CAPÍTULO IX

Usagi deu uma risada. Caminhara em direção à surrada cama de solteiro, improvisada como sofá com o acréscimo de três almofadas e um pano colorido, e ali espalhou-se com as pernas esticadas.

— Casar? Não seja ridículo. Nós não estamos mais na Idade Mé dia. No caso de você não ter entrado ainda no século XXI. Hoje em dia mulheres engravidam e têm os seus bebés de forma eficiente e autónoma.

— Óptimo para elas. — Mamoru reagiu com indiferença. — Feliz mente a vida delas não tem nada a ver comigo. — Ele previa que Usagi protestasse, mas estava mais do que preparado para ouvir as objecções dela. Ela casaria, sim, e a ideia estava longe de desagradá-lo. O destino lhe concedera uma oportunidade, e ele não pretendia desperdiçá-la.

Usagi apertou uma almofada contra o peito. Casamento sem amor. Apenas mais um negócio proposto por ele, igual ao primeiro, que ela foi uma idiota ao aceitar. Por mais moderna que pudesse ser, não aceitaria tomar parte em uma união sem amor. Isso significaria dias, anos de amargura, de espera silenciosa pelo impossível. Iria se tornar um peso amarrado aos pés de Mamoru, que ele suportaria sem reclamar pelo bem do filho.

— Olha, Mamoru... — Usagi controlou o tom de voz, na tentativa de ser persuasiva. — Nós dois sabemos por que a gente se envolveu, e nós dois sabemos quais eram as regras desse envolvimento. Sem compromissos, o que dizer de casamento. — Como ela queria ter descoberto antes o que agora sabia, que Mamoru era um homem capaz de subtrair a emoção de qualquer situação. Sem emoção, tudo era possível, até mesmo casar-se com uma mulher que não amava. Ele teria relaçõs sexuais com ela até enjoar e, então, discretamente, conduziria uma vida privada fora do casamento. O filho o manteria ligado ao lar.

— Isso era antes, agora o momento é outro.

— Eu simplesmente não posso me casar com você. Eu não poderia me casar com ninguém sem amor. Por que você acha que nunca me casei com Motoki? Lá no fundo eu sabia que nunca poderia me casar com ele, pois não havia ali o tipo de amor que fizesse um casamento funcionar.

Mamoru simulou um riso curto e gozão.

— E que tipo de amor é esse, Usagi? O que leva uma cereja vermelha no topo?

— Você é tão cínico! — rebateu Usagi. — É o tipo de amor que mantém os meus pais juntos! E os seus pais, também!

Mamoru deu de ombros.

— Eles pertencem a uma geração diferente, e não costumo fugir das minhas responsabilidades.

— Não estou pedindo que fuja de nada! — protestou Usagi, de sesperada. — Quando o bebé nascer, você poderá visitá-lo quando quiser...

— Quando o bebé nascer, não haverá necessidade disso, porque vai estar morando comigo, sob o meu teto, como a minha mulher. Eu não vou ter um filho meu nascendo de forma ilegítima... — Mamoru levantou a mão para impedir que Usagi, abismada, voltasse a protes tar. — Não perca tempo em me dizer que ilegitimidade é a regra nos dias de hoje. De onde venho, bebés nascem de um matrimónio.

— De um matrimónio feliz. — Disse Usagi com voz trémula.

— Matrimónio feliz é um matrimónio que dá certo, e temos os ingredientes para que o matrimónio dê certo. Nós gostamos um do outro, a gente se entende muito bem na cama, vamos ter um filho, e, por último, sem o amor para embaralhar as coisas, a nossa relação tem ainda mais chances de sobreviver.

O último argumento, Mamoru sabia, era o mais importante para convencê-la. Frio e lógico. Nada de mencionar as noites em que ele se angustiara, quando a sua imaginação batia asas e se recusava a voltar à Terra. Lidaria com isso sozinho.

— E depois, quando... o entendimento na cama começar a min guar?

Mamoru olhou para baixo por alguns instantes. Minguar? Esta mu lher o fazia sentir vivo de forma sensacional. Ele seriamente não podia imaginar o dia em que não a desejaria na cama.

— Por que se preocupar com algo que ainda não aconteceu? — perguntou Mamoru. — Agora, para quem você contou sobre... isso? Para os seus pais? Amigos?

Usagi fez-se de indiferente. Os pais podem ter engolido a vida dela em pecado com Motoki, mas solteira e grávida de um homem que eles não conheciam e que não figuraria como parte integrante da vida dela dali por diante era uma coisa bem diferente.

— Você é a única pessoa que sabe, e começo a me arrepender de não ter ficado com a boca fechada.

— Eu não ficaria se fosse você. — disse Mamoru de forma severa.

— Não ficaria o quê?

— Pensando no que teria acontecido se não tivesse me contado. Cedo ou tarde, eu descobriria, e você iria desejar não ter nascido.

— Se é assim que pretende me convencer a casar...

— Pense a respeito, Usagi. Como acha que eu reagiria? Como qualquer homem normal reagiria?

— Um monte dos chamados homens normais respiraria aliviado por não ter recebido o fardo de criar uma criança vinda do nada!

— Não há sentido em ficar discutindo isso até a eternidade. Quan do você pretende contar para os seus pais?

— Logo — disse Usagi, incomodada.

— E o que você acha que eles vão dizer de você morando aqui sozinha e grávida?

Não muito, Usagi especulou, com a pior das sensações. Certa mente não aplaudirão de alegria. Mais provável que mostrassem a sua decepção pelo silêncio.

— E o que eles vão dizer quando descobrirem que o pai da criança propôs casamento e você recusou?

O quadro se tornaria ainda mais desastroso.

— E como eles descobririam isso?

— Eu contaria, naturalmente.

— Isso é chantagem emocional!

Mamoru absteve-se de informá-la que faria isso e muito mais para recolocá-la de volta na vida dele, o lugar ao qual Usagi pertencia. Nem mesmo o seu orgulho, que o alfinetava a cada vez que ele ima ginava Usagi o afastando com um aceno após o sexo, era capaz de demovê-lo do desejo, da necessidade de tê-la de volta.

— Claro — continuou Mamoru, sem hesitar, sem alterar o tom de voz, como uma escavadeira a forçar o solo firme. — E isso não vai ser nada comparado ao que o nosso filho vai sentir daqui a alguns anos, quando ele ou ela entender que uma vida em família havia sido pos sível, mas que a mãe teimosa...

Usagi ficou de queixo caído diante dos artifícios de Mamoru.

— Você não seria capaz — disse Usagi, quase sem voz.

— Eu seria, sim. Agora, vamos logo com isso.

Antes que Usagi pudesse se mover, Mamoru já estava junto à cómoda, gavetas abertas, colocando as roupas sobre a cama. Para ser mais preciso, em cima dela.

O branco na cabeça de Usagi se desfez, e ela começou a recolher as próprias roupas amontoadas, ao mesmo tempo que exigia dele explicações.

Mamoru parou por um instante e olhou firme para Usagi.

— Vamos tirar você daqui, obviamente. Você vai vir comigo.

— Coloque essas roupas de volta nas gavetas! Agora!

— Você vai acordar os vizinhos se continuar gritando desse jeito. Onde estão as suas malas? — Mamoru não lhe dera tempo para respon der. Checou embaixo do sofá, o único lugar em que elas poderiam estar, e, decidido, puxou-as e começou a forrá-las com as roupas. — O resto vai ter que esperar até amanhã. Eu venho com Nicholas buscar o que sobrou. Como você mudou para cá, por falar nisso? Quem ajudou-a?

— Você não pode fazer isso! Eu não vou me casar com você, Mamoru Chiba!

— Não me diga que ficou trazendo as coisas por etapas, por conta própria, no seu estado.

— No meu estado? Eu estou grávida, não estou doente!

— Bem, enquanto estiver comigo, você não vai ficar carregando nada pra lá e pra cá. Você precisa se poupar. — Mamoru alongou os músculos e partiu para a cozinha, com Usagi em seu encalço.

— Eu disse. Eu não...

— Ótimo. Você guardou umas caixas. Isso aqui está bom para começar. — Ele puxou uma das caixas de papelão de debaixo da mesa. — Sente-se. Eu vou empacotar logo umas coisas por aqui. Menos trabalho para amanhã.

Usagi sentou-se. As suas pernas estavam bambas. E como não ficariam?

— Você não pode simplesmente entrar aqui e tomar conta da mi nha vida dessa maneira!

— Eu posso e estou. Esta é toda a comida que você tem neste lugar? — Mamoru olhou espantado dentro do armário da cozinha, praticamente vazio. Um vidro de café, açúcar, legumes e atum enlatados. — Você tem comido alguma coisa?

— Claro que sim! — O sentimento de culpa deixou-a na defensiva.

— Você nem tocou na comida nesta noite, eu percebi.

— Você vai me culpar? Eu estava me sentindo um pouco nervosa por ter de contar tudo!

— Você precisa, acima de tudo, dê supervisão para garantir que você coma direito. — Mamoru abriu a geladeira, quase tão vazia quan to o armário.

Supervisão? Isso está ficando absurdo. E, por favor, feche esta geladeira? O motor começa a falhar quando ela fica aberta por muito tempo!

Mamoru fechou o frigorifico sem alarido, encostou-se nele e encarou Usagi com um olhar de censura.

— Isso diz tudo sobre este lugar, não é mesmo? O seu senhorio tem de ser denunciado. Por falar nisso, eu acho...

— Tudo bem! Eu volto para o apartamento. Tenho certeza de que a Haruka não se importará...

— Você vai comigo agora, e amanhã vamos às compras. Comprar as alianças. Depois, vamos cuidar da papelada. Você vai ligar para os seus pais, e eu vou ligar para os meus.

— Eu nem ainda contei para Motoki — sussurrou ela.

Usagi neste instante se sentiu muito frágil. Acomodou a cabeça entre os braços, sobre a mesa.

Desligou-se inclusive da presença de Mamoru, até ele tocá-la na cabeça. O gesto proporcionou a ela uma sensação de alívio. Ouviu-o então arrastar a outra cadeira e sentar-se ao seu lado.

— Que confusão — definiu Usagi, virando-se para olhá-lo, mas sem tirar a cabeça da mesa.

— Por que você está tão chateada por não ter contado a Motoki? — Mantenha a tranquilidade, Mamoru ordenou-se, nada de ameaças. A simples menção do nome daquele fracassado era o suficiente para acender a raiva dentro dele. Num momento como este, a última pes soa em quem ela deveria pensar era no ex-namorado.

— Nem havia pensado antes em contar para ele — admitiu Usagi.

Mamoru ficou tentado a abrir um sorriso. Controlou-se e continuou a acariciar os cabelos dela.

— E por que deveria? Sua mente deve estar um pouco fora do lugar. Estou surpreso que você consiga pensar de forma coerente.

— É, acho que sim. — Usagi levantou a cabeça. Os olhos grandes e azuis dela brilhavam ainda mais devido às lágrimas.

Um pensamento perturbador golpeou Mamoru com força. E se ago ra que ela podia estabelecer uma comparação, Usagi deduzia que o que sentia por Motoki era mesmo amor? O amor genuíno, aquele amor que ela não sentia por ele, Mamoru? Ele tinha consciência de que poderia ser arrogante e, na verdade, egoísta. E se Usagi decidira que era preferível a atitude não-estou-nem-aí-com-a-vida do ex-namora do ao monstro que não se importou em manipular a vida dela para conse guir o que queria? Não era assim que ela o via?

Mamoru trincou os dentes de dor e incerteza. Adicionou às duas sensações à já longa lista de sentimentos que transgrediam o autocontrole de ferro, a capacidade de concentração e o domínio completo sobre a própria vida, traços que ele considerava características da sua personalidade.

— Bem — Mamoru levantou-se, impaciente consigo mesmo. — Não faz sentido ficar perdendo tempo aqui. Vamos.

— Está bem. Eu vou com você, Mamoru, mas nada de alianças e nada de papelada.

— Vamos ver.

Usagi não embarcou em mais uma discussão infrutífera com ele. Por agora, ela iria para o apartamento dele e se asseguraria que dor miria no quarto de hóspedes. Amanhã, lhe diria o que tinha para dizer, imporia os seus limites, afirmaria as suas vontades, caso con trário, acabaria fazendo exatamente o que ele queria. Este era o seu maior temor. Seria conduzida a isso não por crer que o casamento era a única ou a melhor opção, mas porque a ideia de passar o resto da vida com o homem que ela amava era perigosamente sedutora.

A descoberta das manobras de Mamoru em relação ao emprego ha via feito Usagi parar para pensar, e ela sabia que ou se agarrava ao que aprendera com o episódio, ou os riscos agora seriam maiores.

Somente ao deitar-se sozinha na cama, uma hora mais tarde, Usagi começou a sentir a pressão.

Ela conseguiu o que exigira, a solidão da cama do quarto de hós pedes, mas isto estava longe de ter um sabor de vitória. Mamoru ce deu à menor das reivindicações dela. E ainda assim, por quanto tempo? Ele não retornara ao tema casamento, mas Usagi não duvi dava que na manhã seguinte a ofensiva seria retomada. Pelo menos, ele não tentara tocá-la, pois ela como sempre teria sucumbido aos seus braços.

A angústia lhe tirou boa parte do sono e aumentou quando, duran te o resto do fim de semana, o assunto alianças, casamento e papelada não voltou à baila.

Eles passaram o sábado fazendo compras. Não em joalherias, mas em lojas de roupas femininas. Ela precisaria de trajes para gestantes, ele a assegurou. A dedicação dele até a sensibilizaria, se Usagi não estivesse tão ocupada em se proteger da perigosa rede com a qual Mamoru ameaçava envolvê-la.

Ele insistia em levá-la ao sector de alimentação da Harrods, deter minado a ver se ela já poderia ter desejos de grávida. Usagi, relutante, acabou achando graça no esforço dele.

Toda a preocupação de Mamoru não era fingimento. Após o choque inicial, ele se surpreendia por se adaptar de maneira tão fácil à ideia de inserir uma criança em sua vida. Uma criança e uma esposa. Por que Usagi seria dele. No entanto, concluíra que forçar a situação como fizera no apartamento dela não serviria a nenhum propósito.

Usag era obstinada, e o erro dele foi pensar que ela docemente ouviria os seus argumentos e aceitaria a sua proposta. Equivocou-se pelo desespero em tê-la.

Para alguém que cresceu em uma realidade dura, que batalhou para vencer todas as adversidades, Usagi tinha uma visão romântica de amor e casamento. E essa visão não o incluía. Não ainda.

Mamoru passaria a maior parte da semana seguinte fora do país. O fato aliviou e ao mesmo tempo desapontou Usagi. Aliviou-se porque disporia de um tempo só para si para decidir como lidar com o pre sente impasse. Desapontou-se porque, gostasse ela disso ou não, sen tiria saudade dele.

— Eu quero voltar na quinta-feira e encontrá-la aqui... — disse Mamoru. Ficou claro o tom de alerta dele ao se despedir na segunda-feira pela manhã.

— Certamente, não vou voltar para o meu apartamento, já que você disse ao senhorio que ele não veria mais a cor do meu dinheiro e o ameaçou, insinuando que colocaria fiscais atrás do pobre homem, se ele não melhorasse o estado do edifício. — Vestida também para o trabalho, Usagi lutava contra o violento impulso de aproximar-se de Mamoru e beijar aqueles lábios que insistiram em ficar longe dela du rante todo o fim de semana.

Mamoru deve ter lido os pensamentos de Usagi, porque ele deu um beijo delicado, beijo que evoluiu para um explosivo, faminto.

Com as pernas bambas, Usagi se agarrou à lapela do casaco de Mamoru, puxando-o ao encontro dela, para sentir a língua dele invadir cada centímetro possível da sua boca.

Usagi tremia como uma folha de árvore quando, finalmente, eles se separaram. Ela podia admitir ou não, mas o seu corpo se recor dava do dele e o desejava de volta.

Usagi afastou-se, e Mamoru ficou muito tentado a segurá-la, antes que ela tivesse tempo para recuar. Entretanto, Mamoru decidira dar um tempo. Na quinta-feira, ele voltaria e daria um basta nas hesitações dela. Usagi o desejava tanto quanto ele. Com o beijo, não restava dúvidas. É verdade que ela deixara claro que não o amava, mas, por carregar o filho dele, se casaria, sim.

Ele não mais permitiria que Usagi passasse as noites no quarto de hóspedes. Até quando iria aquela novela? Daria para ela todo o tempo do mundo para se adaptar à novidade, assumiria um papel de pai coadjuvante e depois veria chegar o dia em que Usagi arrumaria as malas para seguir com a vida que ele lhe permitira levar? Não. Casa mento, cama de casal e uma vida a dois. Tudo poderia ser ajustado, uma vez que esses três pilares estivessem plantados.

Mamoru há semanas não sentia a satisfação que exibia ao sair para o trabalho. Usagi, que fechou a porta após a partida dele, não estava nada satisfeita. Pelo contrário, deixava-a furiosa o modo como ele, educadamente, sem remorsos ou maiores reflexões, baixava leis para as quais esperava completa obediência. Não podia continuar moran do com Mamoru, porque ele acabaria passando um rolo compressor por cima dela. O amor de novo a faria de idiota.

Pela primeira vez desde que começou no emprego, Usagi se pe gou distraída no trabalho. Era muito tarde para fugir? Mamoru a encon traria aonde fosse, e a raiva dele não teria limites. De qualquer modo, ele era o pai do seu bebé, e ela nunca poderia fugir daquela obrigação moral com o filho. Mas deixaria o apartamento dele. Mamoru só volta rá na quinta. Tempo mais do que suficiente para empacotar as suas coisas e ir embora. Não tinha como voltar para o apartamento em Wimbledon. Também não para o que Mamoru lhe arrumara, pois dali ele a tiraria facilmente. Só restou um lugar. A casa de Motoki.

Às 18h30, de banho tomado, trocada e com o pequeno telefone celular na mão, Usagi, mesmo sentindo-se culpada, ligou para Motoki. No momento em que ouviu a voz do ex-namorado do outro lado da linha, ela se convencera de que a última coisa que poderia fazer era voltar para a casa dele. Aquela casa, Motoki e tudo que eles compar tilharam pertenciam agora a um outro mundo. Desde então, ela dera passos gigantescos, para o bem ou para o mal, e não tinha como voltar atrás.

Contudo, foi maravilhoso ouvir a voz de Motoki, especialmente por ela sentir-se tão frágil. Num impulso, ela o convidou para uma visita, decidida a contá-lo sobre a gravidez. Ele não seria capaz de dizê-la o que fazer. Não tentaria suavizar a situação incómoda. Motoki era acima de tudo uma pessoa prática em lidar com a vida. Sentia-se infeliz e então mergulhara na bebida. Eles não se entendiam mais, e ele então terminara tudo. As soluções do ex-namorado não eram as mais recomendáveis, mas a franqueza dele, a falta de papas na língua, a animaria.

Quando, quarenta minutos depois, Motoki chegou, Usagi parecia ver um estranho. Ele era mais baixo do que ela lembrava, e o rosto bonito que fizera o coração da menina de 16 anos acelerar não podia ser comparado à beleza agressiva de Mamoru.

Usagi piscou, sorriu e se encheu de afeto ao vê-lo. Hesitante, ele estendeu um buquê de flores para ela.

— Você parece óptima, Usagi. — Motoki sorriu e olhou em volta o apartamento luxuoso de Mamoru. — Este estilo fino de vida combina com você. Eu trouxe isto. — Ele entregou as flores para ela e, admi rado, deu uma nova olhadela no ambiente, enquanto ela pegava uma cerveja para servi-lo.

— Nada de álcool, querida.

— Você parou de beber!

Motoki a seguiu até a cozinha, pendurando o casaco jeans em uma das cadeiras no caminho.

— Tive que parar. Não poderia arrumar um emprego de outra maneira, depois que você fugiu e deixou todas as contas para pagar.

Usagi virou-se para Motoki e deu de cara com ele sorrindo.

— É, é isso mesmo. Consegui um emprego, você acredita? O ve lho Jeidite do bar da esquina arrumou um trabalho para mim com um dos seus fornecedores, e agora não bebo mais, Usagi, eu vendo bebi da. — Motoki sentara-se em um dos bancos altos em cromo junto à bancada. — Agora, só bebo nos fins de semana.

— Nada de álcool, um emprego... Você se importa de perguntar por que isso nunca passou pela sua cabeça quando eu ainda estava por perto? — Usagi se sentiu muito feliz por tê-lo procurado e também culpada por não ter feito isso há mais tempo. Na verdade, isso nem havia passado pela cabeça dela. Mamoru se apossou dos seus pensa mentos, da sua vida, e não havia restado nada para mais ninguém.

Ela preparou um café, sentou-se diante dele na bancada e abriu o coração. Escancarou. Contou tudo. Ela precisava desabafar com al guém e, por mais incrível que pareça, depois de todo o tempo em que eles ficaram sem diálogo, Motoki era a pessoa que a ouvia, fazendo os gestos e ruídos de quem acolhia e compreendia.

— E então? O que devo fazer? — indagou Usagi, dando-se conta que terminara a xícara de café e que precisava esticar as pernas. Ela levantou-se, pegou a garrafa de água na geladeira e olhou para Motoki, ansiosa.

— Case com o bacana. Eu não vejo problemas, mas você sempre foi muito obstinada, Usagi. Você mete uma coisa na cabeça e não consegue tirar.

— Eu devo ir embora. Eu sei que devo, Motoki.

— Por quê? Para onde você vai? Usagi deu de ombros e suspirou.

— Seja realista, Usagi, um homem como esse não vai deixar você viver num buraco enquanto tiver o bebé dele na barriga. Ele vai cuidar do que é dele!

— Este é o problema, Motoki. Ele não pode me comprar, e ele não me ama. Eu preciso sair dessa.

— Não, você não precisa. — Motoki deu um suspiro. — Você se lembra quando a gente era criança, Usagi? A gente ficava na rua como pequenos mendigos, sem modos, uniformes escolares usados. Por que escolher isso para o seu filho, quando você pode ter o melhor?

— Não exagera. Além disso, consegui um emprego...

— Por quanto tempo? — Motoki a encarou, pensativo, e depois baixou os olhos numa rara demonstração de constrangimento. — Você não pode bancar ainda uma casa decente pelo que você me disse. E, Usagi, eu adoraria ajudar, mas tenho um probleminha...

— Eu não estou pedindo sua ajuda. — Mas ele despertou a curio sidade dela. — Probleminha...?

— O seu finório não é o único cara que vai ser pai. — A expressão no rosto de Motoki era de culpa e felicidade. — Na verdade, Usagi, eu estava saindo com uma garota antes de a gente termi nar. Ela se chama Reika. Eu me odiei por tê-la traído, sei que não fui sincero com você, mas não podia simplesmente pedir a você que fosse embora. Perdão, Usagi. — Motoki soltou a respiração. — Ela está morando comigo, e acho que ela não vai gostar se eu oferecer um quarto para a minha ex.

A mente de Usagi reagiu com surpresa, indignação e alegria. A alegria sobressaiu, e ela sem pensar o abraçou, mais certa do que nunca de que o tipo de afecto que eles por tanto tempo dividiram não existia mais.

E os braços de Motoki responderam ao gesto dela no exato instante em que uma chave abriu a fechadura da porta da frente, e Mamoru entrou no apartamento.