Era dia de treino de atletismo, por isso Rachel tinha de levantar mais cedo. Estava aí uma rotina que ela já se acostumara: acordar uma hora antes do normal, colocar o uniforme de treinamento, uma muda de roupa na mochila e correr até a escola. Atletismo estava longe de ser tão apaixonante quanto a música, mas Rachel tinha de admitir que o corpo dela passou a pedir o treinamento depois que se habituou. Sem mencionar que a barriga estava durinha e tinha impressão que já podia sentir certa definição abdominal. Talvez fosse a tal endorfina produzida e liberada pelo organismo que ajuda na sensação de bem-estar. Ao chegar na escola, entrou no vestiário apenas para deixar os pertences no armário.
Atletas de outras equipes e líderes de torcida circulavam por lá também se preparando para a sessão de treinamento. Tinha as meninas do vôlei, que monopolizavam o ginásio, as garotas do softball que tinham fama de serem sapatões (não passava de um estereótipo imbecil) e treinavam apenas duas vezes por semana pela manhã. E tinha as garotas do atletismo e as cheerios que algumas vezes dividiam o espaço no gramado.
"Está um gelo lá fora." Santana entrou no vestiário reclamando quando Rachel estava quase de saída.
"Estamos no meio do outono, Santana." Rachel respondeu.
"Agora você é um calendário ambulante, anã?"
Rachel suspirou e decidiu sequer responder. Virou as costas e saiu do vestiário. Antes mesmo que pudesse chegar ao campo, sentiu uma mão a agarrando firme pelo braço. Santana a puxou para um espaço mais reservado, olhando antes o ambiente para se certificar que não havia ninguém se aproximando.
"Algo errado?" Rachel ficou preocupada.
"Vai depender de como você vai encarar esse favor."
"Depende do tipo de favor."
"É uma ordem... e ao mesmo tempo é um favor." Santana olhou mais uma vez ao redor para se certificar de que estavam mesmo às sós. "Eu vou precisar cair fora no intervalo do almoço e não vou voltar até domingo. São ordens que preciso cumprir."
"Algo sério, se é que posso perguntar?"
"Nem tanto... a questão é que preciso que você faça um grande favor para mim enquanto eu estiver fora: preciso que você leve Quinn para a minha casa e fique de olho nela. Pode hospeda-la no quarto do meu irmão, sem problemas. Os meus pais vão estar em casa e eles não a conhecem pessoalmente, então eu também preciso que você faça as apresentações."
"Quinn? Quinn Fabray?"
"Sim."
"Tem certeza? Você não quer dizer Quinn Montgomery?
"Quem é Quinn Montgomery?"
"A funcionária do café do pai do Matt."
"Sério? Aquela gostosa se chama Quinn também?"
"Santana!" Rachel ficou vermelha e a líder sorriu.
"Rachel, a missão é Quinn Fabray, ok?"
"Vou poder saber o que se passa?" Rachel cruzou os braços. "Pelo menos no que diz respeito a Quinn?"
"Tudo que você quiser perguntar vai ter que ser diretamente a ela. Isso se Quinn quiser estabelecer algum diálogo decente contigo."
"Qual é, Santana! Seja razoável."
"Eu sou razoável."
"Essa tarefa não será fácil." Rachel suspirou já esperando o festival de patadas que viria a receber. Foi quando ela teve uma ideia diabólica e sorriu. "Eu sei que isso é uma ordem, mas você também disse que é um favor. Bom, pela parte do favor eu posso fazer um pedido?" Então ela fez um quadrado no ar com os dedos. Em seguida, com uma das mãos, simulou algo que lembrava um telhado curvo. Santana revirou os olhos e coçou a cabeça.
"Feito! Mas não abuse."
Rachel sorriu do melhor jeito diva.
"Ok! Diga para Quinn Fabray, que eu a espero após o coral."
Santana revirou os olhos e Rachel foi em definitivo para o campo de treinamento. Ao longe, viu Santana se aproximar de Quinn Fabray e conversar sobre algo. Seja lá o que fosse, parecia sério. A curiosidade dela custava a concentração para executar as técnicas que a treinadora ensinava. Como Rachel era leve e baixinha, o salto com vara foi a modalidade indicada. O problema era que a modalidade era complexa e cheia de nuances! Tinha de aprender a segurar corretamente a vara, o modo de correr, como fazer cada movimento, como cair, como ajustar o corpo no ar. Quando Rachel assistia a modalidade casualmente nos jogos olímpicos, nunca imaginou que fosse tão complicado. Talvez devesse tentar salto em distância já que ela sabia que podia saltar de um prédio para outro.
Depois dos treinos, enquanto andava pelos corredores, Rachel sentiu que os olhares em cima dela estavam mais acusadores desde que a brincadeira com Kurt sobre a sua suposta vida sexual. Achava interessante a hipocrisia dos colegas. Ela passou a ser vista como uma vagabunda porque supostamente experimentava junto ao namorado. Não importava se uma boa parte das garotas da escola eram sexualmente ativas e tinham poucas inibições. Kurt passou a ser visto como um corno, porque supostamente aceitou dividir a namorada com Sam. Não interessava se secretamente tantos ali traiam. E Sam passou a ser visto como um calhorda aproveitador puro e simples. Mas e quanto a um sujeito como Puck? Ele era o máximo por ter uma mulher por semana. E Finn? Ele era o máximo porque teve coragem de terminar com Quinn Fabray. Nem mesmo uma garota rica de pai influente como ela não escapava da maldade da língua. Desde que foi vista com hematomas no rosto e foi dispensada por Hudson que perdeu substancialmente a força na escola.
Quem tinha medo de Quinn Fabray?
Rachel não tinha. Sentimento que não modificou nem mesmo quando sentiu a mão pesada dela impactando contra o seu corpo. Agora precisava encarar a garota como uma missão. Sinceramente, Rachel gostava nada daquilo.
Quem poderia confiar em Quinn Fabray?
...
Quinn estava ficando impaciente. Rachel estava há algum tempo sem conseguir definir uma estação de rádio que agradasse e o pula-pula do som atiçava os nervos. A ansiedade para resolver seus dramas particulares era enorme, tal como sua necessidade de se sentir segura. Então ali estava a capitã do coral, a menina mandona que não conseguia se decidir por uma simples e ridícula música. Quinn sentiu vontade de gritar, de colocar para fora toda fúria que sentia dentro de si.
"Quer fazer o favor de parar em alguma estação? Qualquer uma! Eu não me importo."
Sentiu os olhos de Rachel fixados no rosto dela. Nem toda maquiagem podia esconder o inchaço e o roxo ao redor dos olhos. Rachel queria perguntar a respeito, mas o misto de polidez e medo a impedia. Sorte de Quinn, que não estava com espírito para explicações. Ela só queria uma cama e algum descanso após as cenas da noite anterior. Paz e silêncio eram seus maiores desejos.
"Você não tem algum MP3? Tenho certeza que a sua má-seleção ainda seria melhor do que a pobreza dessas rádios." Rachel estava ficando mal-acostumada em só ouvir o fino da música pelos arquivos que ela importava para o pequeno aparelho eletrônico. E não se tratava apenas de canções proibidas. A qualidade vinha em primeiro lugar.
"Não vejo nada de errado com as estações de rádio!" Quinn queria gritar. "Eu não carrego uma droga de MP3 dentro do carro."
"Acho que você nunca prestou atenção nas rádios, então... vire na próxima direita..." Sintonizou na nova balada do momento. "Uma pena que eu esqueci o meu MP3 em casa. Dificilmente saio sem ele." Quinn não estava minimamente interessada. Pelo menos ficou aliviada pelo rádio sintonizado.
Pelo resto do caminho, Rachel só abriu a boca para indicar direções até chegar a uma rua residencial de casas modestas do bairro de operários. Aquela rua em específico era conhecida por residir várias famílias de imigrantes, como eram os Lopez. A maioria delas estava na segunda ou terceira geração, mas ainda conseguiam preservar bem o idioma e os costumes dentro daquele nicho.
"É a casa de dois andares azul." Rachel apontou.
A casa dos Lopez era muito diferente do lar dos Puckerman. Era mais colorida, com a sala cheia de enfeites e coisinhas. Também havia cercas maiores e um pequeno jardim, além de uma cerejeira na frente de casa. Na casa dos Lopez, por exemplo, a área verde se limitava a um parco gramado. Para Quinn, no entanto, era como estivesse em outro mundo, outro país. Ela era uma garota do setor nobre da cidade, filha de um político conhecido e que só estudava em escola pública por ser uma conduta de praxe entre os parlamentares matricular os filhos nessas instituições para dar a impressão de que o sistema de ensino era de boa qualidade. O que não era bem verdade porque alunos como Quinn, Karofsky e Brittany tinham classes particulares e recebiam tratamento diferenciado da direção e dos professores. Esses alunos filhos de políticos ou pessoas com influência participavam do quadro de honra e tinham vaga garantida na Universidade: um privilégio que alunos ordinários como Rachel precisariam se esforçar o dobro, talvez o triplo, para conseguir.
"É melhor você esperar aqui para eu abrir o portão." Rachel saiu do carro e correu pela garoa que caía naquela tarde.
Quinn ficou impressionada por aquela garota saber de segredos da casa, como por exemplo: onde estava a chave extra. Rachel pulou a cerca com habilidade (já havia feito aquilo algumas vezes), rodeou a casa e pegou a cópia da chave que ficava dentro de um velho pote de sabão em pó no armário da casinha do quintal em que os Lopez montaram a lavanderia uma vez que aquelas casas do bairro não tinham porão. Destrancou a porta da cozinha, pegou o molho de chaves. Não tinha certeza qual era a que abria o cadeado do portão que dava acesso ao quintal. Experimentou quatro antes de achar a premiada. Tirou a corrente, abriu o portão e permitiu que Quinn entrasse com o carro até a casa da lavanderia que também servia de garagem. Trancou novamente antes de correr novamente ao quintal para pegar as próprias coisas. A roupa e os cabelos estavam bem umedecidos naquele momento. Quinn abriu o porta-malas e ela mesma quis carregar a própria bagagem para dentro de casa. Rachel limitou-se a tirar a mochila do carro.
"Aí tem mais roupas que o necessário para passar um fim de semana." Comentou e logo em seguida arrependeu-se. Quinn respirava fundo, com jeito de alguém que se segurava desesperadamente para não chorar. Guardou as chaves no lugar certo e ajudou a colega a carregar a mala escada acima. Era uma casa de três quartos no segundo andar mais um mezanino. E foi para o quarto extra que caminharam.
"Você já deve saber disso, mas Santana é a filha mais nova de três." Rachel acendeu a luz antes de abrir as cortinas empoeiradas do pequeno e aconchegante quarto.
"Sei quase nada sobre a família dela. Santana era praticamente a minha guarda-costas na escola, mas nunca realmente revelou muita coisa a respeito da vida dela. Tudo que sei é que os pais não têm muito dinheiro e que ela mora na periferia. Bom... óbvio já que cá estamos."
"Ok... este era o quarto do Carlos, que é o mais velho. Ele casou e está morando em Adrian, se não me engano. Ele já tem até filho! Mas os pais de Santana preservaram o quarto para quando a família de Carlos chega para uma visita."
"Quem é o outro irmão?" Quinn sentou na cama e não parecia tão ruim, apesar o colchão ser antigo.
"A do meio é Julieta. Ela está fazendo faculdade pelo programa de bolsa integral, o que é muito difícil conseguir uma vaga por meio deste recurso... é um feito... último ano de Arquitetura, eu acho." Rachel fez cara de desdém.
"Não parece ser fã."
"Se você pensa que Santana é mesquinha, perto da Juli, ela é aprendiz iniciante."
"Não consigo imaginar."
"Pense no seguinte: se você está hospedada no velho quarto de Carlos, com escada extra cheio de poeira, quando poderia ter um mais amplo e limpo, é porque existe uma boa razão."
"Entendo..." Quinn reparou no ambiente, nas cortinas azuis, na coleção empoeirada de aeromodelos no topo da estante. No pequeno guarda-roupa que não caberia um terço das roupas dela. Era o típico quarto de garoto. O quarto dela nem se comparava em tamanho. Mas estava bom. Prometeu a si mesma não reclamar. Ninguém pode se queixar da limpeza da bóia quando se está afogando, e os gestos de Santana praticamente salvaram a vida de Quinn.
"Quer um lanche? Poso preparar alguma coisa para comer. Eu mesma estou de barriga vazia."
"Seria bom." Quinn não estava com fome. O lanche era só uma razão para Rachel desaparecer e ela poder ficar sozinha para se recompor.
Rachel foi até a pequena cozinha. Ela frequentava aquela bem o suficiente para saber onde ficavam as coisas e ter liberdade para apanhá-las. Pegou o pão de forma na geladeira, geleias (e Rachel secretamente agradecia Juan Lopez pelo saudável vício, uma vez que Anna raramente comprava um pequeno pote que fosse), fez uma limonada pop de conserva e comeu uma banana enquanto preparava tudo. Quinn chegou com o rosto ainda fechado, um contraponto com as feições leves da colega.
"Eu não sei do que você gosta, mas temos pão, geleia e cream cheese. Fiz limonada pop... foi o suco mais neutro que achei em poupa no congelador." Quinn balançou a cabeça e riu em descrença. "O que foi?"
"Quem diria que você, Rachel Berry, fosse íntima de Santana Lopez? Desculpe, mas isso é ainda difícil de acreditar."
"Há muitas coisas que você não sabe." Rachel começou a se servir em silêncio.
Quinn vasculhou algo no bolso da calça e colocou em cima do balcão, diante de Rachel.
"Perdeu outro botão do agasalho?"
"Não... esse é diferente." Rachel conhecia aquele modelo de botão com o raspado muito bem. A cor era azul, mas diante das circunstâncias, isso não a surpreendeu. "Santana disse que você entendia o significado."
"E o que você sabe a respeito?" Rachel foi cautelosa. Quinn não estava disposta a entrar em um jogo de informações. Estava mentalmente cansada e não queria correr o risco de arruinar a chance com a única pessoa que lhe estendeu as mãos no pior momento.
"Sei que é um convite. Não ficou claro, mas presumo que eu devo estar numa espécie de fase de provação antes que Santana possa me contar sobre algumas coisas. Ela garantiu que eu jamais ficaria desamparada novamente... devo dizer que foi mais convincente que eu poderia imaginar."
"Ela está certa."
"Vocês são próximas por causa disso?"
"Está novamente certa." Rachel tomou um gole do suco. "Pelo menos em parte. Independente desses botões, Santana e os Lopez são como se fossem a minha família. Mais do que os Puckerman."
"Então por que você mora com a família do Puck?"
"Porque foi a família que o governo me encaminhou depois que eu fiquei sob a guarda do estado quando meus pais foram mortos." Rachel retorceu o rosto e evitou olhar para Quinn nesse momento. Por mais que soubesse que a menina tinha nada a ver com aquilo, nada mudava o fato de ter sido o pai de Quinn o autor da lei que sentenciou a morte os casais homossexuais.
"Desde quando isso acontece? Você, Santana... os Lopez?" Rachel silenciou e se concentrou no próprio lanche. "Você não me pode falar mais nada?" Quinn ganhou mais silêncio.
"Por que você está aqui?" Rachel perguntou após alguns minutos de desconforto. "Digo, eu conheço San bem o suficiente para saber que ela não te colocaria dentro de casa sem uma razão justa. Tem algo a ver com o seu olho roxo?"
"Diria que está certa... em parte, pelo menos."
"Há boatos na escola de que você tem um caso com um homem mais velho."
"Bom... diga-me a sua teoria e eu direi que está longe ou perto." Quinn cruzou os braços.
"Minha teoria é que o seu pai não é um sujeito amoroso. Ou talvez seja inapropriadamente amoroso." Rachel não quis encarar a colega por esta insinuação.
"Sua teoria não está errada... assim como os boatos tem sempre uma base de verdade."
"Oh!" Rachel ficou enojada. "Então o seu pai... toca em você?"
"Tocar ele toca... principalmente toca a mão pesada contra o meu rosto. Ele nunca... me estuprou de fato. O que não quer dizer que ele não seria capaz." Ela preferiu deixar Rachel sem mais informações.
Era verdade: Russell nunca chegou a ir as vias de fato, mas houve pelo menos uma ocasião em que Quinn ficou temerosa de verdade e achou que o próprio pai a estupraria. Em uma ocasião de extrema embriaguez, Russel gritou com ela, depois a imobilizou contra a parede e se esfregou contra o corpo da própria filha, chegando a beijá-la no pescoço e agarrar seus seios. Tudo que Quinn sentiu foi pânico e terror. Ela sentia o órgão duro e ereto de Russell roçando contra seu corpo, ouvia o pai a chamar dos piores nomes, a acusava de fazer nada direito, que talvez ela só fosse boa para uma única coisa. Ele parou quando gozou nas próprias calças. Quinn correu para o quarto e se trancou. Passou a dormir com a porta trancada desde então. Isso havia acontecido semanas atrás. Russell era um político em crise, que perdia o poder de influência a cada ano. Essa era a maior desculpa para beber e se alterar. Era quando Quinn pagava o pior preço.
"Ainda assim, Quinn. Ele não tem o direito." Rachel estava horrorizada.
"E você está surpresa? Ele é o homem que assinou a sentença de morte dos seus pais."
"Teorizar é uma coisa... saber a verdade é completamente diferente. Eu sinto muito, Quinn. Sinto mesmo!" Quinn limpou lágrimas discretas que teimavam em brotar e arruinar a maquiagem esparsa, apesar do rosto firme, impassível. Rachel, por sua vez, não sabia como agir. Se ela aparava Quinn, a abraçava, ou se simplesmente ficava ali. A prudência aconselhou que ela mantivesse a distância. "O que aconteceu para você vir parar aqui com uma bagagem grande?"
"Começou quando me recusei a fazer um favor para o meu pai. Ele disse que se eu não fizesse, não faria sentido manter uma inútil no teto dele. Então eu ganhei esse olho roxo e fui embora. Cheguei a passar a noite na casa da Brenda Martin, sem realmente dizer a ela o que aconteceu. No dia seguinte, você e eu nos confrontamos no banheiro."
"Oh!" Rachel ficou atordoada.
"Nesse dia, Santana entrou no meu carro, jogou a realidade na minha cara e prometeu me ajudar."
"Jogar a real na cara dos outros? Isso é a especialidade dela... felizmente, ajudar também faz parte do pacote."
"Eu sou grata por ela ter feito isso. Mas não havia me dado muitas garantias. Eu acabei voltando pra casa, fiz o que meu pai havia ordenado. Anteontem, Santana me entregou uma carta de alforria com um botão pregado. Disse que se eu aceitasse, que ela conhecia pessoas que me dariam proteção e liberdade."
"Carta de alforria?"
"Cópias de alguns documentos que garantem que meu pai não vai me incomodar." Quinn franziu a testa. "Aliás, você tem ideia de como Santana conseguiu isso?"
"Santana tem muitos negócios que não me dizem respeito."
"Bom... o que sei é que deu certo. Meu pai recuou e disse que vai me deixar em paz. Mas não antes de receber a ameaça de que se eu abrir a boca sobre o conteúdo dos documentos, vou poder me considerar um cadáver com dia certo para cair."
"Você acha que ele seria capaz?"
"Eu não vou pagar para ver. Santana me deu algumas soluções e eu só rezo a Deus que ela esteja certa."
As duas lancharam em silêncio na cozinha dos Lopez. O barulho maior era externo. A vizinha brigava com uma criança, provavelmente o filho que fizera alguma arte. Ou talvez não tenha feito nada e a mulher só estaria descontando frustrações. Quinn e Rachel lavaram e guardaram a louça e ficaram mais uma vez sem saber como agir. Rachel teve uma ideia para melhorar o ambiente e chamou a colega a subir as escadas. Entraram no quarto de Santana e a diva pegou uma chave que ficava encaixada atrás do quadro que era uma caricatura.
"Pelo visto, você sabe onde estão todas as chaves desta casa." Quinn ergueu uma sobrancelha.
"Esta é a chave mais desejada." Rachel sorriu e foi até um baú de tamanho mediano que ficava no canto do quarto, ao lado da janela. Ela o abriu e os olhos brilharam literalmente. "Santana tem a melhor coleção particular de discos em vinil que eu já vi. Só clássicos."
"Parece ser muito bom..." Quinn pegou o 'The Supremes Sings Holland-Dozier-Holland', disco de 1967. "Eu não conheço..." Comentou baixinho. "Parece coisa do país do leste."
"Não está errada."
Quinn pegou o vinil e foi até a vitrola. Ela nem acreditava que Santana ainda tinha um aparelho desses no quarto. Ela própria, e com todo o dinheiro, não tinha. Quinn ficou envergonhada em perceber que mal sabia mexer numa. Rachel a ajudou.
"Qual faixa?"
"Qualquer uma."
Sorriu ao escutar a guitarra em meio ao chiado bom característico daquele tipo de mídia. "Set me free, why don't cha babe/ get out my life, why don't cha babe/ cause you don't really Love me/ you Just keep me hangin'on/ you don't really need me/ but you keep me hangin'on/ why do you keep a coming around/ playing with my heart?/ why don't you get out of my life/ and let me make a new start?/ let me get over you/ the way you've gotten over me". Rachel sorriu e ofereceu a mão. Puxou Quinn e as duas começaram a dançar ao som da música. E de várias outras das Supremes, Jackson Five, Steve Wonder, The Four Tops. Era como uma sessão de exorcismo. Uma libertação. O quarto de Santana tinha isolamento acústico e isso permitia que as meninas pudessem escutar as músicas com o volume alto que tudo que o vizinho escutaria seria um som abafado, impossível de identificar.
Ali, no meio da dança, foi como se algo tivesse clicado entre as duas. Quinn permitiu sentir um pouco de alegria na companhia de Rachel. Era só uma centelha que de felicidade, mas Quinn tinha quase se esquecido do quanto a sensação de se permitir era tão boa. Ao sair de casa, sentiu a centelha da esperança. Ao dançar com Rachel, sentiu o calor. Sentiu um pouco de paz e achou tudo bom demais para ser verdade a ponto de temer que tudo aquilo fosse um sonho.
Rachel, por sua vez, estava admirada com a colega. Nunca tinha visto uma Quinn Fabray tão vulnerável e tão leve. Era como se a beleza lhe saltasse, sem falar no sorriso encantador.
Capas e discos começaram a se espalhar por cima da cama de Santana na medida em que as meninas exploravam o cancioneiro, cantavam (no caso de Rachel) e dançavam. Explorar à vontade aquelas preciosidades dentro do baú foi o prêmio que Rachel pediu a Santana para escoltar Quinn. Ela só tinha visto a coleção uma única vez. Santana era muito ciumenta com os discos de vinil. A líder conservava com todo esmero e mal deixavam as pessoas olharem com distância mínima de dois metros. Claro que se eles arranhassem ou se a vitrola quebrasse, Rachel poderia encomendar o caixão e o velório. Essa parte ficou claríssima durante as recomendações antes da localização da chave do baú ser revelada.
"Rachel?" As meninas já cansadas e deitadas no carpete levantaram no susto ao ouvirem a voz grossa do homem alto, de pele escura e traços latinos. Mas era um senhor muito bonito.
"Oi senhor Lopez" Rachel correu para baixar o volume. Quinn colocou as mãos para trás e baixou a cabeça. "Desculpe. Não escutamos o senhor chegar..."
"Hum..." Ele caminhou para dentro do quarto e começou a ver os discos espalhados. "Eu não sei o que você fez ou disse a Santana para ela te deixar explorar o baú, mas que bom... agora posso finalmente dar uma olhada nesses discos." O homem sorriu e voltou-se para a menina loira que ele já tinha visto algumas vezes nas fotos das colunas sociais do jornal do condado. "Você deve ser Quinn Fabray." Estendeu a mão para cumprimentá-la. "Santana disse que passaria alguns dias conosco."
"Sim senhor!" Quinn o cumprimentou e depois voltou a postura retraída. "Isso é... se o senhor permitir, claro..."
"Rachel, você já mostrou o quarto de Carlos?"
"Sim, senhor Lopez."
"Aquilo deve estar um terror de poeira." Sentou-se na cama e pegou um disco de Marvin Gaye. "Caramba, eu adoro esse! Gosto tanto que eu seria preso feliz só por segurá-lo. Santana tem um contato no câmbio negro... ela não me dá detalhes, mas é onde ela consegue essas raridades."
"E o senhor está ok com isso?" Quinn estava abismada.
"Não muito. Eu me preocupo e não a encorajo. Mas é melhor saber do que ser pego de surpresa. E são apenas discos..." Rachel acenou concordando, mesmo sabendo que Juan estava se iludindo: ele não sabia de nada. Não tinha noção da enormidade que era a organização dos botões. Sequer sabia da existência dessa sociedade secreta. O homem levantou-se da cama e se recompôs. "Quando Maribel chegar, tenho certeza que ela ficará feliz em fornecer novos lençóis e cobertores limpos. É que San nos pegou de surpresa... e ela ainda tinha esse raio de viagem com o namorado dela... o filho do promotor, certo?" Pediu a confirmação de Rachel, que acenou positivo.
O filho do promotor em questão era Blaine, o beard oficial de Santana, e vice-versa, desde o dia do resgate de Kurt. A capitã das cheerios até desconfiava, mas não sabia se existia algo de concreto entre Santana e Brittany. Assim como qualquer outra pessoa fora dos botões, ela também imaginava que a amiga estava de caso com Blaine Anderson. Sendo assim, não havia riscos para desencontros e engasgos de informações.
"Rachel, você vai dormir aqui também?"
"Não estava nos meus planos, senhor Lopez. Minha missão era apresentar Quinn ao senhor e a Maribel" A mãe de Santana tinha horror que a chamassem de senhora.
"Mas você tem planos para hoje a noite?"
"Não exatamente..."
"Então fique. Vamos encomendar pizzas e jogar Banco Imobiliário. Não seria a primeira vez que você pegaria emprestado algum pijama da San."
"Seria bom." Rachel sorriu e o homem saiu do quarto. "Juan é viciado em Banco Imobiliário!" Rachel sorriu sem-graça. "Não precisa jogar se não quiser..."
"Acho que seria... interessante. Apesar de eu não saber direito como se joga..."
"Está brincando?!"
"Meu pai não é do tipo que senta no tapete para brincar jogos de tabuleiros com os filhos, Rachel." Quinn disse com lamento na voz. "Não sei se você reparou, mas eu também não tenho muito amigos."
"Neste caso, seria saudável se você vivesse a experiência, apesar dos seus 18 anos de idade."
Maribel chegou. Era uma mulher de rosto cansado. Não ficou tão entusiasmada quando foi apresentada a Quinn, mas gostava da companhia de Rachel. Achava que era uma rara boa amizade que a filha cultivava. Os quatro comeram pizza conversando sobre assuntos rotineiros. Juan odiava o apresentador do telejornal que Maribel achava elegantíssimo. Mostraram uma foto atualizada do netinho, filho de Carlos, para as meninas e contaram algumas façanhas do moleque. Histórias aumentadas pelo encanto dos avós. Fizeram perguntas sobre a filha na escola na esperança que Rachel ou Quinn pudessem entregar algum malfeito. Rachel estava mais que treinada a não dar com a língua entre os dentes e Quinn não tinha nada de ruim a dizer sobre Santana, a não ser a famosa atitude bitch, que ela também era mestre em executar.
Jogaram Banco Imobiliário, que Quinn acabou gostando. Era diferente estar sentada à mesa com uma colega e um adulto onde se podia discutir sem graves consequências. Naquele caso, a vingança de Juan pela briga era fazer uma negociação dura que poderia levar o outro à falência. Quem diria que um médico do sistema público de saúde podia ser um árduo negociador? Maribel foi a primeira a falir, seguida de Rachel. As duas deixaram Quinn e Juan construindo impérios e tentando falir um ao outro. Elas subiram no mezanino e arrumaram a cama para Quinn, depois ficaram no sofá assistindo um filme. Maribel fez diversas perguntas sobre a nova hóspede, como Santana havia previsto, e Rachel manteve o roteiro em dizer que a menina estava enfrentando alguns problemas, mas que só a própria ou Santana poderiam explicar melhor. No mais, assegurou que Quinn não representava risco algum para a família. Naqueles tempos, de governo endurecido, a preocupação de Maribel não era à toa.
No início da madrugada, Rachel estava arrumando os discos no baú e ia se preparar para dormir no quarto da líder quando Quinn entrou já de banho tomado.
"Amanhã ainda vai estar por aqui?"
"Não." Rachel continuou a organizar os discos. "Vou embora depois do café da manhã. Mas não se preocupe. Maribel não vai implicar contigo e o senhor Lopez gostou de você pelo visto. Ele é muito respeitador também, posso garantir. Mas se te chamar para ver o jogo na televisão, dê uma desculpa e vá fazer outra coisa... fique com Maribel se for preciso."
"Torcedor fanático?"
"Por aí... pode ser assustador se for o time dele. Ou cômico, se for o jogo do adversário."
"Você realmente passa muito tempo aqui, ou estou enganada?"
"Sim e não. Não é que passe muito tempo com os Lopez, mas venho aqui com alguma regularidade há alguns anos. Daí a proximidade."
"Como é que só agora você e Santana começaram a se falar na escola?"
"É complicado explicar."
"Tem a ver com os botões?"
"É complicado."
"Isso é frustrante. Por que não pode me dizer nada de consistente sobre os botões?"
"Porque enquanto não tiver seus próprios botões, Quinn Fabray, você não pertence ao grupo."
