Capítulo IX - Momentos de Tranquilidade
A luz da aurora coloria preguiçosamente o piso e os pilares de mármore do Santuário.
Saori sentia as pernas trêmulas ao passar ao lado do Coliseu, rumo às Doze Casas. Sentia os olhares surpresos dos aprendizes sobre si quando eles a percebiam ali e rapidamente se curvavam.
Sabia que os garotos não sabiam de sua ´fuga´, mas não podia livrar-se do sentimento de culpa diante das atenções deles. Entretanto, caminhou de queixo erguido à medida que passava por eles, tentando parecer tranquila.
O que teria levado Ares a agir daquela forma? Fora um comportamento intempestivo digno dele, é verdade, mas Athena sentia que havia algo mais...
Começou a subir a escadaria das Doze Casas e rapidamente passou os dedos no cabelo a fim de baixar os fios que estivessem desalinhados.
Se Ares pensava que podia amedrontá-la e fazê-la voltar atrás em sua decisão, estava completamente enganado.
- Minha deusa. - Mu reverenciou-a quando esta adentrou sua Casa – Permite que a acompanhe?
- Não é necessário, obrigada. - respondeu com voz suave. E dirigiu um leve sorriso ao jovem Kiki, que colocara-se ajoelhado a certa distância.
Passou pelas demais Casas do Zodíaco, utilizando o caminho mais curto entre elas. Em cada um dos Templos, foi recebida com reverências e nenhuma pergunta a respeito de seu "sumiço".
Finalmente chegou à Casa do Mestre. Os soldados apressaram-se em lhe dar passagem, abrindo as enormes e pesadas portas de madeira entalhada.
Adentrou ao recinto com mais tranquilidade e deparou-se com Saga no trono do Mestre. Este vestia sua túnica branca e imediatamente se levantou ao vê-la.
Apesar da máscara de Grande Mestre, Saori sentiu o olhar desaprovador sobre si, à medida que ele se prostrava.
Saori não estava interessada em explicar-se, portanto apenas acenou para ele com a cabeça, subindo as escadas para se dirigir ao corredor que a levaria até seu quarto.
Saga resmungou algo ao perceber, de canto de olho, um corte quase imperceptível do braço direito ao ombro esquerdo da deusa, o qual não lhe rasgara o vestido ou vertera sangue, mas deixara um risco sutil na pele clara.
- Está ferida! Majestade?
A moça suspirou, rendendo-se à constatação feita pelo Cavaleiro, entretanto, manteve o queixo erguido e o olhar fixo no corredor.
- Encontrei-me com Ares.
- Quando Vossa Majestade simplesmente desapareceu - Saga prosseguiu, retirando a máscara de Grande Mestre, revelando as sobrancelhas curvadas em preocupação - os Cavaleiros ficaram em polvorosa. Algo terrível poderia ter...
- Estou cansada. - ela cortou em tom mais firme - Peça que me sirvam o café da manhã. Depois desejo dormir e gostaria de não ser perturbada.
Sem alternativa, embora surpreso, Saga curvou-se profundamente.
- Sim, Athena.
Após a saída da deusa, o Cavaleiro retornou a seu trono. Retirou o elmo e massageou as têmporas.
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Saori despertou quando o Sol já desaparecera no horizonte. Olhou para a jarra de suco a seu lado e serviu-se, bebendo alguns goles. Encaminhou-se para o banheiro.
Após um banho rápido, escolheu um vestido cor-de-rosa confortável e colocou-se diante do espelho. A pele ainda exibia a marca que o golpe de Ares lhe deixara. Fez uma careta, apanhou um livro na estante e sentou-se sob o archote para ler.
À hora do jantar, desceu as escadarias e foi recebida por Saga. Este a acompanhou até a mesa, onde a deusa jantaria em companhia dos demais Cavaleiros.
Saori notou, satisfeita, que as mesas estavam cobertas com as toalhas que escolhera há alguns dias, em sua visita à feira de Rodorio. Também estavam com os enfeites de flores que ela trouxera – com ajuda de Aioria e Mu, claro.
Tampouco seus guardiões tocaram no assunto "Ares", deixando-a mais à vontade.
Todos os Cavaleiros, embora um pouco menos descontraídos que o habitual, conversavam entre si. A tensão no Santuário aumentava pouco a pouco, pois a ameaçadora presença de Ares já era sabida por todos.
"Eles são jovens e saudáveis" - Saori refletiu, tomando um gole de suco - "Não é justo prendê-los aqui indefinidamente."
A jovem, de repente, teve a nítida impressão de que alguém a olhava fixamente. Trêmula, colocou o copo cuidadosamente sobre a mesa e arriscou um olhar disfarçado na direção oposta de onde sentara-se, à cabeceira da comprida e elegante mesa.
Saga ocupava seu lugar habitual e mantinha os braços cruzados; nem tocara na comida ainda. Os olhos azuis encontraram os dela, e depois se desviaram. Saori notou que ele esforçava-se em não expressar sua desaprovação. Mas algo mais o incomodava, a deusa apenas não conseguia definir o quê.
Constrangida, Saori forçou um sorriso para Shura, o qual desejava lhe falar.
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Sentada em uma poltrona confortável ao lado de uma pequena janela, Saori espiou para fora.
Era grande a mudança de cenário. O forte sol da Grécia fora substituído por nuvens pesadas de chuva e o chão estava forrado de neve.
Saori colocou o cinto de segurança. Aos poucos o avião desceu para a esquerda, dando a ela uma bela visão do cenário abaixo. Em cima de uma montanha de rochedos, distinguia-se um belo castelo aos pés de uma estátua enorme. Próximo dali, via-se a cidade. Um amontoado de casas cobertas de branco e ruas estreitas.
A moça abriu o cinto de segurança e Aioria ajudou-a a ficar de pé.
Os habitantes olharam atônitos para as carruagens que Saori e seus Cavaleiros ocupavam para ir do aeroporto ao castelo, com uma escolta montada logo atrás.
Construídas no alto de uma colina, a fortificação de Asgard e a estátua de Odin podiam ser vistos de qualquer parte da cidade onde se estivesse.
Quando a elegante escolta chegou à frente dos portões, as sentinelas tomaram posição de sentido. Finalmente os cavalos foram refreados à frente dos degraus de entrada. Esperavam por Saori quatro pessoas. A porta da carruagem foi aberta por um lacaio.
Saori desceu e foi até a princesa Hilda. Achou-a muito bonita e de expressão simpática, mas sua atenção desviou-se brevemente para os dois rapazes que a acompanhavam.
- É um grande prazer conhecer as princesas de Asgard. - disse Saori, depois de beijar as faces de Hilda.
- Bem-vinda a Asgard. - disse a princesa Hilda com um sorriso, após inclinar-se levemente - É uma grande honra tê-la conosco.
- Estou muito feliz por ter vindo. - Saori falou alegremente.
- Permita-me apresentar minha irmã, a princesa Freiya.
As duas cumprimentaram-se, sorridentes.
Virando-se para os cavalheiros, Saori estendeu a mão para o primeiro, sob a qual ele curvou-se e desejou-lhe boas-vindas formalmente.
Então Saori voltou-se para o segundo cavalheiro, que também a saudou e perguntou pouco depois num murmúrio divertido:
- É um grande prazer revê-la. A propósito... A senhorita leu minha última carta?
- Hagen! - Hilda exclamou com uma expressão horrorizada. Siegfried meneou a cabeça, nem um pouco surpreso com as atitudes do amigo.
- Está tudo bem, princesa Hilda. - Saori respondeu, sorrindo - Nunca poderíamos imaginar um reencontro assim tão surpreendente. E eu li a carta sim, Hagen; mas sabendo que o encontraria em Asgard, preferi responder pessoalmente.
- Ah, entendo... - Hagen sorriu-lhe e, ao ver o olhar de Hilda sobre si, empertigou-se - Quer dizer.., compreendo, senhorita Athena.
- Gostaria de apresentar às princesas e, claro, aos senhores, meus Cavaleiros, que aceitaram gentilmente acompanhar-me. - Saori indicou seus guardiões, os quais vestiam-se com roupas pesadas, sem Armaduras - Kamus de Aquário... Aioria de Leão... e Marin de Águia.
As princesas e Guerreiros Deuses cumprimentaram os Cavaleiros de Athena. Saori sorriu, apreciando a hospitalidade daquele país.
Entrando no hall do palácio, Saori achou-o majestoso e muito bem cuidado.
- Vossa Alteza gostaria de subir para seu quarto antes da refeição? - indagou o Guerreiro-Deus da estrela Alfa.
- Ah, sim. Gostaria sim, obrigada.
Acompanhando Siegfried, Saori dirigiu-se para a escada e começou a subir os degraus. Seguiram pelo corredor até a porta de uma suíte.
As cortinas estavam afastadas, porém as janelas permaneciam fechadas, impedindo o ar frio de entrar.
- A suíte é encantadora! - Saori falou com entusiasmo.
- Asgard ficaria honrada se a senhorita tomasse parte de uma festa em sua homenagem amanhã à noite no palácio, Athena. - Hilda convidou.
- Ah, muito obrigada. Fico encantada pelo convite. E pela recepção amistosa. Tenho certeza de que teremos muito a ganhar, mutuamente, com esta aliança. - a deusa dirigiu-lhe um sorriso encantador.
- Certamente. - a princesa sorriu em resposta.
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- Deve estar muito à vontade aqui, não é? - perguntou Aioria, passando os dedos por entre os fios de cabelo castanho para tentar assentar a ´juba´.
- Sim. - respondeu impassível o Cavaleiro de Aquário, de frente a um espelho, terminando de arrumar o nó da gravata.
- Já esteve aqui antes, Kamus? - Aioria tornou a perguntar, querendo manter uma conversa agradável com o, habitualmente, silencioso amigo.
- Em algumas ocasiões. Mas nunca no castelo.
- Sabia da existência dos Guerreiros Deuses? - o Leão ajeitava, então, o casaco.
- Não na atualidade.
Ambos terminaram de arrumar as vestimentas e se encaminharam para o salão.
- Será que... - Aioria coçou a nuca – a Marin já está pronta?
- Está ali. - o Aquário indicou a moça de vestido sóbrio, simples e um pouco pesado para aguentar o frio, porém não menos exuberante.
Ela os cumprimentou. Estava sem a máscara, cujo uso Athena deixara facultativo nos casos de estarem fora do Santuário.
Após retribuir ao cumprimento, Kamus afastou-se sutilmente para apanhar bebidas, deixando ambos a sós para que conversassem.
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- Não acha que estou um pouco exagerada? - Hilda avaliou seu reflexo no espelho, indecisa.
A princesa usava um vestido rosáceo, com fitas e bordados. As poucas jóias reais que portava sobre a pele alva pareciam ainda mais valiosas.
- De maneira alguma! - Freiya correu até ela, arrastando-a para longe do espelho - Quer chamar a atenção de Siegfried, certo?
- Freiya! - Hilda ralhou com a irmã, um leve tom rosado colorindo suas bochechas - Mesmo que assim desejasse, não seria por meio de joias.
Freiya riu, trocando um olhar de cumplicidade com Saori.
Não era difícil perceber os sentimentos daqueles dois, refletiu Saori, terminando de checar o vestido azulado, as joias e a maquiagem.
- Prontas, meninas? - Hilda chamou-lhes a atenção.
As três logo se posicionaram no topo da escada que levava ao salão, enquanto o arauto real anunciava sua chegada:
- Princesa Hilda Verdandi Valin, princesa Freiya Ortlinde Valin e princesa Saori Kido.
E elas começaram a descer, com toda a graça, as escadas de mármore.
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