Disclaimer: Saint Seiya, meu? Onde?

Aviso: Fic yaoi, twincest... ah, vocês já sabem.


Epílogo


Saga abriu os olhos devagar. Estava no quarto, na cama, displicentemente recostado no irmão, que dormia a sono solto.

Pensava em tudo o que acontecera. Zeus, que loucura...

Sim, porque aquilo era loucura.

Acariciava os cabelos do irmão, tão sedosos, suaves, azuis... Ele estava tão plácido, tão belo em seu repouso, que até parecia feliz.

Ver Kanon feliz... O vira de muitas maneiras, desde o nascimento. Contente, triste, raivoso, impulsivo, insolente, mau, bom, arrependido... Mas feliz, genuinamente feliz? Só quando eram pequenos; aprendizes de cavaleiros que não conheciam o suficiente da vida para que pudessem ser machucados por ela. Era quando se lembrava de seu gêmeo feliz.

Ele também era feliz.

Depois a vida aconteceu. O treinamento. O dever. A ambição do irmão. Sua prisão, sua suposta morte, Ares, Athena, batalhas, mais batalhas, Ares novamente...

Mas tudo isso parecia tão distante, tão distante...

"E agora?"- Ouviu-o murmurar. Kanon abriu os olhos, encarando-o com seus orbes verdes.

"Não tenho idéia..."

"Nem eu. Mas..."

"Eu te amo." – Sobressaltou-se com o repente de sua declaração. Sim, o amava. Como irmão, amigo, parceiro, homem, tudo. E esse amor era a única certeza que tinha nesse momento.

"Eu também. Mais que tudo nessa vida..." - Kanon aninhou-se nos braços dele, aproximando-se mais. "Mas e depois?"

Saga fechou os olhos. E depois?

Como diziam os americanos, essa era a pergunta de um milhão de dólares.

Amavam-se, era verdade. Amaram-se, e isso agora já estava feito. O estranho era que, agora que tinham feito o que fizeram, não se sentia sujo e mau como achava que se sentiria. Sabia que o que fizeram era socialmente visto como condenável, feio, sujo, imoral... Incesto. Mas ainda assim não achava errado.

Mas o ser humano é um animal gregário, feito para a vida em sociedade. E a sociedade os condenaria, os apedrejaria em praça pública se o que acontecera naquele templo viesse à tona. Eram irmãos... Pior, eram gêmeos. Idênticos.

Sentia seu gêmeo acariciar seu rosto, e mantinha seus olhos fechados. O toque dele era tão bom, tão doce... Era tão bonito ver como Kanon, por trás de sua carapaça de rudeza e rebeldia, mantinha tamanha doçura, e um quê de fragilidade. Algo que pouquíssimas pessoas tinham o privilégio de ver.

"Se arrepende, Saga?" – A voz dele estava baixa, como se tivesse medo da resposta.

"Não." – Saga abriu os olhos, e mirou fundo dentro do verde dos olhos do outro. Tinha tomado uma decisão.

"Eu sou seu. Minha vida só tem sentido se for assim."

Kanon o tomou num beijo emocionado.

E Saga sabia, com toda a certeza desse mundo, que Kanon também era dele.

***

Passaram-se alguns dias, e Kanon estava mais pensativo que o normal.

Um turbilhão de sentimentos invadia sua mente, todos os dias. Todos eles direcionados à pessoa de Saga. Sabia que o amava. Tinha consciência de que fora ele quem o beijara na noite em que se amaram conscientemente pela primeira vez, naquela que foi a melhor noite de toda sua vida. Sabia que as lembranças do abuso que sofrera não desapareceram, porém estava lidando melhor com elas agora .Entendia o porquê de ter feito aquilo, precisava ao menos tentar suplantar as memórias ruins para ter alguma chance de convivência com o irmão. Pois, decerto, depois daquela famigerada noite nunca mais o veria como irmão, isso Ares tinha conseguido.

E sabia também que o que faziam era uma loucura sem tamanho. Dois irmãos gêmeos se comportando como amantes? Onde eles estavam com a cabeça? O que os outros iriam pensar?

Por ele apenas, pouco se importava. Bem, ele era Kanon, o gêmeo que vivera nas sombras do irmão por toda a vida até a adolescência no santuário. Depois traiu seu juramento a Athena e foi trancado na prisão; e, ao escapar, a primeira coisa que fez foi insurgir-se contra os deuses novamente. Ao fracassar, pediu e obteve o perdão da Deusa, mas ainda era considerado um usurpador, manipulador... A bem da verdade, estava acostumado a viver à margem da sociedade. Estava acostumado aos olhares de soslaio, aos comentários jocosos endereçados à sua pessoa. Não podia dizer que o que viviam agora mudaria muita coisa em sua vida. Caso se mantivessem em segredo não seria grande novidade para si. E caso os descobrissem, ou assumissem o que viviam, não seria mais pária do que sempre fora em sua vida.

Mas... E Saga?

Saga não era um marginal como ele, condenado a viver na sombra, nunca foi. Ele era o que, deles dois, fora consagrado a viver na luz, a ostentar o posto de cavaleiro. Hoje ele fala coisas lindas, como dizer que o ama mais que tudo em sua vida, que sua vida não tem sentido sem ele, mas quanto tempo isso duraria? É certo que Ares podia ser uma personalidade maligna, imoral e indecente, mas Saga, o verdadeiro, nunca quebrara uma única regra em sua vida. E, raciocinando bem, mesmo como Mestre Ares, Saga se escondia atrás da autoridade e aprovação dos subalternos. Como esperar que agora, nesta altura da vida, ele abdicasse disso para viver um romance consigo? E que romance seria esse, afinal? Eles eram irmãos. Gêmeos. Nada mudaria essa realidade, nunca. Mesmo para uma pessoa não afeita a regras, o que não era o caso de Saga, isso já seria muito complicado.

Sentia-se um idiota.

Não era mais um adolescente apaixonado com a vida pela frente. Era razoavelmente jovem, sim, mas já tinha vivido o suficiente para entender como aquilo tudo acabaria. Se machucaria, de novo. E dessa vez não como vítima indefesa de Ares, mas pela petulância dele próprio.

Baixou os olhos. Talvez certas regras não devessem mesmo ser quebradas. Ele não tinha o direito de fazer com que Saga entrasse nisso também.

Foi interrompido em seus pensamentos pelo toque gentil de seu gêmeo no seu ombro.

"No que pensa tanto?"

"Nada." – Mentiu. Pensava em tudo.

"Não minta para mim." – Saga sentou-se ao seu lado e apoiou a cabeça em seu ombro. – "Não se esconda de mim, por favor..."

Kanon baixou os olhos.

"Você não devia ficar comigo, Saga."

"Como assim?"

"Assim... Como estamos, agora. Fui eu quem começou; eu te beijei, na verdade eu meio que te pedi para fazermos isso, é certo que eu precisava, mas..."

"Se arrepende?" – Havia algo em sua voz. Medo?

"Não é isso..."

"Acha que não consegue esquecer o que eu te fiz, então..."

"Não era você. Era ele. E você não é ele, e depois de tudo eu consigo ver isso bem melhor. Vocês podem dividir o mesmo corpo, mas não são a mesma pessoa, não importa o quanto você ache que sejam. Mas não, não é isso."

"O que é?"

"Como você espera que isso tudo vá acabar, Saga?"

Saga calou-se. Estava se desesperando por causa daquela conversa, queria Kanon por demais, não suportaria ser deixado por ele... Mas não podia negar que o ex-marina tinha um ponto. Eram ambos adultos e sabiam perfeitamente o peso do que fizeram juntos. Sabiam das consequências também, caso fossem descobertos; e elas seriam desastrosas. Ficou pensativo. O que ele pediria a Kanon? Para viver com ele um romance na clandestinidade até que a morte os levasse? Viver novamente nas sombras? Assumirem a situação perante todos e se prepararem para a chuva de paus e pedras de que seriam alvo?
Uma coisa era ter que conviver com o que sua contraparte maligna fizera ao irmão; e isso por si só não era nada fácil. Outra coisa, completamente diferente, era assumir seu irmão gêmeo como seu homem.

Será que Kanon queria isso? Será que ele tinha o direito de pedir isso ao irmão, com todas as implicações que viriam daí?

"Kanon, eu sei onde você está querendo chegar. Eu sei que o que nós somos, e o que fizemos. E quando aconteceu... Eu não fui aliciado por você, se é que me entende. Quis, e fiz, e não me arrependo por um momento sequer. Longe disso, eu quero ficar com você. A qualquer custo."

"Você está dizendo isso agora. Mas e depois?"

"Depois o quê?"

"Ora, o que acha que vai nos acontecer? Acha que, se nos descobrirem, todos vão nos desejar tudo de bom e viveremos felizes para sempre? Vivemos num mundo onde o que fizemos é considerado, na melhor das hipóteses, um pecado mortal..."

"E?"

"Você não nasceu para isso, Saga. Para ser avacalhado, apedrejado, chamado de impuro e pecador; ou viver escondido... Você nunca esteve acostumado a viver à margem das outras pessoas, como eu."

"Acha mesmo que não?" – Saga arqueou uma das sombrancelhas. Respirou fundo. – "Kanon, Ele... me manteve preso em mim mesmo por treze anos. Fiz as piores atrocidades que pode imaginar sob seu jugo. É muito fácil dizer agora que era ele quem fazia tudo, e eu apenas assistia, mas não era bem assim. Uma parte de mim gostava do que ele fazia. E era isso que me desesperava, que me humilhava tanto."

"Não estou entendendo onde você quer chegar."

"Vivi, sim, a margem das outras pessoas por treze anos. Pior ainda, vivi a margem de mim mesmo desde... Desde que te prendi naquele lugar. Todo o orgulho que me levou a fazer aquilo foi esmigalhado pelo que veio depois. Você estava certo; eu não era toda aquela bondade que eu ansiava ser. E você acabou pagando pelo meu orgulho, pela minha hesitação em me aceitar como realmente sou. Eu não sou diferente de você, apenas vivi coisas diversas. Ainda assim, nem tão diversas assim. Eu podia, sim, me matar de arrependimento pelos meus atos como Ares, e os deuses sabem que era isso que eu queria quando eu te vi... daquele jeito..."

Sua voz estava embargada, mas tinha que falar. Falava coisas que demoraram anos para chegar até sua boca. E que precisavam ser ditas. E ouvidas por aquela pessoa tão igual a si, bem à sua frente. Continuou.

"...E era isso que eu queria, quando me tranquei no Cabo Sunion. Mas você me tirou de lá. Eu me entreguei à morte, e você, logo você, me tirou de lá..."

"Ainda não estou entendendo-"

"...Me deixe terminar. Quando eu perdi você, há treze anos atrás, eu me perdi também. E ao me perder, eu me tornei algo muito, muito pior do que você foi. Eu neguei por tanto tempo, não consigo negar mais... Eu amo você. Eu preciso de você. Eu não sou nada sem você. E eu não posso simplesmente fingir que esse amor é apenas fraternal, porque nunca foi. Foi por isso que Ele... fez o que fez, ele sabia o que eu sentia. E isso, essa culpa, ainda me tortura todos os dias. Não por termos feito sexo, mas por ele ter te machucado como ele te machucou. Eu achei que estaria tudo acabado... Então você me chamou naquele dia, e eu vim. E nós nos amamos, e eu amei você como eu nunca amei ninguém até então. E eu quero fazer de novo, por quanto tempo de vida me restar. Eu não vivi de verdade até ter você. Eu não posso mais me negar a viver isso por causa do mundo lá fora. E se a sociedade e o mundo inteiro quiser me virar a cara, me punir ou qualquer coisa do tipo, pois que o faça. A mim, não me importa."

"Saga..."

"Eu sei que não tenho o direito de te pedir isso. Eu sei que é uma responsabilidade enorme, é um peso enorme carregar esse rótulo por sermos como somos. Também não posso te jurar que Ele nunca mais vai voltar... E eu juro que vou entender se você me disser que não consegue. Mas eu preciso te pedir para ficar comigo, para sempre. Eu preciso ao menos tentar."

"Saga..."

"Fica comigo. Por favor..."

Kanon o trouxe para si num abraço apertado, como se quisesse fundi-lo a si.

"Fico. Por quanto tempo me restar nesta vida, eu fico contigo para o que der e vier..."

***

Realmente cumpriram a promessa que fizeram um ao outro nesse dia. E apesar de todos os pesares, contra todas as expectativas, inclusive a deles próprios, foram mais felizes juntos do que jamais imaginaram ser; como irmãos, homens, guerreiros, amantes... Foram felizes como duas almas que se encontram e são capazes de se fundir em uma só. E, juntos e completos, cumpriam seus deveres perante sua Deusa, sua Ordem e a eles mesmos.

Mas essa já é outra história.

Fim


É isso, turma. Foi uma fic pesada, mas com final bem fluffy. Saiu muito rápido para meus padrões, pois muitas partes dela simplesmente se escreveram sozinhas. Eu apenas digitava no Word loucamente, as colocando para fora.

Sim, tenho gosto por angst. Estou tentando escrever uma fic mais leve, tipo uma comédia, mas está difícil.