CAPITULO X
Despertou devagar. Antes do rádio madrugador que lhe acordava todos os dias. Com os olhos ainda cerrados constatou a presença do demônio cego ao seu lado. Não podia dizer se ele estaria acordado, estudando suas reações, ou se apenas dormia sem saber de Kurama. Estavam deitados os dois.
Era outono, começava a esfriar. As folhas das árvores iam caindo, preparando lentamente a paisagem de Kyoto para o inverno. Tudo estava laranja e marrom em cores surpreendentes, o que lamentava o demônio não poder apreciar.
Dividiam um cômodo de uma quitinete pequena, que lhes obrigava a dormir um ao lado do outro. Havia apenas um futton. O outro era um edredom dobrado em dois, que fazia as vezes de um segundo futton para abrigar um rei que parecia não fazer tanta questão assim de luxo, como mais tarde fora descobrir o jovem estudante universitário.
Dessa vez, porém, diferente dos demais dias, dormiam de frente um para o outro. Ao abrir os olhos, era o rosto de Yomi que Kurama encarava, não seus pés. E estavam próximos. A ponto de compartilharem o mesmo calor. O mesmo ar. A mesma respiração.
O frio fazia o corpo nu do menor arrepiar-se, por baixo do pesado cobertor. Se encolheu mais um tanto, numa alegria simples, pelo fato de ter despertado antes do rádio, e alguns minutos lhe sobrarem antes da correria agitada de sempre.
Os cabelos de Yomi afundavam-se no travesseiro, desarrumados, lhe dando um ar jovial, diferente do rei tão alinhado.
O ruivo voltou a fechar os olhos. Esperando os minutos passarem, enquanto se aquecia naquele calor.
_ Kurama, você está acordado? - perguntou.
_ Estou sim.
O rei sorriu, sem se mexer.
_ Já não consigo diferenciar muito. Culpa desse anel.
Kurama abraçou seu travesseiro.
_ Não se preocupe. Hoje irei ao Makai devolver o livro e pegar o que precisamos.
_ Sim. - Yomi concordou. - E há mais algum tempo em sua agenda para mim, sr. ocupado?
Sério, o garoto respondeu:
_ Tentarei não demorar. Entendo como é chato ficar aqui sem ter o que fazer.
Yomi colocou a mão em seu rosto, impedindo-o de falar.
_ Não é isso. Não me importo em esperar se eu tiver alguma recompensa em troca. Especialmente sexual. - disse, lambendo os lábios.
Lá dentro o youko sacana ria, querendo topar a proposta.
_ Yomi... - Kurama gemeu, fechando os olhos. - Ainda faltam alguns minutos antes de eu ir me arrumar. - deixou-se sugerir.
O rei sorriu com a ideia que pairava no ar. Agradava-lhe esses curtos momentos, em que aquele rapazinho suave que tinha se transformado o youko deixava de lado esse ângulo para mostrar aquela face cheia de desejo que ele bem conhecia.
_ Quantos minutos?
_ Quinze.
_ Hmmm... Dá para brincar um pouquinho, não é? - sorriu, enquanto agarrava o membro do outro, por baixo do cobertor. - Nada muito ousado para o momento, é claro.
Minamino gemeu mais.
_ A-acho que sim.
_ Oi? Acho que fiquei surdo também, kitsune. - ele falou, apenas de brincadeira.
_ Dá sim. - disse, já se excitando com o toque. - Se você quer brincar...
O demônio não esperou a sentença terminar. Entrou por baixo das cobertas e Kurama voltou a lhe encarar os pés, como no primeiro dia em que ele dormiu ali, enquanto sentia a língua quente do outro lhe sugar, fazendo aquilo que Yomi não considerava muito ousado para o momento.
Mas nem tudo são flores.
Na universidade, Kurama pensava nos últimos acontecimentos, ainda sem entender como é que novamente tinha se envolvido com o amante do passado. Quer dizer... depois de tudo que ocorreu, será que valia a pena estar novamente nessa teia louca que era aquele relacionamento? Sobretudo considerando o que eles passaram.
Entendia que Yomi e ele tinham conversado, e tido seu momento de catarse. E achou que ia ficar por aquilo mesmo. Assim estaria bom. Yomi teria colocado tudo para fora e os dois poderiam seguir adiante, com uma relação cordial.
Mas... aquele relacionamento estilo "flashback"...
Será que não seria precipitado demais? Quer dizer, ele queria viver uma vida humana. E Yomi não poderia relegar sua posição como youkai. Não era nem justo. E por mais que tivesse dito a Yomi, naquele dia, que não deixaria nada para trás, não era exatamente a isso o que estava se referindo.
Naquele momento Kurama pensava o que seria dos dois. É claro que não ficaria só nessa pequena aventura de uma semana. Yomi era passional demais para isso. Realmente não tinha pensado muito antes de deixar as coisas fluírem por si.
Em primeiro lugar, Yomi era um youkai. Apesar da barreira entre os dois mundos não existir mais, não era simples assim um youkai, com aquela aparência, ir até sua casa, casualmente, visitar-lhe, sem que ninguém se encolhesse de medo.
Em segundo lugar, e não menos importante, Yomi e ele eram dois homens. E numa sociedade como a sua, era até aceitável ser homossexual. Mas era preferível que mesmo assim, as pessoas casassem e tivessem filhos antes de viver esse tipo de relacionamento.
Tudo isso podia ser superado. Não duvidava que arrumaria um jeito.
No entanto, havia mais uma coisa. E era essa que não podia ignorar e nem resolver.
Havia um pano de fundo entre os dois. Uma história de dor e ódio. De tristeza e sofrimento. Perdoar era uma coisa. Agora, ter algo com alguém que te feriu profundamente? Aquilo lhe dava pena e o fazia se envergonhar. E pena é um sentimento muito ruim de se ter por outra pessoa, principalmente por alguém que ergueu um reino sozinho e superou qualquer barreira.
Tinha certeza que, se continuasse insistindo, uma hora ou outra iria ferir Yomi. Ele era Shuuichi Minamino, o filho exemplar, o gentil ser humano, o bom amigo. Mas ele também era Youko Kurama. Não eram duas pessoas diversas, eram dois lados de uma mesma moeda.
E feriria, principalmente, porque ele era humano. Nunca seria de novo o youko que o rei esperava que ele fosse. Ele era Pinóquio que virou menino. E agora o Pinóquio seguia um caminho tão longe do de Yomi...
Ele não merecia... Nem Yomi, nem ele.
Bem, só lhe restava esperar para tirar maiores conclusões.
Biblioteca.
Finalmente devolvendo a enciclopédia demoníaca, o ruivo pode resgatar seu livro, o qual por certo ainda se encontrava por ali. A poucos youkais interessaria O Pequeno Príncipe. Só ele mesmo, que era um bobo sentimental.
Já tinha percorrido a Floresta Noturna atrás da Mandrágora azul e o sangue humano seria o de menos. Era hora de finalmente Yomi voltar para seu palácio, reencontrar seu filho e retomar suas tarefas.
No caminho para casa, a cabeça cheia de dúvidas. O que estava fazendo? No que estava entrando? Por que estava revivendo o passado em vez de caminhar em frente e reto? Queria que Yomi não estivesse ali, para não ter que pensar em nada disso. Para não ter que duvidar novamente de si mesmo.
Para lhe afligir, ainda mais, porém, ao abrir a porta lá estava o demônio cego, lhe esperando, como sempre, sentado na cadeira da mesa de jantar. E dessa vez de um jeito mais provocativo que o habitual.
Estava sentado de frente para o encosto da cadeira, como aqueles velhos cowboys dos filmes costumavam sentar. Trajava tão somente uma camisa de algodão, dobrada até os cotovelos, que ia até as coxas brancas. Alguns botões estavam fechados, mas a maioria fazia mostrar sua pele de mármore. A mão ia até a boca, como que para conter ou realçar a luxúria e desejo.
_ Você disse que chegaria cedo... - ele falou, de forma lenta e convidativa.
Kurama não pode deixar de achar o youkai maravilhoso e sensual. E não pode deixar de lhe desejar, daquela maneira que não desejava há muito, muito tempo. Desejar possuí-lo da forma mais voluptuosa possível, até as pernas do outro não aguentarem mais sustentar o peso do próprio corpo. Até que ele pedisse para parar.
E aí o ruivo pensaria algumas vezes antes de sair daquele corpo branco e perfeito, deliciando-se com sua falta de piedade.
Pensar...
Era isso que precisava fazer!
Mas Yomi não lhe permitia. O youkai levantou-se e vinha em sua direção, deixando aparecer por baixo da camisa de algodão uma ereção que não deixava dúvida alguma sobre o que estava em sua mente.
Irresistível. Simplesmente.
_ Ora... Você emudeceu... - ele disse sorrindo enquanto alcançava o ruivo, colando testa com testa. - O gato comeu sua língua? Vejamos...
Começou a desabotoar o casaco de Kurama enquanto os lábios abriam-lhe a boca, na busca pela língua a qual suspeitava ter sido devorada. Kurama correspondeu ao beijo, mostrando que língua ele tinha. As mãos seguravam a cintura do moreno firmemente.
Quando o último botão foi aberto, o beijo também foi apartado.
_ Yomi... eu preciso... - ele tentava dizer, debilmente.
Yomi sorriu, lambendo o queixo do menor.
_ Fala, Kurama... o que você quer que eu faça, hein? É só dizer.
Kurama desfez aquele abraço que os dois compartilhavam e virou-se de costas.
_ Tenho que guardar essa planta, se não ela logo morrerá.
E foi para cozinha, deixando ali um youkai cheio de desejo.
_ Tudo bem, eu espero... Embora seja torturante.
Yomi tocava-se enquanto o outro procurava por um recipiente com água. Mal podia se conter, era realmente uma espera longa demais para se manter inerte, não tentar se aliviar um pouco sozinho.
Kurama por outro lado dividia-se entre o desejo e a razão. Não amava Yomi, definitivamente era tudo desejo. Tinha certeza. Um desejo que podia lhe fazer gritar de prazer. Mas o que ele estava fazendo pensando nisso agora? Justo agora?
Não. Levantava-se por trás de si uma sombra negra. Uma parte obscura da sua alma. Aquela parte corrompida, que, ao ver carne fresca, não se negaria ao prazer do banquete.
Era Yomi quem estava ali. E não podia negar que o demônio era muito atraente.
Que se danasse!
Voltou para Yomi.
_ Não fique tão impaciente. Sabe que detesto quando faz as coisas sem mim. - ele disse, tomando o membro do outro em suas mãos.
Yomi gemeu e abaixou o rosto para tentar alcançar o beijo do ruivo. Sem conseguir, puxou-o para baixo, para os dois deitarem-se no tatame.
Gemia, apreciando aquelas mãos habilidosas, se esforçando para não gozar. Colocou a mão na cabeça de Kurama, empurrando-o para baixo. O rapaz obedeceu. E ele delirou ao ver um desejo seu satisfeito pela primeira vez pelo ex-parceiro.
_ Que boca macia você tem... - suspirou.
Mas Kurama não respondeu, concentrado apenas em chupar-lhe e ouvir aqueles suspiros e gemidos prazerosos. A imagem de Yomi com aqueles fios caindo-lhe pelo pescoço era a perfeição.
Porém o youkai puxou-lhe para cima.
_ Você ainda tem muita roupa. - falou.
_ Tira pra mim.
O pedido fora atendido como ordem. Yomi desabotoou todo seu casaco, e com o auxílio do ruivo, retirou-lhe a camisa. Quatro mãos abriram a calça de Kurama e a mão mais branca acariciou-se sua ereção cima da cueca. Não se conteve, e logo, tantas peças de roupa foram retiradas, deixando por cima de si, apenas o corpo do ruivo.
Beijou-lhe os ombros, enquanto Kurama lhe acariciava a nuca. As mãos do outro foram até o sexo do ruivo, masturbando-lhe somente para ouvir aqueles gemidos de recompensa.
Mas Kurama o beijava, e os gemidos eram compartilhados entre as bocas.
_ Quero te possuir, Kurama... Deixa eu te possuir...?
Com aquela frase, todo o desejo do outro de entrar no corpo de Yomi desapareceu, para dar lugar ao desejo de ser possuído. Lembrou, com prazer daquele episódio em que Yomi se atreveu a ser o ativo, sem pedir permissão. E havia gostado.
_ Você faz perguntas tão desnecessárias. - foi o que respondeu.
Tomou os dedos de Yomi em suas mãos, simulando com a boca o que viria seguir. Molhou-os de saliva, e o líquido escorria até o pulso do moreno. Por cima de Yomi, o ruivo sentiu quando delicadamente o outro introduziu os dedos, devagar.
_ Não vou te machucar. Prometo nunca mais te machucar. - Yomi falou.
Mas o ruivo era só gemidos. Diferente daquela vez, seu corpo estava completamente relaxado, pronto para receber Yomi.
_ Yomi... - suspirou.
O soberano mexia os dedos dentro dele, apertando suas nádegas com a outra mão, enquanto já imaginava-se penetrando aquele rapaz cujo perfume era tão bom e a voz era deliciosa.
_ Vai ficar melhor... - falou o youkai, numa promessa.
Retirou os dedos e a mão de Kurama já lhe auxiliava a introduzir seu membro naquele canal apertado.
Kurama sentiu a dor inicial e a sentiu com prazer, antecipando os momentos que viriam em seguida. Sem se importar, rebolava no colo do outro, enquanto seu próprio membro era tomado pelas mãos grandes de Yomi. Fechou os olhos esmeralda e se entregou às mesmas sensações que o demônio cego percebia.
Gemidos.
Muitos gemidos.
O falatório de Yomi se extinguiu em gemidos também, sincronizando os movimentos de suas mãos com os movimentos dos quadris de Kurama, que cavalgava em cima do seu membro.
Sem se esforçar mais para conter o gozo, deixou que o ato fluísse sem empecilhos. Apenas tentava não gritar, cada vez que Kurama se contraía, num aperto delicioso.
Em cima do rei, o ruivo não aguentava de tanto prazer. Jamais pensou que se entregando daquele jeito poderia obter tanto prazer. Sua respiração descontrolava-se. Segurou com força as coxas firmes de Yomi, querendo que cada vez mais o outro entrasse dentro de si.
Logo Yomi gozou, encharcando o ruivo com aquele líquido quente. Sem sair dele, no entanto, continuou a masturbar-lhe, esperando satisfazer seu ex-parceiro.
_ Yomi... - gemeu Kurama. - Isso... Ah...
Minamino mordeu as costas da mão evitando fazer mais barulho, somente respirando descompassada e profundamente.
Não demorou muito a gozar por cima da barriga de Yomi, que gemia junto com ele.
_ Ah, Yomi... - ele suspirou, sem querer que aquele momento tivesse fim.
Deitaram-se ambos no tatame, deliciando-se com aquele prazer que sentiam em seus corpos. Yomi deu a mão para Kurama, e passou o braço por baixo do copo do menor, acolhendo-o.
_ Podia ficar assim para sempre. - o ruivo deixou escapar e aquilo fez o coração do youkai pulsar com calor.
_ Você podia ir para Gandara comigo amanhã...
Kurama não respondeu. Apenas fechou os olhos compartilhando aquele momento.
Já devia ser mais de onze da noite, quando Minamino acordou. Foi se descobrir no tatame, deitado sobre o corpo maior do youkai que estava abrigando em sua casa. Percebeu-se nu e lembrou do ato profano. De frente para trás, como se apertasse o "rew" da sua mente, lembrou-se do dia que havia passado.
Lembrou-se da manhã gostosa. Das dúvidas na universidade. Dos seus objetivos de vida.
Arremessando culpa e vergonha na consciência humana que mal tinha adquirido.
Oh, Inari, por que tinha feito aquilo? Por que tinha aprontado mais uma vez?
