Gel no cabelo; confere.

Dentes escovados; confere.

Listerini hálito fresco; confere.

Blusa passada; confere.

Tênis limpos; confere.

Calça jeans seminova; confere.

Dinheiro na carteira; confere.

É, pelo visto sua preparação estava dentro da lista prioritária. Por via das dúvidas, estava com uma bala de menta no bolso, apenas por precaução. Dessa vez ele iria conseguir impressionar a menina! Parque de diversões. Quem não se divertia num parque desses? Poderiam ir ao carrinho bate-bate, depois no jogo de argolas, onde ele iria conseguir um bicho de pelúcia gigante para a moça. Depois, poderiam ir ao trem fantasma e terminariam a noite no topo da roda gigante, trocando contatos e beijos. Sim, tudo sairia perfeito. Pelo menos ele queria.

- Com licença... - uma moça de voz suave e baixa se aproximou. Estava de cabeça baixa, completamente envergonhada. - Uzumaki Naruto?

- Ah, você deve ser a Hyuuga Hinata! - seria difícil alguém adivinhar seu nome completo se não fosse uma enviada da agência.

- Sim... - gaguejou. - Tudo bem?

- Comigo tudo ótimo! E você? - ela acenou um 'sim'. O loiro ficou constrangido ao perceber que ela preferia encarar o chão a seu rosto. - Você consegue olhar pra cima? - os olhos perolados se ergueram e ele quase caiu surpreso. Até agora, Hinata era a mais linda enviada da agência. Pele branca, lábios finos, rosados como o topo das bochechas. Cílios longos e finos, franja azulada cobrindo as sobrancelhas. Pequena, de seios fartos, como os de Nina. Chacoalhou a cabeça. Não podia pensar em Nina como mulher, ainda que fosse! Tentou imaginá-la como um homem. Um homem muito atraente, mas um homem. Céus, talvez ele fosse gay!

- Quer ir onde? - ela o tirou do transe, com a voz suave e calma.

- Carrinho bate-bate! - disse animado, os braços esticados para cima. Ela sorriu com o impulso infantil.

- É melhor mesmo ir num brinquedo agitado, antes de comermos... - concluiu, o seguindo, as mãos suando frio.

- Quer comer onde?

- Tem uma barraca de ramén na frente do túnel do amor... - sorriu. Que sorriso adorável!

- Ramén? - os olhos do loiro brilharam, e atrás de si, sentiu um arco-íris se formando. Ela gostava de ramén!

- Recomendo o de frango e legumes, é o melhor da barraca. - ele ainda estava hipnotizado. - E peça para que seja feito ao modo da casa - o chefe tem um tempero muito bom... - e conforme ela dizia, a voz ia sumindo.

Estava chocado. Ela gostava de ramén, era bonita, simpática, um pouco calada demais, mas mesmo assim, a melhor escolha da agência até agora. Já podia ouvir o badalar dos sinos, ouvir a marcha nupcial... Se seus planos fossem até o fim da noite, não via mal nenhum em tornar Hyuuga Hinata sua eleita.

.

- Você é um idiota. - Itachi declarou, ainda atordoado pela cena que tinha passado mais cedo.

A mensagem que recebera dizia 'NÃO DIGA NADA A ELA SOBRE MIM!'. Não era preciso letras garrafais para ser mais claro. Sasuke não queria que Nerak soubesse nada de sua vida e ele respeitaria isso. Mas quando se deu conta que o irmão estava usando de uma 'nova identidade' para se reaproximar da moça, com intuitos vingativos, foi como observar a um estranho. Por qual motivo ele faria isso? Já haviam se passado sete anos...

- Se uma menina tivesse quebrado seu coração, você entenderia. - declarou frio, antes de tomar seu café, ironicamente quente.

- Você fala com um sentimentalismo barato. "Quebrou meu coração..." Ora, já quebraram meu nariz, serve? - tentou brincar, enquanto esperava o chocolate esfriar. - Ela realmente não sabe quem você é?

- Não.

- Meu Deus! - o moreno teve que rir - Você é uma espécie de Clark Kent ou o que? Foi só tirar os óculos e o antigo Sasuke sumiu? – suspirou – Ela ainda gosta de você. - disse por fim, sério, fugindo da brincadeira de antes.

- Claro. - ironizou arqueando a sobrancelha esquerda.

- Ela tem aquele brilho no olhar que tinha aos dezessete anos! Perguntou de você, e ela parecia prender a respiração toda vez que eu ia dar uma resposta! Pelo amor de Deus, por que você não fala a verdade de uma vez e põe essa história a limpo? - Sasuke em resposta, tomou um longo gole de café. - Essa sua maneira de ser se tornou muito irritante.

- Eu vou conquistar a Nerak, vou fazer com que se apaixone perdidamente por mim e, no final, vou deixá-la, vou dizer que 'não dá mais' e sair pela porta sem olhar para trás. - concluiu confiante - É isso que vou fazer.

- Isso é birra sua. - disse depois de uma longa pausa.

- Pense como quiser.

- Faz sete anos! Ela já é adulta, - e completou com certo pesar - diferente de você.

E embora desejasse sair daquela mesa muito bravo, quem fez o ato foi Sasuke, mas com uma calma fora do comum. Estava mesmo tão calmo daquele jeito, a ponto de aguentar em sua consciência a culpa de iludir alguém. Talvez o irmão não tivesse consciência, ou achasse mesmo estar fazendo a coisa certa.

Sasuke, por sua vez, guiava o carro pela rua absorvido em seus pensamentos, em como se sentiu humilhado e como as palavras do pai o acertavam como pedras, quando dizia que Nerak o enganara o tempo todo, de como era ingênuo em acreditar que uma menina estaria mesmo interessada nele, sabendo do valor que o nome Uchiha tinha. Fechou os olhos com força, os dedos apertaram o volante e, por fração de segundo, não ultrapassou o sinal vermelho.

Não, não iria parar até conseguir o que queria.

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- Você não fala? - Naruto perguntou, um pouco constrangido. Depois de trocarem informações básicas sobre o ramén da barraca, que ela tinha 26 anos e que trabalhava como tradutora numa multinacional ficou em dúvida se era verdade. A não ser que soubesse libras.

- Falo. - gaguejou, tendo o rosto tingido de vermelho até a raiz dos cabelos - Só sou um pouco tímida.

- Não precisa ser tímida comigo! - o loiro se animou, girando o volante do carrinho. Até o momento, ele havia desviado de todos. - Passear comigo é só alegria! - e nessa alegria toda, o moço não percebeu o carro que veio a toda, batendo na traseira e projetando ambos para frente.

Quando Hinata ergueu os olhos para cima, Naruto pensou ter visto a face do terror: o nariz da moça estava sangrando, quase uma hemorragia!

- H-Hinata! - entrou em pânico. Ela não respondeu, apenas colocou a mão no nariz para estancar o sangramento e se levantou. O brinquedo fora desligado para a saída do casal. - Me desculpe, eu devia ter prestado atenção.

- Não é sua culpa... - murmurou com voz nasal, o que fez o Uzumaki rir.

- Desculpe. - Hinata exibiu um sorriso avermelhado pelo sangue, que fez o rapaz condoer-se. Maldição. Que belo encontro, não?

Depois de conseguir estancar o ferimento, a Hyuuga precisou ficar de cabeça erguida para que a ferida não abrisse novamente. Ficaram então no carro do loiro, com os bancos do motorista e carona deitados. A conversa fluiu normalmente, algumas risadas contidas, algumas palavras embaralhadas devido o estancamento nasal... Hinata era, em seu limite, espontânea e divertida.

- E por que resolveu se inscrever nesse programa? - o loiro se sentiu a vontade para perguntar.

- Foi minha irmã que fez isso. - riu - Eu sinceramente não queria, mas...

- Por que ela achou que você precisasse de uma agência de namoros?

- Ela acha que Kiba não é o homem certo para mim. - deu um meio sorriso.

- E quem ela pensa que é para opinar na sua vida?! - o loiro estava indignado. - E por que aceitou?!

- Para que ela parasse de me importunar com este assunto. - disse simplesmente.

- E esse Kiba é seu namorado? - a morena riu.

- Se fosse eu não estaria aqui. - o loiro paralisou.

- É seu amor platônico!

- Infelizmente. - suspirou.

- E não vai lutar por ele?!

- Lutar por um amor não correspondido?

- Ora, como sabe se nunca perguntou?!

- Eu sei, oras! - ela começava a se assustar.

- Imagino... - fez suspense. - Já perguntou? - os olhos claros se arregalaram.

- Não, mas...

- Então lute! - de um pulo, ele se ajoelhou no banco, mostrando o punho fechado em sinal de desafio. - Ele é difícil?

- Não... - Hinata apertou as sobrancelhas, se erguendo também. - É bem simpático, está sempre rindo... Tem um humor quase erótico às vezes... - riu, ficando vermelha. - Ele diz que sou adorável, mas vi ele saindo com a Ino outro dia. - Naruto quase teve um mini-infarto.

- Iamanaka Ino?

- A conhece?

- Aquela mulher é louca! Conheci nessa agência e eu não sabia se eu matava ou sentia medo daquela mulher! - a atenção da moça estava toda voltada para si. - Ela disse que o leite é um estupro bovino!

- Hãn?

- Disse que é um abuso sexual tirar leite de vaca. - Hinata deu uma gargalhada generosa. Não se lembrava de ter feito isso muitas vezes.

- Isso é engraçado, talvez Kiba goste...

- Tá louca?! Aquela mulher desmaiou quando a levei na churrascaria, me fez passar vergonha, paguei caro e quase não comi. - cruzou os braços emburrado.

- Adoro churrasco! - riu. - Kiba também.

- Zero para a Clorofila; um para você! - narrou Naruto como num jogo de futebol.

- Mas talvez ele goste dela: alta, muito magra, olhos azuis penetrantes, um metro de cabelo loiro... - já voltava a desanimar.

- Parece um poste, não tem curva nenhuma, o olhar é assassino, o cabelo é mal cuidado... - e então cochichou como se fosse um segredo - Ela não usa shampoo. - a moça riu. - E ela tem voz de sono! Será que hippies tem aula disso?!

Ele conseguiu tirar boas risadas da moça, enquanto continuava a colocar mil e um 'pontos a serem estudados' pelo atual eleito da Hyuuga de nariz inchado.