre a mesa.

Sua proposta ecoa em minha cabeça. Ok. Ele não disse nada sobre ontem à noite, também não irei dizer. Isso parece um pacto silencioso, porém rigorosamente seguido. Serei adepta disso também, não quer ser quem vai cobrar algo ou pedir esclarecimentos. Se vamos dormir juntos e compartilhar intimidade desnecessária dentro daquele quarto do meio todas as noites, é assim que tem que funcionar. Silenciosamente. Como se aquele quarto fosse um lugar onde pudéssemos expor nossos sentimentos. Será que Peeta pensa assim também ou estou somente delirando?

- Aceito. Claro – respondo ajeitando a bolsa no ombro.

Saímos logo. Praticamente não falamos nada dentro do carro, ele simplesmente dirige atendendo uma ligação de seu tio no viva voz. Em dado momento, meu nome aparece no meio da conversa.

- Katniss? Aquela linda garota que mora com você? Está dando carona para ela? – diz o tio dele do outro lado da linha. Posso ouvir tudo pelo viva voz. Coro sob as palavras dele. Linda garota.

- Sim. Claro que é ela... Diga olá para ela tio Josh. Não sabe como ela curte você – gargalha. Sou obrigada a rir também. Peeta sabe que não gosto muito de seu tio Josh.

- Olá minha querida. Como está sendo aguentar o coração apaixonado de meu afilhado?

Pisco algumas vezes e espio Peeta, que apenas sorri enquanto dirige.

- Bem fácil na verdade Josh – respondo dando de ombros – mas acho melhor não me subestimar. Qualquer hora posso me cansar a mata-lo acidentalmente à noite.

Os dois riem de mim e logo a ligação é encerrada. Peeta estaciona em frente à floricultura, onde vejo Michelle me espirando de dentro da loja. Peeta me chama com um cutucar no braço. Encaro-o constrangida pelos comentários que as moças fazem lá dentro sobre mim, obviamente.

- Então nós vamos juntos ao aniversário de Christopher... – começa um pouco hesitante. Pisco algumas vezes buscando na mente essa passagem e me lembro da promessa que fiz a Savannah.

- Claro. Vamos sim... Quando é?

- Amanhã.

- Amanhã? – tenho um sobressalto – mas... Onde?

- Ia ser em Londres, porém Savannah decidiu relembrar os tempos de infância. A festa vai ser no sitio de madrinha... Savannah ligou para pedir minha permissão, uma vez que aquela Fazenda ficou metade do meu nome, metade no seu. Eu disse que você não se oporia... Ou sim?

- Mas é claro que não! Porém como vamos para o Texas amanhã?

- Amanhã é sábado, nenhum de nós trabalha. Vamos de avião. É só pegar um voo particular e chegaremos rapidinho lá – pisca com postura amigável – vai ser legal.

- É, vai sim... - Porque será que não tenho tanta certeza? – o que eu compro para dar de presente ao Christopher? Quero dizer... Ele tem tudo...

- Ah, não se preocupe com o presente! O fato de me incentivar a estar presente nessa festa já é um enorme presente para meu sobrinho... Pode ter certeza – coro, mas sorrio dando a entender que estou ciente do fato. Lanço um olhar furtivo para as meninas na loja e vejo todas de braços cruzados a minha espera. Noto no mesmo momento que eu e Peeta estávamos bem juntinhos no carro, a proximidade é quase nula. Quero me afastar, porém a coragem falta.

- Bom... É hora de ir – ele assente positivamente, mas também não se afasta.

- Posso vir te buscar na hora da saída? – sua pergunta é despretensiosa.

- Ah... Hoje eu não sei a que horas sairei. Tem muito trabalho acumulado de ontem... Eu faltei. Madame vai querer me ver trabalhando dobrado – reviro os olhos. Lanço-me para frente e beijo a bochecha de Peeta rapidamente, me afastando para abrir a porta – tenha um dia legal.

- Você também – parece tenso quando saio do carro e aceno para ele da calçada. Um sorriso rígido se forma em seus lábios rosados antes dele acenar de volta e me ver entrando na loja. O sininho de anuncio toca quando abro a porta e me deparo com Michelle de braços cruzados a minha espera.

- Oi Michelle. Bom dia. Como vai tudo? – falo amigavelmente, tentando fazer funcionar uma convivência entre nós. Não a vejo desde meu fora na boate e a cara dela não é muito boa. Não é para menos, é claro! Acabei com a noite dela junto ao cara que ela está a fim.

- Qual é o seu lance hein garota? – continuava com a postura rígida. Hoje seu cabelo vermelho estava presto em um coque e seus olhos azuis cintilavam raiva para cima de mim, ao invés da simpatia de sempre. Meu sorriso se desfez.

- Como assim?

- Ah, esquece! Essa história que você e Peeta se odiavam nunca me desceu mesmo... É impossível morar com aquele cara e não ficar gamada nele – deu de ombros e revirou os olhos diante de minha pergunta idiotamente obvia – não te culpo – me deu as costas.

-Espera... Do que está falando? Nós não estamos... – vou atrás dela, que se vira assim que toco delicadamente em seu braço.

- Não estão? – sorri sem humor e cruza os braços novamente – Faça-me rir! Aquele cara está totalmente apaixonado por você, menina! – estreito o olhar para ela, que agora sim dá uma longa gargalhada – será que você é inocente assim mesmo ou está se fazendo de santinha? Até um cego percebe que o Peeta beija o chão que você pisa... Que ele faz tudo para te agradar. Me poupe, Katniss. Sua hipócrita!

Enquanto ela se afastava eu poderia muito bem ter arremessado à bolsa na cabeça dela... Mas algo me deteve. Essas palavras fazem sentindo, não fazem? É claro que sim... Sua hipócrita!

Antes de ir embora passei em uma loja de brinquedos e fiquei olhando alguns brinquedos para presentear o afilhado de Peeta. Diante das prateleiras, me lembrei de momentos de minha infância, onde eu e meus irmãos não tínhamos muitos brinquedos e nos contentávamos com o resto que madrinha trazia da casa dos Mellark. Eu sempre ficava com as bonecas velhas de Savannah, umas Barbies bonitas e bem cuidadas que enjoavam sua antiga dona. As bonecas rabiscadas e geralmente cheias de furos e caveiras tatuadas a canetinha vermelha eram de Ashley. Nunca dava para fazer nada com elas... Terry e Ben se divertiam com os carrinhos caros e brilhantes que Peeta se enjoava. Eu olhava todos aqueles brinquedos e pensava na vida boa e farta dos três irmãos Ingleses, que apesar de tudo eram muito bons e gentis com nós todos.

Avisto um urso grande e branco no final da prateleira de bichos de pelúcia. Parece esquecido ali no cantinho, afastado dos demais, esperando. Imediatamente vejo em minha mente aquele garoto que tinha tudo, mas ao mesmo tempo não tinha nada. Não Christopher, o neto adotado da poderosa família Mellark, mas sim Peeta, o filho legítimo e imperfeito que fora renegado pelos próprios pais desde a infância. Ele era o garoto. O herdeiro. Mas também o problemático. O que tirava notas péssimas. O encrenqueiro. O renegado. Quando criança, Peeta ficava sentado longe apenas olhando... Apenas olhando. Ofuscado pelo brilha da perfeição de Savannah e Ashley. Num impulso pego o urso branco e o admiro entre minhas mãos. Seus olhos azuis são bonitos e brilham, apesar de tudo. Sorrio para ele e o mesmo vai parar dentro de minha cesta, junto a um boné do time favorito de Christopher. É tudo o que tenho a oferecer.