Disclaimer: Saint Seiya não nos pertence, eles são propriedade de Masami Kurumada, Toei e Bandai. Este trabalho não possui fins lucrativos.
Atenção: O nome Carlo di Angelis, utilizado para o Máscara da Morte e o sobrenome Thorsson, utilizado para o Afrodite, são criações da Pipe. Todos os direitos reservados.
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Kamus girava lentamente na cadeira de seu escritório, encarando o teto branco. Mais cinco minutos e Milo chegaria para almoçar com Aioria. Com um suspiro, ajeitou-se, apoiando os braços na mesa. Um mês já se passara desde o Natal, e, contrariando todas as expectativas do francês, vivia esbarrando com o escorpiano pelo restaurante da empresa. No entanto, Milo o tratava diferente. Claro que aquele tratamente frio e distante que recebia fazia sentido, afinal, fora ele mesmo quem decidira ser apenas um conhecido do escorpiano. E claro que Kamus sabia muito bem que Milo só tratava bem os conhecidos por pura educação.
-Eu mereço... – 'Mas é óbvio que mereço, ele se arriscou e eu tirei o corpo fora... Eu sou um idiota mesmo, eu mereço essa falsidade que você odeia tanto. ' Levantou e saiu de sua sala. – Hyoga, já pode ir almoçar, eu só preciso passar na sala de Saga para pegar alguns documentos.
-Está bem, senhor Lavoisier... Ah, outra coisa: será que eu poderia sair mais cedo? Eu e Shun temos uma data importante para comemorar... Sabe como é, né? – tentou parecer casual, mas suas bochechas vermelhas estragaram o efeito.
-Está bem Hyoga. Hoje as coisas estão tranqüilas, você pode ir mais cedo – respondeu com um leve sorriso.
Dirigiu-se para a sala dos Gêmeos, mas a encontrou vazia. Aliás, o próprio andar parecia vazio. Caminhou até a mesa de Saga, onde encontrou um pequeno bilhetinho amarelo.
'Estamos em uma reunião de emergência, não temos previsão de volta. Deixar recados com a Ana Paula. '
-Que ótimo... – Kamus deixou a sala e foi atrás de uma moça que conversava com mais dois rapazes perto do bebedouro – Com licença, você é Ana Paula, certo? Eu sou do Financeiro e preciso pegar um documento com o Saga, referente ao mês de dezembro.
-Sr Lavoisier? – Kamus confirmou – Fui avisada de que talvez o senhor aparecesse. O documento que procura esta na primeira gaveta da mesa do senhor Saga. Ele deu permissão para que o senhor pegasse.
-Obrigado – e voltou para a sala do Gêmeo. Estava procurando o documento quando ouviu um barulho alto do lado de fora. 'Mas o que...?'
'Era só o que faltava no meu dia. ' Pensou Milo bufando, olhando para a infinidade de papéis caidos no chão. Estava tão nervoso que nem viu a mesa a sua frente, derrubando-a com tudo.
-Milo, tudo bem? – Ana Paula perguntou se aproximando do loiro, que se abaixara para tentar reparar o estrago – Não se preocupe, arrumo isso em pouco tempo.
-Desculpe, Ana. Dia ruim – disse massageando as têmporas – Você viu o Aioria por aí?
-Sim, mas, infelizmente, ele e todos os estagiários foram com os Gêmeos para uma reunião de emergência. Não sei que horas voltam – a moça explicou, enquanto recolhia os papéis.
'Pois é, Milo, pior que isso não dá para ficar... '
-Milo? – ouviu a voz de Kamus o chamando. 'Eu e minha boca... '
-Kamus... – disso o loiro respirando fundo – Justamente a pessoa que eu precisava ver hoje...
-O que houve? – perguntou enquanto abaixava para ajudar Ana Paula.
-As folhas caíram, não esta vendo?
-É claro que estou vendo, me referi ao que as fez cair... Aqui, essas são as últimas – Ana Paula agradeceu a ajuda e voltou para onde estava.
-Eu derrubei a mesa, contente? – disse esfregando os olhos com o polegar e o indicador – Bom, Aioria não está aqui. Tô indo.
-Você está muito nervoso.
-Não diga!? – exclamou irônico – E eu achando que fosse só um mal-estar... Se bem que, agora que mencionou, acho que você pode estar certo – concluiu entre dentes.
-Pare de fazer cena – retrucou com severidade –Vamos para minha sala, você pode beber um copo d'água enquanto liga para o seu motorista vir te buscar.
-Você não está extamente no topo da minha lista no momento... E nem venha me falar de motoristas – acrescentou fumegando.
-... Nesse seu estado, o melhor é tentar se acalmar.
-Ai, jura? – disse colocando a mão na cintura – Para um empresário, você daria um ótimo médico.
-Deixa de ser estúpido e presta atenção! Você está alterado, e te deixar andando por ai, feito um idiota reclamando de tudo e todos, não vai te fazer bem – Kamus claramente tentava controlar o tom de voz irritado. Milo arregalou os olhos surpreso, mas logo se recuperou.
-Pouco me importa o que você acha que vai me fazer bem ou não! Não me interessa mais o que você pensa de mim – disse, cerrando os punhos e se aproximando perigosamente de Kamus.
-O que pensa que está fazendo? – disse mirando os punhos de Milo – Todos estão olhando para cá. Vamos para minha sala, lá você poderá destruir o que quiser sem chamar atenção de ninguém – e virou-se sem esperar pelo outro.
-Ahh, espera só o que eu NÃO vou fazer com sua preciosa salinha... –resmungou baixinho, enquanto seguia em silêncio em direção à sala do ruivo.
-Chegamos – disse dando passagem para Milo entrar – Droga, acabei esquecendo os documentos na sala do Saga. Tudo bem, eu pego depois... Sente-se – e indicou o sofá.
-Obrigado... – murmurou, sentando-se absolutamente ereto no sofá.
-Aqui, tome essa água – disse, oferecendo o copo que estava em cima da mesa. Esperou o outro tomar um gole e continuou – Agora, será que pode me dizer o porquê de estar tão nervoso assim?
-... Eu estou tentando aprender a dirigir. Chega de depender do Erick para tudo! – bufou irritado – Então, hoje de manhã eu fui fazer o exame psicotécnico e médico... Só que aquele velho gordo, infeliz e miserável estava a fim de me sacanear... – disse, apertando o copo com força entre as mãos.
-Sei... – disse Kamus sentando ao lado do escorpiano e, discretamente, retirando copo de suas mãos – O que, exatamente, ele te fez?
- Bem, depois de me deixar esperando por exatas cinco horas e meia... Não é brincadeira, eu contei! Ok, ele me mandou fazer vários exames, mas nenhum deles era exatamente médico, e em todos eles, o velho achava uma forma de me humilhar... – falou trincando os dentes.
-Você esta tremendo – observou, pegando a mão direita do grego entre as suas – Como assim, te humilhar?
- No primeiro exame, eu tinha que cruzar a sala de olhos fechados. Não entendi nada, mas obedeci. Obviamente eu não cruzei a sala toda ou eu iria de cara na pia dele, né? Quando eu parei e abri os olhos para medir a distância, ele virou para mim e falou 'Eu mandei você parar? Ou vai dizer que ficou com medo da parede?' – o escorpiano apertava a mão do outro com cada vez mais força – E isso foi só o começo! Ele me fez fazer umas poses esquisitas para 'medir o meu equilíbrio' e ainda teve a coragem de me chamar de burro! Isso porque eu estava seguindo as instruções dele!! Argh, eu tive ganas de voar na jugular dele e enforcá-lo com o estetoscópio! Só de lembrar daquele maldito meu sangue ferve...
-Percebi... Mas o provável é que você nunca mais o veja. Ele deve ser só mais um infeliz com um emprego tedioso.
-Tedioso é o caramba, ele bem que se divertiu às minhas custas! – retrucou – Ah, só de lembrar...
-Então esqueça. Milo, você é um advogado com um futuro muito promissor pela frente. Deixa o cara de lado – consolou Kamus – Mas tenho que admitir: deve ter sido hilário ver sua cara durante o exame – concluiu com um sorriso.
-Ah, você acha engraçado, é? – Kamus riu de leve – Você acha engraçado...? Ótimo saber que VOCÊ, de todas as pessoas, se diverte às minhas custas – reclamou, levantando e soltando a mão de Kamus. 'Quando foi que ele pegou na minha mão?'
-Não entendi o que me torna tão especial assim – comentou, acompanhando Milo com o olhar.
-Não creio... Nada, não, Kamus, falei por falar – disse indo em direção à mesa do ruivo, onde se apoiou, cruzando os braços. 'Você é quase tão idiota quanto esse aí... Mas o que diabos eu estou fazendo aqui? Prometi a mim mesmo que não olharia mais para ele tão cedo'
-... Posso te fazer uma pergunta? – Kamus começou meio receoso. 'Ai meu Zeus, o que ele está querendo?' – O que você quis dizer quando falou que não se interessa mais pelo que penso de você? – Milo definitivamente não esperava por essa. 'Como assim? Kamus... Você está corando...? Não! Não! Não e não! Não faça isso comigo! Eu levei três potes de sorvete de chocolate para me recuperar do enorme pé na bunda que você me deu! Não me dê esperanças...!'
-Sei lá, eu falei no calor do momento, só isso. Você sabe o quanto eu sou impulsivo quando estou com raiva – Milo desviou, gesticulando muito.
-Bom, então... Agora que você está mais calmo... Você se importa com o que eu penso de você?
-Eu não me importo com o que ninguém pensa de mim – respondeu, apoiando as mãos na mesa e encarando a porta. Lançou um rápido olhar ao francês, antes de continuar – Por quê?
-Por um instante, eu pensei que... Que você... Não sei, já tivesse me esquecido. Você tem me tratado tão... Diferente ultimamente.
-Ah, essa é boa. Você me diz claramente que não quer nada comigo depois de tudo aquilo que eu te falei e ainda espera que eu te receba com flores e bombom? Desculpe, mas aí eu estaria sendo injusto com nós dois.
-Peço, então, que me trate com a raiva que você sente por mim nesse momento. Só não seja falso comigo – disse o ruivo sério. Milo baixou o olhar. 'Como eu odeio que ele me conheça tanto... '
-Eu vou tentar. Mas você não vai gostar do que vai ouvir.
-Eu agüento. Preciso da verdade. – disse, procurando os olhos do outro – Posso te fazer mais uma pergunta?
-... Já que eu estou aqui mesmo – respondeu com descaso, colocando as mãos nos bolsos. 'Onde está querendo chegar, Lavoisier?'
-Aquela menina, que estava com vocês um pouco antes do final do ano, na livraria do Mu... No dia que eu te dei aquele chocolate quente...
-Sei. A Ulla.
-Ela é amiga sua?
-Sim... – Milo teve a sensação de ter ouvido um 'click' dentro de sua cabeça. 'Não creio... Ciúmes!? Finalmente um raio de Sol no meu dia nublado! Ok, vamos brincar' – Ela é uma antiga amiga minha e do Aioria, nos conhecemos no primeiro período da faculdade.
-Legal vocês ainda manterem essa amizade – Kamus levantou, indo até sua mesa, onde depositou o copo, e sentou-se na cadeira ao lado de onde Milo estava. 'Viu Kamus? Apenas amigos. E você perdendo noites de sono à toa... '
-Verdade. Nós até chegamos a namorar por um tempo. Era ótimo quando saíamos nós quatro, sabe? Ótimo mesmo... – Kamus concordou com a cabeça. 'Antiga namorada Lavoisier, ANTIGA... Por que estou rangendo os dentes?' – Lembra de quando falei sobre um relacionamento meu que durou oito meses? Então, foi com ela. Aquela época foi divertida... – 'Porque esse projeto mal-acabado de advogado está com esse sorrisinho sem-vergonha no rosto?! Milo... Pára com isso ou eu mesmo vou aí apagar esse sorriso da sua cara!'. Incrivelmente, nenhum desses pensamentos influenciava na expressão facial de Kamus, que continuava tão desinteressada como antes. No entanto, seu pé repentinamente criara vida própria, e tentava incessantemente abrir um buraco no chão.
-Que bom... Só pena que não deu certo – comentou calmamente.
-Pois é. Eu percebi que o que eu sentia por ela era somente atração, e isso não é o suficiente para ficar com uma pessoa pelo resto da vida, certo? Atração é necessário – disse encarando o francês, que sentiu um arrepio lhe descer pela espinha – Mas não mantém um relacionamento. Você deve saber como é – disse franzindo de leve o nariz e sorrindo em seguida.
-Faço idéia – levantou e se dirigiu ao pequeno armário do escritório, fingindo procurar algo importante – Meu único relacionamento sério foi o Mu, e eu realmente o amava. Não era apenas atração.
-Entendo... Bom, no nosso caso, é apenas atração. A gente costumava a ficar de vez em quando, aliás. Nós meio que ajudávamos um ao outro quando estávamos com vontade...
-Claro... – disse descontando a raiva na gaveta – Entendo perfeitamente. Não quer ligar para o Erick? Pode ficar à vontade – disse, indicando o telefone – Vou apenas terminar de mandar uns e-mails aqui – e sentou-se em frente ao computador, começando a trabalhar. 'Aquela desgraçada hormonada... E você? Seu oferecido que pensa com a cabeça errada! Ai, se eu pudesse te dava um soco tão grande que... Droga, afundei o enter... Ok, Kamus, acalme-se, ele não pode perceber que você esta com ciúmes... Mas ele já deve ter te superado mesmo... E eu aqui, me remoendo... Eu mereço, fui eu quem não quis, não foi?Fui eu quem tomou a decisão certa... Não foi...?' Estava tão mergulhado com seus próprios pensamentos que nem percebeu que Milo já havia terminado de usar o telefone.
-Prontinho! Vou esperar lá embaixo. Obrigado pela ajuda, me sinto bem mais relaxado agora... – terminou dando um sorriso torto. Kamus franziu as sobrancelhas.
-Por que você não espera aqui? Quando Erick chegar você desce – Milo o encarou parecendo pensar um pouco.
-Por que não? – falou o loiro, acomodando-se de volta no sofá e encarando o teto.
-Como agora é horário de almoço, não tem muito que fazer... Posso te fazer companhia por um tempo – comentou, indo sentar-se ao lado do outro.
-Não é o que eu mais preciso agora, mas é melhor que ficar sozinho.
-Eu vou ignorar isso – disse cruzando os braços.
-O que? Ficou ofendido...? Foi você quem se colocou nessa posição, lembra? Se dependesse de mim, nada disso estaria acontecendo.
-Ah é mesmo? – e encarou o escorpiano de modo desafiador.
- Com certeza – respondeu Milo despreocupado, encarando-o de volta. 'Ah, como isso é divertido... Poderia passar o resto da minha vida só te provocando, Kamus'
-O quão diferente seria? Estaríamos juntos, sim, e daí? Continuaríamos nos estranhando do jeito que estávamos e ficaríamos esperando demais um do outro, até que você desistiria de mim, porque está entediado, ou eu desistiria de você, porque não consigo te agradar.
-Não deixa de ser uma possibilidade... Improvável, mas, ainda assim, uma possibilidade.
-E como seria, então?
-Primeiro, como estamos sozinhos na sua sala, esse sofá seria usado para algo muito mais interessante do que simplesmente 'sentar e conversar' – Kamus corou na hora – Você não teria motivos para destruir meio escritório em uma crise de ciúmes e, por último, mas não menos importante, nós dois estaríamos mais felizes – 'Faça algo... Por favor, faça algo! Por favor! Por favor...!'
-... Tenho que admitir que gostei mais da sua possibilidade... – disse, encarando o chão. 'Bom, já é um começo... ' – Mas ela também é improvável.
- Só porque você quer que seja improvável.
- Não, não é só isso. Você sabe.
-Não eu não sei... Quer saber!? Vou esperar o Erick lá embaixo, sabia que não era uma boa ficar sozinho com você – Milo levantou irritado, mas não conseguiu se mexer. Kamus segurara seu braço.
-... Fique, por favor... – o escorpiano não o encarou, mas deixou seu corpo ser puxado de volta ao sofá – Eu sei que a decisão foi minha, e também sei que ela foi a mais acertada... Racionalmente falando.
-Eu não agüento mais você falando isso – retrucou, cansado.
-Mas você tem que concordar comigo.
-Na verdade não. A maioria das pessoas evita aprofundar relacionamentos apenas por dois motivos: ou não se conhecem bem o bastante, ou se conhecem bem até demais, e acabam tendo medo de perder a amizade que já construíram juntos. Embora eu te conheça o suficiente, muito mais do que você mesmo gosta de admitir, nós não construímos uma amizade que me faça hesitar em te escolher. A única coisa que torna a sua decisão racional é a segurança resultante dessa barreira que você construiu ao redor de si mesmo. Ah, que saber? Eu prometi que não correria mais atrás de você, isso não está me fazendo bem. Deixa quieto.
-Eu prefiro muito mais quando você está estressado, do que quando você joga essas verdades na minha cara com a maior calma do mundo... – Kamus comentou, rindo de leve – Qual é o meu problema?
-Eu posso enumerar alguns, sabe, só para quesito de ilustração – disse sorrindo. 'Ah, como eu senti falta disso...! Mas o que eu estou fazendo? Eu prometi ao Dite que não teria mais esse tipo de pensamento!' Milo olhou para seu braço, que Kamus ainda segurava sem notar, e suspirou, colocando sua mão sobre a dele – Esse adeus ficaria mais fácil se você me soltasse... – Mas a pressão em seu braço só fez aumentar. Encarou o ruivo, que mantinha o olhar baixo e não respondia – Kamus... Tá tudo bem? – observou a respiração do outro acelerar – Kamus, o que está acontecendo?
Verificou as horas e levou um susto. Já eram meio-dia e quinze, sendo que a última vez que checara ainda eram oito e meia da manhã. Fato que, quando se concentrava em alguma coisa, raramente parava. Além disso, sua completa falta de fome só serviam para alimentar as teorias do ariano de que ele era um ser fotossintetizante.
-Vou ligar para ele... – pensou, pegando o celular e jogando alguns fios teimosos para longe do rosto. Não adianta, ainda não inventaram um prendedor que conseguisse manter seus longos fios loiros no lugar. Discou o número e esperou.
-Olá meu Anjo – foi o cumprimento de Mu ao atender ao telefone.
-Olá, estava pensando em você agora.
-Eu também, pensando em como você provavelmente ainda não almoçou.
-Tem razão. Podemos almoçar juntos, eu vou até aí e a gente come num restaurante perto.
-Certo... Por que não chama o Kamus para almoçar com a gente?
-... Eu até posso convidar, mas sei que ele não vai aceitar. Você sabe como ele anda cabisbaixo ultimamente. Além disso, ele tem preferido comer sozinho em algum lugar que eu ainda não descobri qual é.
-Apenas, tente, sim? Não sei por que, mas tenho a sensação de que hoje será um dia... Diferente...
-Sexto sentido?
-Por assim dizer. Faz o seguinte: vá chamá-lo e me liga de volta, para dizer o que ficou combinado, certo?
-Está bem, mas já digo para não ficar muito esperançoso...
-Eu aguardo... Te amo.
-Eu também te amo. Até daqui a pouco... – desligou e discou o número da sala de Kamus. O aparelho chamava, mas ninguém atendia – Vamos tentar Hyoga... – a mesma coisa aconteceu. 'Será que ele já saiu para almoçar? Mas não entendi o porquê de não ter deixado Hyoga para anotar seus recados... Bom, já que Mu me pediu para chamá-lo, não custa nada dar uma passada na sala dele, e ver se o encontro'.
Deixou o escritório e pediu para que seu secretário anotasse seus recados, já que iria almoçar. Foi até o andar de Kamus e, chegando lá, descobriu que Hyoga não estava em sua mesa.
-Estranho... – 'Kamus não deixaria sua sala abandonada assim... Será que ele passou mal ou algo do tipo?'. Ouviu um barulho abafado vindo de dentro da sala, mas as luzes estavam apagadas. 'Será que alguém invadiu o escritório?' Caminhou devagar até a porta e girou a maçaneta, só para descobrir que estava destrancada. Abriu uma pequena fresta e espiou. Estava tudo muito escuro, mas tinha certeza de que havia um vulto se mexendo lá dentro. 'O que está acontecendo...?' Abriu totalmente a porta e a luz do corredor inundou a cena. Arregalou os olhos para logo depois corar até a raiz dos cabelos loiros – Desculpe... – murmurou, e saiu tropeçando nos próprios pés até a sua sala. 'Eu não acredito...! Certo, acalme-se, Shaka, eles são dois adultos que se gostam, é absolutamente natural que aconteça... Mas absolutamente desnecessário de se presenciar!!'
Entrou em seu escritório correndo e discou o número de Mu. 'Só ele para me acalmar depois dessa... '
-Oi Anjo. Conseguiu falar com Kamus?
-Sim e não...
-Não entendi...
-Eu fui até o escritório dele, já que os telefones chamavam e ninguém atendia.
-Uhum...
-Estava tudo escuro, mas eu ouvi um barulho do lado de dentro, então, resolvi entrar, afinal, alguém poderia ter invadido o escritório.
-E...?
-E que eu descobri o motivo do barulho, que acontecia de ser o mesmo motivo pelo qual Kamus não atendia ao telefone. E aí, eu saí correndo.
-Mas o que houve!? – a curiosidade na voz do ariano chegava a ser palpável.
-Milo.
-Hã?
-Milo. O Kamus estava sentado no colo dele. Eu saí de lá o mais rápido possível.
-Mas por quê?
-Porque eles estavam em um momento íntimo e eu atrapalhei?! Óbvio que eles pararam por minha causa... E agora? Como eu vou encarar o Kamus!?
-Da mesma maneira de antes. Eu disse que o dia hoje estava diferente. Preciso ligar para meu querido amigo ruivo...
-Nem pense nisso! Ele vai saber que eu te contei!
- E...?
-E que eu não quero que ele fique ainda mais desconfortável com a situação!
-Ah, é, verdade. Bom, acho que terei que fazer ele me contar... É, é isso. Assim, eu consigo os detalhes e você não passa por fofoqueiro – completou com a voz mais satisfeita do mundo.
-Mu...
-Então, vamos almoçar? Agora mesmo é que o Kamus não aceita o nosso convite.
-Já estou indo para aí. Acho que vou aproveitar e passar o dia também...
-Nossa, acho que vou pedir para o Kamus se agarrar em locais públicos com mais freqüência!
-Por favor, sem assuntos envolvendo o Kamus pelas próximas horas, sim?
-Tudo que você quiser.
-O Shaka viu! Eu não acredito! O Shaka viu! – Kamus andava para um lado e para o outro do escritório, enquanto terminava de abotoar a camisa.
-Eu sei... Eu também estava na sala – comentou Milo sentado displicentemente no sofá e ainda com a camisa aberta – Só não entendi por que você está assim...
-Como assim você não entendeu...? Shaka é um dos meus melhores amigos, como acha que vou poder encará-lo depois dessa?
-Da mesma maneira de sempre, afinal, você continua o mesmo... Ora, Kamus, relaxe, nós nem transando estávamos! – disse, cruzando os braços – Aliás, tenho de agradecê-lo por isso... – completou bufando.
-É com isso que se preocupa? – disse, finalmente desistindo de lutar com a gravata e encarando Milo.
- Não. Só não entendi o porquê de tanto alarde. Ou por que paramos. Só isso – falou de forma simples, se levantando.
-Eu preciso falar com Shaka, pedir desculpas, tentar explicar... Eu não costumo fazer essas coisas – disse passando as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso.
-Você não tem que fazer nada disso – Milo se aproximou, segurando o queixo do francês para que este o olhasse – Acalme-se, esta bem? Até parece que ele não faz isso – Kamus ergueu uma sobrancelha – Hey, olhe pelo lado bom, você não terá que dizer que estamos juntos. Ele já vai saber o que significa e, com certeza, vai falar com Mu, que vai entender tudo. Assim, sem muita demora, todo o seu círculo social ficará sabendo.
-... Estamos juntos...? – perguntou em voz baixa, mordendo levemente o lábio inferior.
-Hum... É, acredito que sim... A menos que você tenha algum tipo de tara social envolvendo o sofá do seu escritório. Aí eu vou deixar de achar que sou especial – disse sorrindo vitorioso –Eu não estou brincando sobre a tara social, ouviu? – acrescentou sério.
-Você é terrível... –disse, sacudindo levemente a cabeça – Mas é a mais pura verdade, quando disse que nunca havia feito isso antes – foi se aproximando do loiro enquanto falava – Eu sou uma pessoa muito reservada. Sinta-se honrado em estrear o meu sofá – sorriu, apoiando as mãos na cintura de Milo.
-Ah, eu estou! Mas, olha só, sua mesa ali vai acabar ficando com ciúmes...
-Lar, doce lar! Preciso de um banho urgentemente – disse entrando na sala da enorme mansão e já se dirigindo para seu quarto. 'Nossa, como o ensaio foi cansativo hoje... Nem acredito que terei que usar aquela calça horrorosa...! Se bem que eu já usei pior, mas... Ué, estranho. O Mask só ligou quinze vezes hoje. Será que ele está bem?' Foi nesse instante que seu celular começou a tocar Macho Man, do Village People. Sabia que era Mask.
-Fala amor!
-Tudo bem?
-Tudo. Acabei de chegar em casa.
-E eu estou saindo do escritório agora, mas tenho que encontrar alguns clientes importantes. Não poderemos nos ver hoje...
-Aaah, você vai ter que me recompensar...
-O que você tem em mente?
-Jantar aqui em casa, só nós dois.
-Tentador... Claro que aceito. Quando?
-Amanhã você estará livre?
-Estarei, sim. Passo aí quando sair do trabalho.
-Ótimo! Já que amanhã não terei que ir para o estúdio, vou tentar dar um jeito de expulsar o Milo daqui! – disse rindo.
-Então nos vemos amanha. Te ligo quando chegar em casa.
-Estarei esperando. Vou falar com o Milo agora, fazer propostas!
-Até logo, estou com saudades...
-Eu também... Fala que me ama...
-... E-eu te amo.
-Como queria ver sua cara agora! – riu, um sorriso gigante estampado no rosto – Agora, diga que sou a coisa mais importante da sua existência.
-Afrodite, eu vou desligar.
-Oras, onde esta seu romantismo?
-Tirou férias. É sério, eu realmente tenho que desligar.
-Está bem... Te amo – desligou o celular e foi para o quarto. Lá chegando, escolheu uma calça larga preta e uma blusa de mangas branca, mais justa. 'Tenho que convencer o Milo a sair de casa amanhã à noite... Humm, o que eu posso fazer...?' Ligou o chuveiro e começou a tomar banho. 'Aaah que maravilha! Estava mesmo precisando de um banho... Agora, concentre-se! Projeto Ocupar Milo Amanhã... Vou ver se ele não vai para casa do Aioria... '
Saiu do banho e se vestiu sem pressa. Depois, foi para o quarto de Milo, onde o encontrou deitado na cama, com fones de ouvido. 'Mas que sorriso bobo é esse...?' pensou Afrodite se aproximando do irmão.
-Posso entrar? – Milo o olhou e confirmou com a cabeça. 'Ele está animado... Estranho, ele estava uma pilha de nervos quando me ligou depois do exame. '. Sentou-se na cama. – Como você está?
-Incrível... – disse também sentando e desligando o aparelho.
-Milo... O que houve? Você esta com um sorriso assustador na cara. Viu passarinho verde, é? – 'Mas o que pode ter acontecido nesse período?'. Estava ficando cada vez mais curioso – Você parecia tão estressado quando me ligou – Milo fechou a cara imediatamente.
-Não me lembre disso. Só de pensar me da ainda mais vontade de tirar a carteira só para poder voltar lá e atropelar aquele infeliz – resmungou cruzando os braços e bufando.
-Você realmente tem um humor estranho... Vai da alegria à raiva homicida em segundos. Mas enfim, eu vim aqui para te pedir um favor...
-Que seria...?
- A resposta correta seria: 'Qualquer coisa por você, meu querido irmão', mas tudo bem, eu perdôo – comentou com ares ofendidos, fazendo biquinho.
-Esta bem... – disse sorrindo – O que posso fazer por você?
-Tem planos para amanhã à noite?
-Não...
-Então trate de ter. Você tem que sair mais, nem parece o Milo que eu conheço! Você saia quase todo fim de semana, ligue para o Aioria e saiam para dançar!
-Dite... Eu saí final de semana passado, e no outro também – disse, erguendo uma sobrancelha.
-Oh, meu lindo! Tanto tempo em casa já o está deixando delirante! Pobrezinho, Kamus te fez mesmo muito mal... – na mesma hora colocou a mão na boca. 'Ai, droga, falei a palavra proibida!!! Epa, peraí... Ele começou a estalar os dedos? Aí tem coisa... ' – Uxo... Tem algo que você queira me contar? Anda, desabafa menina! – disse, dando um leve tapa no braço do outro.
-Está bem... Mas prometa que conterá seu lado histérico de ser – avisou sério.
-Eu prometo – jurou pondo a mão sobre o coração.
-Ok, então, eu fui atrás do Aioria para almoçarmos, mas tivemos um desencontro e eu causei um pequeno acidente, assim, coisa boba, que me fez acabar no escritório do Kamus para esperar o Erick. Aí, né, conversamos, uma coisa levou à outra e... – encarou o irmão de maneira significativa. 'E...? O que...? Espera... Es-pe-ra! Oh meu Zeus, não creio!!' – Dite, se você abrir mais os olhos, eles irão saltar do seu rosto.
-Você e Kamus... Se acertaram? – Milo confirmou com a cabeça. Dite mordeu o indicador direito na tentativa de conter um pequeno grito.
-Ok, ok! Pode fazer escândalo! se morder o dedo com mais força vai acabar decepando-o! – Milo gritou, se jogando na cama rindo.
- Meu irmãozinho lindo do coração! Eu estou tão, mas tão feliz por você!!! Não faz idéia!!! Ohh, Miluxo está com o ser amado, que romântico! – Dite exultava de alegria – Já sei! Chame o Kamus para vir passar o sábado conosco! Sim!! Será um dia divertidíssimo!
-Afrodite, controle-se... – Milo começou sério – Ainda não estamos oficialmente juntos, poucos sabem sobre nós. Acho que você é a terceira pessoa a ficar sabendo.
-Não importa... Que gracinha – e jogou-se em cima do irmão, todo sorridente. Milo o abraçou, também sorrindo, e começou a fazer-lhe cafuné.
-Você não queria me pedir algo?
-Ah claro! Nossa, já ia me esquecendo... Bom, como você foi sincero comigo, eu serei sincero contigo. Amanhã não terei que ir ao estúdio, então, convidei Mask para jantar aqui... Mas seria um jantar beeeem particular – disse mordendo a ponta do dedão esquerdo.
-Entendi... Acredite, eu prefiro estar bem longe de casa quando vocês decidem ter esses momentos particulares – acrescentou, rindo. Dite deu-lhe um beliscão – Ei! Doeu!
-Pergunte a Aioria se você pode passar a noite na casa dele. Sei lá, é só uma sugestão...
-Vou ver o que posso fazer, está bem?
-Muito obrigado – agradeceu dando um beijo estalado na bochecha do irmão, levantando em seguida – Que tal assistirmos um filme juntos? Eu preparo a pipoca.
-Deixa que eu faço. Você na cozinha, só se for para esquentar água –falou exasperado, levantando também – Vamos, que amanhã tenho que estar no estágio cedo.
-Sim senhor!
-Certo, deixe-me ver se entendi direito – Kamus começou, ajeitando os óculos no rosto e encarando Milo, que se postava à sua frente com um sorrisinho inocente no rosto – Seu irmão não te quer em casa hoje. Primeiro, você tentou o Aioria, para saber se poderia passar a noite na casa dele. Mas Aioria disse que dormiria na Marin. Depois, você ligou para Ulla, mas descobriu que a garota estava em outra cidade. Aí, você tentou o Mu, mas ele também estaria ocupado e, por último, você veio até mim... – Milo repensou a cronologia dos fatos por alguns segundos, antes de confirmar com um sorriso jovial – Inacreditável... – disse, por fim, levantando-se e indo em direção à saída da sala.
-Então, você está livre ou não? – perguntou o escorpiano, levantando também. Kamus ergueu uma sobrancelha e saiu de sala – Mas o que deu nele?
Milo saiu apressado atrás do ruivo, que já entrava no elevador. Deu uma corrida e conseguiu se espremer pela porta, antes que essa se fechasse.
-Mas você anda rápido, hein? – disse, sem ar – E você não respondeu minha pergunta.
-E precisa? – perguntou, cruzando os braços.
-Não, imagina, eu praticamente quebrei um recorde mundial de corrida só porque gosto de ficar sem fôlego – respondeu sarcástico, antes de voltar os olhos para o francês e continuar – Vamos, eu conheço um barzinho muito legal.
-Obrigado, mas tenho outros planos – respondeu saindo do elevador.
-Tipo...? – disse indo atrás. Kamus parou e voltou-se para Milo.
-Tipo ficar em casa, assistindo filme no meu sofá, com o meu gato, coisas para as quais eu sei que sou a primeira opção.
-Ah, tah. Posso te acompanhar?
-... Você não vai desistir, né? – Milo balançou a cabeça em negativa, um sorriso vitorioso estampado no rosto – Que seja... Esteja aqui às dezoito horas, sem falta.
-Não creio nisso... – resmungou Kamus mal-humorado, abraçando uma almofada e tentando prestar atenção no filme – Gato vendido...
-Não fale assim dele – disse Milo, que brincava com Jean em seu colo – Ele só quer agradar a visita, não é? Não é, Jean? – disse com a voz boba, abraçando o gato.
-Pare com isso... Esse gato é um imprestável, isso sim – Jean deu um miado e voltou a afundar a cabeça no colo de Milo – Ah, que maravilha! –passaram o restante do filme assim: Kamus resmungando baixinho e Milo se divertindo com Jean – Eu vou levar os copos para a cozinha. Divirtam-se – e saiu pisando duro.
-Ter ciúmes do gato não faz bem o seu estilo... – disse Milo, que o seguira, se apoiando na porta da cozinha.
-Sou muito mais ciumento do que você imagina, mas não, não estava com ciúmes do Jean.
-Então era de mim? – perguntou com um sorriso torto.
-Muito menos de você... – respondeu displicente, enxugando os copos.
-Essa doeu... – disse perdendo a pose – Continue desse jeito, e eu vou achar que já não gosta mais de mim...
-Nem comece, que chantagem emocional é golpe baixo – avisou, guardando os copos – Vamos voltar para a sala – sentaram-se novamente no sofá, contornando Jean no caminho. O gato deitara no chão e não saíra mais de lá – Posso te fazer uma pergunta?
-Claro...
-Como você descobriu que eu era Aquarius?
-Ih! Longa história...
-Como pode ver, temos a noite toda – disse encarando o escorpiano, que hesitou um pouco.
-Ok, isso é meio embaraçoso... Se lembra da peça Emanuelle?
-Sim, claro, foi ótima.
-Você até descobriu que eu estava lá, e tudo mais – Kamus confirmou com a cabeça – Então, eu passei a peça toda olhando para os lados, imaginando que qualquer um naquele lugar poderia ser você. Aí, no primeiro intervalo, eu fui ao banheiro e cruzei com o Mu, que estava cantando em francês.
-Ah, sim, Mu comentou que foi à peça, mas não consegui encontrá-lo... Espere um instante, você foi ao banheiro no primeiro intervalo? – perguntou, franzindo o cenho.
-Fui. Como eu ia dizendo, eu cruzei com o Mu no banheiro, aí a besta do Aioria me ligou, me fez passar a maior vergonha e tive que sair correndo do banheiro. Na confusão, acabei perdendo de vista quem eu achava ser Aquarius.
-Não acredito, era você! O apressadinho que esbarrou comigo na entrada do toillet! Era você!
-Meu Zeus, o ruivo engomadinho!
-... Quem?
-Nada. Como eu ia dizendo –
-Você me chamou de ruivo engomadinho... – disse, cruzando os braços e fechando a cara.
-Eu? Nunca! Voltando a história –
-Espero que tenha gostado do sofá – falou levantando-se e dando as costas ao escorpiano. Jean foi logo atrás.
-Você não vai fazer isso com sua visita, vai, Kamus? – perguntou incrédulo.
-Boa noite!
-Mas Kamus...! – ouviu uma porta sendo batida com força, e um gato miar assustado – Droga... – desligou as luzes e deitou-se, conformado, no sofá. Aspirou levemente o cheiro de uma almofada – Esse cheiro é muito bom... –sussurrou, abraçando o objeto e virando-se de lado. Segundos depois, sentiu um peso se acomodando fofamente em seu braço – É, Jean... Parece que fomos deixados de lado pelo engomadinho... – deu uma pequena risada – Mas ele é engomadinho... Só não precisa saber que a gente acha isso dele, né? –deitou-se de costas e depositou o gato sob seu abdômen – Seus olhos não são iguais aos meus... – disse, aproximando o rosto do gato ao seu – Meus olhos são únicos, meu caro. Tenha inveja.
Milo acordou bem cedo naquela manhã de sábado. Pouco passava das seis, e ainda teria o restante do dia livre.
-Espera aí... São seis horas da manhã de um sábado e eu estou acordado!? – disse, levantando de um pulo. Ficou tonto com o movimento brusco e, por muito pouco, não pisou em Jean, que dormia enroscado ao pé do sofá – Mas nem assim você acorda!? – falou olhando impressionado para o gato.
Depois de passar por cima de Jean com cuidado, Milo foi em direção ao banheiro, onde fez uma rápida higiene matinal. Voltou para sala e passou a observar algumas poucas fotos disposta em uma estante. A primeira mostrava Saga, Kamus e Kanon ainda crianças, em um parquinho de pracinha. A segunda mostrava Kamus com uma menina, por volta dos quinze anos. Ambos tinham traços bastante parecidos, embora o tom de cabelo da garota fosse mais puxado para o loiro do que para o vermelho, como era o do francês.
-Deve ser a mãe do Hyoga... – confirmou a hipótese com a foto ao lado, onde a menina, agora já uma mulher, segurava uma criança no colo, que Milo rapidamente identificou como sendo o jovem russo.
-Bom dia... Não sabia que acordava tão cedo – falou Kamus entrando na sala – Você me parece o tipo de pessoa que não levanta antes das duas.
-Engraçadinho... Eu durmo apenas o necessário. Se não tiver minhas horas de sono essenciais, acordo com um humor horrível.
-Claro, porque você é um amor de pessoa ao longo do dia – concluiu, retirando-se para a cozinha – Venha, vamos tomar café. Aí você termina a história...
-Que historia? – perguntou seguindo o ruivo.
-Mas você tem uma memória de peixe – falou exasperado, pegando suco, torradas e geléia – Ontem você contava sobre como descobriu a história toda.
-Ah, claro! Onde parei mesmo? Na peça, certo... Saí de lá achando que Mu era Aquarius, e fiquei um bom tempo acreditando nisso. Mas já não tinha mais tanta certeza assim, quando veio o fatídico dia na livraria. Tive minha confirmação conversando com você naquela mesma noite. Te tirei tanto do sério que você ficou reclamando por horas! – disse, rindo com gosto.
-Concorde comigo que você foi absurdamente grosso.
-E você absurdamente indiscreto! Onde já se viu ficar encarando uma pessoa daquele jeito? – riu incrédulo.
-Apenas despertou minha curiosidade... – disse levemente corado.
-Como assim...? – perguntou ainda sorrindo, mas franzindo as sobrancelhas.
-Seus olhos. Eu... Realmente fiquei curioso com a cor deles, chamaram muito minha atenção e... Arg, pareço uma garotinha pré-adolescente... Olha o que você me faz passar! – disse voltando-se para o armário da cozinha.
-Quanto drama! – exclamou Milo, se aproximando – Eu chamo atenção naturalmente, querido – Kamus respondeu erguendo uma sobrancelha – Vai discordar? – o escorpiano perguntou, cruzando os braços.
-Não. E isso me preocupa... – acrescentou a última parte baixinho, retirando duas xícaras. Milo reparou a mudança repentina.
-Eu só estou brincando, okay? Você sabe que eu tendo ao exagero... – falou com um sorrisinho, tentando quebrar o clima.
-Eu sei, mas dessa vez você acertou. Você é uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci, e isso é um tanto quanto intimidador... – Kamus deu um sorriso fraco. Ficaram em silêncio por algum tempo, antes que o ruivo voltasse a falar – Eu sei que você ainda não confia plenamente em mim – disse o encarando.
-Que bobagem, é claro que eu confio! – respondeu no automático, tentando animá-lo.
-Não, não confia. Vejo isso nos seus olhos. Você ainda acha que, de alguma forma, eu vou terminar tudo e dizer que nosso relacionamento está racionalmente fadado ao fracasso. E eu ainda acho que você, a qualquer instante, vai perder o interesse em mim, já que o mistério que tínhamos não existe mais – Kamus mantinha a voz calma, enquanto encarava a xícara em suas mãos – Ontem eu fiquei muito chateado por ter sido sua última opção. E eu sei que é por causa disso. Também sei que não tenho o direito de exigir nada, mas eu gostaria de ser a sua primeira... – terminou sentindo os olhos umedecerem – Credo, eu realmente sou uma garotinha!
-Não, não é... – Milo foi até o ruivo e o abraçou – Obrigado, Kamus. É verdade, ainda temos algumas desconfianças... Mas isso é porque não começamos de maneira tradicional. Só que eu me importo com você o suficiente para mudar isso. E acredite, eu não consigo me enjoar de você... E olha que eu tentei, hein! – terminou rindo um pouco. Ficaram abraçados por mais alguns minutos, aproveitando o momento – Agora, que tal tomarmos café? Eu to morreeendo de fome!
-Certo, então... Isso já tem o que? Seis meses? E só agora lhe ocorreu nos contar que vocês estão juntos? – começou o mais velho, apoiando os cotovelos na mesa e encarando o ruivo à sua frente.
-Eu sei, Saga, me desculpe. Mas você sabe que não sou do tipo que sai falando essas coisas por aí.
-Seis meses, Kamus. Inteirinhos. Até Mu já sabia! – falou Kanon cruzando os braços em pura indignação – E nós, que somos seus irmãos de alma, só fomos descobrir agora! Esse tipo de coisa não se faz.
-Não é como se eu tivesse esquecido... E o Mu só descobriu por conta do Shaka, que descobriu de forma acidental...
-Concordo que, se você não falou conosco, era para evitar que fossemos, na melhor das intenções, é claro, ter uma conversinha particular com ele... O que quer dizer que você está levando essa história bem a sério. Não acha, Kanon? – perguntou Saga com ares de palestrante universitário.
-Com certeza. O que me leva a crer que realmente deveríamos conversar melhor com Milo... O rapaz é bastante divertido, mas em se tratando de nosso Kamus aqui, a situação muda completamente – finalizou com um sorriso torto.
-Fiquem longe dele – avisou sério, levantando-se – Obrigado pelo almoço. Vou me encontrar com Milo no shopping... Ah, e gente, é sério. Eu sei que vocês vão dar um jeito de esbarrar acidentalmente com ele em algum lugar, mas, por favor, não o assustem... Ele é importante – completou encarando os Gêmeos com seriedade.
-Mas qual a idéia que ele tem de nós!? – exclamou Saga de maneira dramática, observando o francês deixar o restaurante – Até parece que eu faria algo para ameaçar o relacionamento dele.
-Concordo com você. Não... Dessa vez nem eu vou interferir. A não ser, é claro, que o Milo pise muito na bola...
-Espero realmente que dê certo – disse Saga levantando.
-Eu também... Kamus é um cara sortudo. Cá entre nós, Milo é muito desejável – Kanon levantou-se também
-Concordo... Eles formam um casal bastante interessante. Bom, então, que tal infernizarmos um pouco a vida do Aioria? Além disso, ainda temos que terminar aquele processo de Agosto.
Kamus andava tão apressado pelo shopping que por pouco não corria. Milo tentava alcançá-lo sem muito sucesso, quase se dobrando de tanto rir.
-Kamus! Espera! É sério, me espera! – gritou meio sem fôlego, se apoiando em uma parede próxima. O ruivo parou, respirando fundo, e voltou até onde Milo estava – Ai, assim você ainda me mata... – Kamus o encarou, espalmando a mão na parede bem ao lado do rosto do loiro, uma sobrancelha erguida em descrença.
-Eu te mato? Eu te mato?! Você que um dia ainda vai fazer isso comigo! Eu não acredito! Você esteve lá o tempo todo e não me ajudou!
-Claro que eu ajudei, eu dei meu telefone para contato! – Kamus simplesmente girou nos calcanhares e voltou a andar apressado, largando Milo onde estava. O escorpiano não se conteve e gargalhou novamente, correndo atrás do ruivo – Deixa de besteira – disse, segurando-o pelo braço.
-Besteira? Quando eu mais precisava de ajuda meu namorado simplesmente ficou lá parado, rindo, enquanto eu estava à mercê daquele cara!
-Sinto muito, Kamus, mas aquilo foi simplesmente hilário – disse, voltando a rir – Ah, eu preciso aprender a fazer aquela cara... Principalmente depois de saber que funciona tão bem!
-Mais uma palavra e eu juro que nosso relacionamento termina aqui!
-Sério? Consegue mesmo ficar longe de mim? Afinal, foi você quem não agüentou...
-Cala a boca, meu dia está péssimo – resmungou tentando soltar o braço.
-Claro que não. O céu está azul, apesar de não podermos vê-lo, você está em agradabilíssima companhia... – foi falando pausadamente, puxando Kamus pelo braço, forçando-o contra seu torso, deixando seus rostos a centímetros de distância.
-E eu fiz um cartão inútil, que eu não queria e não precisava, tudo por conta da sua falta de sensibilidade, e da cara de cachorrinho-que-caiu-do-caminhão-de-mudança daquele vendedor – o francês terminou irritado.
-Veja pelo lado bom, você terá 10% de desconto em qualquer compra naquela loja – sorriu largamente, abraçando-o pela cintura.
-Eu te odeio...
-Mesmo? Pois eu achava que era justamente o contrário... – sussurrou próximo ao ouvido direito de Kamus, fazendo o ruivo se arrepiar.
-Odeio, sim. Principalmente quando você faz isso... – murmurou de maneira nada convincente. Milo deu seu famoso sorrisinho torto, estalando um beijo na bochecha do outro – Vamos, se não chegaremos atrasados no cinema.
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Atenção! Comentários da fic e respostas às reviews no final do epílogo! (Que já foi postado.... Se o fanfiction cooperar x.x)
Edit
Nota da Tsuki: Este capítulo foi editado. Não houveram mudanças no texto, mas, graças à DarkWolf03, fomos avisadas de que o capítulo estava sem divisão de cenas. Acabei de consertar o problema, mas ele foi causado por conta de um bug do site. Portanto, se o mesmo erro (ou qualquer outro, por sinal) ocorrer novamente, por favor nos avisem. DrakWolf03, muito obrigada pelo aviso e atenção.
