No dia 27 de maio, o rei e a rainha ofereceram um banquete em comemoração ao vigésimo primeiro aniversário de Madame. A Princesa Palatina parecia muito melhor de saúde. Após a celebração, os Duques de Orléans, o Chevalier de Lorraine e a Duquesa de Cassel iriam para Saint-Cloud. Monsieur fazia absoluta questão que o filho nascesse em sua própria casa. O rei inicialmente tentou dissuadi-lo, mas acabou respeitando o desejo do irmão. Andavam em termos tão bons que Louis temia insistir e a acabar estragando a trégua fraternal que se instaurara entre eles.

Marie-Thérèse estava desolada porque tinha grande estima pela jovem cunhada e sentia que sem ela Versailles perderia boa parte da alegria. Madame de Maintenon era uma mulher honrada, mas às vezes um pouco enfadonha. A leveza de Liselotte faria falta.

Madame estava tão entediada com o repouso forçado a que fora submetida, que pela primeira vez na vida se sentia animada com a perspectiva de um evento. Chegara ao extremo de deixar Sophie escolher a roupa e as joias que usaria. Era uma pessoa de gostos bem austeros para os padrões da corte francesa e do marido. Por muitas vezes notara que a sua simplicidade o deixava desapontado. A família real estava acostumada ao padrão da bela Henriette. Liselotte tinha consciência de seu valor pessoal, mas sabia que seu forte era o lado intelectual e não a elegância. Logo que chegara, o rei se surpreendera com seu ótimo domínio do francês, infinitamente superior ao da rainha, que apesar dos muitos anos vividos na França, não perdera o acento espanhol e permanecia sem desenvoltura no idioma.

Marie-Thérèse havia se empenhado em escolher um belo presente para a cunhada. A Marquesa de Maintenon tentara influenciar, tanto o rei quanto a rainha, mas não obtivera resultado com nenhum dos dois. Insinuara a oferta de um missal encadernado em madrepérola ou de um fino terço. O rei não se manifestara. A rainha ouvira educadamente as sugestões, contudo acabara decidindo sozinha, de acordo com seu próprio julgamento, imaginando o que assentaria bem na cunhada.

Bontemps oferecera a Madame um antigo volume de poemas de François Villon . Ele sempre a mantinha abastecida de bons livros. Sophie presenteara Madame com três pares de belas luvas de camurça. Liselotte ficou muito agradecida pela lembrança.

-São tão lindas! Posso usá-las também para cavalgar e caçar. Gostei muito.

-Fico feliz, Alteza. Agora com a herança posso dar presentes bonitos aos amigos.

As duas sorriram. Havia uma caixa retangular fechada sobre a mesinha.

-O que é?

-Ainda não sei. É do Chevalier. Confesso que estou com um certo receio de abrir.

-Posso?

-Por favor...

Sophie desfez o laço. Dentro da caixa estava cuidadosamente dobrada uma rica mantilha branca, feita de renda finíssima.

Liselotte recebeu-a das mãos de Sophie. Ficou encantada com a leveza e a textura.

-É magnífica. Deve ter sido muito cara. Preciso agradecer ao Chevalier de Lorraine. Ele tem muito bom gosto.


Quando apareceu pronta, não deixou de registrar as expressões do Chevalier de Lorraine e do marido. Percebeu que estava com uma boa figura porque o Chevalier de Lorraine ficou mudo. Isso significava que ele não encontrara nela nenhum motivo de zombaria ou crítica. Usava um vestido azul escuro de tafetá no feitio "robe battante". O traje não tinha a cintura marcada, recebendo um panejamento que se abria progressivamente como um espécie de túnica ampla. A Montespan introduzira esse tipo de roupa com o objetivo de dissimular a gravidez. Liselotte permitira que lhe fizessem cachos largos, presos no alto da cabeça. Por sugestão de Sophie, aceitara colocar o par de brincos e o pingente de rubis que ganhara da rainha Marie-Thérèse.

-São presentes de meu irmão?-perguntou Philippe, com ar aparentemente desinteressado.

-Na verdade, vieram em nome da rainha. Magníficos, não?

-São, sim. Ela deve gostar muito de você.

Liselotte sorriu, meio sem jeito. Philippe olhava-a atentamente, dos pés a cabeça, sem dizer nada. Isso não a desestimulava, porque ele nunca se mostrara apreciador do seu estilo. Mas pelo menos, naquela noite comemorativa, ela não o envergonharia. Sophie de Clermont franziu o cenho. Achou que Madame merecia um belo elogio, pois estava muito bonita. E alguma demonstração, senão de afeto, ao menos de apreço. Mas não disse nada.

-Fiquei encantada com a mantilha, Chevalier. Nunca tive uma tão bonita.

O Chevalier de Lorraine sorriu satisfeito e fez uma discreta inclinação de cabeça. Também notou que Philippe tinha um ar de surpresa. Sophie achou muito estranho que nem o rei nem Monsieur tivessem dado nada à Princesa Palatina. Mas, afinal, aquilo não era de sua conta. Saíram os quatro.


O banquete estava animado. Vinho e pratos excelentes. Lá pela metade, o rei resolveu levantar um brinde à aniversariante.

-Saúdo minha cara cunhada, a Princesa Palatina. Desejo-lhe vida longa e feliz entre nós, a sua família.

Após o brinde, o rei fez um sinal e um criado chegou com um cesto coberto e apresentou-o a Liselotte. Ela deu um gritinho de felicidade. Lá dentro havia um cãozinho. Um filhote de galgo. Pegou-o logo no colo.

-Obrigada, Majestade! É um presente maravilhoso.

O rei sorriu, a rainha e a Maintenon também. O Chevalier notou que Philippe não gostara, pois fez uma cara muito feia, mas nada disse. A esposa estava radiante. Perguntou discretamente.

-O que houve? Está com uma cara péssima. As pessoas vão notar. Seu querido irmão vai notar.

Philippe falou entre os dentes.

-Louis é um irresponsável. Agora minha esposa vai ficar às voltas com o cãozinho, vai fazer esforço, ficar se abaixando. É arriscado, entende?

Entender o Chevalier até que entendia, mas daí a a ficar convencido...

-Aliás, o que você deu a ela?

Philippe ignorou a pergunta e passou o resto da noite de cara emburrada.