Part ONE: JENSEN
Sábado.
Vinte e três de setembro.
Faltam exatamente oitenta e quatro dias para o natal. Gosto dessa data, por isso conto os dias.
Já fui ao Rotary, fiz meu treino, a academia e a corrida. E ainda são dez e quarenta da manhã.
Há umas três semanas que não tenho nenhum contato mais íntimo com Jared, o máximo que consegui foram alguns beijos no banheiro da empresa, ele está sempre dando a desculpa de que está ocupado com o trabalho, ou que marcou de sair com algum amigo.
Nem acredito que já se passaram quase seis meses desde que começamos. Quer dizer, a seis meses que nos conhecemos, até eu arrancar qualquer coisa dele foram mais uns dois. Então estou traindo meu namorado a quatro meses. Isso.
Acho que eu deveria me sentir estranhamente culpado, mas não me sinto, parece natural para mim. E pelo que tenho notado para o Jared também, já que ele nunca expressou nenhum sentimento de culpa depois que transamos ou qualquer coisa do tipo.
Hoje ele não me escapa, estou morrendo de vontade de me afundar naquele homem até me afogar e morrer de tesão nas curvas do corpo dele.
Tom está em uma viagem de negócios pela empresa dele a dois dias, e só deve voltar na terça, então a minha casa está livre para qualquer fantasia que eu e Jared possamos ter. E temos muitas.
Ele não me atendeu quando liguei hoje de manhã, mas vou surpreende-lo na lanchonete que ele trabalha nos sábados e levar ele de lá mesmo, ele pode inventar uma desculpa qualquer para aquele namoradinho chato dele depois.
Segundo ele, vai terminar com o tal Chad até o fim do mês, mas ele tinha me dito isso a mais de um mês. Não que eu me importe, tenho o Tom então Jared pode ter quem quiser, só acho o cara um folgado babaca.
Estou sentado em frente a tela do meu notebook, com as pernas cruzadas no chão, olhando os prédios lá fora através da porta que dá acesso a sacada, enquanto tento desenvolver a história do meu segundo romance. Ela parece ter estacionado em um ponto onde eu não consigo mais conduzir meus próprios personagens, e quando eu tento e falho, a risadinha do maldito pai do Tom vem a minha cabeça.
Já chega. Hoje não é um bom dia para mim escrever nada.
Levanto e deixo o computador sobre a escrivaninha, indo me arrumar e dar uma ajeitada na bagunça do apartamento, pois ia trazer Jared aqui.
Cerca de meia hora depois já terminei de arrumar a bagunça e tomei um banho. Procuro alguma coisa casual, mas elegante, no armário para impressioná-lo quando chegasse na lanchonete. Passo o perfume que ele disse que adora e desço para o estacionamento.
O trânsito está meio ruim, então demoro dez minutos a mais do que os tradicionais trinta minutos que geralmente levava para chegar até o Robert's, estacionando meu carro em frente a placa luminosa da lanchonete quase uma hora da tarde.
Ainda haviam alguns clientes comendo rapidamente em suas mesas, provavelmente atrasados para voltar ao trabalho. Sinto pena deles por ter que trabalhar no fim de semana.
Não demora nada e um garçom vem me atender, mas não o que eu gostaria que viesse. Olho para o balcão, onde eles ficavam, e não o encontro. O garoto sorridente com o crachá de Justin me entrega o cardápio e quase baba em cima de mim, mas finjo que não noto.
Tento ser discreto ao perguntar sobre ele:
– O Jared não veio hoje?
Porra! Quando me dou conta a pergunta já escorregou pelos meus lábios. O loiro sorri para mim de um jeito meio confuso.
– Jared não te contou? Ele saiu daqui. – Ele dá de ombros. – O namorado conseguiu um emprego, e o Jared trabalhava aqui para dar uma suprida das necessidades em casa enquanto o Chad não arrumava um emprego.
Tento fazer a cara mais indiferente que consigo, dou um sorrisinho e então finjo que lembrei de algo. Porque esse cara parece me conhecer?
– Ah, é verdade, ele comentou. Que cabeça. – Rio fraco e ele se vira, levando junto meu pedido e o cardápio.
Não posso acreditar que ele não contou algo assim. Não que ele me deva satisfações, mas, uou!, ele me contaria uma coisa assim. Espero meu almoço vir, como a comida, pago por ela e vou embora. Totalmente frustrado.
Chego ao meu apartamento e tento ligar para o celular do Jared de novo, mas ele não me atende mais uma vez. Deito na minha cama e fico olhando o teto e confuso do porquê ele parece tão distante ultimamente. Será que tem a ver com o emprego novo do namorado?
Que se fodam eles.
Arrumo a guia de Harley, visto uma roupa esportiva e vou correr no parque com meu garoto. Não preciso de ninguém além dele para me divertir numa tarde de sábado.
No domingo fico em casa o dia inteiro e quando já estou quase indo dormir meu celular toca.
"Mãe", diz o visor. Atendo.
– Alô? Mãe? – Pergunto com um leve tom preocupado. Ela não me ligava quase nunca e ainda mais a essa hora da noite.
– Oi, filho. – Sua voz parece embargada. – Tudo bem com você?
Franzo a testa meio confuso.
– Estou bem, e a senhora? – Ela responde que sim e então fica calada. – Aconteceu alguma coisa? – Me sento na cama no breu do quarto, com absoluto silêncio no apartamento.
Ela suspira.
– Não, meu filho, eu só... só estou com saudades. Faz tanto tempo que você não vem me visitar... sua irmã saiu de casa mês passado e agora sou só eu aqui. – Ela conta e parece emocionada, a beira das lágrimas. Mordo o lábio me sentindo culpado por não ter ido visita-la no último semestre, apesar de ser uma viagem três horas, é relativamente perto e viável.
– Me desculpe, mamãe. Eu... eu me sinto tão envergonhado de não ter ido. – Suspiro e aperto o celular na minha mão quando ela solta um soluço, me dói saber que ela está sozinha lá. Mackenzie nem para me avisar que tinha saído de casa, droga.
– Tudo bem, Jensen. Sei que a sua vida aí é corrida... quando puder eu adoraria te ver. – Sorrio de canto levemente, pois já sei quando posso ir para lá.
– Que tal amanhã? Tenho uma folga que posso pedir na empresa e Tom está viajando. O que acha, mãe? – Falo empolgado.
– Amanhã? Meu deus! Seria maravilhoso, Jensen! Está falando sério? Não brinque com a sua mãe.
O tom dela é de incredulidade e uma leve irritação lá no fundo por achar que eu possa estar brincando com ela. Mas não estou.
– Claro, amanhã. Antes das dez eu estarei aí.
– Ai meu Deus! Que notícia boa. Eu vou esperar você com aquele bolo que você adora.
Meu sorriso se alarga na hora.
– Bolo de chocolate da mamãe?
– Esse mesmo.
– Valeu, mãe. – Digo enérgico. – Deixe eu ir dormir então que eu vou sair daqui bem cedo.
– Boa noite meu filho.
– Boa noite mãe, até amanhã.
Desligo o telefone e volto a deitar na cama animado com o dia seguinte, agora que tinha falado com ela estava morrendo de saudades também.
Papai ter morrido no ano passado devastou ela, e agora sem ninguém em casa ela devia estar se sentindo muito solitária.
No dia seguinte acordo bem cedo. Arrumo algumas coisas, a guia para levar Harley no carro, comida e deixo um bilhete na geladeira só por precaução, caso Tom voltasse antes do que tinha planejado.
Depois de três horas na estrada, chego na minha antiga casa. Tudo ali é meio nostálgico, algumas lembranças vêm a minha cabeça. Eu brigando com papai, natais em família, meu primeiro beijo atrás da árvore, pois ninguém podia ver eu beijando o filho dos nossos vizinhos.
Aperto a campainha e mamãe vem o mais rápido que pode, abrindo a porta e me abraçando apertado, dizendo que estava com saudades, enquanto eu retribuo e digo o mesmo.
Part TWO: JARED
Chad está em cima de mim na cama, já é de manhã e eu acordo com o Sol batendo no meu rosto. Ele ronca e pesa sobre o meu corpo, então me viro devagar e o deito na cama.
Suspiro e dobro um braço atrás da minha cabeça, olhando o teto frustrado, coberto só por um lençol.
Durou pouco. Na noite das rosas consegui transar com Chad focado nele, talvez por todo aquele gesto que ele tinha feito, sei lá, mas na manhã seguinte eu me senti extremamente culpado nem sei direito o porquê. Culpado por transar com meu namorado sem pensar em outro? Belo tipo de culpa, Jared.
Fecho os olhos e o sorriso dele preenche minha memória. Quando ele gargalha é tão bonito, é tão puro, faz eu me sentir tão bem.
Eu não posso estar o que estou por Jensen. Estou apaixonado. Mas não posso. Não tenho esse direito. É só sexo. Tudo que ele quer de mim é sexo, por que eu não consigo querer só sexo dele de volta? Desde que eu o conheci naquela piscina a minha vida ficou diferente, mais interessante, não sei descrever, acho que intensa seria a palavra mais adequada.
Intensa por ele, intensa pelo sexo, intensa pelo segredo. Pela traição. Apesar de eu ser muito canalha por sentir isso, saber que estou traindo meu namorado e ele o dele torna o sexo mais excitante, mais gostoso, mais perigoso. Tento afastar essa ideia da minha cabeça, mas não consigo. O problema é que eu não me imagino fazendo isso com outra pessoa, Jensen mexe comigo de um jeito que eu não achei que fosse possível, de um jeito que eu prometi a mim mesmo que não deixaria.
E olhe eu aqui agora, um idiota apaixonado pelo cara que só quer o foder. E que tem um namorado de bônus.
Levanto da cama e vou para o banheiro lavar o rosto e esvaziar a bexiga. Escovo os dentes me olhando no espelho e enquanto mexo a escova dentro da minha boca, pensamentos pervertidos vem a minha cabeça e eu sorrio sem querer, mas logo em seguida me sinto envergonhado. O que estamos fazendo é a pior coisa que eu poderia fazer, é a única coisa que eu jurei nunca fazer: Trair alguém.
A culpa rodeia a minha cabeça e fica me bombardeando de novo e de novo e de novo e eu quero gritar para ela parar.
Saio do banheiro e me visto para trabalhar, segunda-feira é hoje.
Não quero ficar pensando nele o tempo todo, mas é inevitável devido a distância que eu impus entre nós.
Quando Chad me pediu para tentarmos mais uma vez e esquecer o que tinha passado eu concordei, na hora por vergonha de negar devido a todo o show que ele tinha preparado, mas no dia seguinte eu refleti que talvez pudesse tentar mesmo. Já fui muito feliz com ele, o nosso namoro tinha se desgastado e nenhum de nós tinha lutado contra isso, mas agora ele estava tentando, e me pedindo para tentar também.
A primeira coisa que eu tive que pensar foi em parar de ver Jensen, mas na primeira semana sem nenhum toque dele eu estava me corroendo de saudade, idiota, então nos atracamos no banheiro da Marshall e nos beijamos até não aguentar mais. Aquilo só não evoluiu para um sexo gostoso em alguma cabine privada porque entraram mais pessoas no banheiro e tivemos que disfarçar.
No dia seguinte a isso Chad me mandou um buque de flores e um cartão dizendo que me amava e fez a culpa cair sobre mim de novo. E desde então tenho tentado me manter afastado de Jensen, quando ele me liga eu não atendo, quando ele me chama na sala dele eu mando Matt, saio mais cedo do Rotary e da empresa e larguei o meu emprego na lanchonete do Robert, mas isso eu já queria faz tempo. Tudo para evita-lo, só que isso estava me deixando pior do que eu já estava; irritado, carente, solitário e triste. E com tesão, com absoluto tesão por aquele loiro maldito.
Não consigo mais manter distância, vou invadir a sala dele hoje e implorar por desculpas pelo gelo que estava dando nele. Talvez dar para ele em cima da sua mesa deva ser gostoso.
Me despeço de Chad e passo no Starbucks antes de ir para a empresa.
Quando já são onze e meia resolvo que é o momento perfeito para mim por meu plano em prática.
Sorrio maroto para mim mesmo e ensaio o que eu vou dizer a ele e como vou dizer a ele e então vou para o elevador.
Dou um toquinho na porta dele e então entro, já começando a falar.
– Jensen? Eu... é... me desculpe. Preciso falar com você sobre os últimos dias e... – Olho para a mesa onde ele deveria estar e fico confuso. – Jensen?
Olho tudo em volta. Nada. Ele não está aqui. Suspiro e passo as mãos pelo rosto.
Será que está em horário de almoço? Não. A mesa dele está organizada demais para ele ter passado por ela e o computador branco de tela enorme da Apple está com a tela apagada.
– Droga! – Exclamo frustrado e irritado. – Que porra... deve ter tirado o dia de folga. Mas porque logo hoje?! – Saio da sala decepcionado, e já que não estava no meu cubículo, aproveito e vou tirar meu horário de almoço.
Desço para o térreo e atravesso a rua rápido, entrando pela porta do restaurante que eu almoçava de vez em quando que era propriedade de Stephen. Sento em uma mesa qualquer no canto e logo um garçom vem me trazer o cardápio. Escolho um macarrão ao molho marinara e uma cerveja long neck. Pego meu celular e confiro as chamadas. Nenhuma perdida. Uma mensagem do Chad. Apago.
Stephen tem esse restaurante só por hobby, é rico e não precisa trabalhar, herdou uma fortuna dos pais quando eles morreram acidentados, anos atrás.
Olho para os lados e suspiro e então vejo Stephen conversando com alguém no balcão e sorrio, ele olha para mim e eu aceno. Stephen se despede do cara com quem conversava aparentemente animado no balcão e vem até a minha mesa. Eu me levanto e nós nos abraçamos, sentando logo em seguida e ele na cadeira a minha frente.
– Jared! Que milagre você por aqui... – Ele diz rindo, apoiado nos cotovelos sobre a mesa.
– Não tenho dinheiro suficiente para pagar o seu restaurante todo dia, meu amigo. – Rio de volta, o restaurante dele não era um cinco estrelas, mas mesmo assim não era um lugar onde as pessoas vão almoçar todos os dias.
Stephen balança a cabeça e me olha.
– Já disse quantas vezes que amigos não pagam?
– Várias. E foram todas ignoradas. Se ficar sendo coração mole desse jeito vai à falência, Steph. Amigos? Amigos! Negócios a parte. Eu pago pelo que eu gasto. – Sorrio, falando de um jeito que não pareça arrogante, apesar dele conhecer o meu jeito de não aceitar comer de graça no restaurante dele, prefiro não soar como se fosse superior. – Ficou sabendo das novas? Chad arrumou um emprego.
– Você está certo, Jay. Mas eu te garanto que não vou deixar ele falir. – Ele ri, claro que não vai, nem se ele desse comida de graça para todo mundo iria falir. – Fique tranquilo, não ofereço isso a todo mundo, só a você e ao... ao Jus. – As maçãs das bochechas dele ficam levemente coradas e ele desvia o olhar para um ponto qualquer da mesa. – E sobre Chad sim, ele me mandou uma mensagem semana passada me convidando para ir comemorar no San Jac, mas eu não estava com cabeça aquele dia, Podemos ir, qualquer dia desses.
Sorrio bobo junto com ele. Ele está todo apaixonado, o loirinho.
– Porque não fala logo com ele?
Imediatamente ele entende o que estou falando e toma uma postura séria, como se não tivesse entendido o que eu tinha dito.
– Como? – Sua voz é bem atuada e sua expressão tão boa quanto.
– Não se faz, Stephen. Eu te conheço e sei que está perdidamente apaixonado pelo Justin.
Ele tenta fazer uma expressão de surpresa e incredulidade, mas a vermelhidão de constrangimento que sobe pelo pescoço alvo e se espalha pelo rosto dele o entrega.
– Como sabe disso? Eu nunca contei para ninguém... – Ele diz uma nota mais baixo, como se alguém fosse ouvir.
Ergo uma sobrancelha e o olho de volta.
– A quanto tempo somos amigos, Stephen? Três, quatro anos? Eu te conheço, meu querido amigo. – Sorrio. – Porque nega tanto? O que tem? Justin é solteiro e assumidamente gay, você também é solteiro e não tem ninguém que o impeça. Qual o problema nisso tudo?
Ele suspira e faz um biquinho, brincando com o guardanapo do lado dele e parecendo pensar longe.
– O problema é: E se ele não corresponder? E se eu me declarar e isso só servir para fazer com que eu e ele percamos a amizade e o contato que temos? Ser amigo dele é melhor do que não ser nada, Jay. – Stephen morde o lábio e então levanta o olhar para mim.
– Mas também não é melhor do que ser namorado dele. – Dou de ombros e meu almoço chega, junto da cerveja. Stephen pede uma cerveja para o garçom da mesma marca da que eu estou tomando. – Qual é, já pegou na bunda dele? É durinha, cara. Agora imagine pegar nela sem nenhum pano na frente.
Sorrio maroto e ele obedece a minha ordem irônica, olhando para o nada e abrindo a boca, quase babando.
– Hello!
Estalo os dedos na frente do rosto dele e é como se tivessem o acordado no susto.
– Deixa para imaginar obscenidades com meu amigo no banheiro. – Rio e ele cora mais ainda. – Já transou com algum outro homem?
Ele se ajeita na cadeira e fica engessado.
– Não, claro que não. Não sei o que é. Não me sinto fisicamente atraído por homens, só Justin foge a essa regra. Acha que ele sabe? – A carinha de pavor que ele faz é adorável.
– Se não sabe, pelo menos desconfia. Os olhares que você dá para ele não tem como não sacar.
Bebo um gole da minha cerveja direto do bico, apesar de ter uma tulipa para mim colocar a cerveja do meu lado. Levo uma garfada do macarrão a boca e faço um audível "hmmmm", sei que essa receita é do próprio Stephen e ele iria gostar de saber que eu gostei. É realmente bom. Funciona, pois o rosto dele muda para um de orgulho.
– Tenho que começar a ser mais discreto, não quero que isso atrapalhe nossa amizade. – Reviro os olhos e coloco os punhos na mesa, segurando a faca com uma mão e o garfo na outra.
– Qual é, Stephe! – Falo o apelido com ênfase. –, vai ficar nessa de adolescente apaixonado pelo resto da vida? Se não tomar uma atitude, saiba, Justin nunca tomará. Ele é o tipo de cara que recebe o pedido de namoro, não o faz.
Sorrio e levo mais uma garfada na boca.
– Está gostoso? – Ele pergunta como quem não quer nada.
– Uma delícia. Chame o cheff para mim agradecer.
Gargalho junto com Stephen, ele sabe que eu sei que o prato é receita dele.
– Quanto ao Justin eu preciso pensar. Não quero estragar tudo, mas também não quero ficar na dúvida para sempre. Acha que tenho chance?
Sorrio de canto, malicioso.
– Claro. Malhado e gostoso desse jeito, olhos verdes, loiro, rico e com uma bunda enorme. Quem não iria querer?
Rimos juntos e então ele fica bebericando sua cerveja até eu terminar de comer e tomar a minha. Olho no relógio. Quase duas horas, tenho que voltar para a Marshall, o tempo passou voando, geralmente eu almoço com não mais que vinte minutos, conversando com Stephen foram quase duas horas.
– Eu preciso ir, Steph. Trabalho me chama. – Sorrio para ele, nos abraçamos e eu deixo o dinheiro da conta em cima da mesa, junto com uma gorjeta para o garoto que me atendeu muito bem e educadamente. – Vamos sair hoje à noite? Preciso conversar com alguém... – O convido antes de ir ele me olha animado.
– Claro, cara, faz tempo que a gente não sai sozinho. Passo na sua casa as nove.
– Okay, até lá.
Volto para a empresa, correndo pela rua movimentada. Preciso desabafar com alguém, e este é o Stephen. Vou contar tudo a ele, preciso dividir isso com alguém antes que pire.
Part THREE: JENSEN
Depois de colocarmos o papo em dia, mamãe me contar tudo o que tem feito para se distrair agora que não estava mais trabalhando e ela me entupir de comida, estamos sentados no jardim dos fundos, ela com suas agulhas na mão tricotando e eu só sentindo aquele clima calmo de cidade pequena, e apesar de Dallas não ser pequena, o bairro que eu sempre morei, e o que a minha mãe ainda morava, trazia essa sensação de calmaria e quietude.
– Então quer dizer que Thomas está viajando? – Ela me pergunta como quem não quer nada.
Olho para ela e dou de ombros.
– É. A empresa dele. Já viajou várias vezes a negócios, estou acostumado. – Dou um sorriso meio amarelo.
– Então o que tá te incomodando? Pensei que pudesse ter a ver com seu namorado estar fora a alguns dias, mas parece que não. O que foi, Jen? E não minta para a sua mãe.
Ela me olha com aquele olhar que não admite mentiras nem desculpas esfarrapadas e eu suspiro. Preciso conversar com alguém, de qualquer forma, que seja minha mãe que não vai me julgar.
– É. Tem algo sim. – Mordo o lábio e desvio o olhar. – Vou te contar uma coisa, mas quero que fique só entre nós. Tudo bem? Não conte para Mack nem para ninguém, okay, mãe?
– E desde quando eu sou fofoqueira, garoto? Olha como fala hein.
Eu rio e ela me acompanha, pois sabe que tem a língua solta, mas confio nela e sei que não vai contar o que eu lhe pedir a ninguém.
– Tem um cara... – Começo e faço uma pausa então minha mãe me incentiva.
– Um cara, hmm...
– Tem um cara que eu conheci lá no Rotary, mãe. Eu estava na piscina, fazendo meu treino semanal e quando eu submergi lá estava ele, na borda da piscina, me olhando lá de cima e sorrindo o sorriso mais bonito que eu já vi. – As lembranças vem a minha mente como se tivessem sido ontem, eu na água, Jared sorrindo para mim e então pedindo para usar minha raia. – Ele pediu se podíamos dividir a raia, mas obviamente estava tentando puxar conversa. A raia não era minha, ele não tinha que pedir permissão. Né? – Olho para ela esperando que ela concorde e ela meneia a cabeça dizendo que sim. – Então ele pulou na piscina e eu sai, fui tomar uma ducha e novamente ele estava atrás de mim, perguntando coisas que eu nem me dei ao trabalho de escutar, só concordei e fui me trocar. Aí depois disso eu saí do clube e fiquei sentado num banco lá na frente e ele sentou do meu lado e de novo tentou ficar puxando assunto. Eu... sei lá, não dei moral para ele. O cortei todas as vezes, mas isso obviamente era ele tentando falar comigo, né?
Minha mãe levanta uma sobrancelha e balança a cabeça.
– Claro, filho. Continue, e se puder dê uma encurtada na história, estou ficando nervosa.
Eu rio meio nervoso e ela me acompanha.
– O caso é que parecia que onde eu ia depois daquilo eu via aquele cara, em todos os lugares, parecia que ele era um tipo de fantasma ou que estava me perseguindo. Então teve um dia... droga ele é muito atraente e muito sexy, eu fui pra cima dele num banheiro de uma balada e ele correspondeu.
Mamãe paralisa e me olha séria, como ela fazia antes de me bater quando eu era menor.
– Espera, você transou com um desconhecido numa balada, Jensen Ross Ackles? Você está querendo pegar um HIV?
– Calma, mãe. Eu não transei com ele, foram só alguns beijos. E aí ele saiu correndo. – Suspiro e mordo o lábio. – O caso é que ele também trabalha na Marshall, como Técnico em Informática, é o melhor do setor dele.
– Jensen, chegue logo ao ponto. Vocês o que, transaram uma vez e você está com medo de contar ao Tom?
Dou uma risadinha de escárnio, quem dera fosse só isso.
– Quem dera fosse só isso, mãe. Na verdade, no começo eu achei que era, eu achei que estava só muito atraído por ele, porque, Deus, ele é gostoso, mas então... então eu convenci ele a transar comigo e desde então é o que temos feito sem parar. – Falo tudo de uma vez e então olho para ela, com uma cara de culpa, ela está boquiaberta. – Ele também tem namorado. Mas a pior parte é que eu acho que estou apaixonado.
Depois que eu complemento, minha mãe parece ficar mais chocada ainda, mas não de um jeito me julgando, parecia só estar processando tudo. Suas mãos que nunca paravam de tricotar descansaram sobre o colo.
– Nossa... isso é... nossa. – Ela diz olhando para o chão. – Tom sabe?
– Claro que não, né.
– E o que esse cara sente em relação a você? É só sexo? Ou tem algo a mais?
– Eu não sei. Eu quero que seja algo a mais, mas ao mesmo tempo eu não me vejo terminando com o Tom para ficar com ele. Sabe... eu e Tom estamos juntos a quase quatro anos, Jared e eu estamos vivendo isso a menos de seis meses.
– Jared?
Fecho os olhos e aperto os lábios, tinha falado besteira. Não queria falar o nome dele. Droga!
– O nome dele é Jared.
– Por que você não se vê largando o Tom para ficar com ele? Não disse que está apaixonado? Quer dizer, eu estou vendo isso. Seus olhos estavam brilhando enquanto você falava dele.
– Mãe... é complicado. Eu e Tom temos uma vida juntos. Estamos praticamente morando juntos e...
– Praticamente? Sério, Jensen? Você não vê porque não quer ou se esforça?
– Eu não...
– Você não o ama mais, filho. Só está acomodado. Não quer largar o que tem com ele porque é fácil, é o que já está ali, na sua mão. Mas quer viver assim pra sempre?
Suspiro e mordo o lábio, ficando em silêncio e olhando para o chão, enquanto passo a mão pelos meus cabelos arrepiados.
– Como eu ia dizer tem uma coisa ainda. Ele disse que iria terminar com o namorado dele... – Mamãe solta uma risada irônica. – Eeei, eu não sou tão idiota, mamãe. Ele não disse vou largar meu namorado para ficar com você, ele ia terminar porque o namorado é um babaca que estava o sugando de todas as formas. Estava desempregado a quase um ano e só Jared sustentava a casa que eles moravam...
– Mas...? Por que ele não terminou?
Olho para ela.
– Não sei. A umas três semanas que ele tem sido meio seco comigo, não nos falamos direito e ele fugiu de mim sempre que tentei alguma coisa. E no sábado descobri através de um amigo dele que o namorado tinha arrumado um emprego. Então tirei minhas próprias conclusões, eles devem ter se acertado e agora eu vou para escanteio.
– Não é bem assim. Vocês estão nisso a meio ano. Não é como se tivesse sido uma vezinha só. Ele vai falar com você se não quiser mais, não acha?
– Acho. Mas eu não quero que ele não queira mais. Não quero largar o Tom, mas também não quero que Jared me largue. O que eu faço, mãe?
Olho para ela desesperado, estou sentado na grama, e ela numa cadeira, então olho-a de baixo e ela passa a mão no meu cabelo carinhosamente.
– Vai ter que se decidir. Duvido que eles queiram ficar te compartilhando por muito tempo. Jared ou Tom, Jensen.
– Mas como eu posso decidir por algo que não é meu? Jared tem a vida dele e...
– Se você achasse que não tem nenhuma chance teria seguido em frente. Eu te conheço, meu filho. Quando você sabe que não terá chances você desencana, mas se percebe que pode ter alguma, vai até o fim. Vai ter que decidir. – Ela dá de ombros e volta com o tricô.
Fico quieto, perdido nos meus próprios pensamentos o resto do dia. Conversar com ela me fez bem, talvez perceber algumas coisas que eu não via por que não queria.
No fim da tarde, nos despedimos as lágrimas e eu prometo voltar com mais frequência agora. Principalmente no natal. Ano passado fiquei com os pais do Tom nas festas de fim de ano.
Meu carro está parado no semáforo, esperando ele abrir para mim seguir para o apartamento. Quando olho para o lado, para a calçada, o pânico toma conta do meu corpo inteiro. É aquele homem. O que tentou me estuprar no banheiro do San Jac.
Meu olhar fica travado nele e então ele olha diretamente para mim. Sou despertado do meu ataque de pânico quando o cara no carro de trás buzina para me alertar que o sinal já abriu, então eu piso fundo no acelerador para chegar em casa o mais rápido que eu posso e assim que chego ao prédio, subo as escadas correndo e me tranco no meu apartamento, ficando escorado na porta e tentando controlar minha respiração ofegante enquanto lágrimas brotam dos meus olhos.
Part FOUR: JARED
Estou com Stephen em um barzinho de periferia que ele disse ser bom, nunca tinha vindo aqui, mas pelo menos é um pouco mais privado, não tem muitas pessoas e a música não é tão alta.
Ele me conta algumas coisas sobre o restaurante, diz que está bem confiante sobre os lucros, apesar de aquilo ser um hobby, o estava deixando ainda mais rico.
Depois de três cervejas eu desabafo.
Conto tudo sobre meu caso com o Jensen, desde a piscina até o banheiro daquela balada, e então ele começar a ir atrás de mim e me propor o sexo, e então não conseguirmos mais parar. Não disse nada sobre o acontecido com ele no banheiro do San Jac, Jensen pediu para mim deixar aquilo entre nós e eu iria respeitar.
Conto também as vezes que eu tentei terminar com Chad mas acabei desistindo, e quando finalmente tinha tomado coragem ele fez a surpresa. Stephen parece meio chocado com tudo aquilo, acho que nunca iria imaginar que eu pudesse ter um caso com alguém. Ele sempre disse que eu sou o todo certinho.
– E então, Stephe, o que eu faço? Eu acho que vou ficar doido com tanta coisa na minha cabeça. – Suspiro e tomo um longo gole da minha cerveja, enquanto ele toma um gole da dele e a coloca sobre a mesa.
– Você acha que o que você e Jensen tem é só sexo?
Ele me olha daquele jeito intenso e eu não consigo mentir.
– Deveria ser... mas...
– Mas não é. Nunca é. Não dá pra ficar transando com alguém só por transar, se você se importar minimamente com aquela pessoa. Não dá para desligar os sentimentos, Jay. Você está apaixonado, e o modo como vou fala dele... nossa. É mais intenso do que qualquer um que você já tenha me contado.
– Ele é diferente dos outros com quem já saí. Não sei de que jeito, mas é.
– Então vai ter que lutar por ele. E tem que começar ficando desimpedido. Caso contrário só vai piorar tudo e magoar mais pessoas. Você não ama mais o Chad, você gosta dele. Mas gostar de alguém não é suficiente para passar o resto da vida ao lado dessa pessoa. – Stephen bebe mais cerveja e passa a mão pelo rosto. – Você é jovem, Jared. Não desperdice a sua vida com alguma coisa que você não vai levar no futuro...
Suspiro. Ele tem razão.
Depois disso bebemos mais e mais e quando me dou conta já estou na casa do Stephen. Estou muito bêbado para ir para casa, então ele me convidou para dormir na casa dele.
Na manhã seguinte, acordo com o sol batendo na minha cara, estou só de cueca e enrolado em lençóis. Estico os braços e toco um corpo. Não estou sozinho na cama. Levanto o lençol e arregalo os olhos ao ver Stephen dormindo pelado do meu lado.
Deus, não! Não podemos ter feito isso.
Continua...
